RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
Lima Barreto
Capítulo IV
Se os senhores algum dia quiserem encontrar um representante da grande
nação brasileira, não o procurem nunca na sua residência.
Seja a hora que for, de manhã, ao amanhecer mesmo, à hora
de jantar, quando quiserem enfim, se o procurarem, o criado há
de dizer-lhes secamente: Não está. Falo-lhes de experiência
própria, porque, durante as inúmeras vezes, a toda a hora
do dia, em que fui ao Hotel Términus procurar o deputado Castro,
apalpando a carta do Coronel, tive o desprazer de ouvir estas duas palavras
do porteiro indiferente. Nas últimas vezes, antes mesmo de acabar
a pergunta, já o homenzinho respondia invariavelmente da mesma
desesperadora forma negativa.
É bem fácil de imaginar com que sorte de cogitações
eu ia passando esses dias. O meu dinheiro dentro em breve, pago o hotel,
ficaria reduzido a alguns mil-réis insignificantes. Não
conhecia ninguém, não tinha a mínima relação
que me pudesse socorrer, dar-me qualquer coisa, casa ao menos, até
que me arranjasse. Saíra de meus penates, cheio de entusiasmo,
certo de que aquela carta, mal fosse apresentada, me daria uma situação
qualquer. Era essa a minha convicção, dos meus e do próprio
Coronel. Tinha-se lá, por aquelas alturas, em grande conta a força
do doutor Castro nas decisões dos governantes e a influência
do velho fazendeiro sobre o ânimo do deputado.
Não era ele o seu grande eleitor? Não era ele o seu banqueiro
para os efeitos eleitorais? E nós, lá na roça, tínhamos
quase a convicção de que o verdadeiro deputado era o Coronel
e o doutor Castro um simples preposto seu. As minhas idas e vindas ao
hotel repetiam-se e não o encontrava. Vinham-me então os
terrores sombrios da falta de dinheiro, da falta absoluta. Voltava para
o hotel taciturno, preocupado, cortado de angústias. Sentia-me
só, só naquele grande e imenso formigueiro humano, só,
sem parentes, sem amigos, sem conhecidos que uma desgraça pudesse
fazer amigos. Os meus únicos amigos eram aquelas notas sujas, encardidas;
eram elas o meu único apoio; eram elas que me evitavam as humilhações,
os sofrimentos, os insultos de toda a sorte; e quando eu trocava uma delas,
quando as dava ao condutor do bonde, ao homem do café, era como
se perdesse um amigo, era como se me separasse de uma pessoa bem-amada...
Eu nunca compreendi tanto a avareza como naqueles dias que dei alma ao
dinheiro, e o senti tão forte para os elementos da nossa felicidade
externa ou interna...
A minha ignorância de viver e falta de experiência quase deixavam
transparecer a natureza das minhas preocupações. O gerente
do hotel pareceu-me que as farejava. De quando em quando, procurava na
conversação amedrontar-me com o seu poderio, proveniente
de estreitas relações que mantinha com as autoridades. Assim
entendi ser o sentido das anedotas que contava. Uma vez - narrou ele -
depois de uma longa hospedagem, um hóspede quisera furtar-se ao
pagamento. Não tivera dúvidas, fora ao delegado-auxiliar,
um seu amigo, o doutor Arnolpho, contara-lhe o caso e o homem teve que
pagar, se quis tirar as malas. Com ele, era assim; não dormia.
Nada de justiça, de pretorias... Qual! Com a polícia a coisa
vai mais depressa, a questão é ter amigos bons e ele tinha-os
excelentes; e, em seguida, interrogando-me diretamente: O senhor não
viu, ontem, aquele homem gordo que jantou na cabeceira? É o escrivão
da "X". Os escrivães, fique o senhor sabendo, é
que são as verdadeiras autoridades. Os delegados não fazem
senão o que eles querem; tecem os pauzinhos e... E o italiano rematou
com um olhar canalha aquela sua informação sobre a onipotência
dos escrivães.
Foram de imensa angústia esses meus primeiros dias no Rio de Janeiro.
Eu era como uma árvore cuja raiz não encontra mais terra
em que se apóie e donde tire vida; era como um molusco que perdeu
a concha protetora e que se vê a toda a hora esmagado pela menor
pressão.
