Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO XLI
- VAMOS PARA
DENTRO, murmurou Sofia.
Quis tirar
o braço; mas o dele reteve-lho com força. Não;
ir para quê? Estavam ali bem, muito bem. . . Que melhor? Ou
seria que ele a estivesse aborrecendo? Sofia acudiu que não,
ao contrário; mas precisava ir fazer sala às visitas..
. Há quanto tempo estavam ali.
- Não
há dez minutos, disse o Rubião. Que são dez
minutos?
-Mas podem
ter dado pela nossa ausência...
Rubião
estremeceu diante deste possessivonossa ausência. Achou-lhe
um princípio de cumplicidade. Concordou que podiam dar pela
nossa ausência. Tinha razão, deviam separar-se, só
lhe pedia uma cousa, duas cousasa primeira é que não
esquecesse aqueles dez minutos sublimes; a segunda é que,
todas as noites, às dez horas fitasse o Cruzeiro, ele o fitaria
também, e os pensamentos de ambos iriam achar-se ali juntos,
íntimos, entre Deus e os homens.
O convite era
poético, mas só o convite. Rubião ia devorando
a moça com olhos de fogo e segurava-lhe uma das mãos
para que ela não fugisse. Nem os olhos nem o gesto tinham
poesia nenhuma. Sofia esteve a ponto de dizer alguma palavra áspera,
mas engoliu-a logo, ao advertir que Rubião era um bom amigo
da casa. Quis rir, mas não pôde; mostrou-se então
arrufada, logo depois resignada, afinal suplicante; pediu-lhe pela
alma da mãe dele, que devia estar no céu... Rubião
não sabia do céu nem da mãe, nem de nada. Que
era mãe? que era céu? parecia dizer a cara dele.
-Ai, não
me quebre os dedos! suspirou baixinho a moça.
Aqui é
que ele começou a voltar a si; afrouxou a pressão,
sem soltar-lhe os dedos.
-Vá,
disse ele, mas primeiro. . .
Inclinava-se
para beijar a mão, quando uma voz. a alguns passos, veio
acordá-lo inteiramente.
CAPÍTULO
XLII
-OLÁ!
ESTÃO APRECIANDO a lua? Realmente, está deliciosa;
está uma noite para namorados. . . Sim, deliciosa. . . Há
muito que não vejo uma noite assim. . . Olhem só para
baixo, os bicos de gás. . . Deliciosa! para namorados...
Os namorados gostam sempre da Lua. No meu tempo, em Icaraí...
Era Siqueira,
o terrível major. Rubião não sabia que dissesse;
Sofia, passados os primeiros instantes, readquiriu a posse de si
mesma; respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou
que Rubião teimava em dizer que as noites do Rio não
podiam comparar-se às de Barbacena, e, a propósito
disso, referia uma anedota de um Padre Mendes... Não era
Mendes?
-Mendes, sim,
o Padre Mendes, murmurou Rubião.
O major mal
podia conter o assombro. Tinha visto as duas mãos presas,
a cabeça do Rubião meio inclinada, o movimento rápido
de ambos, quando ele entrou no jardim; e sai-lhe de tudo isto um
Padre Mendes... Olhou para Sofia; viu-a risonha, tranqüila,
impenetrável. Nenhum medo, nenhum acanhamento; falava com
tal simplicidade, que o major pensou ter visto mal. Mas Rubião
estragou tudo. Vexado, calado, não fez mais que tirar o relógio
para ver as horas, levá-lo ao ouvido, como se lhe parecesse
que não andava, depois limpá-lo com o lenço,
devagar, devagar, sem olhar para um nem para outro...
-Bem, conversem,
vou ver as amigas, que não podem estar sós.
Os homens já
acabaram o maldito voltarete?
-Já,
respondeu o major olhando curiosamente para Sofia. Já, e
até perguntaram por este senhor; por isso é que eu
vim ver se o achava no jardim. Mas estavam aqui há muito
tempo?
-Agora mesmo,
disse Sofia.
Depois, batendo
carinhosamente no ombro do major, passou do jardim à casa;
não entrou pela porta da sala de visitas, mas por outra que
dava para a de jantar; de maneira que, quando chegou àquela
pelo interior, era como se acabasse de dar ordens para o chá.
