RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
Lima Barreto
Capítulo I
A tristeza,
a compreensão e a desigualdade de nível mental do
meu meio familiar agiram sobre mim de um modo curioso: deram-me
anseios de inteligência. Meu pai, que era fortemente inteligente
e ilustrado, em começo, na minha primeira infância,
estimulou-me pela obscuridade de suas exortações.
Eu não tinha ainda entrado para o colégio, quando
uma vez me disse: Você sabe que nasceu quando Napoleão
ganhou a Batalha de Marengo? Arregalei os olhos e perguntei: Quem
era Napoleão? Um grande homem, um grande general... E não
disse mais nada. Encostou-se à cadeira e continuou a ler
o livro. Afastei-me sem entrar na significação de
suas palavras; contudo, a entonação de voz, o gesto
e o olhar ficaram-me eternamente. Um grande homem!...
O espetáculo de saber do meu pai, realçado pela ignorância
de minha mãe e de outros parentes dela, surgiu aos meus olhos
de criança, como um deslumbramento.
Pareceu-me então que aquela sua faculdade de explicar tudo,
aquele seu desembaraço de linguagem, a sua capacidade de
ler línguas diversas e compreendê-las, constituíam,
não só uma razão de ser de felicidade, de abundância
e riqueza, mas também um título para o superior respeito
dos homens e para a superior consideração de toda
a gente.
Sabendo, ficávamos de alguma maneira sagrados, deificados...
Se minha mãe me aparecia triste e humilde - pensava eu naquele
tempo - era porque não sabia, como meu pai, dizer os nomes
das estrelas do céu e explicar a natureza da chuva...
Foi com estes sentimentos que entrei para o curso primário.
Dediquei-me açodadamente ao estudo. Brilhei, e com o tempo
foram-se desdobrando as minhas primitivas noções sobre
o saber.
Acentuaram-se-me tendências; pus-me a colimar glórias
extraordinárias, sem lhes avaliar ao certo a significação
e a utilidade. Houve na minha alma um tumultuar de desejos, de aspirações
indefinidas. Para mim era como se o mundo me estivesse esperando
para continuar a evoluir...
Eu ouvia uma tentadora sibila falar-me, a toda a hora e a todo instante,
na minha glória futura. Agia desordenadamente e sentia a
incoerência dos meus atos, mas esperava que o preenchimento
final do meu destino me explicasse cabalmente. Veio-me a pose a
necessidade de ser diferente. Relaxei-me no vestuário e era
preciso que minha mãe me repreendesse para que eu fosse mais
zeloso. Fugia aos brinquedos, evitava os grandes grupos, punha-me
só com um ou dois, à parte, no recreio do colégio;
lá vinha um dia, porém, que brincava doidamente, apaixonadamente.
Causava com isso espanto aos camaradas: Oh! Isaías brincando!
Vai chover...
A minha energia no estudo não diminuiu com os anos, como
era de esperar; cresceu sempre progressivamente. A professora admirou-me
e começou a simpatizar comigo. De si para si (suspeito eu
hoje), ela imaginou que lhe passava pelas mãos um gênio.
Correspondi-lhe à afeição com tanta força
d'alma, que tive ciúmes dela, dos seus olhos azuis e dos
seus cabelos castanhos, quando se casou. Tinha eu então dois
anos de escola e doze de idade. Daí a um ano, saí
do colégio, dando-me ela como recordação, um
exemplar do "Poder da Vontade", luxuosamente encadernado,
com uma dedicatória afetuosa e lisonjeira. Foi o meu livro
de cabeceira. Li-o sempre com mão diurna e noturna, durante
o meu curso secundário, de cujos professores, poucas recordações
importantes conservo hoje. Eram banais! Nenhum deles tinha os olhos
azuis de D. Ester, tão meigos e transcendentais que pareciam
ler o meu destino, beijando as páginas em que estava escrito!...
Quando acabei o curso do Liceu, tinha uma boa reputação
de estudante, quatro aprovações plenas, uma distinção
e muitas sabatinas ótimas. Demorei-me na minha cidade natal
ainda dois anos, dois anos que passei fora de mim, excitado pelas
notas ótimas e pelos prognósticos da minha professora,
a quem sempre visitava e ouvia. Todas as manhãs, ao acordar-me,
ainda com o espírito acariciado pelos nevoentos sonhos de
bom agouro, a sibila me dizia ao ouvido: Vai, Isaías! vai!...