Oprimido com uma antevisão de misérias a passar, de humilhações
a tragar, o meu espírito deformava tudo que via. Os menores fatos
que lhe caíam ao alcance, eram aumentados de um lado, diminuídos
de outro; fazia-se outra coisa muito diversa para minha sensibilidade
enfermiça, que a imaginação guiava para sentir todos
os terrores e ameaças. Perdia a realidade da vista e vivia subdelirante
num mundo de coisas grotescas, absurdas e não existentes. Punha-me
a apelar para o Acaso, como se tivesse predileções. Esperava
encontrar fortunas perdidas, imaginava impossíveis combinações
de acontecimentos que me favorecessem e cheguei mesmo, por instantes,
a supor que atos de generosidade de minha parte bem podiam trazer-me o
favor de gênios benfazejos. Pelo correr do dia, depois do almoço,
quando me vinha o pensamento da minha situação, entrava
no jardim, dia alto e morno. Aqui e ali, gozando o viço educado
do parque, encontrava fisionomias fatigadas, tristes, tendo estampadas
na comissura dos lábios sem forças a irreparável
derrota na vida. Ao sol do meio-dia, dormitavam pelos bancos, sob a sombra
de árvores vigorosas. Sentava-me por minha vez, sonhava alguns
minutos, em seguida catava com o olhar o chão, esquadrinhava-o
bem. Era então com o coração palpitante que me abaixava
junto à relva para levantar do chão uma velha caixa de fósforos,
lavada e desbotada pelas chuvas, já sem rótulo, humilde
objeto que tenazmente resistira às vassouradas e às intempéries
para atrair o meu olhar maravilhoso. Como se fosse um furto, um crime,
apanhava-a a medo e, depois de inspecionar com cuidado os arredores, abria-a
com respeito, comovido, trêmulo, esperando - oh! meu Deus! - que
dentro dela houvesse uma nota de quinhentos mil-réis.
Oh! quantas vezes não apelei para o Acaso, para o Milagre! Quantas!
Os deuses vinham-me ao pensamento com o seu indispensável cortejo
de fadas e de anjos... Uma noite, andando eu deambulando por umas ruas
desertas do interior da cidade, fui dar não sei a que praça,
em que havia ao fundo uma grande casa; ia distraído, completamente
entregue às minhas preocupações, cabisbaixo, quando
alguém me tomou os passos e me falou com uma voz de apiedar. Era
uma mulher andrajosa; parei e ouvia-a. Balbuciante, contou-me misérias,
a fome dos filhos, moléstias, por fim, não pôde mais
falar - prorrompeu em choro... Evoquei logo aquelas histórias de
fadas e gnomos, aquelas histórias morais em que os gênios
misteriosos vêm pela Terra em disfarce, para experimentar os corações
dos mortais e eu... e eu dei uma nota de esmola uma nota graúda
que me sangrou fortemente a algibeira linfática. Mesmo depois que
saí daquela praça erma, e que de mim se foi a comoção
da surpresa, eu esperei a recompensa, a recompensa dos céus para
aquele meu ato generoso. Alternativamente apelava para o Mistério
e para as potências terrestres. Aferrara-me a duas amarras, uma
no Mistério e outra nas coisas do mundo. Todo o dia ia ao hotel,
cheio de alacridade, figurando comigo mesmo o encontro com o deputado,
imaginava-lhe a bondade do acolhimento, a piedade e a simpatia pelo meu
estado e pelos meus desejos. Imaginava-me daí a dias empregado,
num lugar modesto, de renda certa, dentro de um mês indo à
faculdade, as atribuições do trote, os apertos do Exame,
os anos seguindo-se, as notas, os lentes, a tese, a formatura.
Ia assim risonho, cheio de mim, contente de viver, chegava ao hotel, falava
ao porteiro e voltava amargurado sobre os meus passos felizes. De tarde,
repetia a visita, e mais uma vez voltava desalentado, para ficar na janela
do hotel desanimado, oprimido de saudades do sossego, da quietude, da
segurança do meu lar originário. Era quando me encontrava
com os outros hóspedes. Laje da Silva andava sempre fora, mas os
outros lá estavam depois do jantar. Ao pôr-me à janela,
lá vinha o velho Coronel Figueira, um fazendeiro, sem bigode, à
antiga portuguesa, cheio de mansidão na voz e orgulho no tratar.
