REDONDILHAS
Luís de Camões
021.
Cantiga
a este mato
alheio:
Se me levam águas
nos olhos as levo.
VOLTAS
Se de saudade
morrerei ou não,
meus olhos dirão
de mim a verdade.
Por eles me atrevo
a lançar as águas
que mostrem as mágoas
que nesta alma levo.
As águas
que em vão
me fazem chorar,
se elas são do mar
estas d'amar são.
Por elas relevo
todas minhas mágoas;
que, se força d'águas
me leva, eu as levo.
Todas me entristecem,
todas são salgadas;
porém as choradas
doces me parecem.
Correi, doces águas,
que, se em vós me enlevo,
não doem as mágoas
que no peito levo!
076.
Cantiga
a este moto
alheio:
Vede bem se nos meus dias
os desgostos vi sobejos,
pois tenho medo a desejos
e quero mal a alegrias.
VOLTAS
Se desejos fui
já ter,
serviram de atormentar-me;
se algum pôde alegrar-me,
quis-me antes entristecer.
Passei anos, passei dias,
em desgostos tão sobejas
que, só por não ter desejos,
perderei mil alegrias.
087.
Cantiga
a esta cantiga
alheia:
Se me desta terra for,
eu vos levarei, amor.
VOLTAS
Se me for, e
vos deixar
(ponho, por caso, que possa),
esta alma minha, que é vossa,
convosco me há-de ficar.
Assi que, só por levar
a minh'alma, se me for,
vos levarei, meu amor.
Que mal pode
maltratar-me
que convosco seja mal?
Ou que bem pode ser tal
que sem vós possa alegrar-me?
O mal não pode enojar-me,
o bem me será maior
se vos levar, meu amor.
097.
Esparsa
a üa Dama
por quem penava
Se na alma
e no pensamento
por vosso me manifesto,
não me pesa do que sento;
que, se não sofrer tormento,
faço ofensa a vosso gesto.
E, pois quanto Amor ordena
e quanto esta alma deseja
tudo à morte me condena,
não quero senão que seja
tudo pena, pena, pena.
113.
Trovas
que Luís
de Camões fez, na Índia,
a certos fidalgos a quem convidara para cear
A primeira iguaria foi posta
a Casco de Ataíde. entre dous pratos,
e diria assim:
Se não
quereis padecer
üa ou duas horas tristes,
sabeis que haveis de fazer?
Volveros por do venistes,
que aqui não há que comer.
E posto que aqui leiais
trovinha que vos enleia,
corrido não estejais;
porque por mais que corrais
não heis-de alcançar a ceia.
A segunda, a
D. Franeisco d'Almeida:
Heliogábalo
zombava
das pessoas convidadas,
e de sorte as enganava
que as iguarias que dava
vinham nos pratos pintadas.
Não temais tal travessura,
pois já não pode ser nova;
que a ceia está mui segura
de vos não vir em pintura,
mas há-de vir toda em trova.
A terecira,
a Heitor da Silveira:
Ceia não
a papareis;
contudo, porque não minta,
para beber achareis,
não Caparica, mas tinta,
e mil cousas que papeis.
E vós torceis o focinho,
com esta anfibologia?
Pois sabei que a Poesia
vos dá aqui tinta por vinho,
e papéis por iguaria.
A quarta foi
posta a João Lopes Leitão,
a quem o Autor mandou um moto,
que vai adiante, sobre uma peça
de cacha, que este mandas ü a da Dama:
Porque os que
vos convidaram
vosso estâmago não danem,
por justa causa ordenaram,
se trovas vos enganaram,
que trovas vos desenganem.
Vós tereis isto por tacha,
converter tudo em trovar;
pois se me virdes zombar,
não cuideis, Senhor, que é cacha,
que aqui não há cachar.
Finge que, responde
João Lopes Leitão:
Pesar ora não
de São!
Eu juro pelo Céu bento
se de comer me não dão,
que eu não sou camaleão
que me hei-de manter do vento.
Finge que responde
o Autor:
Senhor, não
vos agasteis,
porque Deus vos proverá;
e se mais saber quereis,
nas costas deste lereis
as iguarias que há.
Vira o papel,
que dizia assi:
Tendes nem migalha
assada,
cousa ne~nua de molho,
e nada feito em empada,
e vento de tigelada,
picar no dente em remalho.
De fumo tendes tassalhos,
aves da pena que sente
quem de fome anda doente;
bocejar de vinho e de alhos,
manjar em branco excelente.