Isto aqui não te basta... Vai para o Rio!
Então, durante horas, através das minhas ocupações
quotidianas, punha-me a medir as dificuldades, a considerar que
o Rio era uma cidade grande, cheia de riqueza, abarrotada de egoísmo,
onde eu não tinha conhecimentos, relações,
protetores que me pudessem valer...
Que faria lá, só, a contar com as minhas próprias
forças? Nada... Havia de ser como uma palha no redemoinho
da vida - levado daqui, tocado para ali, afinal engolido no sorvedouro...
ladrão... bêbado... tísico e quem sabe mais?
Hesitava. De manhã, a minha resolução era quase
inabalável, mas, já à tarde, eu me acobardava
diante dos perigos que antevia.
Um dia, porém, li no "Diário de * * *" que
o Felício, meu antigo condiscípulo, se formara em
Farmácia, tendo recebido por isso uma estrondosa, dizia o
"Diário", manifestação dos seus colegas.
Ora Felício! pensei de mim para mim. O Felício! Tão
burro! Tinha vitórias no Rio! Por que não as havia
eu de ter também - eu que lhe ensinara, na aula de português,
de uma vez para sempre, diferença entre o adjunto atributivo
e o adverbial? Por quê!?
Li essa notícia na sexta-feira. Durante o sábado,
tudo enfileirei no meu espírito, as vantagens e as desvantagens
de uma partida. Hoje, já não me recordo bem das fases
dessa batalha; porém uma circunstância me ocorre das
que me demoveram a partir. Na tarde de sábado, saí
pela estrada fora. Fazia mau tempo. Uma chuva intermitente caía
desde dois dias.
Saí sem destino, a esmo, melancolicamente aproveitando a
estiada.
Passava por um largo descampado e olhei o céu. Pardas nuvens
cinzentas galopavam, e, ao longe, uma pequena mancha mais escura
parecia correr engastada nelas. A mancha aproximava-se e, pouco
a pouco, via-a subdividir-se, multiplicar-se; por fim, um bando
de patos negros passou por sobre a minha cabeça, bifurcado
em dois ramos, divergentes de um pato que voara na frente, a formar
um V. Era a inicial de "Vai". Tomei isso como sinal animador,
como bom augúrio do meu propósito audacioso. No domingo,
de manhã, disse de um só jato à minha mãe:
- Amanhã, mamãe, vou para o Rio.
Minha mãe nada respondeu, limitou-se a olhar-me enigmaticamente,
sem aprovação nem reprovação; mas, minha
tia, que costurava em uma ponta de mesa, ergueu um tanto a cabeça,
descansou a costura no colo e falou persuasiva:
- Veja lá o que vai fazer, rapaz! Acho que você deve
aconselhar-se com o Valentim!
- Ora qual! fiz eu com enfado. Para que Valentim? Não sou
eu rapaz ilustrado? Não tenho todo o curso de preparatórios?
Para que conselhos?
- Mas olhe, Isaías! você é muito criança...
Não têm prática... O Valentim conhece mais a
vida do que você. Tanto mais que já esteve no Rio...
Minha tia, irmã mais velha de minha mãe, não
tinha acabado de dizer a última palavra, quando o Valentim
entrou envolvido num comprido capote de baeta.
Descansou alguns pacotes de jornais manchados de selos e carimbos;
tirou o boné com o emblema do Correio e pediu café.
- Você veio a propósito, Valentim. Isaías quer
ir para o Rio e eu acabo de recomendar que se aconselhasse com você.
- Quando você pretende ir, Isaías? indagou meu tio,
sem surpresa e imediatamente:
- Amanhã, disse eu cheio de resolução.
Ele nada mais disse. Calamo-nos e minha tia saiu da sala, levando
o capote molhado e logo depois voltou, trazendo o café.
- Quer parati, Valentim?
- Quero.