- Está vendo a tarde, hein, menino?
- Estou.
- Como isto está mudado! Conheci quando ainda era um brejo, um
depósito de cisco... Havia barrancos, covas, capinzais... As lavadeiras
faziam disto coradouro... Acolá (apontou) estava o teatro, o Provisório...
Oh! o Provisório... Eu me lembro que... (eu era muito rapaz, muito...)
Vim com meu pai assistir à "Sonâmbula"... Nunca
vi uma sala tão bonita... A Stoltz cantava... Nunca ouviu falar
nela?
- Não senhor! E perguntei logo: O senhor é do Rio?
- Não, mas vinha quase sempre aqui. Meu pai tinha fazenda na Raiz
da Serra... Hoje, aquilo não vale nada, mas no tempo dele a estrada
a não tinha matado e era lugar rico... Conheço muito o Rio...
Quando fui para o Sul em 65, passei por aqui... O Imperador veio ver o
desfilar do batalhão... Eu ia triste, pensava em morrer... Não
morri, voltei, estou aqui... Está tudo mudado: abolição,
república... Como isso mudou! Então de uns tempos para cá,
parece que essa gente está doida; botam abaixo, demolem casas,
levantam outras, tampam umas ruas, abrem outras... Estão doidos!!!
- Há quanto tempo não vem ao Rio, coronel?
- Desde 1882.
Semivazios, os bondes passavam ao chouto das bestas. Pelas calçadas,
um vaivém de gente animava a praça. À direita, a
grande e acaçapada fachada do quartel-general começava a
recolher-se na sombra. Mulheres maltrapilhas, aos grupos, negras, mulatas,
brancas, bamboleando as ancas, eram seguidas por soldados gingando. As
calças pareciam mais vermelhas e as mulheres mais sujas. Um coche
de enterro arrancava respeitosamente os chapéus aos transeuntes;
um caminhão, pejado de fardos, por instantes interceptava a marcha
dos bondes, ao desviar-se de uma andorinha que vomitava móveis,
mal suspensos por cordas à sua traseira... Passava tudo isto sob
os meus olhos tristes e desalentados.
O Coronel tinha-se ido; e eu deixava-me a ver e a meditar na solução
do meu problema de vida. O meu olhar ia de baixo para o alto, onde flocos
de nuvens alvadias, esgarçadas, flutuavam e se tingiam de ouro,
de púrpura, de laranja, em rápidas mutações
de teatro. Vinha a noite aos poucos e eu continuava a pensar, acariciando
cismas, excitando recordações, rememorando a minha infância,
as fisionomias que ela viu e os fatos que presenciou. Meu pai, o seu corpo
anguloso, seco, a sua dor contida, que se escapava no seu olhar e na sua
fisionomia transtornada. Via-os às tardes, nos dias de bom humor,
mudá-la de chofre, fazer-se risonho, vir para mim, sentar-se à
mesa, e, à luz do lampião de querosene, explicar-me pitorecamente
as lições do dia seguinte. Ou então, da cadeira de
balanço, contar-me as maravilhosas coisas do movimento da Terra,
dos antípodas, da gravitação universal, e, enleado,
minha pergunta se Deus podia parar a Terra, responder com hesitação
- Pode, sim.
Às oito horas, depois dessas efusões, dessa raras manifestações
da sua paternidade, minha mãe punha, na mesa da sala de jantar,
o chá que ele tomava em geral sozinho no quarto.
- Pode tirar o chá, "seu" padre?
- Pode, minha filha.
Era assim que se falavam. Encontrei sempre esse tratamento distante entre
eles. Pareceu-me que o seu encontro fora rápido, o bastante para
me dar nascimento. Uma crise violenta do sexo fizera esquecer os votos
de seu sacerdócio, vencera a sua vontade, mas, passada ela, viera,
com o arrependimento da quebra do seu voto, a dor inqualificável
de não poder confessar a sua paternidade.
Ele amou-me sempre, talvez me quisesse mais por causa das condições
que envolviam o meu nascimento. Em público, olhava-me de soslaio,
media as carícias, esforçava-se por fazê-las banais;
em casa, porém, quando não havia testemunhas, beijava-me
e afagava-me com transporte. Ele temia o murmúrio, temia dar-lhe
força com os atos ou palavras públicas; entretanto toda
a redondeza quase seria capaz de atestar em papel timbrado a minha filiação...
