Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO
VII
QUINCAS BORBA
calou-se de exausto, e sentou-se ofegante. Rubião acudiu,
levando-lhe água e pedindo que se deitasse para descansar;
mas o enfermo, após alguns minutos, respondeu que não
era nada. Perdera o costume de fazer discursos, é o que era.
E, afastando com o gesto a pessoa de Rubião, a fim de poder
encará-la sem esforço, empreendeu uma brilhante descrição
do mundo e suas excelências. Misturou idéias próprias
e alheias, imagens de toda sorte, idílicas, épicas,
a tal ponto que Rubião perguntava a si mesmo como é
que um homem, que ia morrer dali a dias, podia tratar tão
galantemente aqueles negócios.
-Ande repousar
um pouco.
Quincas Borba
refletiu.
-Não,
vou dar um passeio.
-Agora não;
você está muito cansado.
- Qual! Passou.
Ergueu-se e
pôs paternalmente as mãos sobre os ombros de Rubião.
-Você
é meu amigo?
-Que pergunta!
-Diga
-Tanto ou mais
do que este animal, respondeu Rubião. em um arroubo de ternura.
Quincas Borba
apertou-lhe as mãos.
-Bem.
CAPÍTULO
VIII
No DIA SEGUINTE,
Quincas Borba acordou com a resolução de ir ao Rio
de Janeiro, voltaria no fim de um mês, tinha certos negócios...
Rubião ficou espantado. E a moléstia, e o médico?
O doente respondeu que o médico era um charlatão,
e que a moléstia precisava espairecer, tal qual a saúde.
Moléstia e saúde eram dous caroços do mesmo
fruto, dous estados de Humanitas.
- Vou a alguns
negócios pessoais, concluiu o enfermo, e levo, além
disso, um plano tão sublime, que nem mesmo você poderá
entendê-lo. Desculpe-me esta franqueza; mas eu prefiro ser
franco com você a sê-lo com qualquer outra pessoa.
Rubião
fiou do tempo que este projeto lhe passasse, como tantos outros;
mas enganou-se. Acrescia que, em verdade, o doente parecia estar
melhorando; não ia à cama, saía à rua,
escrevia. No fim de uma semana, mandou chamar o tabelião.
-Tabelião?
repetiu o amigo.
-Sim, quero
registrar o meu testamento. Ou vamos lá os dous...
Foram os três,
porque o cão não deixava partir o amo e senhor sem
acompanhá-lo. Quincas Borba registrou o testamento, com as
formalidades do estilo, e tornou tranqüilo para casa. Rubião
sentia bater-lhe o coração violentamente.
-Está
claro que eu não o deixo ir só para a Corte, disse
ele ao amigo.
-Não,
não é preciso. Demais Quincas Borba não vai,
e não o confio a outra pessoa, senão a você.
Deixo a casa como está. Daqui a um mês estou de volta.
Vou amanhã; não quero que ele pressinta a minha saída.
Cuide dele, Rubião.
-Cuido, sim.
- Jura?
- Por esta
luz que me alumia. Então sou alguma criança?
-Dê-lhe leite às horas apropriadas, as comidas todas
do costume, e os banhos; e quando sair a passeio com ele, olhe que
não vá fugir. Não, o melhor é que não
saia... não saia...
-Vá
sossegado.
Quincas Borba
chorava pelo outro Quincas Borba. Não quis vê-lo à
saída. Chorava deveras; lágrimas de loucura ou de
afeição, quaisquer que fossem, ele as ia deixando
pela boa terra mineira, como o derradeiro suor de uma alma obscura,
prestes a cair no abismo.
CAPÍTULO
IX
HORAS DEPOIS,
teve Rubião um pensamento horrível. Podiam crer que
ele próprio incitara o amigo à viagem, para o fim
de o matar mais depressa, e entrar na posse do legado, se é
que realmente estava incluso no testamento. Sentiu remorsos. Por
que não empregou todas as forças para contê-lo?
Viu o cadáver de Quincas Borba, pálido hediondo, fitando
nele um olhar vingativo; resolveu, se acaso o fatal desfecho se
desse em viagem, abrir mão do legado.
Pela sua parte o cão vivia farejando, ganindo, querendo fugir;
não podia dormir quieto, levantava-se muitas vezes, à
noite, percorria a casa, e tornava ao seu canto. De manhã,
Rubião chamava-o à cama, e o cão acudia alegre;
imaginava que era o próprio dono; via depois que não
era, mas aceitava as carícias, e fazia-lhe outras, como se
Rubião tivesse de levar as suas ao amigo, ou trazê-lo
para ali. Demais bavia-se-lhe afeiçoado também e para
ele era a ponte que o ligava à existência anterior.