Revolvendo lentamente o açúcar no fundo da xícara,
meu tio continuou ainda calado por muito tempo. Tomou um gole de
café, depois um outro de aguardente, esteve com o cálice
suspenso alguns instantes, descansou-o na mesa automaticamente e,
aos poucos, a sua fisionomia de largos traços de ousadia,
foi revelando um grande trabalho de concentração interior.
Minha mãe nada dissera até aí.
Num dado momento, pretextando qualquer coisa, levantou-se e foi
aos fundos da casa. Ao sair fez a minha tia uma insignificante pergunta
sobre o arranjo doméstico, sem aludir à minha resolução
e sem despertar meu tio da cisma profunda em que se engolfara.
Ansioso, deixei-me ficar à espera de uma resposta dele, notando-lhe
as menores contrações do rosto e decifrando os mais
tênues lampejos de seu olhar. Houve um segundo que ele me
pareceu ter suspendido todo o movimento exterior de sua pessoa.
A respiração como que parara, tinha o cenho carregado,
as rugas da testa larga e quadrada fixadas, como se tivessem sido
vazadas em bronze, e os olhos imóveis, orientados para uma
fresta da mesa, brilhantes, extraordinariamente brilhantes e salientes,
como que a saltar das órbitas, para farejar o rasto provável
da minha vida na intrincada floresta dos acontecimentos. Gostava
dele. Era um homem leal, valoroso, de pouca instrução,
mas de coração aberto e generoso. Contavam-lhe façanhas,
bravatas portentosas, levadas ao cabo, pelos tempos em que fora,
nas eleições, esteio do partido liberal. Pelas portas
das vendas, quando passava, cavalgando o seu simpático cavalo
magro, com um saco de cartas à garupa, murmuravam: "Que
songa-monga! Já liquidou dois..."
Eu sabia do caso, estava mesmo convencido de sua exatidão;
entretando, apesar das minhas precoces exigências de moral
inflexível, não me envergonhava de estimá-lo,
amava-o até, sem mescla de terror, já pela decisão
de seu caráter, já pelo apoio certo que nos dera,
a mim e a minha mãe, quando veio a morrer meu pai, vigário
da freguesia de * * * . Animara a continuar meus estudos, fizera
sacrifícios para me dar vestuário e livros, desenvolvendo
assim uma atividade acima dos seus recursos e forças.
Durante os dois anos que passei, depois de ter concluído
humanidades, o seu caráter atrevido conseguia de quando em
quando arranjar-me um ou outro trabalho. Desse modo, eu ia vivendo
uma doce e medíocre vida roceira, sempre perturbada, porém,
pelo estonteante propósito de me largar para o Rio. Vai Isaías!
Vai!
Meu tio ergueu a cabeça, pousou o olhar demoradamente sobre
mim e disse:
- Fazes bem!
Acabou de tomar o café, pediu o capote e convidou-me:
- Vem comigo. Vamos ao coronel... Quero pedir-lhe que te recomende
ao dr. Castro, deputado.
Minha tia trouxe o capote, e quando íamos saindo apareceu
também minha mãe, recomendando:
- Agasalha-te bem, Isaías! Levas o chapéu de chuva?
- Sim, senhora, respondi.
Durante quarenta minutos, patinhamos na lama do caminho, até
à casa do Coronel Belmiro. Mal tínhamos empurrado
a porteira que dava para a estrada, o vulto grande do fazendeiro
assomou no portal da casa, redondo, num longo capote e coberto de
um largo chapéu de feltro preto. Aproximamo-nos...
- Oh! Valentim! fez preguiçosamente o Coronel. Você
traz cartas? Devem ser do Trajano, conhece? Sócio do Martins,
da rua dos Pescadores...
- Não senhor, interrompeu meu tio.
- Ah! É seu sobrinho... Nem o conheci... Como vai, menino?
Não esperou minha resposta; continuou logo em seguida:
- Então, quando vai para o Rio? Não fique aqui...
Vá... Olhe, o senhor conhece o Azevedo?
- É disso mesmo que vínhamos tratar. Isaías
quer ir para o Rio e eu vinha pedir a V. S...
- O quê? interrompeu assustado o coronel.
- Eu queria que, V. S., Sr. Coronel, gaguejou o tio Valentim, recomendasse
o rapaz ao doutor Castro.