Rubião,
voltando a si, ainda não achou que dizer, e contudo urgia
dizer alguma cousa. Boa idéia era a anedota do Padre Mendes;
o pior é que não havia padre nem anedota, e ele era
incapaz de inventar nada. Pareceu-lhe bastante isto
-O padre! o
Mendes! Muito engraçado o Padre Mendes!
-Conheci-o,
disse o major sorrindo. O Padre Mendes? Conheci-o; morreu cônego.
Esteve algum tempo em Minas?
-Creio que
esteve, murmurou o outro espantado.
-Era filho
aqui de Saquarema; era um que não tinha este olho continuou
o major levando o dedo ao olho esquerdo. Conheci o muito, se é
que é o mesmo; pode ser que seja outro.
-Pode ser.
-Morreu cônego.
Era homem de bons costumes, mas amigo de ver moças bonitas,
como se mira um painel de mestre; e que maior mestre que Deus? dizia
ele. Esta D. Sofia, por exemplo, nunca ele a viu na rua que me não
dissesse. Hoje vi aquela bonita senhora do Palha... Morreu cônego;
era filho de Saquarema... E, na verdade tinha bom gosto... Realmente,
a mulher do nosso Palha é um primor, bela de cara e de figura;
eu ainda a acho mais bem feita que bonita... Que lhe parece?
- Parece que
sim...
- E boa pessoa,
excelente dona de casa, continuou o major acendendo um charuto.
A luz do fósforo
deu à cara do major uma expressão de escárnio
ou de outra cousa menos dura, mas não menos adversa. Rubião
sentiu correr-lhe um frio pela espinha. Teria ouvido? visto? adivinha
do? Estava ali um indiscreto, um mexeriqueiro? A cara do homem não
explicava este ponto; em todo caso, era mais seguro crer no pior
Aqui temos o nosso herói como alguém que, depois de
navegar cosido com a praia, longos anos, acha-se um dia entre as
ondas do alto mar felizmente o medo também é oficial
de idéias, e deu-lhe ali uma lisonjear o interlocutor. Não
hesitou em achá-lo gracioso e interessante, e dizer-lhe que
tinha uma casa às suas ordens, na Praia de Botafogo, número
tantos. Dava-lhe muita honra em travar relações com
ele. Contava poucos amigos aquio Palha, a quem devia grandes obséquios,-D.
Sofia que era uma senhora de rara gravidade, e mais três ou
quatro pessoas. Vivia só; podia ser até que se retirasse
para Minas.
-Já?
-Não
digo já, mas pode ser que me não demore. Sabe que
uma pessoa que viveu toda a sua vida em um lugar, custa-lhe muito
a acostumar-se em outro.
-Isso conforme.
-Sim, conforme...
Mas é a regra.
-Regra será,
mas o senhor vai ser uma exceção. A Corte é
o diabo; apanha-se uma paixão como se apanha uma constipação;
basta uma fresta de ar, fica-se perdido. Olhe, eu não me
dava de apostar que o senhor, antes de seis meses, está casado...
"Não
viu nada", pensou Rubião.
E depois, alegre
-Pode ser.
mas também em Minas há casamentos; nem lá faltam
padres.
-Falta o Padre
Mendes, acudiu rindo o major.
Rubião
sorriu constrangido, não entendendo se a palavra do major
era inocente ou maliciosa. Este é que colheu as rédeas
ao assunto, tratou de outras cousas, do tempo, da cidade, do ministério,
da guerra, e do Marechal López. E vede o contraste da ocasiãoesse
aguaceiro, maior que o da entrada, pareceu um raio de sol ao nosso
Rubião. Ei-lo que espaneja a alma ao calor do discurso infinito
do major, intercalando alguma palavrinha, se pode, e sempre cabeceando
com aplauso. E pensava outra vez que não, que ele não
vira nada.
-Papai! Papai
está aí? disse uma voz à porta que dava para
o jardim.
Era D. Tonica;
vinha chamá-lo para irem embora. O chá estava na mesa,
é verdade; mas não podia esperar mais, tinha dor de
cabeça, disse ela ao pai, baixinho. Depois estendeu os dedos
ao Rubião; este pediu-lhe que ficasse ainda alguns minutos;
o estimável major...