Vinha o chá, nós ficávamos a tomá-lo e ao
menor ruído minha mãe vinha do interior da casa para saber
se meu pai queria alguma coisa. Acabado o chá, eu ainda ouvia histórias
da tia Benedita, uma preta velha, antiga escrava do meu reverendo pai.
Eram cândidas histórias da Europa, causas delicadas de paixões
de príncipes e pastoras formosas que a sua imaginação
selvagem transformava ou exertava com combates de gênios maus, com
malefícios de feiticeiras, toda uma ronda de forças poderosas
e inimigas da vida feliz dos homens. Tal fora a minha infância,
que, nas dobras da saudade, aquela tarde carregada de cogitações
vitais à minha vida, me vinha trazendo à memória
com uma nitidez assombrosa. Cansado de olhar a rua e de pensar, desci
ao pavimento térreo, à sala de jantar onde o Coronel Figueira
e o Senhor Laje da Silva conversavam. Mal entrava, prazenteiramente, este
exclamou: - Oh doutor!
Era assim sempre que ele falava ao encontrar-me. Tinha sempre atenções,
pequenas delicadezas; tratava-me como se eu fosse um "doutor"
de fato, com influência, inquirindo sobre os meus amigos e as minhas
relações. Se me encontrava na rua, obsequiava-me, apresentava-me
aos amigos, gabava-me o talento de que ele não tinha a mínima
notícia. Quase sempre pela conversa, indagava das minhas amizades,
das minhas relações; se eu era colega de F., se me dava
com Beltrano, se estudava isto ou aquilo. Eu respondia-lhe simplesmente,
ingenuamente que não, que não conhecia ninguém a
não ser o doutor Castro, o deputado. Ele não deixava transpirar
nada, nem uma contração, nem uma ruga que fizesse descobrir
como recebia essas minhas respostas; mas também em coisa alguma
modificava o tratamento; continuava a ser o mesmo, o mesmo Laje da Silva,
mesuroso, afável, informado e loquaz a seu jeito. Não sei
o que esperava de mim, o certo é que, durante os meus primeiros
dias no Rio, recebi dele as mais respeitosas homenagens, as maiores considerações.
Embora ensoberbecesse a minha vaidade de colegial, eu continuava a sentir
no padeiro muito de desonesto, de falcatrueiro, para me ligar inteiramente
a ele. Evitava-o, fugia-lhe, mas não tinha coragem para lhe dar
a entender francamente que não lhe queria a amizade. Aceitava-lhe
as homenagens, os refrescos, conversava, mas sempre com um pequeno medo
de que ele me metesse n'alguma embrulhada com a polícia.
Foi com grande surpresa que o encontrei: supunha-o fora e não pude
reprimir o espanto que isso me causara. Ele não se alterou, respondeu-me
cheio de bonacheirice:
- É verdade, doutor... sim, não há nada que fazer...
tudo por aí está explorado... Uma miséria! Já
se colocou?
A pergunta desagradava-me e ele fazia-ma sempre. Ensaiei diversas respostas
e por fim respondi-lhe capaciosamente:
- Ainda não; mas dentro em breve, creio...
O Coronel Figueira, que falava quando entrei, desejoso de continuar a
palestra interrompida, logo que percebeu acabados os cumprimentos, dirigiu-se
a mim de supetão:
- Dr., pode haver ladroeira na loteria?
Pensei um instante, mas sem encontrar base para uma resposta segura, respondi
dubitativamente:
- Pode.
E logo o velho Coronel, com a sua voz nasal e cheia, em que havia no momento
uma grande satisfação:
- Eu não dizia?... É, sim... Como não pode?
- Mas por que, coronel?
Então explicou-me que discutia isso com Laje e como ele me soubesse
um rapaz preparado, apelara para mim.
- Mas como pode haver ladroeira... É impossível... As rodas
são examinadas, suspensas do solo... Se houvesse qualquer fio,
dava-se logo com ele - não acha?
- Mas então, "seu" Laje, como explica que o "gato"
possa ficar "preso" três meses?
