Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO L
NÃO,
SENHORA minha, ainda não acabou este dia tão comprido;
não sabemos o que se passou entre Sofia e o Palha, depois
que todos se foram embora. Pode ser até que acheis aqui melhor
sabor que no caso do enforcado.
Tende paciência;
é vir agora outra vez a Santa Teresa. A sala está
ainda alumiada, mas por um bico de gás; apagaram-se os outros,
e ia apagar-se o último, quando o Palha mandou que o criado
esperasse um pouco lá dentro. A mulher ia a sair, o marido
deteve-a, ela estremeceu.
-A nossa festa
esteve bem bonita, disse ele.
-Esteve.
-O Siqueira
é um cacete, mas paciência; é alegre. A filha
não estava mal arranjada. Viste o Ramos como devorava tudo
o que se lhe pôs no prato? Tu verás que ele um dia
engole a mulher.
-A mulher?
disse Sofia, sorrindo.
- É
gorda, concordo; mas a primeira era muito mais gorda, e creio que
não morreu, ele engoliu-a, com certeza.
Sofia, reclinada
no canapé, ria das graças do marido. Criticaram ainda
alguns episódios da tarde e da noite; depois, Sofia, acariciando
os cabelos do marido, disse-lhe de repente
-E você
ainda não sabe do melhor episódio da noite.
-Que foi?
-Adivinhe
Palha ficou
algum tempo calado, olhando para a mulher, a ver se adivinhava qual
tinha sido o melhor episódio da noite. Não podia acertar;
acudia-lhe isto ou aquilo, nada; Sofia abanava a cabeça.
-Mas então
que foi?
-Não
sei; adivinha.
-Não
posso. Dize logo.
-Com uma condição,
acudiu ela; não quero zangas nem barulhos.
Palha foi ficando
mais sério. Zangas? barulhos? Que diabo podia ser? pensava
ele. Já se não ria; tinha só um resto de sorriso
forçado e resignado. Olhou bem para ela, e perguntou-lhe
o que era.
-Você
promete o que lhe disse?
-Vá
lá. Que foi?
-Pois saiba
que ouvi nada menos que uma declaração de amor
Palha empalideceu.
Não prometera deixar de empalidecer. Gostava da mulher, como
sabemos, até o ponto singular de publicá-la; não
podia ouvir a frio a notícia. Sofia viu a palidez, e gostou
da má impressão causada; para saboreá-la mais,
inclinou o busto, soltou o cabelo atrás, que a incomodava
um pouco, recolheu os grampos em um lenço, depois sacudiu
a cabeça, respirou largo, e pegou nas mãos do marido,
que ficara de pé.
-É verdade,
meu velho, namoraram-te a mulher.
-Mas quem foi
o patife? disse ele impaciente.
-Mau, se vamos
assim, não digo nada. Quem foi? Quer saber quem foi? Há
de ouvir sossegado. Foi o Rubião.
-O Rubião?
-Nunca imaginei
tanto. Parecia-me acanhado e respeitoso; fica sabendo que não
é o hábito que faz o monge. De tantos homens que aqui
vêm não ouvi nunca o menor dito. Olham para mim; naturalmente,
porque não sou feia. . . Para que estás andando assim
de um lado para outro? Pára, que não quero levantar
a voz... Bem, assim... Vamos ao caso. Não me fez declaração
positiva...
- Ah! não?
acudiu vivamente o marido.
-Não,
mas vem a dar na mesma.
E depois de
contar o que se passara no jardim, desde que ali chegaram os dous,
até que o major apareceu
-Foi só
isto, concluiu; mas é bastante para ver que se ele não
disse amor é porque não lhe chegou a língua,
mas chegou-lhe a mão, que me apertou os dedos . . . Só
isso, e é demais. Ainda bem que te não zangas; mas
é preciso trancar-lhe a porta,-ou de uma vez ou aos poucos;
eu preferia logo, mas estou por tudo. Como achas melhor?
Mordendo o
beiço inferior, Palha ficou a olhar para ela a modo de estúpido.
Sentou-se no canapé calado. Considerava o negócio.