-Perde o seu
tempo, interrompeu o major; ela é que me governa.
Rubião
ofereceu-lhe a casa com instância; exigiu até que lhe
marcasse um dia. naquela mesma semana, mas o major acudiu que não
podia dispor de dia certo; iria, logo que lhe fosse possível.
A vida dele era muito trabalhosa; tinha os negócios do arsenal,
que já eram muitos, e tinha mais...
-Papai! vamos!
-Vamos. Está
vendo? Não posso conversar um instante. Já te despediste?
Onde está o meu chapéu?
CAPÍTULO
XLIII
LADEIRA ABAIXO, D. Tonica foi ouvindo o resto do discurso do pai,
que mudou de assunto, sem mudar de estilo,-difuso e derramado. Ouvia
sem entender. Ia metida em si mesma, absorta, remoendo a noite,
recompondo os olhares de Sofia e de Rubião.
Chegaram à
casa na Rua do Senado; o pai foi dormir, a filha não se deitou
logo, deixou- se estar em uma cadeirinha , ao pé da cômoda,
onde tinha uma imagem da Virgem. Não trazia idéias
de paz nem de candura. Sem conhecer o amor, tinha notícia
do adultério, e a pessoa de Sofia pareceu-lhe hedionda. Via
nela agora um monstro, metade gente, metade cobra, e sentiu que
a aborrecia, que era capaz de vingar-se exemplarmente, de dizer
tudo ao marido.
"Conto-lhe
tudo,-ia pensando ou de viva voz, ou por uma carta... Carta não;
digo-lhe tudo um dia, em particular."
E, imaginando o colóquio, antevia o espanto do homem, depois
o agastamento, depois os impropérios, as palavras duras que
ele havia de dizer à mulher, miserável, indigna, vil...
Todos esses nomes soavam bem aos ouvidos do seu desejo; ela fazia
derivar por eles a própria cólera; fartava-se de a
rebaixar assim, de a pôr debaixo dos pés do marido,
já que o não podia fazer por si mesma. . . Vil, indigna,
miserável...
Durou muito
tempo essa explosão de raiva interior,-perto de vinte minutos;
mas a alma cansou, e tornou a si. A imaginação não
podia mais, e a realidade próxima atraiu-lhe a vista. Olhou
em volta de si, mirou a alcova de solteira, arrumadinha com arte,-dessa
arte engenhosa que faz da chita seda e de um retalho velho uma fita,
que recama, enlaça, alegra ao mais que pode a nudez das cousas
enfeita as paredes tristes, aprimora os trastes modestos e poucos.
E tudo ali parecia feito para receber um noivo amado.
Onde li eu
que uma tradição antiga fazia esperar a uma virgem
de Israel, durante certa noite do ano, a concepção
divina? Seja onde for, comparemo-la à desta outra, que só
difere daquela em não ter noite fixa, mas todas, todas, todas...
O vento, zunindo fora, nunca lhe trouxe o varão esperado,
nem a madrugada alva e menina lhe disse em que ponto da terra é
que ele mora. Era só esperar, esperar . . .
Agora, aquietada
a imaginação e o ressentimento, mira e remira a alcova
solitária, recorda as amigas do colégio e de família,
as mais íntimas, casadas todas. A derradeira delas desposou
aos trinta anos um oficial de marinha, e foi ainda o que reverdeceu
as esperanças à amiga solteira, que não pedia
tanto, posto que a farda de aspirante foi a primeira cousa que lhe
seduziu os olhos, aos quinze anos. . . Onde iam eles? Mas lá
passaram cinco anos, cumpriu os trinta e nove, e os quarenta não
tardam. Quarentona, solteirona, D. Tonica teve um calafrio. Olhou
ainda, recordou tudo, ergueu-se de golpe, deu duas voltas e atirou-se
à cama chorando...
CAPÍTULO
XLIV
NÃO
VADES CRER que a dor aqui foi mais verdadeira que a cólera;
foram iguais em si mesmas, os efeitos é que foram diversos.