- É a sorte, objetou Laje.
- Qual sorte, fez o Coronel furioso. É bandalheira; é eletricidade...
Ninguém me tira disso... Olhe: há vinte dias sigo a "Borboleta"...
Dava sempre, agora não dá mais... Vejo os jornais, a Joaninha,
a Chapinha, compro o Palpite, a Mascote, a Ronda - todos dão a
"Borboleta". Jogo... "Borboleta" não dá.
Faça o favor, doutor, veja aqui o Jornal do Brasil.
Desdobrou com cuidado a folha popular e apresentou-me o lugar em posição
conveniente. Eu não cogitava que aquele assunto pudesse apaixonar
tão intensamente o velho Coronel que me parecia ser um homem rico;
mesmo não entendia daquilo, mas embora admirado e fora de matéria,
prestei-me graciosamente:
- Procure, disse ele, à esquerda o número 154... Viu?
- Sim senhor.
- Junte o "Peru"... Não é "Peru" que
está pintado?
- É... Mas como?
- Junte o "Peru".
- Como?
- Ora, some o "Peru", grupo 20.
- Ahn! 174.
- Inverta.
- 471.
- Qual! nada! 714, borboleta - não é? E sem esperar a resposta
continuou: Está aí o jornal dá, a gazeta dá
também e o bicho não sai há vinte dias... O dr. não
joga?
- Não senhor.
- Por quê?
- Não gosto; depois, é proibido.
- Proibido! A polícia! exclamou Laje.
- Não é isso, fiz eu vexado daquela minha confissão.
Temo perder dinheiro.
- Ah, bom! Diga isso! Pela polícia, não; ela vive com os
bicheiros... Não serve pra nada, fique certo.
- Eu pensava que...
- Qual! Para o que foi feita, não serve. Serve para perseguir,
executar vinganças, como eu já fui...
- O senhor! dissemos os dois a um só tempo.
- Exato! eu! exclamou um tanto exaltado.
- Como!
- Ora, como?! Uma cilada... Vinha no trem, e, num dado lugar, um sujeito
sentou-se a meu lado e pôs o seu chapéu de sol junto à
janela. Eu viajava desse lado. Saltou e levou o meu, deixando o dele.
Quando chegamos, entrou pelo trem um magote de policiais, prenderam-me,
revistaram-me e foram dar com o tal chapéu cheio de notas falsas
de cem mil-réis.
- Foi preso?
- Preso, só?! Fui esbordoado, metido numa enxovia, gastei dinheiro...
O diabo! E sabe por que tudo isso?
- Não.
- Porque eu apoiava a oposição lá no meu município...
É isso: a polícia, no Brasil... Eu posso falar: sou brasileiro...
A polícia no Brasil só serve para exercer viganças,
e mais nada.
- Por que não processou as autoridades, "seu" Laje? perguntei.
- Qual, menino! você é muito ingênuo... Crê na
justiça, ora!
- O Coronel Figueira continuou as suas queixas contra as loterias e eu
aproveitei uma calma na conversa para me retirar. Conforme o meu hábito
roceiro, dormia cedo. Dirigi-me logo para o quarto. A minha situação
obcecava-me. Se não arranjasse o emprego, que faria? Vinha-me sempre
essa pergunta, depois afigurava-se-me impossível a sua condicional.
Não era a carta de pessoa influente?! Por que não havia
de obter o emprego? Se até então eu não lograra falar
ao deputado, a culpa era minha: não lhe indagara os costumes; não
sabia ao certo a que horas se recolhia ou saía. Devia tê-lo
feito com cuidado e não limitar-me a ir lá todos os dias,
às mesmas horas, como estava fazendo há tantos dias. E logo
concluí: amanhã, ao acordar-me, posto-me à porta
do hotel; ficarei lá o dia inteiro até vê-lo sair
ou entrar, e então, cheio de decisão, abordá-lo-ei
como o meu estado exige. Fiquei admirado de que um alvitre tão
simples só me tivesse lembrado tantos dias depois. Deitado, tive
uma imensa alegria, de quem acaba de descobrir a solução
de um problema, que preocupa a atenção de quatro gerações
de sábios. Dormi satisfeito, de um sono profundo e sem sonhos.
Pela manhã, prescindi o café e pus-me a caminho.
