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REDONDILHAS
Luís de Camões


59.

Glosa

ao mesmo moto

Posible es a mi cuidado
poderme hacer satisfecho,
si fuera posible al hado
hacer no echo lo echo,
y futuro lo pasado.
Si olvido pudiera haber,
fuera remedio sufrible;
mas ya que no puede ser,
para contento me hacer,
todo es poco lo posible.


54.

Cantiga

a esta cantiga alheia:
Na fonte está Leanor
lavando a talha e chorando,
as amigas perguntando:
vistes lá o meu amor?

VOLTAS

Posto o pensamento nele,
porque a tudo o Amor a obriga,
cantava, mas a cantiga
eram suspiros por ele.
Nisto estava Leanor
o seu desejo enganando,
às amigas perguntando:
vistes lá o meu amor?

O rosto sobre üa mão,
os olhos no chão pregados,
que, do chorar já cansados,
algum descanso lhe dão.
Desta sorte Leanor
suspende de quando em quando
sua dor; e, em si tornando,
mais pesada sente a dor.

Não deita dos olhos água,
que não quer que a dor se abrande
Amor, porque em mágoa grande
seca as lágrimas a mágoa.
Que, despois de seu amor
soube novas, perguntando,
d'emproviso a vi chorando.
Olhai que extremos de dor!


30.

Cantiga

a este moto:
Ojos, herido me habéis,
acabad ya de matarme;
mas, muerto, volve á mirarme,
por que me resucitéis.

VOLTAS

Pues me distes tal herida,
con gana de darme muerte,
el morir me es dulce suerte,
pues con morir me dais vida.
Ojos, ¿qué os detenéis?
Acabad ya de matarme;
mas muerto volved á mirarme,
por que me resuscitéis.

La llaga cierto ya es mía,
aunque, ojos, vos no queráis;
mas si la muerte me dais,
el morir me es alegría.
Y así digo que acabéis,
ojos, ya de matarme;
mas muerto, volved á mirarme,
por que me resucitéis.


23.

Trovas

a üa Dama que lhe jurara
sempre por seus olhos


Quando me quer enganar
a minha bela perjura,
para mais me confirmar
o que quer certificar,
pelos seus olhos mo jura.
Como meu contentamento
todo se rege por eles,
imagina o pensamento
que se faz agravo a eles
não crer tão grão juramento.

Porém, como em casos tais
ando já visto e corrente,
sem outros certos sinais,
quanto me ela jura mais
tanto mais cuido que mente.
Então, vendo-lhe ofender
uns tais olhos como aqueles,
deixo-me antes tudo crer,
só pela não constranger
a jurar falso por eles.


3.

Cantiga

a esta cantiga alheia:
Vida da minh'alma
não vos posso ver:
isto não é vida
para se sofrer!

VOLTAS

Quando vos eu via,
esse bem lograva,
a vida estimava;
mais então vivia,
porque vos servia
só para vos ver.
Já que vos não vejo,
para que é viver?

Vivo sem rezão,
porque em minha dor
não a pôs Amor,
que inimigos são.
Mui grande treição
me obriga a fazer
que viva, Senhora,
sem vos poder ver.

Não me atrevo já,
minha tão querida,
a chamar-vos vida,
porque a tenho má.
Ninguém cuidará,
que isto pode ser,
sendo-me vós vida,
não poder viver!


109.

Trovas

que o Autor mandou da cadeia
em que o tinha embargado por
üa dívida Miguel Roiz, "Fios-Secos"
de alcunha, que se embarcava para fora,
ao Conde do Redondo, Vizo-Rei, pedindo-lhe
o fizesse desembargar

Que diabo há tão danado
que não tema a cutilada
dos fios secos da espada
do fero Miguel armado?
Pois se tanto um golpe seu
soa na infernal cadeia,
do que o demónio arreceia,
como não fugirei eu?