A cólera deu em nada; a humilhação debulhou-se
em lágrimas legítimas. E contudo não faltaram
a esta senhora ímpetos de estrangular Sofia, calcá-la
aos pés, arrancar-lhe o coração aos pedaços,
dizendo-lhe na cara os nomes crus que atribuía ao marido...
Tudo imaginações! Crede-mehá tiranos de intenção.
Quem sabe? Na alma desta senhora passou agora um tênue fio
de Calígula...
CAPÍTULO
XLV
E ENQUANTO
uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é
a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono,
tudo rindo cansativo, mas uma boa distribuição de
lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por
trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se
o equilíbrio da vida.
A outra que
ri é a alma do Rubião. Escutai a cantiga alegre, brilhante,
com que ela desce o morro, dizendo as cousas mais íntimas
às estrelas, espécie de rapsódia feita de uma
linguagem que ninguém nunca alfabetou, por ser impossível
achar um sinal que lhe exprima os vocábulos. Cá embaixo,
as ruas desertas parecem-lhe povoadas, o silêncio é
um tumulto, e de todas as janelas debruçam-se vultos de mulher,
caras bonitas e grossas sobrancelhas, todas Sofias e uma Sofia única.
Uma ou outra vez, Rubião acha que foi temerário, indiscreto,
recorda o caso do jardim, a resistência, o enfado da moça,
e chega a arrepender-se; tem então calafrios, fica aterrado
com a idéia de que podem fechar-lhe a porta, e cortar inteiramente
as relaçõestudo porque precipitou os acontecimentos.
Sim, devia esperar; a ocasião não era própria;
visitas, muitas luzes, que lembrança foi aquela de falar
de amores, sem cautelas, desbragadamente?. . . Achava-lhe razão;
era bem feito que o despedisse logo.
-Fui um maluco!
dizia em voz alta.
Não
pensava no jantar, que foi lauto, nem nos vinhos, que eram generosos,
nem na eletricidade própria de uma sala em que há
senhoras galantes; achava-se maluco, completamente maluco.
Logo depois,
a mesma alma, que se acusava, defendia-se. Sofia parecia tê-lo
animado ao que fez; os olhos freqüentes, depois fixos, os modos,
os requebros, a distinção de o mandar sentar ao pé
de si, à mesa de jantar, de só cuidar dele, de lhe
dizer melodiosamente cousas afáveis, que era tudo isso mais
que exortações e solicitações? E a boa
alma explicava a contradição da moça, depois,
no jardimera a primeira vez que ouvia tais palavras, fora do grêmio
conjugal, e ali perto de todos, devia tremer naturalmente, demais,
ele expandira-se muito, e precipitou tudo. Nenhuma graduação;
devia ter ido pé ante pé, e nunca segurar-lhe as mãos
com tanta força que chegasse a molestá-la. Em conclusão,
achava-se grosseiro. Voltava o receio de lhe fecharem a porta; depois,
tornava às consolações da esperança,
à análise das ações da moça,
à própria invenção do Padre Mendes,
mentira de cumplicidadepensava também na estima do marido.
. . Aqui estremeceu. A estima do marido deu-lhe remorsos. Não
só merecia a confiança dele, mas acrescia certa dívida
pecuniária, e umas três letras que Rubião aceitou
por ele.
"Não posso, não devo, ia dizendo a si mesmo,
não é bonito ir adiante. Também é verdade
que, a rigor, não sou autor de nada; ela é que, desde
muito, me anda desafiando. Pois que desafie agora! Sim. é
preciso resistir-lhe. . . Emprestei o dinheiro, quase sem pedido,
porque ele precisava muito e eu devia-lhe obséquios; as letras,
sim, as letras foi ele que me pediu que assinasse, mas não
me pediu mais nada Sei que é honrado, que trabalha muito;
o diabo da mulher é que fez mal em meter-se de permeio, com
os lindos olhos e a figura... Que admirável figura, meu pai
do céu! Hoje então estava divina. Quando o braço
dela roçava no meu, à mesa, apesar da minha manta
. . . "
Confuso, incerto,
ia a cuidar na lealdade que devia ao amigo, mas consciência
partia-se em duas, uma increpando a outra, a outra explicando-se,
e ambas desorientadas...
