Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO LXXXIV
COM QUE ENTÃO, Sofia queria casá-lo? saiu pensando
o Rubiãoera naturalmente o processo mais expedito para descartar-se
dele. Casá-lo, fazê-lo seu primo. Rubião palmilhou
muita rua, antes que chegasse a esta outra hipótese-talvez
Sofia não se houvesse esquecido,
mas mentisse de propósito ao marido para não dar andamento
ao projeto. Neste caso o sentimento era outro. Esta explicação
pareceu-lhe lógicaa alma voltou à serenidade anterior.
CAPÍTULO LXXXV
MAS NÃO
HÁ SERENIDADE moral que corte uma polegada sequer às
abas do tempo, quando a pessoa não tem maneira de o fazer
mais curto. Ao contrário, a ânsia de ir ao Flamengo,
à noite, vinha tornar as horas mais arrastadas. Era cedo,
cedo para tudo, para ir à Rua do Ouvidor, para voltar a Botafogo.
O Dr. Camacho estava em Vassouras defendendo um réu no júri.
Não havia divertimento algum público, festa nem sermão.
Nada. Rubião, profundamente aborrecido, trocava as pernas,
à toa, lendo as tabuletas, ou detendo-se ao simples incidente
de um atropelo de carros. Em Minas, não se aborrecia tanto,
por quê? Não achou solução ao enigma,
uma vez que o Rio de Janeiro tinha mais em que se distrair, e que
o distraía deveras mas havia aqui horas de um tédio
mortal.
Felizmente,
há um deus para os enojados. Acudiu à memória
de Rubião que o Freitas,-aquele Freitas tão alegre,-estava
gravemente enfermo; Rubião chamou um tílburi e foi
visitá-lo à Praia Formosa, onde morava. Gastou ali
perto de duas horas, conversando com o doente; este adormeceu, ele
despediu-se da mãe,-um caco de velha,-e à porta antes
de sair
-A senhora
há de ter tido seus apertos de dinheiro, disse Rubião
e, vendo-a morder o beiço e baixar os olhosNão se
envergonhe; necessidade aflige, mas não envergonha. Eu o
que queria era que a senhora aceitasse alguma cousa, que lhe vou
deixar para acudira despesa, pagará um dia, se puder...
Tinha aberto
a carteira, tirou seis notas de vinte mil-réis, fez um bolo
de todas elas, e deixou-lho na mão. Abriu a porta e saiu.
A velha, espantada, nem teve alma para agradecer; só ao rodar
do tílburi, é que correu à janela, mas já
não podia ver o benfeitor.
CAPÍTULO
LXXXVI
TUDO AQUILO SAIU tão espontaneamente ao Rubião, que
ele só teve tempo de refletir, depois que o tílburi
começou a andar. Parece que chegou a levantar a cortina do
postigo; a velha ia entrando; viu-lhe ainda o resto do braço.
Rubião sentiu toda a vantagem de não estar inválido.
Reclinou-se, desabafou o peito com um grande suspiro e olhou para
a praia; logo depois inclinou-se. Na vinda, mal pudera vê-la.
-Vossa Senhoria
está gostando, disse-lhe o cocheiro contente com o bom freguês
que tinha.
-Acho bonito.
-Nunca veio
aqui?
-Creio que
vim, há muitos anos, quando estive no Rio de Janeiro pela
primeira vez. Que eu sou de Minas. . . Pare, moço.
O cocheiro
fez parar o cavaloRubião desceu, e disse-lhe que fosse andando
devagar.
Em verdade,
era curioso. Aquelas grandes braçadas de mato, bro-tando
do lodo, e postas ali ao pé da cara do Rubião, davam-lhe
vontade de ir ter com elas. Tão perto da rua! Rubião
nem sentia o sol. Esquecera o doente e a mãe do doente. Assim
sim, - dizia ele consigo,-fosse o mar todo uma cousa daquele feitio,
alastrado de terras e verduras, e valia a pena navegar. Para lá
daquilo ficava a Praia dos Lázaros e a de S. Cristóvão.