A quinta e derradeira
iguaria foi posta
a Francisco de Melo e dizia:
De um homem
que teve o ceptro
da veia maravilhosa,
não foi cousa duvidosa
que se lhe tornava em metro
o que ia a dizer em prosa.
De mim vos quero apostar
que faça cousas mais novas
de quanto podeis cuidar:
esta ceia, que é manjar,
vos faça na boca em trovas.
034.
Glosa
a este moto
alheio:
Vejo-a n'alma pintada
quando me pede o desejo
o natural que não vejo.
Se só
no ver puramente
me transformei no que vi,
de vista tão excelente
mal poderei ser ausente
enquanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
a traz tão bem debuxada,
e a memória tanto voa
que se a não vejo em pessoa,
vejo-a n'alma pintada.
O desejo, que
se estende
ao que menos se concede,
sobre vós pede e pretende,
como o doente que pede
o que mais se lhe defende.
Eu, que em ausência não vejo,
tenho piadade e pejo
de me ver tão pobre estar,
que então não tenho que dar
quando me pede o desejo,
Como aquele
que cegou
é cousa vista e notória
que a natureza ordenou
que se lhe dobre em memória
o que em vista lhe faltou;
assi a mim, que não rejo
os olhos ao que desejo,
na memória e na firmeza
me concede a natureza
o natural que não vejo.
025.
Cantiga
a este mato
alheio:
Trocai o cuidado,
Senhora, comigo;
vereis o perigo
que é ser desamado.
VOLTAS
Se trocar desejo
o amor entre nós,
é para que em vós
vejais o que vejo.
E sendo trocado
este amor comigo,
ser-vos-á castigo
terdes meu cuidado.
Tendes o sentido
d'amor livre e isento;
e cuidais que é vento
ser tão mal querido.
Não seja o cuidado
tão vosso inimigo
que queira o perigo
de ser desamado.
Mas nunca foi
tal
este meu querer,
que a quem tanto quer
queira tanto mal.
Seja eu maltratado,
e nunca o castigo
vos mostre o perigo
que é ser desamado.
050.
Cantiga
este moto:
Quem disser que a barca pende,
dir-lhe hei, mana, que mente.
VOLTAS
Se vos quereis
embarcar
e para isso estais no cais,
entrai logo; que tardais?
Olhai que está preiamar!
E se outrem, por vos fretar,
vos disser que esta que pende,
dir-lhe hei, mana, que mente.
Esta barca é
de carreira,
tem seus aparelhos novos;
não há como ela outra em Povos,
boa de leme e veleira.
Mas, se por ser a primeira,
vos disser alguém que pende,
dir-lhe hei, mana, que mente.
098.
Esparsa
a üa Dama
que lhe chamou
"cara-sem-olhos"
Sem olhos vi
o mal claro
que dos olhos se seguiu:
pois "cara-sem-olhos" viu
olhos que lhe custam caro.
De olhos não faço menção,
pois quereis que olhos neo sejam;
vendo-vos, olhos sobejam,
não vos vendo olhos não são.
114.
Cantiga
a João
Lopez, Leitão, na Índia,
por causa de~ua peça de cacha
que este mandou a ~ua Dama
que se lhe fazia donzela
MOTO:
Se vossa dama vos dá
tudo quanto vós quisestes,
dizei: para que lhe destes
o que vos ela fez já?
VOLTAS
Sendo os restos
envidados
e vós de cachas mil contos,
sabeis com quão poucos pontos
que lhos achastes quebrados.
Se o que tem, isso vos dá,
vós mui bem lho merecestes,
porque, se a cacha lhe destes,
tinha-vo-la feita já.
001.
Trovas
a uma Dama que
lhe mandou
pedir algumas obras suas
Senhora, se
eu alcançasse
no tempo que ler quereis,
que a dita dos meus papéis
pola minha se trocasse;
e por ver
tudo o que posso escrever
em mais breve relação,
indo eu onde eles vão,
por mim só quisésseis ler;
Depois de ver
um cuidado
tão contente de seu mal,
veríeis o natural
do que aqui vedes pintado;
que o perfeito
Amor, de que sou sujeito,
vereis áspero e cruel,
aqui com tinta e papel,
em mim co sangue no peito.
Que um contino
imaginar
naquilo que Amor ordena,
é pena que, enfim, por pena
se não pode declarar;
que, se eu levo
dentro n'alma quanto devo
de trasladar em papéis,
vede qual melhor lereis:
se a mim, se aquilo que escrevo?
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