Achava natural que as gentilezas da esposa chegassem a cativar um
homem,-e Rubião podia ser esse homem; mas confiava tanto
no Rubião, que o bilhete que Sofia mandara a este acompanhando
os morangos, foi redigido por ele mesmo; a mulher limitou-se a copiá-lo,
assiná-lo e mandá-lo. Nunca, entretanto, lhe passou
pela cabeça que o amigo chegasse a declarar amor a alguém,
menos ainda a Sofia, se é que era amor deveras; podia ser
gracejo de intimidade. Rubião olhava para ela muita vez,
é certo; parece também que Sofia, em algumas ocasiões,
pagava os olhares com outros... Concessões de moça
bonita! Mas, enfim, contanto que lhe ficassem os olhos, podiam ir
alguns raios deles. Não havia de ter ciúmes do nervo
óptico, ia pensando o marido.
Sofia levantou-se,
foi pôr o lenço com os grampos em cima do piano, e
deu uma olhada ao espelho para ver-se com a trança caída.
Quando voltou ao canapé, o marido pegou-lhe na mão,
rindo.
-Parece-me
que te amofinaste mais do que o caso merecia. Comparar os olhos
de uma moça às estrelas, e as estrelas aos olhos,
afinal de contas é cousa que até se pode fazer à
vista de todos, em família, e em prosa ou verso para o público.
A culpa de quem tem olhos bonitos. Demais, apesar do que me contas,
sabes que ele é ainda matuto . . .
-Então
o Diabo também é matuto, porque ele pareceu-me nada
menos que o Diabo. E pedir-me que a certa hora olhasse para o Cruzeiro,
a fim de que as nossas almas se encontrassem ?
-Isso, sim,
isso já cheira a namoro, concordou Palha; mas bem vês
que é um pedido de alma cândida. É assim que
as moças falam aos quinze anos; é assim que falam
os tolos em todos os tempos, e os poetas também; mas ele
nem é moça nem poeta.
-Creio que
não; mas segurar-me nas mãos para reter-me no jardim?
Palha teve
um calafrio; a idéia do contacto das mãos e da força
empregada para reter a mulher é que o mortificava mais. Francamente,
se pudesse, era capaz de ir ter com ele, e deitar-lhe as mãos
ao gasnate. Outras idéias, porém, acudiram e dissiparam
o efeito da primeira; de modo que, cuidando Sofia havê-lo
irritado, viu-o dar de ombros com desprezo, e responder-lhe que
efetivamente era um ato de grosseria.
- E depois,
Sofia, que lembrança foi essa de convidá-lo a ir ver
a lua, não me dirás?
- Chamei D.
Tonica para ir conosco.
- Mas, uma
vez que D. Tonica recusou, devias ter achado meios e modos de não
ir ao jardim. São cousas que acodem logo. Tu é que
deste ocasião...
Sofia olhou
para ele, contraindo as grossas sobrancelhasia responder, mas calou-se.
Palha continuou a desenvolver a mesma ordem de considerações,
a culpa era dela, não devia ter dado ocasião
- Mas você mesmo não me tem dito que devemos tratá-lo
com atenções particulares? Seguramente, que eu não
iria ao jardim se pudesse imaginar o que se passou. Mas nunca esperei
que um homem tão pacato, tão não sei como,
se tirasse dos seus cuidados para dizer-me cousas esquisitas...
- Pois daqui
em diante evita a lua e o jardim, disse o marido procurando sorrir...
- Mas, Cristiano,
como queres tu que lhe fale a primeira vez que ele cá vier?
Não tenho cara para tanto; olha, o melhor de tudo é
acabar com as relações.
Palha atravessou
uma perna sobre a outra e começou a rufar no sapato. Durante
alguns segundos ficaram calados. Palha cuidava na proposta de acabar
com as relações, não que quisesse aceitá-la,
mas não sabia como responder à mulher, que mostrava
tanto ressentimento, e se portava com tal dignidade. Era preciso
nem desaprová-la nem aceitar a proposta, e não lhe
acudia nada. Levantou-se meteu as mãos nas algibeiras das
calças, e, depois de alguns passos, parou de fronte de Sofia.
-Talvez nos
estejamos a incomodar com um simples efeito de vinhos. Olha que
ele não mandou o seu quinhão ao vigário; cabeça
fraca, um pouco de abalo, e entornou o que tinha dentro. . . Sim,
eu não nego que lhe possas ter causado certa impressão,
como tantas outras senhoras. Há dias foi a um baile no Catete,
e voltou encanto das senhoras que lá vira, de uma principalmente,
a viúva Mendes...
Sofia interrompeu-o
-Por que é
que não convidou essa beleza a ver o Cruzeiro?