Uma pernada apenas.
-Praia Formosa,
murmurou ele; bem posto nome.
Entretanto,
a praia ia mudando de aspecto. Dobrava para o Saco do Alferes, vinham
as casas edificadas do lado do mar. De quando em quando, não
eram casas, mas canoas, encalhadas no lodo, ou em terra, fundo para
o ar. Ao pé de uma dessas canoas, viu meninos brincando em
camisa e descalços, em volta de um homem que estava de barriga
para baixo. Todos eles riam; um ria mais que os outros porque não
acabava de fixar o pé do homem no chão. Era um pequerrucho
de três anos; agarrava-se-lhe à perna e ia-a estendendo
até nivelá-la com o chão, mas o homem fazia
um gesto e levava pelo ar o pé e o menino.
Rubião
deteve-se alguns minutos diante daquilo. O sujeito, vendo-se objeto
de atenção, redobrou o esforço no brincoperdeu
a naturalidade. Os outros meninos mais idosos detiveram-se a olhar
espantados. Mas Rubião não distinguia nada; via tudo
confusamente. Foi ainda a pé durante largo tempo; passou
o Saco do Alferes, passou a Gamboa, parou diante do cemitério
dos ingleses, com os seus velhos sepulcros trepados pelo morro,
e afinal chegou à Saúde. Viu ruas esguias, outras
em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, becos,
muita casa antiga, algumas do tempo do reis comidas, gretadas, estripadas,
o cais encardido e a vida lá dentro E tudo isso lhe dava
uma sensação de nostalgia... Nostalgia do farrapo,
da vida escassa, acalcanhada e sem vexame. Mas durou pouco; o feiticeiro
que andava nele transformou tudo. Era tão bom não
ser pobre!
CAPÍTULO LXXXVII
RUBIÃO
chegou ao fim da Rua da Saúde. Ia à toa com os olhos
espraiados e desatentos. Rente com ele, passou uma mulher, não
bonita, nem singela sem elegância, antes pobre que remediada,
mas fresca de feições, contaria vinte e cinco anos,
e levava pela mão um menino. Este atrapalhou-se nas pernas
do Rubião.
-Que é
isso, nhonhô? disse a moça, puxando o filho pelo braço.
Rubião
inclinara-se ao pequeno, para ampará-lo.
-Muito obrigada,
desculpe, disse ela sorrindo- e cumprimentou-o. Rubião tirou
o chapéu, sorriu também. A visão da família
apoderou-se dele outra vez.-"Case-se e diga que eu o engano!"
Parou, olhou para trás, viu ir a moça, tique-tique,
e o menino ao pé dela, amiudando as perninhas, para ajustar-se
ao passo da mãe. Depois, foi andando lentamente, pensando
em várias mulheres que podia escolher muito bem, para executar,
a quatro mãos, a sonata conjugal, música séria,
regular e clássica. Chegou a pensar na filha do major e que
apenas sabia umas velhas mazurcas. De repente, ouvia a guitarra
do pecado, tangida pelos dedos de Sofia, que o deliciavam, que o
estonteavam, a um tempo; e lá se ia toda a castidade do plano
anterior. Teimava novamente, forcejava por trocar as composições;
pensava na moça da Saúde, modos tão bonitos,
criancinha pela mão...
CAPÍTULO
LXXXVIII
A VISTA DO
TÍLBURI fez-lhe lembrar o doente da Praia Formosa.
-Pobre Freitas!
suspirou.
Logo depois,
pensou também no dinheiro que deixara à mãe
do enfermo, e achou que fizera bem. Talvez a idéia de haver
dado uma ou duas notas demais esvoaçou por alguns segundos
no cérebro do nosso amigo; ele a sacudiu depressa, não
sem se zangar consigo e para esquecê-la de todo, exclamou
ainda em voz alta
-Boa velha!
pobre velha!