O coronel esteve a pensar. Mirou-me de alto a baixo, finalmente
falou:
- Você tem direito, seu Valentim... É... Você
trabalhou pelo Castro... Aqui para nós: se ele está
eleito, deve-o a mim e aos defuntos, e você que desenterrou
alguns. Riu-se muito, cheio de satisfação por ter
repetido tão velha pilhéria e perguntou amavelmente
em seguida:
- O que é que você quer que lhe peça?
- V. S. podia dizer na carta que o Isaías ia ao Rio estudar,
tendo já todos os preparatórios, e precisava, por
ser pobre, que o Dr. lhe arranjasse um emprego.
O Coronel não se deteve, fez-nos sentar, mandou vir café
e foi a um compartimento junto escrever a missiva.
Não se demorou muito; as suas noções gramaticais
não eram suficientemente fortes para retardar a redação
de uma carta. Demoramo-nos ainda um pouco e, quando nos despedíamos,
o Coronel abraçou-me, dizendo:
- Faz bem, menino. Vá, trabalhe, estude, que isto aqui é
uma terra à-toa com licença da palavra, de m... O
Castro deve fazer alguma coisa por você. Ele foi assim também...
O pai, você o conheceu, seu Valentim?
- Sim, Coronel, disse meu tio.
- ...era muito pobre, muito mesmo... O Hermenegildo, o Castro, quis
estudar. Nós... nós não, eu principalmente
que era presidente, arranjei-lhe uma subvenção da
Câmara... E foi assim. Hoje, acrescentou o Coronel imediatamente,
não é preciso, o Rio é muito grande, há
muitos recursos... Vá, menino!
Não chovia mais. As nuvens tinham corrido de um lado do horizonte,
deixando ver uma nesga de céu azul.
Um pouco de sol banhava aquelas colinas tristes e fatigadas por
entre as quais caminhávamos.
As cigarras puseram-se a estridular e vim vindo, de cabeça
baixa, sem apreensões, cheio de esperanças, exuberante
de alegrias.
A minha situação no Rio estava garantida. Obteria
um emprego. Um dia pelos outros iria às aulas, e todo o fim
de ano, durante seis, faria os exames, ao fim dos quais seria doutor!
Ah! Seria doutor! Resgataria o pecado original do meu nascimento
humilde, amaciaria o suplício premente, cruciante e onímodo
de minha cor... Nas dobras do pergaminho da carta, traria presa
a consideração de toda a gente. Seguro do respeito
à minha majestade de homem, andaria com ela mais firme pela
vida em fora. Não titubearia, não hesitaria, livremente
poderia falar, dizer bem alto os pensamentos que se estorciam no
meu cérebro.
O flanco, que a minha pessoa, na batalha da vida, oferecia logo
aos ataques dos bons e dos maus, ficaria mascarado, disfarçado...
Ah! Doutor! Doutor!... Era mágico o título, tinha
poderes e alcances múltiplos, vários, polifórmicos...
Era um pallium, era alguma coisa como clâmide sagrada, tecida
com um fio tênue e quase imponderável, mas a cujo encontro
os elementos, os maus olhares, os exorcismos se quebravam. De posse
dela, as gotas de chuva afastar-se-iam transidas do meu corpo, não
se animariam a tocar-me nas roupas, no calçado sequer. O
invisível distribuidor dos raios solares escolheria os mais
meigos para me aquecer, e gastaria os fortes, os inexoráveis,
com o comum dos homens que não é doutor. Oh! Ser formado,
de anel no dedo, sobrecasaca e cartola, inflado e grosso, como um
sapo antes de ferir a martelada à beira do brejo; andar assim
pelas ruas, pelas praças, pelas estradas, pelas salas, recebendo
cumprimentos: Doutor, como passou? Como está, doutor? Era
sobre-humano!...
Estávamos quase a chegar...
Pelo caminho, viemos, os dois, calados. Eu todo entregue às
minhas reflexões, que meu tio, uma vez ou outra, veio perturbar
com uma pergunta qualquer. Era sem vontade de continuar a conversa
que eu respondia; depois da terceira tentativa para entabulá-la,
não insistiu mais. O sol fugia aos poucos, as cigarras deixaram
de cantar e quando chegamos a casa, a chuva caiu novamente.