-Não
jantou lá, naturalmente, e não havia jardim nem lua
O que eu quero dizer é que o nosso amigo não estaria
em si. Talvez se ache agora arrependido do que fez, envergonhado,
sem saber como se há de explicar, ou se não explicará
nada....É muito possível até que se ausente...
-Era melhor.
- ...Se o não
chamarmos, concluiu Palha.
- Mas para
que chamá-lo?
-Sofia, disse-lhe
o marido, sentando-se ao pé dela. Não quero entrar
em minudências; digo só que não permito que
alguém te falte ao respeito...
Houve uma pequena
pausa; Sofia olhava para ele, esperando.
-Não
permito, e ai daquele que o fizesse, assim como ai de ti se o consentires;
sabes que sou de ferro, a este respeito, e que a certeza da tua
amizade ou,-vá logo tudo,-do amor que me tens é que
me tranqüiliza. Pois bem, nada me abala relativamente ao Rubião.
Crê que o Rubião é nosso amigo. devo-lhe obrigações.
-Alguns presentes,
algumas jóias, camarotes no teatro, não são
motivos para que eu fite o Cruzeiro com ele.
-Prouvera a
Deus que fosse só isso! suspirou o zangão.
-Que mais?
-Não
entremos em minudências... Há outras cousas... Conversaremos
depois... Mas fica certa que nada me faria recuar, se visse no que
contaste alguma gravidade. Não há nenhuma. O homem
é um simplório.
-Não.
-Não?
Sofia levantou-se;
também não queria entrar em minudências. O marido
pegou-lhe na mão, ela ficou de pé e calada. Palha,
com a cabeça reclinada nas costas do sofá, olhava
sorrindo, sem achar que dizer. Ao cabo de alguns minutos, ponderou
a mulher que era tarde, que ia mandar apagar tudo.
-Bem, tornou
o Palha depois de breve silêncio; escrevo-lhe amanhã
que não ponha aqui os pés.
Olhou para
a mulher esperando alguma recusa. Sofia coçava as sobrancelhas,
e não respondeu nada. Palha repetiu a solução;
e pode ser que desta vez com sinceridade. A mulher então
com ar de tédio
-Ora Cristiano.
. . Quem é que te pede cartas? Já estou arrependida
de haver falado nisto. Contei-te um ato de desrespeito, e disse
que era melhor cortar as relações,- aos poucos ou
de uma vez.
-Mas como se
hão de cortar as relações de uma vez?
-Fechar-lhe
a porta, mas não digo tanto; basta, se queres, aos poucos
. . .
Era uma concessão;
Palha aceitou-a; mas imediatamente ficou sombrio, soltou a mão
da mulher, com um gesto de desespero. Depois, agarrando-a pela cintura,
disse em voz mais alta do que até então
-Mas, meu amor,
eu devo-lhe muito dinheiro.
Sofia tapou-lhe
a boca e olhou assustada para o corredor.
-Está
bom, disse, acabemos com isto. Verei como ele se comporta, e tratarei
de ser mais fria... Nesse caso, tu é que não deves
mudar, para que não pareça que sabes o que se deu.
Verei o que posso fazer.
-Você
sabe, apertos do negócio, algumas faltas... é preciso
tapar um buraco daqui, outro dali... o diabo! É por isso
que... Mas riamos, meu bem; não vale nada. Sabes que confio
em ti.
-Vamos, que
é tarde.
-Vamos, repetiu
o Palha dando-lhe um beijo na face.
-Estou com
muita dor de cabeça, murmurou ela. Creio que foi do sereno,
ou desta história. . . Estou com muita dor de cabeça.
CAPÍTULO LI
BANHADO, barbeado, meio vestido, Palha lia os jornais, à
espera do almoço, quando viu entrar a mulher no gabinete,
um tanto pálida.
-Estás
pior?
Sofia respondeu
com um gesto dos lábios, que tanto negava como afirmava.
Palha acreditou que, pelo dia adiante, passaria o incômodo
a agitação da véspera, o jantar tarde. . .
