REDONDILHAS
Luís de Camões
91.
Cantiga
a este moto:
Com razão queixar-me posso
de vós, que mel vos queixais;
pois, Senhora, vos sangrais,
que seja num corpo vosso.
VOLTAS
Eu, para levar
a palma
com que ser vosso mereça,
quero que o corpo padeça
por vós, que dele sois alma.
Vós do corpo vos queixais,
eu queixar-me de vós posso,
porque, tendo um corpo vosso,
na minh'alma vos sangrais.
E sem fazer
diferença
no que de mim possuís,
pelo pouco que sentis,
dais à minh'alma doença.
Pois que dous aventurais
oh! não seja o dano nosso:
sangre-se este corpo vosso,
porque, minh'alma, vivais.
E inda, se atentardes
bem,
seguis medicina errada,
porque para ser sangrada
üa alma sangue não tem.
E pois em mim sarar posso
males, que à minha alma dais,
se inda outra vez vos sangrais,
seja neste corpo vosso.
13.
Cantiga
a este moto
[seu?]
Com vossos olhos Gonçalves,
Senhora, cativo tendes
este meu coração Mendes.
VOLTAS
Eu sou boa testemunha
que Amor tem por cousa má
que olhos, que são homens já,
se nomeiem sem alcunha,
pois o coração apunha
e diz: olhos, pois vós tendes,
chamai-me coração Mendes.
48.
Cantiga
a este moto
alheio:
De vuestros ojos centellas,
que encienden pechos de hielo
suben por el aire al cielo,
y en llegando son estrellas.
VOLTAS
Falsos loores
os dan,
que essas centellas tan raras
no son nel cielo más claras
que en los ojos donde están.
Porque cuando miro en ellas
de como alumbran el suelo
no sé que serán nel cielo;
mas sé que acá son estrellas.
Ni se puede
presumir
que al cielo suban, Senora,
que la lumbre que en vos mora
no tiene más que subir;
mas pienso que dán querellas
a Dios nel octavo cielo,
porque son acá en el suelo,
dos tan hermosas estrellas.
65.
Cantiga
a este mato
seu:
Enforquei minha esperança;
mas Amor foi tão madraço
que lhe cortou o baraço.
VOLTAS
Foi a Esperança
julgada
por sentença da Ventura,
que, pois me teve à pendura,
que fosse dependurada.
Vem Cupido co a espada,
corta-lhe cerco o baraço.
Cupido, foste madraço!
88.
Cantiga
a este moto
alheio
Vosso bem querer, Senhora:
vosso mal milhor me fora.
VOLTAS
Já'gora
certo conheço
ser milhor todo tormento
onde o arrependimento
se compra por justo preço.
Enganou-me um bom começo;
mas o fim me diz agora
que o mal milhor me fora.
Quando um bem
é tão danoso
que, sendo bem, dá cuidado,
o dano fica obrigado
a ser menos perigoso.
Mas se a mim, por desditoso,
co bem me foi mal, Senhora,
co vosso mal bem me fora.
57.
Cantiga
a este moto:
Esconjuro-te, Domingas,
pois me dás tanto cuidado,
que me digas se te vingas:
viverei menos penado.
VOLTAS
Juravas-me que
outras cabras
folgavas de apacentar;
eu, por nao me magoar,
fingia que eram palavras.
Agora d'arte te vingas
d'algum meu doudo pecado,
qu'inda [que] queiras, Domingas,
não posso ser enganado.
Qualquer cousa
busca o seu;
a fonte vai para o Tejo,
e tu para o teu desejo
por te vingares do meu.
De mi te esqueces, Domingas,
como eu faço do meu gado.
Praza a Deus que, se te vingas,
que moura desesperado.
Na fantasia
te pinto;
falo-te, responde o monte;
busco o rio, busco a fonte,
endoudeço, e não o sinto.
Domingas! no vale brado;
responde o eco:-Domingas!
E tu ainda te não vingas
de me ver doudo tornado?
53.
Cantiga
a este moto:
Descalça vai para a fonte
Leanor pela verdura;
vai fermosa, e não segura.
VOLTAS
Leva na cabeça
o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a nove pura;
vai fermosa, e não segura.
Descobre a touca
a garganta,
cabelos d'ouro o trançado,
-fita, de cor d'encarnado,
tão linda que o mundo espanta-;
chave nela graça tanta
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.