CAPÍTULO
LXXXIX
COMO A IDÉIA
tornasse ainda, Rubião atirou-se depressa ao tílburi,
entrou e sentou-se, falando ao cocheiro, para fugir a si mesmo.
-Dei uma caminhada
grande; mas, sim, senhor, isto aqui é bonito, é curioso;
aquelas praias, aquelas ruas, é diferente dos outro; bairros.
Gosto disto. Hei de vir mais vezes.
O cocheiro
sorriu para si de um modo tão particular, que o nosso Rubião
desconfiou. Não atinava com o motivo do riso; talvez lhe
houvesse escapado alguma palavra que no Rio de Janeiro tivesse mau
sentido, mas repetiu-as e não descobriu nada; eram todas
usadas e comuns. Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo
ar d princípio, meio subserviente, meio velhaco. Rubião
esteve a pique de o interrogar, mas recuou a tempo. Foi o outro
que reatou a conversação.
-Vossa Senhoria
está então muito admirado do bairro? disse ele. Há
de deixar que eu não acredite, sem se zangar, que não
para ofender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que agrave um freguês
sério; mas não creio que esteja admirado do bairro.
-Por quê?
aventurou Rubião.
O cocheiro
meneou a cabeça para um e outro lado, e insistiu em não
crer,-não porque o bairro não fosse digno de apreço,
mas porque naturalmente já o conhecia muito. Rubião
ratificou a primeira afirmação; tinha ido ali muitos
anos antes, quando esteve da outra vez no Rio de Janeiro, mas não
se lembrava de nada. E o cocheiro ria; e, à medida que o
freguês ia demonstrando, ele ia fi-cando mais familiar, fazia
negativas com o nariz, com os beiços, com a mão.
-Já
sei disso, concluiu ele. Nem eu sou homem que não veja as
cousas. Vossa Senhoria pensa que não vi a maneira por que
olhou para aquela moça que passou ainda agora? Basta só
isso para mostrar que Vossa Senhoria tem faro e gosta. . .
Rubião,
lisonjeado, sorriu um pouco; mas emendou-se logo:
-Que moça?
-Que lhe dizia
eu? redargüiu o homem. Vossa Senhoria é fino, e faz
muito bem; mas eu sou pessoa de segredo, e cá o carro tem
servido para estas idas e vindas. Não há muitos dias
trouxe um belo moço, muito bem vestido, pessoa fina, -já
se sabe, negócio de rabo de saia.
-Mas eu...
interrompeu Rubião.
Mal podia conter-se;
a suposição agradava-lhe; o cocheiro cuidou que ele
dissimulava a culpa.
-Olhe, eu bem
digo,-continuou ele; tal qual o moço da Rua dos Inválidos.
Vossa Senhoria pode ficar descansado; não digo nada; cá
estou para outras. Então, quer que eu acredite que é
por gosto que uma pessoa, que tem carro às ordens, vem andando
a pé desde a Praia Formosa até aqui? Vossa Senhoria
veio ao lugar marcado, a pessoa não veio...
-Que pessoa?
Fui ver um doente, um amigo que está para morrer.
-Tal qual o
moço da Rua dos Inválidos, repetiu o homem. Esse veio
ver uma costureira da mulher, como se fosse casado. . .
-Da Rua dos
Inválidos? perguntou Rubião, que só agora atentava
no nome da rua.
-Não
digo mais nada, acudiu o cocheiro. Era da Rua dos Inválidos,
bonito, um moço de bigodes e olhos grandes, muito grandes.
Oh! eu também se fosse mulher, era capaz de apaixonar-me
por ele... Ela não sei donde era, nem diria ainda que soubesse;
sei só que era um peixão.
E vendo que
o freguês o escutava com os olhos arregalados
-Oh! Vossa
Senhoria não imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a
cara meia coberta por um véu, cousa papa-fina. A gente, por
ser pobre, não deixa de apreciar o que é bom.
