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REDONDILHAS
Luís de Camões


19.

Cantiga

a esta cantiga alheia:
Minina fermosa
dizei: de que vem
serdes rigorosa
a quem vos quer bem?

VOLTAS

Não sei quem assela
vossa fermosura;
que quem é tão dura
não pode ser bela.
Vós sereis fermosa,
mas a razão tem
que quem é irosa
não parece bem.

A mostra é de bela,
as o obras são cruas;
pois qual destas duas
ficará na sela?
Se ficar irosa
não vos está bem.
fique antes fermosa,
que mais força tem.

O Amor, fermoso
se pinta e se chama:
se é amor, ama,
se ama, é piadoso.
Diz agora a grosa
que este texto tem,
que quem é fermosa
há-de querer bem.

Havei dó, minina,
dessa fermosura;
que se a terra é dura,
seca-se a bonina.
Sede piadosa;
não veja ninguém
que, por rigorosa,
percais tanto bem.


55.

Cantiga

a este moto:
Ferro, fogo, frio e calma,
todo o mundo acabarão;
mas nunca vos tirarão,
alma minha da minh'alma!

VOLTAS

Não vos guardei, quando vinha,
em torre, força, ou engenho;
que mais guardada vos tenho
em vós, que sois alma minha.
Ali, nem frio nem calma,
não podem ter jurdição;
na vida sim, porém não
em vós, que tenho por alma.


8.

Cantiga

a este cantar velho:
Sois fermosa e tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.

VOLTAS

Ninguém vos pode tirar
[o] serdes bem assombrada;
mas heis-me de perdoar,
que os olhos não valem nada.
Fostes mal aconselhada
em querer que fossem verdes:
trabalhai de os esconderdes.

A vossa testa é jardim,
onde Amor se desenfada;
é branca e bem talhada,
que parece de marfim.
Assim é; e, quanto a mim,
isso nasce de a terdes
tão perto dos olhos verdes.

Os cabelos desatados
o mesmo Sol escurecem;
senão que, por serem ondados,
algum tanto desmerecem:
mas, à fé, que se parecem
a furto dos olhos verdes,
não vos pese de os terdes.

As pestanas têm mostrado
ser raios que abrasam vidas;
se não foram tão compridas
tudo o mais era pintado:
elas me tinham levado
já sem o vós saberdes,
se não foram os olhos verdes.

O mimo desse carão
nem pôr-lhe os olhos consente:
e ser liso e transparente
rouba todo o coração.
Inda assim achareis gente
que lhe não pese de o terdes;
mas não seja cos olhos verdes.

Esse riso é composto
de quantas graças nasceram;
senão que alguns me disseram
vos faz covinhas no rosto.
Na vontade tenho posto
dar-vos a alma, se quiserdes,
a troco dos olhos verdes.

Nunca se viu, nem se escreve
boca nem graça igual,
se não fora de coral
e os dentes de cor de neve.
Dou-me a Deus, que me leve!
Sofrerei quanto tiverdes,
não me tenhais os olhos verdes.

Essa garganta merece
outras palavras, não minhas,
senão que é feita em rosquinhas
de alfenim, o que parece.
Eu sei quem se ofrece
a tomar tudo o que tendes,
e também os olhos verdes.

Essas mãos são ferropeias,
só o vê-las, enfeitiça;
senão que são alvas e cheias,
e têm a feição roliça,
com que apelais por justiça,
pera com elas prenderdes
quem vê vossos olhos verdes.

A vossa galantaria
matará a quem falardes;
tendes uns desdéns e tardes
que eu logo vos roubaria.
Dou-me a Santa Maria!
Sou cujo de quanto tendes,
também desses olhos verdes.


5.

Cantiga

a esta cantiga alheia:
Pastora da serra,
da serra da Estrela,
perco-me por ela.

VOLTAS

Nos seus olhos belos
tanto Amor se atreve,
que abrasa entre a neve
quantos ousam vê-los.
Não solta os cabelos
Aurora mais bela:
perco-me por ela.

Não teve esta serra
no meio da altura
mais que a fermosura
que nela se encerra.
Bem céu fica a terra
que tem tal estrela:
perco-me por ela.

Sendo entre pastores
causa de mil males,
não se ouvem nos vales
senão seus louvores.
Eu só por amores
não sei falar nela:
sei morrer por ela.

De alguns que, sentindo,
seu mal vão mostrando,
se ri, não cuidando
que inda paga, rindo.
Eu, triste, encobrindo
só meus males dela,
perco-me por ela.

Se flores deseja
por ventura delas,
das que colhe, belas,
mil morrem de enveja.
Não há quem não veja
todo o milhor nela:
perco-me por ela.