Depois, pediu que lhe deixasse acabar de ler um artigo relativo
a certo negócio da praça. Era uma briga entre dous
comerciantes, a propósito de uns saques; na véspera
escrevera um deles, hoje vinha a resposta do outro. Resposta completa,
disse ele acabando a leitura; e explicou longamente à mulher
a questão dos saques, o mecanismo da operação,
a situação dos dous adversários, os boatos
da praça, tudo com o vocabulário técnico. Sofia
ouvia e suspirava; mas para o despotismo da profissão não
há suspiros de mulher, nem cortesia de homem. Felizmente,
o almoço estava na mesa.
Ficando só,
a nossa amiga, que apenas tomou um caldo, lá para as duas
horas, foi sentar-se à porta de casa, no jardim. Naturalmente
voltou a pensar no lance da véspera. Não estava bem
em si nem fora de si, nem com Deus nem com o Diabo. Arrependia-se
de haver contado o episódio ao marido, e ao mesmo tempo irritava-se
com as tentativas de explicação que este lhe deu.
No meio das reflexões, ouviu distintamente as palavras do
major"Olá! estão apreciando a lua?" como
se as folhas as tivessem guardado, e repetido agora que a aragem
começava a movê-las. Sofia teve um calafrio. Siqueira
era indiscreto,-indiscreto em farejar e indagar dos negócios
alheios; sê-lo-ia ao ponto de publicá-los? Sofia considerava-se
já objeto de suspeita ou de calúnia. Formava planos.
Não visitaria ninguém; ou iria para fora, para Nova
Friburgo ou mais longe. A exigência do marido em receber o
Rubião, como dantes, era excessiva; maiormente pela causa
dada . Não querendo obedecer nem desobedecer, cuidava em
deixar a cidade, pretextando o que quer que fosse.
"A culpa
foi minha!"' suspirou ela consigo.
A culpa eram
as atenções especiais com o homem, carinhos, lembranças,
obséquios famílias, e na véspera, aqueles olhos
tão longamente pregados nele. Se não fosse isso. .
. Ia-se assim perdendo em reflexões multiplicadas. Tudo a
aborrecia, plantas, móveis, uma cigarra que cantava, um rumor
de vozes, na rua, outro de pratos, em casa o andar das escravas,
e até um pobre preto velho que, em frente à casa dela,
trepava com dificuldade um pedaço de morro. As cautelas do
preto buliam-lhe com os nervos.
CAPÍTULO LII
NISTO PASSOU um rapaz alto, que a cortejou sorrindo e vagarosamente.
Sofia cortejou-o também um pouco espantada da pessoa e da
ação.
"Quem
é esse sujeito?" pensou ela.
E entrou a
cogitar donde é que o conhecia, porque, em verdade a cara
não lhe era estranha, nem as maneiras, nem os olhos plácidos
e grandes. Onde é que o teria visto? Percorreu várias
casas, sem acertar com a verdadeira, afinal pensou em certo baile,
-no mês anterior,-em casa de um advogado que fazia anos. Era
isso viu-o lá, dançaram uma quadrilha, por simples
condescendência dele, que não dançava nuncalembrava-se
de lhe ter ouvido muitas palavras agradáveis, relativamente
à beleza da mulher, que, dizia ele, consistia principalmente
nos olhos e nos ombros. Os dela, como sabemos, eram magníficos.
E quase não tratou de outro assunto,-os ombros e os olhos;-a
propósito de uns e outros contou várias anedotas sucedidas
com ele, algumas sem interesse, mas falava tão bem! e o assunto
era tão dela! É verdade; lembrava-se agora que, apenas
ele a deixou, Palha veio ter com ela, sentou-se na cadeira, ao lado,
e disse-lhe o nome do rapaz, porque ela não ouvira bem à
pessoa que lhe apresentaraera Carlos Maria,-o próprio do
almoço do nosso Rubião.
-É a
primeira figura do salão, disse-lhe o marido com orgulho
de ver que se ocupara tanto tempo com ela.
-Entre os homens,
explicou Sofia.
-Entre as senhoras
és tu, acudiu ele mirando-se no colo da mulher, e circulando
depois os olhos pela sala, com uma expressão de posse e domínio,
que a mulher já conhecia e que lhe fazia bem.
Quando acabou
de recordar tudo, já iria longe o rapaz; ao menos, foi uma
interrupção na série de tédios que lhe
tomavam a alma. Tinha uma dor nas costas, que se calara por instantes.
Voltou logo, teimosa, aborrecida. Sofia reclinou-se na cadeira e
fechou os olhos. Quis ver se passava pelo sono, mas não pôde.