-Mas... como
foi? murmurou Rubião.
-Ora, como
foi! Ele chegou como Vossa Senhoria, no meu tílburi, apeou-se
e entrou numa casa de rótula; disse que ia ver a costureira
da mulher. Como eu não lhe perguntei nada, e ele tinha vindo
calado toda a viagem, muito cheio de si, compreendi logo a finura.
Agora, podia ser verdade, porque é mesmo uma costureira que
mora na casa da Rua da Harmonia. . .
-Da Harmonia?
repetiu Rubião.
-Mau! Vossa
Senhoria está arrancando o meu segredo; mudemos de assunto;
não digo mais nada.
Rubião
olhava atônito para o homem, que de fato se calou por dous
ou três minutos, mas logo depois continuou
-Também
não há muita cousa mais. O moço entrou; eu
fiquei esperando, meia hora depois vi um vulto de mulher, ao longe,
e desconfiei logo que ia para lá. Meu dito, meu feito; ela
veio, veio, devagar, olhando disfarçadamente para todos os
lados; ao passar pela casa, não lhe digo nada, nem precisou
bater; foi como nas mágicas, a rótula abriu-se por
si, e ela enfiou por ali dentro. Se eu já conheço
isto. Em que é que Vossa Senhoria quer que a gente ganhe
cobrinhos mais? O preço da tabela mal dá para comer;
é precise fazer estes ganchos.
CAPÍTULO XC
"NÃO, NÃO PODIA ser ela", refletiu Rubião,
em casa, vestindo-se de preto.
Desde que chegara,
não pensou em outra cousa que não fosse o caso contado
pelo cocheiro do tílburi. Tentou esquecê-lo, arranjando
papéis, ou lendo, ou dando estalinhos com os dedos para ver
pular o Quincas Borba; mas a visão perseguia-o. Dizia-lhe
a razão que há muitas senhoras de boa figura, e nada
provava que a da Rua da Harmonia fosse ela; mas o bom efeito era
curto. Daí a pouco, desenhava-se ao longe, cabisbaixa, vagarosa,
uma pessoa, que era nem mais nem menos a própria Sofia, e
andava, e entrava de repente pela porta de uma casa, que se fechava
logo... A visão foi tal, em certa ocasião, que o nosso
amigo ficou a olhar para a parede, como se ali estivesse a rótula
da Rua da Harmonia. De imaginação, fez uma série
de ações-bateu, entrou, lançou a mão
ao gasnate da costureira, e pediu-lhe a verdade ou a vida. A pobre
mulher, ameaçada da morte, confessou tudo; levou-o a ver
a dama, que era outra, não era Sofia. Quando Rubião
voltou a si, sentiu-se vexado
"Não,
não podia ser ela."
Vestiu o colete,
e foi abotoá-lo diante de uma das janelas, que dava para
os fundos, no momento em que uma caravana de formigas ia passando
pelo peitoril. Quantas vira passar outrora! Mas, desta vez, nunca
soube como, pegou de uma toalha, deu dous golpes, atropelou as tristes
formigas, matando uma porção delas. Talvez alguma
lhe pareceu "boa figura e bonita de corpo". Logo depois
arrependeu-se do ato; e realmente, que tinham as formigas com as
suas suspeitas? Felizmente, começou a cantar uma cigarra,
com tal propriedade e significação, que o nosso amigo
parou no quarto botão do colete. Sôôôô..
. fia, fia, fia, fia, fia, fia. . . Sôôôô.
. . fia, fia, fia, fia, fia...
Oh! precaução sublime e piedosa da natureza, que põe
uma cigarra viva ao pé de vinte formigas mortas, para compensá-las.
Essa reflexão é do leitor. Do Rubião não
pode ser. Nem era capaz de aproximar as cousas, e concluir delas-nem
o faria agora que está a chegar ao último botão
do colete, todo ouvidos, todo cigarra .