Se na água corrente
seusolhos inclina,
faz luz cristalina
parar a corrente.
Tal se vê, que sente,
por ver-se, água nela:
perco-me por ela.


64.

Cantiga

a este moto alheio:
Amores de ua casada
que eu vi pelo meu mel.

VOLTAS

Nüa casada fui pôr
os olhos, de si senhores;
cuidei que fossem amores,
eles fizeram-se Amor.
Faz-se o desejo maior
donde o remédio não val
em perigo de meu mal.

Não me pareceu que Amor
pudesse tanto comigo
que donde entra por amigo
se levante por senhor.
Leva-me de dor em dor
e de sinal em sinal,
cada vez para mor mal.


84.

Glosa

a este moto:

Foi-se gastando a esperança,
fui entendendo os enganos;
do mal ficaram meus danos
e do bem só a lembrança.


Nunca em prazeres passados
tive firmeza segura,
antes tão arrebatados
que inda não eram chegados
quando mos levou ventura.
E como quem desconfia
ter em tal sorte mudança,
no meio desta porfia,
de quanto bem pretendia
foi-se gastando a esperança.

Não tive por desatino
a ocasião de perdê-la;
mas foi culpa do destino,
que a ninguém, como mais dino,
Amor pudera sustê-la.
Dei-lhe tudo o que era seu,
não receando tais danos
deste, a quem alma lhe deu;
quando já não era meu,
foi entendendo os enganos.

Fiquei, deste mal sobejo
a quem a causa compete,
dizer-lhe tudo o que vejo,
que Amor aceita o desejo,
mas mente no que promete.
Que, se a mim se me obrigou
a dar-me bens soberanos,
foi engano que ordenou,
que do bem tudo levou,
do mal ficaram meus danos.

E se de dor tão desigual
sofro em mim com padecê-los,
quero de novo sofrê-los;
que, por a causa ser tal,
não determino ofendê-los.

Dobre-se o mal, falte a vida,
creça a fé, falte a esperança,
pois foi mal agradecida;
fique a dor n'alma imprimida,
e do bem só a lembrança.


29.

Glosa

a este mato alheio:
Trabalhos descansariam
se para vós trabalhasse;
tempos tristes passariam
se algüa hora vos lembrasse.

GLOSA

Nunca o prazer se conhece
senão despois da tormenta;
tão pouco o bem permanece
que, se o descanso florece,
logo o trabalho arrebenta.
Sempre os bens se lograriam,
mas os males tudo atalham;
porém, já que assi porfiam,
onde descansos trabalham,
trabalhos descansariam.

Qualquer trabalho me fora
por vós grão contentamento;
nada sentira, Senhora,
se vira disto algüa hora
em vós um conhecimento.
Por mal que o mal me tratasse
tudo por bem tomaria;
posto que o corpo cansasse,
a alma descansaria,
se para vós trabalhasse.

Quem vossas cruezas já
sofreu, a tudo se pôs;
costumado ficará;
e muito milhor será,
se trabalhar para vós.
Tristezas esqueceriam,
posto que mal me trataram;
anos não me lembrariam,
que, como estoutros passaram,
tempos tristes passariam.

Se fosse galardoado
este trabalho tão duro,
não vivera magoado;
mas não o foi o passado,
como o será o futuro?
De cansar não cansaria,
se quiséreis que cansasse;
cansar, morrer, fá-lo-ia,
tudo, enfim, me esqueceria,
se algüa hora vos lembrasse.


66.

Cantiga

a este moto seu:
Pus o coração nos olhos
e os olhos pus no chão,
por vingar o coração.

VOLTAS

O coração envejoso
como dos olhos andava,
sempre remoques me dava
que não era o meu mimoso:
venho eu, de piadoso
do senhor meu coração,
boto os meus olhos no chão.


42.
Trovas

a üa dama doente

Olhai que dura sentença
foi Amor dar contra mi:
que, porque em vós me
perdi, em vós me busca a doença.
Claro está
que em vós só me achará;
que em mim, se me vem buscar,
não poderá mais achar
que a forma do que eu fui já.

Que se em vós Amor se pôs,
Senhora, é forçado assi
que o mal, que me busca a mi,
que vos faça mal a vós.
Sem mentir,
Amor me quis destruir
por modo nunca cuidado,
pois vos há-de ser forçado
pesar-vos de vos servir.

Mas sois tão desconhecida,
e são meus males de sorte
que vos ameaça a morte
porque me negais a vida.
Se por boa
tal justiça se pregoa,
quando desta sorte for,
havei vós perdão de Amor,
que a parte já vos perdoa.

Mas o que mais temo, enfim,
é que nesta diferença
que se não torne a doença
se me não tornais a mim.
De verdade,
que já vossa humanidade
de que se queixe não tem;
pois para as almas também
fez Amor enfermidade.

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