O hotel Términus estava ainda fechado. Esperei junto a um café
aberto. Daí a instantes, aproximou-se da porta a carrocinha que
vai ao mercado. Da boléia, saltou um rapazinho vivaz, simpático
e ligeiro, com o cocheiro e veio em direção ao café.
Tomei-lhe os passo e perguntei-lhe pelo dr. Castro.
- O deputado?
- Sim! O deputado...
- Mora, não há dúvida; mas quase nunca dorme no hotel.
Lá é sua residência oficial; mas de fato onde ele
mora, é na Rua dos Irmãos Araújos, 27, Vila Isabel.
- Ué! Por quê?
- O senhor é do Rio? fez, sem responder-me diretamente o criado.
- Não.
- Está se vendo, se não não se admirava. O senhor
sabe: esses homens têm seus arranjos e não querem que ninguém
saiba. É por isso. Agora, não vá dizer que eu...
Veja lá!
Eu não conhecia bem os bairros da cidade. Não lhes sabia
a importância, o valor, nem as suas vias de comunicações
com o centro, donde não me tinha afastado até ali, senão
para fazer um passeio de pragmática a Botafogo, de que não
gostei. Tive que indagar o caminho e o bonde, depois então corri
ao ponto respectivo. Viajei cheio de ansiedade, com o sangue a correr
aceleradamente pelas artérias, repetindo mentalmente o nome da
rua e o número da casa do dr. Castro. Houve uma vez que me saltaram
pela boca fora, com grande espanto do meu vizinho da esquerda. As ruas
estavam animadas, havia um grande trânsito de veículos, criadas
com cestos, quitandeiros, vendedores de peixe. Aqui e ali, com os cestos
arriados, à porta de uma ou outra casa, discutiam a venda das suas
mercadorias com as donas das casas ainda quase em traje de dormir. Pelas
esquinas, as vendas estavam cheias. O condutor ensinou-me a rua e eu segui
a pé na direção indicada. Não seriam ainda
nove horas quando bati no número vinte e sete, uma casa apalacetada,
afastada da rua, no centro do terreno, entrada do lado e varanda, jardim
na frente e bojudas compoteiras no telhado. A casa erguia-se do solo sobre
um porão de boa altura, com mezaninos gradeados e as janelas, de
sacadas, a olhar para os pequenos canteiros do jardim, a essa hora povoados
de flores que desabrochavam, murchas por aquela manhã quente.
Bati. Quem é? - perguntou uma senhora do alto da escada, à
soleira da porta de entrada. Que podia responder?! Quem era eu? Sei lá...
dizer o meu nome?... como responder?... Afinal, disse bem idiotamente:
Sou eu. Suba, respondeu-me ela. Entrei e subi. Que deseja? Era uma rapariga
moça, entre vinte e cinco ou trinta anos, de grandes quadris e
seios altos; vinha envolta num roupão rosado e tinha o cabelo,
curto e pouco abundante, desnastrado por sobre uma toalha alvadia. Toda
ela deu-me uma impressão de veludo, de pelúcia, de coxim
macio e acariciante. Logo que me aproximei, de novo, me perguntou languidamente,
deixando ver os dentes imaculados: - Que deseja? Expliquei-lhe rapidamente
que vinha ao distrito do deputado e lhe queria falar. Fez-me entrar na
sala, descansou o jornal que até então conservara na mão
esquerda, e explicou-me com bondade:
- O dr. ainda não se levantou; mas não tarda... Esteve trabalhando
até tarde... O sr. sabe: são pareceres sobre pareceres...
Há de esperá-lo um pouco, sim?
- Pois não, minha senhora.
Não disse a resposta com naturalidade, esforcei-me por fazê-la
polida e amável, e saiu-me por isso completamente desajeitada.
Sempre fui assim diante das senhoras, qualquer que seja a sua condição;
desde que as veja num ambiente de sala, são todas para mim marquesas
e grandes damas. É um sentimento perfeitamente imbecil, de que
até hoje não me pude libertar. Certa ocasião mesmo
fui por isso de um ridículo sem nome. Michaelowsky ceava comigo
num restaurante da moda. Era da meia-noite para uma hora; a sala estava
cheia de raparigas de vida airada. Tendo esbarrado a minha cadeira na
de uma delas, pedi com grande humildade cortesã: - Desculpe-me
V. Exª. A mulher, grande espanhola cheia de rugas e pó-de-arroz,
olhou-me cheia de raiva e desandou-me uma descompostura, julgando que
eu a troçava. Michaelowsky, porém, interveio e deu-lhe explicações
cabais na sua língua de origem. Ela riu-se muito, contou à
companheira e em breve a sala toda me olhava, com uma risota nos lábios.