Pobres formigas
mortas! Ide agora ao vosso Homero gaulês, que vos pague a
fama; a cigarra é que se ri, emendando o texto
Vous marchiez?
J'en suis fort aise.
Eh bien! mourez
maintenant.
CAPÍTULO
XCI
Soou A CAMPAINHA de jantar; Rubião compôs o rosto,
para que os seus habituados (tinha sempre quatro ou cinco) não
percebessem nada. Achou-os na sala de visitas, conversando, à
espera; ergueram-se todos, foram apertar-lhe a mão, alvoroçadamente.
Rubião teve aqui um impulso inexplicável,-dar-lhes
a mão a beijar. Reteve-se a tempo, espantado de si próprio.
CAPÍTULO XCII
DE NOITE, correu à Praia do Flamengo. Não pôde
falar a Maria Be-nedita, que estava em cima, no quarto, com duas
moças da vizinhança, amigas dela. Sofia veio recebê-lo
à porta, e levou-o para o gabinete, onde duas costureiras
faziam os vestidos de luto. O marido acabava de chegar; ainda não
descera.
-Sente-se aqui,
disse ela.
Tomou conta
dele; estava divina. As palavras saíam-lhe carinhosas e graves,
entrecortadas de sorrisos amigos e honestos. Falou-lhe da tia, da
prima, do tempo, dos criados, dos espetáculos, da falta d'água,
de uma multidão de cousas diversas vulgares ou não,
mas que pas-sando pela boca da moça, mudavam de natureza
e de aspecto. Rubião ouvia fascinado. Ela, para não
estar vadia, ia cosendo uns folhos; e, quando a conversação
fazia pausa, Rubião era pouco para comer-lhe as mãos
ágeis, que pareciam brincar com a agulha.
-Sabe que estou
formando uma comissão de senhoras? perguntou ela.
-Não
sabia; para quê?
-Não
leu a notícia daquela epidemia numa cidade das Alagoas?
Contou-lhe
haver ficado tão penalizada, que resolveu logo orga-nizar
uma comissão de senhoras, para pedir esmolas. A morte da
tia interrompeu os primeiros passos; mas ia continuar, passada a
missa do sétimo dia. E perguntou que lhe parecia.
-Parece-me
bem. Não há homens na comissão?
-Há
só senhoras. Os homens apenas dão dinheiro, concluiu
rindo.
Rubião,
de cabeça, subscreveu logo uma quantia grossa, para obri-gar
os que viessem depois. Era tudo verdade. Era também verdade
que a comissão ia pôr em evidência a pessoa de
Sofia, e dar-lhe um empurrão para cima. As senhoras escolhidas
não eram da roda da nossa dama, e só uma a cumprimentava;
mas, por intermédio de certa viúva, que brilhara entre
1840 e 1850, e conservava do seu tempo as saudades e o apuro, conseguira
que todas entrassem naquela obra de caridade. Desde alguns dias
não pensara em outra cousa. Às vezes, à noite,
antes do chá, parecia dormir na cadeira de balanço;
não dormia, fechava os olhos para considerar-se a si mesma,
no meio das companheiras, pessoas de qualidade. Compreende-se que
este fosse o assunto principal da conversação; mas,
Sofia tornava de quando em quando ao presente amigo. Por que é
que ele fazia fugidas tão longas, oito, dez, quinze dias,
e mais? Rubião respondeu que por nada, mas tão comovido,
que uma das costureiras bateu no pé da outra. Daí
em diante, ainda quando o silêncio era largo, cortado apenas
pelo som das agulhas no merinó, das tesouradas, dos rasgados,
uma e outra não perdiam de vista a pessoa do nosso amigo,
com os olhos fisgados na dona da casa.
Veio uma visita
de pêsames, -um homem, diretor de banco. Foram chamar logo
o Palha, que desceu a recebê-lo. Sofia pediu licença
ao Rubião, por alguns segundos, ia ver Maria Benedita.