Almocei, saí até à cidade próxima para
fazer as minhas despedidas, jantei e, sempre, aquela visão
doutoral que não me deixava. Uma face dela me aparecia, depois
outra mais brilhante; esta provocava uma consideração,
aquela mais uma propriedade da carta onipotente. De noite, no teto
da minha sala baixa, pelos portais, eu via escrito pela luz do lampião
de petróleo - Doutor! Doutor!
Quantas prerrogativas, quantos direitos especiais, quantos privilégios
esse título dava! Pus-me a considerar que isso deveria ser
antigo... Newton, César, Platão e Miguel Ângelo
deviam ter sido doutores!
Foram os primeiros legisladores que deram à carta esse prestígio
extraterrestre... Naturalmente, teriam escrito nos seus códigos:
tudo o que há no mundo é propriedade do doutor, e
se de alguma coisa outros homens gozam, devem-no à generosidade
do doutor. Era uma outra casta, para qual eu entraria, e desde que
penetrasse nela, seria de osso, sangue e carne diferente dos outros
- tudo isso de uma qualidade transcendente, fora das leis gerais
do Universo e acima das fatalidades da vida comum.
- Levas toda a roupa, Isaías? veio interromper minha mãe.
- A que houver, mamãe.
Eu estava deitado num velho sofá amplo. Lá fora, a
chuva caía com redobrado rigor e ventava fortemente. A nossa
casa frágil parecia que, de um momento para outro, ia ser
arrasada. Minha mãe ia e vinha de um quarto próximo;
removia baús, arcas; cosia, futicava. Eu devaneava e ia-lhe
vendo o perfil esquálido, o corpo magro, premido de trabalhos,
as faces cavadas com os malares salientes, tendo pela pele parda
manchas escuras, como se fossem de fumaça entranhada. De
quando em quando, ela lançava-me os seus olhos aveludados,
redondos, passivamente bons, onde havia raias de temor ao encarar-me.
Supus que adivinhava os perigos que eu tinha de passar; sofrimentos
e dores que a educação e inteligência, qualidades
a mais na minha frágil consistência social, haviam
de atrair fatalmente. Não sei que de raro, excepcional e
delicado, e ao mesmo tempo perigoso, ela via em mim, para me deitar
aqueles olhares de amor e espanto, de piedade e orgulho. Aos seus
olhos - muitas vezes se me veio a afigurar - eu era como uma rapariga,
do meu nascimento e condição, extraordinariamente
bonita, vivaz e perturbadora... Seria demais tudo isso; cercá-la-ia
logo o ambiente de sedução e corrupção,
e havia de acabar por aí, por essas ruas...
Por vezes, também acreditei que ela nada quisesse exprimir
com eles; que tinha por mim a indiferença da máquina
pelo seu produto. Que importa aos teares de Valenciennes o destino
de suas rendas?!
Eu cria-a, então, resignada a ficar ali, nas proximidades
de uma cidade de terceira ordem, tendo, de onde em onde, notícias
minhas naquela grande cidade que a sua imaginação
a custo havia de representar. E quem sabe se as notícias
seriam de ordem a provocar-lhe dúvidas sobre sua maternidade?!
Coitada! Pobre de minha mãe!
- Olhe, mamãe, disse eu, logo que me arrume mando-a buscar.
A senhora está ouvindo?
- Sim, respondeu ela com fingida indiferença.
- Alugaremos uma casa. Todos os dias, quando eu for trabalhar, tomarei
a sua bênção; quando tiver de estudar até
alta noite, a senhora há de dar-me café, para espantar
o sono... Sim, mamãe?
E me pus a abraçá-la efusivamente.
- É bom! Estuda Isaías, fez ela, desvencilhando-se
de mim brandamente. Não te importes comigo... Estuda, meu
filho! Eu já estou velha demais...
- Mamãe, não acredita em mim.
- Acredito, meu filho; mas... mas não quero sair daqui.
No dia seguinte, quando me despedi, ela deu-me um forte abraço,
afastou-se um pouco e olhou-me longamente, com aquele olhar que
me lançava sempre, fosse em que circunstância fosse,
onde havia mesclados, terror, pena, admiração e amor.