Os pensamentos eram tão teimosos como a dor, e ainda mais
ruins que ela. De quando em quando um bater de asas, rápido,
quebrava o silêncioeram as pombas de uma casa vizinha que
tornavam ao pombal. Sofia a princípio abriu os olhos, umas
duas vezes; depois, acostumou-se ao rumor, e deixou-os fechados,
a ver se dormia. Passado algum tempo, ouviu passos na rua, e levantou
a cabeça, supondo que era Carlos Maria que regressava; era
um carteiro que lhe trazia uma carta da roça. Entregou-lha
em mão. Ao sair do jardim, tropeçou o carteiro no
pé de um banco e caiu de bruços, espalhando as cartas
no chão. Sofia não pôde conter o riso.
CAPÍTULO
LII
PERDOEM-LHE esse riso. Bem sei que o desassossego, a noite mal passada,
o terror da opinião, tudo contrasta com esse riso inoportuno.
Mas, leitora amada, talvez a senhora nunca visse cair um carteiro.
Os deuses de Homero,-e mais eram deuses,-debatiam uma vez no Olimpo,
gravemente, e até furiosamente. A orgulhosa Juno, ciosa dos
colóquios de Tétis e Júpiter em favor de Aquiles,
interrompe o filho de Saturno. Júpiter troveja e ameaça;
a esposa treme de cólera. Os outros gemem e suspiram. Mas
quando Vulcano pega da urna de néctar, e vai coxeando servir
a todos, rompe no Olimpo uma enorme gargalhada inextinguível.
Por quê? Senhora minha, com certeza nunca viu cair um carteiro.
As vezes, nem
é preciso que ele caia; outras vezes nem é sequer
preciso que exista. Basta imaginá-lo ou recordá-lo.
A sombra da sombra de uma lembrança grotesca projeta-se no
meio da paixão mais aborrecível, e o sorriso vem às
vezes à tona da cara, leve que seja,- um nada. Deixemo-la
rir, e ler a sua carta da roça.
CAPÍTULO LIV
QUINZE DIAS DEPOIS, estando Rubião em casa, apareceu-lhe
o marido de Sofia. Vinha perguntar-lhe o que era feito dele? onde
se tinha metido que não aparecia? estivera doente? ou já
não cuidava dos pobres? Rubião mastigava as palavras,
sem acabar de compor uma frase única. No meio disto, Palha
viu que havia na sala um homem mirando os quadros, e abafou a voz.
-Desculpe,
não vi que estava com visitas, disse ele.
-Desculpar
o quê? é um amigo, como o senhor. Doutor, aqui está
o meu amigo Cristiano de Almeida e Palha. Creio que já lhe
falei dele. Este é o meu amigo Dr. Camacho,- Joãno
de Souza Camacho.
Camacho fez
um sinal de cabeça, disse uma ou duas frase e quis sair;
mas Rubião acudiu, que não, senhor, que ficasse. Eram
ambos amigos; e depois a lua não tardava a iluminar a bela
enseada de Botafogo.
A lua,-outra
vez a lua,-e esta fraseCreio que já te falei dele, atordoaram
de tal jeito o recém-chegado, que não lhe foi possível
proferir uma palavra durante algum tempo. Bom é acrescentar
que o dono da casa também não sabia o que dissesse.
Estavam os três sentados, Rubião no canapé,
Palha e Camacho em cadeira defronte um do outro. Camacho que conservara
a bengala na mão pô-la verticalmente nos joelhos, batendo
no nariz e olhando para o tecto. Fora, rumor de carros, tropel de
cavalos e algumas vozes. Eram sete horas e meia da noite, ou mais,
perto de oito. O silêncio foi mais longo do que era lícito
na ocasião; nem Rubião nem Palha davam por ele. Camacho
é que, aborrecido, foi à janela, e exclamou dali para
os dous
-Lá
vem o luar entrando!
Rubião
fez um gesto, Palha outro; mas quão diferentes! Rubião
era para transportar-se à janela; Palha ia a agarrá-lo
pela gola. Cedia menos à divulgação possível
da aventura do que à lembrança da violência
com que ele pegara nas mãos da mulher para atraí-la
a si. Um e outro contiveram-se; logo depois, Rubião, cruzando
a perna esquerda sobre a direita, voltou-se para o Palha, e perguntou-lhe
-Sabe que vou
deixá-los?