Diante daquela mulher, na casa particular do deputado, cuja situação
nela era fácil de descobrir, eu fiquei nessa atitude de menino
tímido que me invade, sempre que estou em presença de mulheres,
numa sala qualquer. Não lhe falei: não pude provocar a palestra;
ela fatigou-se de olhar, levantou-se desculpando-se: - O senhor há
de me desculpar... Tenho que fazer, vou até lá dentro e
o doutor não há de tardar.
Ainda hoje, depois de tantos anos de desgostos, dessa relação
contínua pela minha luta íntima, precocemente velho pelo
entrechoque de forças da minha imaginação desencontrada,
desproporcionada e monstruosa, lembro-me - com saudade! com que frenesi!
- do inebriamento que essa mulher deu aos meus sentidos, com o seu perfume
violentamente sexual, acre e estonteante, espécie de requeime das
especiarias das Índias... Ergueu-se e foi lentamente pelo corredor
em fora; e eu segui com o olhar a sua nuca tentadora com tonalidade de
bronze novo.
Eu conhecia a legítima esposa do Castro. Que diferença!
Era quase uma velha encarquilhada, cheia de pelancas e fatuidade...
Quando a perdi de vista, pus-me a reparar na sala, com umas oleogravuras
sentimentais e uns bibelots de pacotilha. Demorei-me assim uma meia hora;
por fim, o homem veio. Entreguei-lhe a carta. Leu-a num instante, tendo
na testa uma ruga de aborrecimento; depois perguntou-me:
- É o senhor?
- Sim senhor.
- Você (mudou logo de tratamento) sabe perfeitamente como as coisas
vão: o país está em crise, em apuros financeiros,
estão extinguindo repartições, cortando despesas;
é difícil arranjar qualquer coisa; entretanto...
- Mas doutor eu não queria grande coisa... Cem mil-réis
por mês me bastava... Todos por aí arranjam e eu...
- Sim... Sim.... Mas têm grandes recomendações, poderosos
padrinhos - eu, o que valho? Nada! Ainda agora o Ministro do Interior
não nomeou o meu candidato para juiz do júri...
- Se V. Exª quisesse...
- Você, por que não faz um concurso?
- Não posso, não os há anunciados e eu preciso qualquer
coisa já...
E assim fomos conversando: ele falsamente paternal e eu, à medida
que o diálogo se prolongava, caloroso e eloqüente. Houve ocasião
em que ele exprobrou essa nossa mania de empregos e doutorado, citando
os ingleses e os americanos. - Todo o mundo quer ser doutor... Corei indignado
e respondi com alguma lógica, que me era impossível romper
com ela; se os fortes, os aparentados, os relacionados para ela apelavam,
como havia eu, mesquinho, semi-aceito, de fazer exceção?
Recomendou-me que o procurasse no escritório, que havia de ver...
Se bem que me tivesse acolhido com polidez, senti que o coronel nada decidia
no ânimo do deputado. Julguei que mais do que pela carta o seu acolhimento
fora ditado por uma frouxidão de caráter, por certa preguiça
de vontade e desejo de mentir a si mesmo. A sua fisionomia empastada,
o seu olhar morto e a sua economia de movimentos deram-me essa impressão.
Demais aquela ruga na testa quando deu comigo...
No bonde, comprei um jornal. O veículo ia-se enchendo: meninas
da Escola normal, cheias de livros, de lápis e réguas; funcionários
de roupas surradas; pequenos militares com uniformes desbotados...
Conversavam; discutiam os casos políticos e os de polícia,
enquanto eu lia. Num dado momento, na segunda página, dei com esta
notícia: "Parte hoje para São Paulo, onde vai estudar
a cultura do café, o dr. H. de Castro Pedreira, deputado federal.