- Vai, meu filho, disse-me ela afinal! Adeus!... E não te
mostres muito, porque nós...
E não acabou. O choro a tomou convulsa e foi chorando que
me afastei.
Capítulo II
A viagem de
trem correu enfadonha. Não sei se devido à falta de
comodidade do banco, não sei se às grandes emoções
por que passara, o certo é que me invadiu durante toda ela
um letargo, um torpor que me chumbou o corpo e me tornou a inteligência
de difícil penetração. Encostado ao espaldar
do banco, viajava meio acordado, meio dormindo; de quando em quando,
um solavanco do carro abria-me violentamente os olhos e obrigava-me
a considerar mais detidamente a paisagem que fugia pela portinhola
do vagão.
Eram as mesmas charnecas úmidas ao sopé de morros
de porte médio, revestidos de um mato ralo, anêmico,
verde-escuro, onde, por vezes, uma árvore de mais vulto se
erguia soberbamente, como se o conseguisse pelo esforço de
uma vontade própria.
O sol coava-se com dificuldade por entre grossos novelos de nuvens
erradias, distribuindo, sobre as coisas que eu ia vendo, uma luz
amarelada e desigual.
Pelo declive suave de uma encosta, o tapete escuro do mato aparecia
mosqueado, com as manchas arredondadas, claras e escuras, salpicadas
com relativa regularidade. Por aqui, por ali, trechos foscos e baços
contrastavam com tufos vivos, profusamente iluminados - rebentos
de vida numa pele doente...
O trem parara e eu abstinha-me de saltar. Uma vez, porém,
o fiz; não sei mesmo em que estação. Tive fome
e dirigi-me ao pequeno balcão onde havia café e bolos.
Encontravam-se lá muitos passageiros. Servi-me e dei uma
pequena nota para pagar. Como se demorassem em trazer-me o troco
reclamei: "Oh! fez o caxeiro indignado e em tom desabrido.
Que pressa tem você?! Aqui não se rouba, fique sabendo?"
Ao mesmo tempo ao meu lado, um rapazola alourado, reclamava o dele,
que lhe foi prazenteiramente entregue. O contraste feriu-me, e com
os olhares que os presentes me lançaram, mais cresceu a minha
indignação. Curti durante segundos, uma raiva muda,
e por pouco ela não rebentou em pranto. Trôpego e tonto,
embarquei e tentei decifrar a razão da diferença dos
dois tratamentos. Não atinei; em vão passei em revista
a minha roupa e a minha pessoa... Os meus dezenove anos eram sadios
e poupados, e o meu corpo regularmente talhado. Tinha os ombros
largos e os membros ágeis e elásticos. As minhas mãos
fidalgas com dedos afilados e esguios, eram herança de minha
mãe, que as tinha tão valentemente bonitas que se
mantiveram assim, apesar do trabalho manual a que a sua condição
a obrigava. Mesmo de rosto, se bem que os meus traços não
fossem extraordinariamente regulares, eu não era hediondo
nem repugnante. Tinha-o perfeitamente oval, e a tez de cor pronun-ciadamente
azeitonada.
Além de tudo, eu sentia que a minha fisionomia era animada
pelos meus olhos castanhos, que brilhavam doces e ternos nas arcadas
superciliares profundas, traço de sagacidade que herdei do
meu pai. Demais, a emanação da minha pessoa, os desprendimentos
da minha alma, deviam ser de mansuetude, de timidez e bondade...
Por que seria então, meu Deus?
Os esforços que fiz, mais espesso tornaram o capacete plúmbeo
que me oprimia o cérebro. O torpor tomou-me mais fortemente
e por fim dormi, dormi não sei quantas horas, não
sei quantos minutos, pois que, ao despertar, era boca da noite,
e o crepúsculo cobria as coisas com uma capa de melancolia
por assim dizer tangível. Afagava, roçava pelas minhas
faces, tocava-me nas mãos de leve como uma pelúcia...
Por entre laranjais dourados de pomos maduros, a locomotiva corria
célere... Chegamos à estação terminal,
mas não acabou aí a viagem. Passamo-nos para uma barca
que atravessou vagarosamente por entre ilhotas até alcançar
o largo da baía.