CAPÍTULO XCIII
RUBIÃO, ficando só com as duas mulheres, entrou a
andar de um lado para outro, abafando os passos, para não
incomodar ninguém Da sala vinha uma ou outra palavra do Palha"Em
todo o caso, pode crer..."-"Nem a administração
de um banco cousa de brincadeira..." -"Positivamente..."
O diretor falava pouco, seco e baixo.
Uma das costureiras
dobrou a costura, arrecadou apressadamente retalhos, tesouras, carretéis
de linha, de retrós. Era tarde; ia-se embora.
-Dondon, espera
um bocado que eu vou também.
-Não,
não posso. O senhor faz favor de dizer que horas são?
-São
oito e meia, respondeu Rubião.
-Jesus! é
muito tarde.
Rubião,
para dizer alguma cousa, perguntou-lhe por que não esperava,
como a outra pedia.
-Só espero D. Sofia, acudiu Dondon com respeito, mas o senhor
sabe onde é que esta mora? Mora na Rua do Passeio. E eu vou
dar com os ossos na Rua da Harmonia. Olha que daqui à Rua
da Harmonia é um estirão.
CAPÍTULO XCIV
SOFIA DESCEU LOGO, achou Rubião transtornado, fugindo com
os olhos. Perguntou-lhe o que era; ele respondeu que nada, dor de
cabeça. Dondon saiu, o diretor do banco despedia-se; Palha
agradecia-lhe a fineza, estimava-lhe a saúde. Onde estava
o chapéu? Achou-o; deu-lhe também o sobretudo; e,
parecendo que ele procurava outra cousa, perguntou se era a bengala.
-Não,
senhor, é o guarda-chuva. Creio que é este; é
este. Adeus
-Ainda uma
vez, obrigado, muito obrigado, disse o Palha. Ponha o seu chapéu,
está úmido, não faça cerimônias.
Obrigado, muito obrigado, concluiu apertando-lhe a mão nas
suas, e curvado em ângulo.
Voltando ao
gabinete, deu com o sócio, que teimava em sair. Instou também,
disse-lhe que tomasse uma xícara de chá, que lhe passava
logo; Rubião recusou tudo.
-A sua mão
está fria, observou a moça ao Rubião, apertando-lha;
por que não espera? Água de melissa é muito
bom. Vou buscar.
Rubião
deteve-a; não era preciso, conhecia aqueles achaques, curavam-se
com sono. Palha quis mandar vir um tílburi; mas o outro acudiu
dizendo que o ar da noite lhe faria bem, e que no Catete acharia
condução.
CAPÍTULO
XCV
"VOU AGARRÁ-LA
ANTES de chegar ao Catete", disse Rubião subindo pela
Rua do Príncipe.
Calculou que
a costureira teria ido por ali. Ao longe, descobriu alguns vultos
de um e outro lado; um deles pareceu-lhe de mulher. Há de
ser ela, pensou; e picou o passo. Entende-se naturalmente que levava
a cabeça atordoadaRua da Harmonia, costureira, uma dama e
todas as rótulas abertas. Não admira que, fora de
si, e andando rápido, desse um encontrão em certo
homem que ia devagar, cabisbaixo. Nem lhe pediu desculpa; alargou
o passo, vendo que a mulher também andava depressa.
CAPÍTULO
XCVI
E o HOMEM empurrado, apenas sentiu o empurrão. Caminhava
absorto, mas contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados
e fastios. Era o diretor de banco, o que acabava de fazer a visita
de pêsames ao Palha. Sentiu o empurrão, e não
se zangou; concertou o sobretudo e a alma, e lá foi andando
tranqüilamente.