S. Ex.ª demorar-se-á..."
Patife! Patife! A minha indignação veio encontrar os palestradores
no máximo de entusiasmo. O meu ódio, brotando naquele meio
de satisfação, ganhou mais força. Num relâmpago,
passaram-me pelos olhos todas as misérias que me esperavam, a minha
irremediável derrota, a minha queda aos poucos - até onde?
até onde? E ficava assombrado que aquela gente não notasse
o meu desespero, não sentisse a minha angústia... Imbecis!
pensei eu. Idiotas que vão pela vida sem examinar, vivendo quase
por obrigação, acorrentados às suas misérias
como galerianos à calceta! Gente miserável que dá
sanção aos deputados, que os respeita e prestigia! Por que
não lhes examinam as ações, o que fazem e para que
servem? Se o fizessem... Ah! se o fizessem! Que surpresa! Riem-se, enquanto
do suor, da resignação de vocês, das privações
de todos tiram ócios de nababo e uma vida de sultão... Veio-me
um assomo de ódio, de raiva má, assassina e destruidora;
um baixo desejo de matar, de matar muita gente, para ter assim o critério
da minha existência de fato. Depois dessa violenta sensação
na minha natureza, invadiu-me uma grande covardia e um pavor sem nome:
fiquei amedrontado em face das cordas, das roldanas, dos contrapesos da
sociedade; senti-os por toda a parte, graduando os meus atos, anulando
os meus esforços; senti-os insuperáveis e destinados a esmagar-me,
reduzir-me ao mínimo, a achatar-me completamente... Continuei a
leitura. As letras dançavam sob meus olhos, a compreensão
faltava-me... Saltara dos meus desejos heróicos para imaginar expedientes
com que me saísse da miséria em perspectiva. Aceitaria qualquer
coisa, qualquer emprego... Recordei-me das minhas leituras, daquele Poder
da Vontade, das suas biografias heróicas: Palissy, Watt, Franklin...
Sorri satisfeito, orgulhoso; havia de fazer como eles. De novo, voltei
à leitura do jornal. Ao fim de uma coluna, lá estava um
nome conhecido. Senhor Manuel Laje da Silva, capitalista e industrial...
Que acontecera? Recebera a bênção papal até
a décima quinta geração. A notícia vinha cheia
de gabos à sua atividade e à sua honestidade...
Um sujeito entrou no bonde, deu-me um grande safanão, atirando-me
o jornal ao colo, e não se desculpou. Esse incidente fez-me voltar
de novo aos meus pensamentos amargos, ao ódio já sopitado,
ao sentimento de opressão da sociedade inteira... Até hoje
não me esqueci desse episódio insignificante que veio reacender
na minha alma o desejo feroz de reivindicação. Senti-me
humilhado, esmagado, enfraquecido por uma vida de estudo, a servir de
joguete, de irrisão a esses poderosos todos por aí. Hoje
que sou um tanto letrado sei que Stendhal dissera que são esses
momentos que fazem os Robespierres. O nome não me veio à
memória, mas foi isso que eu desejei chegar ser um dia.
Escrevendo estas linhas, com que saudades me não recordo desse
heróico anseio dos meus dezoito anos esmagados e pisados! Hoje!...
É noite. Descanso a pena. No interior da casa, minha mulher acalenta
meu filho mais moço. A sua cantiga chega-me aos ouvidos cheia de
um grande acento de resignação. Saiu, e vou à varanda.
A lua, no crescente, banha-me com meiguice, a mim e a minha humilde casa
roceira. Por momentos deixo-me ficar sem pensamentos, envolto na fria
luz da lua, e embalado pela ingênua cantilena de minha mulher. Correm
alguns instantes; ela cessa de cantar e o brilho do luar é empanado
por uma nuvem passageira. Volto às minhas reminiscências:
vejo o bonde, a gente que o enchia, os sofrimentos que me agitavam, a
rua agitada...
Os meus desejos de vingança fazem-me agora sorrir e não
sei por que, do fundo da minha memória, com essas recordações
todas, chega-me também a imagem de uma pesada carroça, com
um grande lajedo suspenso por fortes correntes de ferro, vagarosamente
arrastada pelos paralelepípedos, por uma junta de bois enormes,
que o carreteiro fazia andar com gritos e ferroadas desapiedadas...
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