Não comeu durante os primeiros dias. Suportando menos a sede,
Rubião pôde alcançar que bebesse leite; foi
a única alimentação por algum tempo. Mais tarde,
passava as horas calado, triste, enrolado em si mesmo, ou então
com o corpo estendido e a cabeça entre as mãos. Quando
o médico voltou, ficou espantado da temeridade do doente;
deviam tê-lo impedido de sair; a morte era certa.
-Certa?
-Mais tarde
ou mais cedo. Levou o tal cachorro?
-Não,
senhor, está comigo; pediu que cuidasse dele, e chorou, olhe
que chorou que foi um nunca acabar. Verdade é, disse ainda
Rubião para defender o enfermo, verdade é que o cachorro
merece a estima do donoparece gente.
O médico tirou o largo chapéu de palha para concertar
a fita; depois sorriu. Gente? Com que então parecia gente?
Rubião insistia, depois explicava; não era gente como
a outra gente, mas tinha cousas de sentimento, e até de juízo.
Olhe, ia contar-lhe uma. . .
-Não,
homem, não; logo, logo, vou a um doente de erisipela. . .
Se vierem cartas dele, e não forem reservadas, desejo vê-las,
ouviu? E lembranças ao cachorro, concluiu saindo.
Algumas pessoas
começaram a mofar do Rubião e da singular incumbência
de guardar um cão em vez de ser o cão que o guardasse
a ele. Vinha a risota, choviam as alcunhas. Em que havia de dar
o professor! sentinela de cachorro! Rubião tinha medo da
opinião pública. Com efeito, parecia-lhe ridículo;
fugia aos olhos estranhos, olhava com fastio para o animal, dava-se
ao diabo, arrenegava da vida. Não tivesse a esperança
de um legado, pequeno que fosse. Era impossível que lhe não
deixasse uma lembrança.
CAPÍTULO
X
SETE SEMANAS
depois, chegou a Barbacena esta carta, datada do Rio de Janeiro,
toda do punho do Quincas Borba
Meu caro senhor e amigo.
Você
há de ter estranhado o meu silêncio. Não lhe
tenho escrito por certos motivos particulares, etc. Voltarei breve;
mas quero comunicar-lhe desde já um negócio reservado,
reservadíssimo.
Quem sou eu, Rubião? Sou Santo Agostinho. Sei que há
de sorrir, porque você é um ignaro, Rubião;
a nossa intimidade permitia-me dizer palavra mais crua, mas faço-lhe
esta concessão, que é a última. Ignaro!
Ouça, ignaro. Sou Santo Agostinho; descobri isto anteontemouça
e cale-se. Tudo coincide nas nossas vidas. O santo e eu passamos
uma parte do tempo nos deleites e na heresia, porque eu considero
heresia tudo o que não é a minha doutrina de Humanitas;
ambos furtamos, ele, em pequeno, umas peras de Cartago, eu, já
rapaz, um relógio do meu amigo Brás Cubas. Nossas
mães eram religiosas e castas. Enfim, ele pensava, como eu,
que tudo que existe é bom, e assim o demonstra no capítulo
XVI, livro VII das Confissões, com a diferença que,
para ele, o mal é um desvio da vontade, ilusão própria
de um século atrasado, concessão ao erro, pois que
o mal nem mesmo existe, e só a primeira afirmação
é verdadeira; todas as cousas são boas, omnia bona,
e adeus
Adeus, ignaro. Não contes a ninguém o que te acabo
de corfiar se não queres perder as orelhas. Cala-te, guarda,
e agradece a boa fortuna de ter por amigo um grande homem, como
eu, embora não me compreendas. Hás de compreender-me.
Logo que tornar a Barbacena, dar-te-ei em termos explicados, simples,
adequados ao entendimento de um asno, a verdadeira noção
do grande homem. Adeus, lembranças ao meu pobre Quincas Borba.
Não esqueças de lhe dar leite; leite e banhos; adeus,
adeus... Teu do coração
QUINCAS BORBA
Rubião
mal sustinha o papel nos dedos. Passados alguns segundos advertiu
que podia ser um gracejo do amigo, e releu a carta; mas a segunda
leitura confirmou a primeira impressão. Não havia
dúvida; estava doudo. Pobre Quincas Borba! Assim, as esquisitices,
a freqüente alteração de humor, os ímpetos
sem motivo, as ternuras sem proporção, não
eram mais que prenúncios da ruína total do cérebro.
Morria antes de morrer. Tão bom! Tão alegre! Tinha
impertinências é verdade, mas a doença explicava-as.
Rubião enxugou os olho úmidos de comoção.
Depois veio a lembrança do possível legado, e ainda
mais o afligiu, por lhe mostrar que bom amigo ia perder.
