REDONDILHAS
Luís de Camões
116.
Esparsa
do Autor ao
desconcerto do mundo
Os bons vi
sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m'espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim
anda o mundo concertado.
82.
Cantiga
a esta cantiga
alheia:
Pequenos contentamentos,
i buscar quem contenteis,
que a mim não me conheceis,
VOLTAS
Os gostos, que
tantas dores
fizeram já valer menos,
não os aceita pequenas,
quem nunca teve maiores.
Bem parecem vãos favores,
pois tão tarde me quereis
qu'inda me não conheceis.
Ofereceis-me
alegria,
tendo-me já cego e mouco:
é baixeza aceitar pouco
quem tanto vos merecia.
Ide-vos por outra via,
pois o bem que me deveis
nunca mo satisfareis.
52.
Cantiga
a este mato
seu:
Descalça vai pela neve:
assi faz quem Amor serve.
VOLTAS
Os privilégios
que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis,
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.
Moça
fermosa despreza
todo o frio e toda a dor
(olhai quanto pode Amor
mais que a própria natureza):
medo nem delicadeza
lhe impede que passe a nove;
assi faz quem Amor serve.
Por mais trabalhos
que leve,
a tudo se ofreceria;
passa pela nove fria,
mais alva que a própria neve;
com todo o frio se atreve;
vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.
49.
Improviso
A üas Senhoras
que, jogando
perto de üa janela, Ihes cairam
"três paus" e deram na cabeça
de Camões:
Para evitar
dias maus
da vida triste que passo,
mandem-me dar um baraço,
que já cá tenho três paus.
20.
Trovas
a üa Senhora
que estava
rezando por üas contas
Peço-vos
que me digais
as orações que rezastes
se são pelos que matastes,
se por vós, que assi matais?
Se são por vós, sãoperdidas;
que, qual será a oração
que seja satisfação,
Senhora, de tantas vidas?
Que, se vedes
quantos vêm
a só vida vos pedir,
como vos há Deus ouvir
se vós não ouvis ninguém?
Não podeis ser perdoada
com mãos a matar tão prontas,
que, se nüa trazeis contas,
na outra trazeis espada
Se dizeis que
encomendando
os que matastes andais,
se rezais por quem matais,
para que matais rezando?
Que, se na força do orar
levantais as mãos aos
Céus, não as ergueis para Deus,
erguei-las para matar.
E quando os
olhos cerrais
todaenlevada na fé,
cerram-se os de quem vos vê,
para nunca verem mais.
Pois se assi forem tratados
os que vos vêm quando orais,
essas horas que rezais
são as horas dos finados.
Pois logo, se
sais servida
que tantos mortos não sejam,
não rezeis onde vos vejam,
ou vede para dar vida.
Ou, se quereis escusar
estes males que causastes,
ressuscitai quem matastes,
não tereis por quem rezar.
24.
Cantiga
a este moto:
Vi chorar uns claros olhos
quando deles me partia.
Oh! que mágoa! Oh! que alegria!
VOLTAS
Pelo meu apartamento
se arrasaram todos d'água.
Quem cuidou que em tanta mágoa
achasse contentamento?
Julgue todo entendimento
qual mais sentir se devia:
se esta dor, se esta alegria!
Quando mais
perdido estive,
então deu a esta alma minha
na maior mágoa que tinha
o maior gosto que tive.
Assi, se minh'alma vive
foi porque me defendia
desta dor esta alegria.
O bem que Amor
me não deu no
tempo que o desejei,
quando dele me apartei
me confessou que era meu.
Agora, que farei eu
se a fortuna me desvia
de lograr esta alegria?
Não sei
se foi enganado,
pois me tinha defendido
das iras de mal querido
no mel de ser apartado.
Agora peno dobrado,
achando no fim do dia
o princípio d'alegria.
72.
Cantiga
a este moto
sei:
Se de meu mal me contento,
é porque para vós vejo
em todo o mundo desejo
e em ninguém merecimento.
VOLTAS
Para quem vos
soube olhar,
tão impossível foi ser
o poder-vos merecer,
como o não vos desejar.
Pois logo a meu pensamento
nenhum remédio lhe vejo,
senão se der o desejo
asas ao merecimento.