CAPÍTULO LV
TUDO ESPERAVA
o outro, menos isto. Daí o espanto em que se dissolveu a
cólera; daí também uma sombrinha de pesar,
que é o que o leitor menos espera. Deixá-los? Naturalmente
ia-se embora do Rio de Janeiro; era o castigo que a si mesmo impunha,
pela ação ruim que praticara, em Santa Teresa; logo,
vexara-se, arrependera-se. Não tinha cara de aparecer à
esposa do amigo. Tal foi a primeira conclusão do Palha; mas
vieram outras hipóteses. Por exemplo, a paixão podia
persistir, e a saída dele era um modo de afastar-se da pessoa
amada. Também podia acontecer que entrasse aí algum
plano de casamento.
A última
hipótese trouxe à fisionomia do Palha um elemento
novo, que não sei como chame. Desapontamento? Já o
elegante Garrett não achava outro termo para tais sensações,
e nem por ser inglês o desprezava. Vá desapontamento.
Misturem-lhe o pesar da separação, não esqueçam
a cólera que o primeiro trovejou surdamente, e não
faltará quem ache que a alma deste homem é uma colcha
de retalhos. Pode ser; moralmente as colchas inteiriças são
tão raras! O principal é que as cores se não
desmintam umas às outras, - quando não possam obedecer
à simetria e regularidade. Era o caso do nosso homem. Tinha
o aspecto baralhado à primeira vista; mas atentando bem,
por mais opostos que fossem os matizes, lá se achava a unidade
moral da pessoa.
CAPÍTULO
LVI
MAS, POR QUE
é que Rubião ia deixá-los? Que razão?
Que negócio?
No dia seguinte
ao do caso de Santa Teresa, acordou opresso. Almoçou mal.
Não cuidou de nada; calçou as chinelas africanas sem
interesse, não mirou as alfaias belas, ou simplesmente ricas,
que lhe enchiam a casa. Não pôde suportar as carícias
do cão mais de dous minutos; tão depressa o recebeu
na sala, como o mandou embora. Ele é que enganou os criados
e tornou à sala; mas, tal foi o tabefe que recebeu na orelha,
que não repetiu os afagos; estirou-se no chão com
os olhos no amigo.
Rubião
estava arrependido, irritado, envergonhado. No capítulo X
deste livro ficou escrito que os remorsos deste homem eram fáceis,
mas de pouca dura; faltou explicar a natureza das ações
que os podiam fazer curtos ou compridos. Lá tratava-se daquela
carta escrita pelo finado Quincas Borba, tão expressiva do
estado mental do autor, e que ele ocultou do médico, podendo
ser útil à ciência ou à justiça.
Se entrega a carta, não teria remorsos, nem talvez legado,-o
pequeno legado que então esperava do enfermo. No caso presente,
era uma tentativa de adultério. Certo que ele suspirava há
muito, e tinha ímpetos interiores; mas foi só a animação
indiscreta da moça, e a própria excitação
do momento que o levou a fazer a declaração repelida.
Passados os vapores da noite, não era só vexame que
sentia, mas também remorsos. A moral é uma, os pecados
são diferentes.
Saltemos por
cima de tudo o que ele sentiu e pensou durante os primeiros dias.
Chegou a esperar alguma cousa no domingo, um bilhete como o do anterior,-com
morangos ou sem eles. Na segunda-feira estava determinado a ir a
Minas passar uns dous meses; tinha necessidade de restaurar a alma
aos ventos de Barbacena. Não contava com o Dr. Camacho.
-Deixar-nos?
perguntou finalmente o Palha.
-Creio que
sim; vou a Minas.
Camacho, voltando
da janela, sentou-se na cadeira em que estivera antes.
-Que Minas?
disse ele sorrindo.-Deixe-se de Minas por ora; lá irá
quando for preciso, e não se demorará muito que o
seja.
Palha não
ficou menos admirado das palavras deste que das do outro. Donde
surgira semelhante homem, com ar de dominar o Rubião? Olhou
para ele; era pessoa de estatura média, rosto estreito pouca
barba, queixo comprido, orelhas de pavilhão largo e aberto.
Foi tudo o que pôde observar rapidamente. Viu também
que a roupa era fina, sem luxo, e que os pés não estavam
mal calçados. Não examinou os olhos, nem o sorriso,
nem as maneiras; não chegou a reparar no princípio
de calva, nem nas mãos magras e cabeludas.
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