Quis ainda uma vez ler a carta, agora devagar, analisando as palavras,
desconjuntando-as, para ver bem o sentido e descobrir se realmente
era uma troça de filósofo. Aquele modo de o descompor
brincando, era conhecido; mas o resto confirmava a suspeita do desastre.
Já quase no fim, parou enfiado. Dar-se-ia que, provada a
alienação mental do testador, nulo ficaria o testamento
, e perdidas as deixas? Rubião teve uma vertigem. Estava
ainda com a carta aberta nas mãos, quando viu aparecer o
doutor, que vinha por notícias do enfermo; o agente do correio
dissera-lhe haver chegado uma carta. Era aquela?
-É esta,
mas...
-Tem alguma
comunicação reservada?...
-Justamente,
traz uma comunicação reservada, reservadíssima;
negócios pessoais. Dá licença?
Dizendo isto,
Rubião meteu a carta no bolso; o médico saiuele respirou.
Escapara ao perigo de publicar tão grave documento, por onde
se podia provar o estado mental de Quincas Borba. Minutos depois,
arrependeu-se, devia ter entregado a carta, sentiu remorsos pensou
em mandá-la à casa do médico. Chamou por um
escravoquando este acudiu, já ele mudara outra vez de idéia;
considerou que era imprudência; o doente viria em breve,-dali
a dias,-perguntaria pela carta, argüi-lo-ia de indiscreto,
de delator... Remorsos fáceis, de pouca dura.
-Não
quero nada, disse ao escravo. E outra vez pensou no legado. Calculou
o algarismo. Menos de dez contos, não. Compraria um pedaço
de terra, uma casa, cultivaria isto ou aquilo, ou lavraria ouro.
O pior é se era menos, cinco contos. .. Cinco? Era pouco;
mas, enfim, talvez não passasse disso. Cinco que fossem,
era um arranjo menor, e antes menor que nada. Cinco contos... Pior
seria se o testamento ficasse nulo. Vá, cinco contos!
CAPÍTULO
XI
NO COMEÇO
da semana seguinte, recebendo os jornais da Corte (ainda assinaturas
do Quincas Borba) leu Rubião esta notícia em um deles
Faleceu ontem o Sr. Joaquim Borba dos Santos, tendo suportado a
moléstia com singular filosofia. Era homem de muito saber,
e cansava-se em batalhar contra esse pessimismo amarelo e enfezado
que ainda nos há de chegar aqui um dia; é a moléstia
do século. A última palavra dele foi que a dor era
uma ilusão, e que Pangloss não era tão tolo
como o inculcou Voltaire... Já então delirava. Deixa
muitos bens. O testamento está em Barbacena.
CAPÍTULO
XII
-ACABOU DE
SOPRER! suspirou Rubião.
Em seguida,
atentando na notícia, viu que falava de um homem que tinha
apreço, consideração, a quem se atribuía
uma peleja filosó-fica. Nenhuma alusão a demência.
Ao contrário, o final dizia que ele delirara a última
hora, efeito da moléstia. Ainda bem! Rubião leu novamente
a carta, e a hipótese da troça pareceu outra vez mais
verossímil. Concordou que ele tinha graça; com certeza,
quis debi-cá-lo; foi a Santo Agostinho, como iria a Santo
Ambrósio ou a Santo Hilário, e escreveu uma carta
enigmática, para confundi-lo, até voltar a rir-se
do logro. Pobre amigo! Estava são,- são e morto. Sim,
já não padecia nada. Vendo o cachorro, suspirou
-Coitado do
Quincas Borba! Se pudesse saber que o senhor morreu . . .
Depois, consigo
"Agora,
que já acabou a obrigação, vou dá-lo
à comadre Angélica".
CAPÍTULO
XIII
A NOTÍCIA
correra a cidade; o vigário, o farmacêutico da casa,
o mé-dico, todos mandaram saber se era verdadeira. O agente
do correio que a lera nas folhas, trouxe em mão própria
ao Rubião uma carta que viera na mala para ele; podia ser
do finado, conquanto a letra do sobrescrito fosse outra.
-Então
afinal o homem espichou a canela? disse ele, enquanto Rubião
abria a carta, corria à assinatura e liaBrás Cubas.
Era um simples bilhete
O meu pobre
amigo Quincas Borba faleceu ontem em minha casa, onde apareceu há
tempos esfrangalhado e sórdidofrutos da doença. Antes
de morrer pediu-me que lhe escrevesse, que lhe desse particularmente
esta notícia, e muitos agradecimentos; que o resto se faria,
segundo as praxes do foro.
Os agradecimentos
fizeram empalidecer o professor; mas as praxes do foro restituíram-lhe
o sangue. Rubião fechou a carta sem dizer nada; o agente
falou de uma cousa e outra, depois saiu. Rubião ordenou a
um escravo que levasse o cachorro de presente à comadre Angélica,
dizendo-lhe que, como gostava de bichos, lá ia mais um; que
o tratasse bem, porque ele estava acostumado a isso; finalmente
que o nome do cachorro era o mesmo que o do dono, agora morto, Quincas
Borba.