92.
Cantiga
a esta cantiga
alheia
Perdigão perdeu a pena,
não há mal que lhe não venha:
VOLTAS
Perdigão,
que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas, com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.
Quis voar a
üa alta torre
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha.
27.
Trovas
a üna Senhoras
que haviam de ser
terceiras para com üa Dama sua
Pois a tantas
perdições,
Senhoras, quereis dar vida,
ditosa seja a ferida
que tem tais cerurgiões!
Pois ventura
me subiu a tanta altura
que me sejais valedoras,
ditosa seja a tristura
que se cura
por vossos rogos, Senhoras!
Ser minha pena
mortal,
já que entendeis que é assim,
não quero falar por mim,
que por mim fala meu mal.
Sois fermosas,
haveis de ser piadosas,
por ser tudo düa cor;
que pois Amor vos fez rosas
milagrosas,
fazei milagres d'amor.
Pedi a quem
vós sabeis
que saiba de meu trabalho,
não pelo que eu nisso valho,
mas pelo que vós valeis.
Que o valer
de vosso alto merecer,
com lho pedir de giolhos,
fará que em meu padecer
possa ver
o poder que têm seus olhos.
Vossa muita
fermosura
co a sua tanto val
que me rio de meu mal
quando cuido em quem mo cura.
A meus ais
peço-vos que lhe valhais,
Damas de Amor tão validas,
que nunca tal dor sintais
que queirais
onde não sejais queridas.
103.
Cantiga
a este vilancete
pastoril
-Deus te salve,
Vasco amigo
Não me falas ? Como assi ?
-Bofé, Gil, não estava aqui
VOLTAS
Pois onde te
hão-de falar,
se não estás onde apareces?
-Se Madanela conheces,
nela me podes achar.
-E como te hão-de ir buscar,
aonde fogem de ti?
-Pois nem eu estou em mi.
Porque te não
acharei
em ti, como em Madanela?
-Porque me fui perder nela
o dia que me ganhei.
-Quem tão bem fala, não sei
como anda fora de si.
-Ela fala dentro em mi.
Como estás
aqui presente,
se lá tens a alma e a vida?
-Porque é de üa alma perdida
aparecer sempre à gente.
-Se és morto, bem se consente
que todos fujam de ti.
-Eu também fujo de mi.
45.
Glosa
a este moto
alheio:
Minha alma, lembrai-vos dela.
Pois o ver-vos
tenho em mais
que mil vidas que me deis,
assi como a que me dais,
meu bem, já que mo negais,
meus olhos, não mos negueis.
E se a tal estado vim,
guiado de minha estrela,
quando houverdes dó de mim,
minha vida, dai-lhe a fim,
minha alma. lembrai-vos dela.
17.
Cantiga
a este cantar
velho:
Coifa de beirame
namorou Joane.
VOLTAS
por cousa tão
pouca
andas namorado?
Amas a toucado
e não quem o touca?
Ando cega e louca
por ti, meu Joane;
tu, pelo beirame.
Amas o vestido?
És falso amador.
Tu não vês que Amor
se pinta despido?
Cego e perdido
andas por beirame,
e eu por ti, Joane.
Se alguém
te vir,
que dirá de ti?
Que deixas a mi
por cousa tão vil!
Terá bem que rir,
pois amas beirame,
e a mim não, Joane.
Quem ama assi
há-de ser amada;
ando maltratada
de amores, por ti.
Ama-me a mi,
e deixa o beirame,
que é razão, Joane!
A todos encanta
tua parvoíce;
de tua doudice
Gonçalo se espanta
e zombando canta:
-Coifa de beirame
namorou Joane!
Eu não
sei que viste
neste meu toucado,
que tão namorado
dele te sentiste.
Não te veja triste:
ama-me, Joane,
e deixa o beirame!
(Joane gemia,
Maria chorava,
assi lamentava
o mal que sentia;
os olhos feria,
e não o beirame
que matou Joane.)
Não sei
de que vem
Amares vestido;
que o mesmo Cupido
vestido não tem.
Sabes de que vem
amares beirame?
Vem de ser Joane.
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