O espetáculo chocou-me. Repentinamente senti-me outro. Os
meus sentidos aguçaram-se; a minha inteligência entorpecida
durante a viagem, despertou com força, alegre e cantante...
Eu via nitidamente as coisas e elas penetraram em mim até
ao âmago. Convergi todo o meu aparelho de exame para o espetáculo
que me surpreendia. Estive por instantes espasmodicamente arrebatado,
para um outro mundo, adivinhado além das coisas sensíveis
e materiais. Voluptuosamente, cerrei os olhos; depois, aos poucos,
descerrei as pálpebras para olhar embaixo o mar espelhento
e misterioso. A barca vogava, as águas negras abriam - fingindo
resistência, calculando a recusa.
O casario defronte - o da orla da praia, envolvido já nas
brumas da noite, e o do alto, queimando-se na púrpura do
poente - surgia revolto aos meus olhos, bizarramente disposto sem
uma ordem geometricamente definida, mas guardando com as montanhas
que espreitavam a cidade, com as inflexões caprichosas das
colinas e o meandro dos vales, um acordo oculto, sutilmente lógico.
Evolava-se do ambiente um perfume, uma poesia, alguma coisa de unificador,
a abraçar o mar, as casas, as montanhas e o céu; pareciam
erguidos por um só pensamento, afastados e aproximados por
uma inteligência coordenadora que calculasse a divisão
dos planos, abrisse vales, recortasse curvas, a fim de agitar viva
e harmoniosamente aquele amontoado de coisas diferentes... O aconchego,
a tepidez da hora, a solenidade do lugar, o crenulado das montanhas
engastadas no céu côncavo, deram-me impressões
várias, fantásticas, discordantes e fugidias...
Havia um brando ar de sonho, e eu fiquei todo penetrado dele. Andamos.
Agora, a barca movia-se ao longo de uma comprida ilha pejada de
edifícios. Mais perto, mais longe, pequenas lanchas corriam,
erguendo para a pureza do céu irreverentes penachos de fumo;
na linha horizontal de uma terra baixa, ao fundo, onde, dolentemente
agitado pela viração, um esguio coqueiro, firme e
orgulhoso, crescia solitário; grandes cascos escuros de saveiros
e galeras ruminavam placidamente; e botes velozes, cruzando as respectivas
derrotas, brincavam sobre as ondas como crianças travessas...
Um escaler aproximou-se da barca, bem perto; a tripulação
rubicunda entoava uma canção, um hino. O escaler afastou-se
logo, desdenhoso e superior.
Antes de atracar, a noite caiu de todo.
Na cidade longos riscos de fogo brilharam, juntos e espaçados,
retos e curvos, paralelos e emaranhados... Chegamos.
Quando saltei e me pus em plena cidade, na praça para onde
dava a estação, tive uma decepção. Aquela
praça inesperadamente feia, fechada em frente por um edifício
sem gosto, ofendeu-me como se levasse uma bofetada. Enganaram-me
os que me representavam a cidade bela e majestosa. Nas ruas, havia
muito pouca gente e, do bonde em que as ia atravessando, pareciam-me
feias, estreitas, lamacentas, marginadas de casas sujas e sem beleza
alguma.
A rua do Ouvidor, que vi de longe, iluminada e transitada, em pouco
diminuiu a má impressão que me fez a cidade. Pouco
antes de partir, havia-me informado dos hotéis e, por essa
ocasião, recomendaram-me o Hotel Jenikalé, na praça
da República, de módica diária, me dirigi a
ele, no propósito de me demorar os poucos dias exigidos para
obter a colocação que me daria o deputado Castro.
Fui jantar e sentei-me à mesa redonda, onde havia muita gente
a falar de tudo e de todas as coisas. Evitei travar conversa com
qualquer dos circunstantes. Jantei calado, de olhos desconfiados,
baixos, erguendo-os de quando em quando do prato para as gravuras
que guarneciam a sala, sem me animar a pousá-los na fisionomia
de qualquer dos comensais. Não obstante a isso, alguém,
pelo fim do jantar, venceu minha obstinação:
- Creio que viemos juntos...