CAPÍTULO XIV
QUANDO o testamento foi aberto, Rubião quase caiu para trás.
Adivinhais por quê. Era nomeado herdeiro universal do testador.
Não cinco, nem dez, nem vinte contos, mas tudo, o capital
inteiro, especificados os bens, casas na Corte, uma em Barbacena,
escravos, apólices, ações do Banco do Brasil
e de outras instituições, jóias, dinheiro amoedado,
livros,-tudo finalmente passava às mãos do Rubião,
sem desvios, sem deixas a nenhuma pessoa, nem esmolas, nem dívidas.
Uma só condição havia no testamento, a de guardar
o herdeiro consigo o seu pobre cachorro Quincas Borba, nome que
lhe deu por motivo da grande afeição que lhe tinha.
Exigia do dito Rubião que o tratasse como se fosse a ele
próprio testador, nada poupando em seu benefício,
resguardando-o de moléstias, de fugas, de roubo ou de morte
que lhe quisessem dar por maldade; cuidar finalmente como se cão
não fosse, mas pessoa humana. Item, impunha-lhe a condição,
quando morresse o cachorro, de lhe dar sepultura decente em terreno
próprio, que cobriria de flores e plantas cheirosas; e mais
desenterraria os ossos do dito cachorro, quando fosse tempo idôneo.
e os recolheria a uma urna de madeira preciosa para depositá-los
no lugar mais honrado da casa.
CAPÍTULO
XV
TAL ERA a cláusula. Rubião achou-a natural, posto
que só tivesse pensamento para cuidar na herança.
Espreitara uma deixa, e sai-lhe do testamento a massa toda dos bensNão
podia acabar de crer; foi preciso que lhe apertassem muito as mãos,
com força,- a força dos parabéns, - para não
supor que era mentira.
-Sim, senhor,
lavre um tento, dizia-lhe o dono da farmácia que ministrara
os remédios a Quincas Borba.
Herdeiro já
era muito; mas universal. . . Esta palavra inchava as bochechas
à herança. Herdeiro de tudo, nem uma colherinha menos.
E quanto seria tudo? ia ele pensando. Casas, apólices, ações,
escravos, roupa, louça, alguns quadros, que ele teria na
Corte, porque era homem de muito gosto, tratava de cousas de arte
com grande saber. E livros? devia ter muitos livros, citava muitos
deles. Mas em quanto andaria tudo? Cem contos? Talvez duzentos.
Era possível; trezentos mesmo não havia que admirar.
Trezentos contos! trezentos! E o Rubião tinha ímpetos
de dançar na rua. Depois aquietava-se; duzentos que fossem,
ou cem, era um sonho que Deus Nosso Senhor lhe dava, mas um sonho
comprido, para não acabar mais.
A lembrança do cachorro pôde tomar pé no torvelinho
de pensamentos que iam pela cabeça do nosso homem. Rubião
achava que a cláusula era natural, mas desnecessária,
porque ele e o cão eram dous amigos, e nada mais certo que
ficarem juntos, para recordar o terceiro amigo, o extinto, o autor
da felicidade de ambos. Havia, sem dúvida, umas particularidades
na cláusula, uma história de urna, e não sabia
que mais; mas tudo se havia de cumprir, ainda que o céu viesse
abaixo... Não, com a ajuda de Deus, emendava ele. Bom cachorro!
excelente cachorro!
Rubião não esquecia que muitas vezes tentara enriquecer
com empresas que morreram em flor. Supôs-se naquele tempo
um desgraçado, um caipora, quando a verdade era que "mais
vale quem Deus ajuda do que quem cedo madruga". Tanto não
era impossível enriquecer, que estava rico.
-Impossível, o quê? exclamou em voz alta. Impossível
é a Deus pecar. Deus não falta a quem promete.
Ia assim, descendo
e subindo as ruas da cidade, sem guiar para casa, sem plano, com
o sangue aos pulos. De repente, surgiu-lhe este grave problema-se
iria viver no Rio de Janeiro, ou se ficaria em Barbacena. Sentia
cócegas de ficar, de brilhar onde escurecia, de quebrar a
castanha na boca aos que antes faziam pouco caso dele, e principalmente
aos que se riram da amizade do Quincas Borba. Mas logo depois, vinha
a imagem do Rio de Janeiro, que ele conhecia, com os seus feitiços,
movimento, teatros em toda a parte, moças bonitas, "vestidas
à francesa". Resolveu que era melhor, podia subir muitas
e muitas vezes à cidade natal.
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