89.
Cantiga
a este moto:
Irme quieto, madre,
á aquella galera,
con el marinero
á ser marinera.
VOLTAS
Madre, si me
fuere,
dó quiera que vó,
no lo quiero yo,
que el Amor lo quiere.
Aquél niño fiero
hace que me muera,
por un marinero
á ser marinera.
Él, que
todo puede,
madre, no podrá,
pues el alma vá,
que el cuerpo se quede.
Con él, por quién muero,
voy, porque no muera;
que, si es marinero,
seré marinera.
Es tirana ley,
del niño Señor,
que por un amor
se desenhe un Rey:
pues desta manera
quiere, yo me quiero
por un marinero
hacer marinera.
Decid, ondas,
¿cuándo
vistes vos doncella,
siendo tierna y bella,
andar navegando?
|Pues| más no se espera
daquel niño fiero,
vea yo quién quiero,
sea marinera.
40.
Cantiga
a este moto:
Menina fermosa e crua,
bem sei eu
quem deixará de ser seu,
se vós quiséreis ser sua.
VOLTAS
Menina mais
que na idade,
se, para me querer bem,
vos não vejo ter vontade,
é porque outrem vo-la tem;
tem-vo-la, e faz-vo-la crua.
Porém eu
já tomara não ser meu,
se vós não fôreis tão sua.
Nos olhos e
na feição
vos vi, quando vos olhava,
tanta graça que vos dava
de graça este coração;
não no quisestes de crua,
por ser meu:
se outrem vos dera o seu
pode ser fôreis mais sua.
Menina, tende
maneira
que ainda não venha a ser
-pois não quereis quem vos quer, -
que queirais quem vos não queira.
Olhai, não me sejais crua;
que pois eu
quero ser vosso e não meu,
sede vós minha e não sua.
68.
Glosa
a este moto:
Vos tenéis mi corazón.
Mi corazón me han robado,
y Amor, viendo mis enojos,
me dijo: fuéte llevado
por los más hermosos hojos
que desque vivo he mirado.
Gracias sobrenaturales,
te lo tienen en prisión,
y si Amor tiene razón,
Señora, por la señales
vos tenéis mi corazón.
69.
Cantiga
a este moto
alheio:
De dentro tengo mi mal,
que de fuera no hay señal.
VOLTAS
Mi nueva y dulce
querella,
es invisible á la gente;
el alma sola la siente,
que el cuerpo no es dino della.
Como la viva centena
se encubra en el pedernal
de dentro tengo mi mal.
86.
Cantiga
a este moto
alheio:
Se alma ver-se não pode
onde pensamentos ferem,
que farei para me crerem?
VOLTAS SUAS
N'alma üa
só ferida
faz na vida mil sinais;
tanto se descobre mais
quanto é mais escondida.
Se esta dor tão conhecida
me não vêm, porque não querem,
que farei para me crerem?
Se se pudesse
bem ver
quanto calo, e quanto sento,
despois de tanto tormento
cuidaria alegre ser.
Mas se não me querem crer
olhos que tão mal me ferem,
que farei para me crerem?
100.
Esparsa
ao mesmo assunto
Não
posso chegar ao cabo
de tamanho desarranjo,
que sendo vós, Senhora, "Anjo",
vos queira tanto o "diabo".
Dais manifesto sinal
de minha muita firmeza,
que os "diabos" querem mal
aos "Anjos", por natureza.
43.
Cantiga
a este moto:
Deu, Senhora, por sentença
Amor, que fôsseis doente,
para fazerdes à gente
doce e fermosa a doença.
VOLTAS
Não sabendo
Amor curar,
foi a doença fazer
fermosa, para se ver,
doce para se passar.
Então, vendo a diferença
que há de vós a toda a gente,
mandou que fôsseis doente
para glória da doença.
E digo-vos,
de verdade,
que a saúde anda envejosa,
por ver estar tão fermosa
em vós essa enfermidade.
Não façais logo detença,
Senhora, em estar doente,
porque adoecerá a gente
com desejos da doença.
Que eu, por
ter, fermosa Dama,
a doença que em vós vejo,
vos confesso que desejo
de cair convosco em cama.
Se consentis que me vença
este mal, não houve gente
de saúde tão contente
como eu serei da doença.
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