- Não me recorda, fiz eu polidamente.
- Perfeitamente. O senhor dormia quando embarquei.
- Pode ser...Viajei quase sempre assim... Alonguei a resposta a
muito custo e a medo; mas, arrependido, comecei a pesá-la
bem e vi que por ela o meu interlocutor não me poderia roubar
o fraco pecúlio.
- Vim a negócios... O senhor sabe, continuou o desconhecido;
o senhor sabe: quem quer vai, quem não quer manda... Se me
limito e encomendar a farinha - é uma desgraça! Chega
azeda e de péssima qualidade - então é um inferno!
Os fregueses reclamam; a pretexto disso, não pagam. Para
evitar essas e outras venho de dois em dois meses comprá-la,
eu mesmo... Veja o senhor só - é uma despesa, mas
que se há de fazer?!...
- O senhor está estabelecido?
- Em Itaporanga, sim senhor; tenho uma padaria, pequena sim, mas
rende. O senhor sabe: o pobre não passa sem pão.
Aproveitei um instante em que se virara para o vizinho, para analisar
o padeiro de Itaporanga.
Era um homem baixo, de membros fortes, que respirava com força
e desembaraçadamente. Falando, torcia, com a mão áspera
de antigo trabalhador, o bigode farto. Descobria-se que na sua mocidade
se entregara a trabalhos grosseiros, mas que, de uns tempos a esta
parte, gozava de uma vida mais fácil e leve. O seu olhar,
inquieto e fugidio, mas vivo, quando se fixava, era de velhaco mercadejante,
bem com o código e as leis.
- O senhor veio a passeio? perguntou-me
- Não senhor, disse-lhe de pronto. Vim estudar.
- Estudar!
- De que se admira?
- De nada.
Em seguida, abrindo o rosto queimado e ameigando a voz, em que havia
longinquamente o sotaque português, disse:
- Venha comigo, doutor, vamos dar uma volta.
Não tive tempo de opor uma resposta. O padeiro voltou-se
para os fundos da sala e gritou ao caixeiro:
- José! Charutos...
Aquele homem ia pondo em mim uma singular inquietação.
A sua admiração tão explosiva ao meu projeto
de estudo, as suas maneiras ambíguas e ao mesmo tempo desembaraçadas,
o seu olhar cauteloso, perscrutador e sagaz, junto ao seu ar bonacheirão
e simplório, provocavam-me desencontrados sentimentos de
confiança e desconfiança. Havia nele tanta coisa oposta
à profissão que dizia ter que me pus a desconfiar
- Quem sabe! Entretanto, a sua afabilidade, as suas mãos
grossas...
- Ó José! Os charutos? fez impaciente o negociante.
O caixeiro veio capengando sobre umas amplas botinas, e estendeu-nos
uma caixa cheia de charutos claros, pimpantes, cujo aroma recendia
e tentava a fumá-los.
Sirva-se, doutor! São magníficos! O Machado recebe-os
diretamente.
E com um franzir de sobrolhos, deu-me a entender a origem semicriminosa
dos charutos. Picou a ponta com os dentes, e não sem uma
certa elegância, chegou o fósforo aceso ao seu e depois
de esperar que eu também acendesse, falou-me:
- O doutor conhece o Rio?
- Não, fiz eu prazenteiramente, pois que o tratamento me
agradava. Era a primeira vez que o recebia; lisonjeava-me naturalmente.
- Venha então comigo. Não saio nunca, mas posso acompanhá-lo
na primeira visita. Podemos ir ao teatro, são oito e meia.
Em dois minutos chego ali à confeitaria da Estrada, e antes
das nove estamos no Recreio...
- Mas, meu caro senhor...
- Laje da Silva, um seu criado.
- Mas, meu caro Sr. Laje da Silva, continuei, estou cansado. Seria
melhor...
- Oh! o senhor! Um menino! Deixe-se disso... Vamos, doutor.
O doutor era mágico. Acedi e o Senhor Laje da Silva, negociante
com padaria em Itaporanga, muito orgulhosamente estendeu a perna
esquerda, e dos profundos refolhos da algibeira da calça
respectiva tirou um maço enorme de notas, escolheu uma e
pagou os charutos que fumávamos.
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