Convém
dizer, para explicar a indiferença do homem, que ele tivera,
no espaço de uma hora, comoções opostas. Fora
primeiro à casa de um ministro de Estado, tratar do requerimento
de um irmão. O ministro, que acabava de jantar, fumava calado
e pacífico. O diretor expôs atrapalhadamente o negócio,
tornando atrás, saltando adiante, ligando e desligando as
frases. Mal sentado, para não perder a linha do respeito,
trazia na boca um sorriso constante e venerador; e curvava-se, pedia
desculpas. O ministro fez algumas perguntas; ele, animado, deu respostas
longas, extremamente longas, e acabou entregando um memorial. Depois
ergueu-se, agradeceu, apertou a mão ao ministro, este acompanhou-o
até à varanda. Aí fez o diretor duas cortesias,-uma
em cheio, antes de descer a escada,-outra em vão, já
embaixo, no jardim; em vez do ministro, viu só a porta de
vidro fosco, e na varanda, pendente do tecto, o lampião de
gás. Enterrou o chapéu, e saiu. Saiu humilhado, vexado
de si mesmo. Não era o negócio que o afligia , mas
os cumprimentos que fez, as desculpas que pediu, as atitudes subalternas,
um rosário de atos sem proveito. Foi assim que chegou à
casa do Palha.
Em dez minutos,
tinha a alma espantada e restituída a si mesma, tais foram
as mesuras do dono da casa, os apoiados de cabeça, e um raio
de sorriso perene, não contando oferecimentos de chá
e charutos O diretor fez-se então severo, superior, frio,
poucas palavras; chegou a arregaçar com desdém a venta
esquerda, a propósito de uma idéia do Palha, que a
recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do ministro o
gesto lento. Saindo, não foram dele as cortesias, mas do
dono da casa.
Estava outro,
quando chegou à rua, daí o andar sossegado e satisfeito,
o espraiar da alma devolvida a si própria, e a indiferença
com que recebeu o embate do Rubião. Lá se ia a memória
dos seus rapapés; agora o que ele rumina saborosamente são
os rapapés de Cristiano Palha.
CAPÍTULO
XCVII
QUANDO RUBIÃO chegou à esquina do Catete a costureira
conversava com um homem, que a esperara, e que lhe deu logo depois
o braço; viu-os ir ambos, conjugalmente, para o lado da Glória.
Casados? amigos? Perderam-se na primeira dobra da rua, enquanto
Rubião ficou parado, recordando as palavras do cocheiro,
a rótula moço de bigodes, a senhora de bonito corpo,
a Rua da Harmonia Rua da Harmonia; ela dissera Rua da Harmonia.
Deitou-se tarde.
Parte do tempo esteve à janela, matutando, charuto aceso,
sem acabar de explicar aquele negócio. Dondon era por força
a terceira nos amores; devia ser, tinha olhos sonsos, pensou Rubião.
"Amanhã
vou lá, saio mais cedo, vou esperá-la na esquina,
dou-lhe cem mil-réis, duzentos, quinhentos; ela há
de confessar-me tudo."
Quando cansou,
olhou para o céu; lá estava o Cruzeiro. . . Oh!; ela
houvesse consentido em fitar o Cruzeiro! Outra teria sido a vida
de ambos. A constelação pareceu confirmar este modo
de sentir, fulgurando extraordinariamente; e Rubião quedou-se
a mirá-la, a com por mil cenas lindas e namoradas,-a viver
do que podia ter sido. Quando a alma se fartou de amores nunca desabrochados,
acudiu à mente do nosso amigo que o Cruzeiro não era
só uma constelação era também uma ordem
honorífica. Daqui passou a outra série de pensamentos.
Achou genial a idéia de fazer do Cruzeiro uma distinção
nacional e privilegiada. Já tinha visto a venera ao peito
de alguns servidores públicos. Era bela, mas principalmente
rara.
-Tanto melhor!
disse ele em voz alta.
Era perto de
duas horas quando saiu da janela; fechou-a e foi meter-se na cama,
dormiu logo; acordou ao som da voz do criado espanhol, que lhe trazia
um bilhete.
|