Com razão lhe fugiria,
se contra ele, e contra tudo,
não tivesse um forte escudo
só em Vossa Senhoria.
Portanto, Senhor, proveja,
pois me tem ao remo atado,
que, antes que seja embarcado,
eu desembargado seja.


108.

Esparsa

a um fidaldo, na Índia, que lhe
tardava com uma camisa galante,
que lhe prometera

Quem no mundo quiser ser
havido por singular,
para mais se engrandecer
há-de trazer sempre o dar
nas ancas do prometer.
E já que vossa mercê
largueza tem por divisa,
como todo mundo vê,
há mister que tanto dê
que venha [a] dar a camisa.


36.

Cantiga

a este moto:
Quem se confia em olhos,
nas meninas deles vê,
que meninas não têm fé.

VOLTAS

Quem põe suas confianças
em meninas sem assento,
ofereça o sofrimento
a duzentas mil mudanças.
Mostram no ar esperanças,
mas em seus olhos se vê
como não têm n'alma fé.

Enganam ao parecer,
porque, no caso de amar,
são mulheres no matar
e meninas no querer.
Quem em seus olhos se crer,
cem mil graças neles vê;
vê-las, sim, mas não ter fé.

Amostram-vos num momento
favores assi a molhos;
mas na mudança dos olhos
se lhe muda o pensamento.
Em nada têm assento,
e o que mais neles se vê
é fermosura sem fé.


99.

Cantiga

a uma Dama de apelido Anjos,
que lhe chamou diabo
MOTO:
Senhora, pois me chamais
tão sem razão tão mau nome,
inda o diabo vos tome,

VOLTAS

Quem quer que viu, ou que leu,
terá por novo e moderno
ter quem vive no Inferno
o pensamento no Céu.
Mas se a vós vos pareceu
que me estava bem tal nome,
esse diabo vos tome.

Perdido mais que ninguém
confesso, Senhora, ser;
mas "diabo" não quer
aos "Anjos" tamanho bem.
Pois logo não me convém,
ou se me convém tal nome
será para que vos tome.

Se vos benzeis com cautela,
como de Anjo, e não de luz,
mal pode fugir da Cruz
quem vós tendes posto nela.
Mas já que foi minha estrela,
ser "diabo", e ter tal nome,
guardai-vos, que vos não tome

Já que chegais tanto ao cabo,
co as mãos postas aos Céus,
vou sempre pedindo a Deus
que vos leve este "diabo".
Eu, Senhora, não me gabo;
mas, pois que me dais tal nome,
tomo-o, para que vos tome.


79.

Cantiga

a üa Dama mal empregada
MOTO SEU:
Minina, não sei dizer,
vendo vos tão acabada,
quão triste estou por vos ver
fermosa e mal empregada.

VOLTAS

Quem tão mal vos empregou,
pouco de mi se doía,
pois não viu quanto me ia
em tirar-me o que tirou.
Obriga o primor que tem
lindeza tão extremada
que digam quantos a vêm:
- Fermosa e mal empregada!

Tomastes da fermosura
quanto dela desejastes,
e com ela me guardastes
para tão triste ventura.
Matáveis sendo solteira,
matais agora em casada;
matais de toda a maneira;
Fermosa e mal empregada!


80.

Cantiga

a este moto alheio:
Há um bem que chega e foge;
e chama-se este bem tal,
ter bem para sentir mal.

VOLTAS

Quem viveu sempre num ser,
inda que seja em pobreza,
não viu o bem da riqueza,
nem o mal de empobrecer:
não ganhou para perder;
mas ganhou com vida igual
não ter bem nem sentir mal.


039.

Glosa

ao mesmo moto

Querendo Amor esconder-vos
em parte que vos não visse,
com extremos de querer-vos
cegou-me os olhos com ver-vos,
levou-os, sem que vos visse.
Eu, cego, mas atinado,
quando vi que vos não via,
do mesmo Amor indinado,
já vedes qual ficaria
sem vós e com meu cuidado.

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