Deu por si
na Praça da Constituição. Viera andando à
toa. Pensou em ir ao teatro, mas era tarde. Então dirigiu-se
ao Largo de S. Francisco, para meter-se em um tílburi e ir
para Botafogo. Achou três, que vieram logo ao encontro dele,
oferecendo os seus serviços e louvando principalmente o cavalo,
um bom cavalo, - um animal excelente.
CAPÍTULO
XLVI
O RUMOR das
vozes e dos veículos acordou um mendigo que dormia nos degraus
da igreja. O pobre-diabo sentou-se, viu o que era, depois, tornou
a deitar-se, mas acordado, de barriga para o ar, com os olhos fitos
no céu. O céu fitava-o também, impassível
como ele, mas sem as rugas do mendigo, nem os sapatos rotos, nem
os andrajos, um cia claro, estrelado, sossegado, olímpico,
tal qual presidiu às bodas de Jacó e ao suicídio
de Lucrécia. Olhavam-se numa espécie de jogo do siso,
com certo ar de majestades rivais e tranqüilas, sem arrogância
nem baixeza, como se o mendigo dissesse ao céu
-Afinal, não
me hás de cair em cima.
E o céu
-Nem tu me
hás de escalar.
CAPÍTULO
XLVII
RUBIÃO
não era filósofo; a comparação que ali
fez entre os seus cuidados e os do maltrapilho apenas lhe trouxe
à alma uma sombra de inveja. Aquele malandro não pensa
em nada, disse ele consigo; daqui a pouco está dormindo,
enquanto eu...
- Meu amo,
entre, que o animal é bom. Vamos lá em quinze minutos.
Os outros dous
cocheiros diziam-lhe a mesma cousa, quase por iguais palavras
- Meu amo,
venha aqui e verá...
-Olhe o meu
cavalinho
-Faça
favor; são treze minutos de viagem. Em treze minutos está
em casa.
Rubião,
depois de hesitar ainda, deu consigo dentro do tílburi que
lhe ficava à mão, e mandou tocar para Botafogo. Então
lembrou-se de um velho episódio esquecido, ou foi o episódio
que lhe deu inconscientemente a solução. Uma ou outra
cousa, Rubião guiou o pensamento, com o fim de escapar às
sensações daquela noite.
Lá iam
longos anos. Ele era então muito rapaz, e pobre. Um dia,
às oito horas da manhã, saiu de casa, que era na Rua
do Cano (Sete de Setembro), entrou no Largo de S. Francisco de Paula;
dali desces pela Rua do Ouvidor. Ia com alguns cuidados; morava
em casa de um amigo, que começava a tratá-lo como
hóspede de três dias, e ele já o era de quatro
semanas. Dizem que os de três dias cheiram mal; muito antes
disso cheiram mal os defuntos, ao menos nestes climas quentes...Certo
é que o nosso Rubião, singelo como um bom mineiro,
mas desconfiado como um paulista, ia cheio de cuidados, pensando
em retirar-se quanto antes. Pode crer-se que desde que saiu de casa,
entrou no Largo de S. Francisco, e desceu a Rua do Ouvidor até
a dos Ourives, não viu nem ouviu cousa nenhuma.
Na esquina
da Rua dos Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um préstito
singular. Um homem, judicialmente trajado, lia em voz alta um papel,
a sentença. Havia mais o juiz, um padre, soldados, curiosos.
Mas, as principais figuras eram dous pretos. Um deles, mediano,
magro, tinha as mãos atadas, os olhos baixos, a cor fula,
e levava uma corda enlaçada no pescoço; as pontas
do baraço iam nas mãos de outro preto. Este outro
olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta. Sustentava com
galhardia a curiosidade pública. Lido o papel, o préstito
seguiu pela Rua dos Ourives adiante; vinha do Aljube e ia para o
Largo do Moura.
Rubião
naturalmente ficou impressionado. Durante alguns segundos esteve
como agora à escolha de um tílburi. Forças
íntimas ofereciam-lhe o seu cavalo, umas que voltasse para
trás ou descesse para ir aos seus negócios,-outras
que fosse ver enforcar o preto. Era tão raro ver um enforcado!
Senhor, em vinte minutos está tudo findo!-Senhor, vamos tratar
de outros negócios! E o nosso homem fechou os olhos, e deixou-se
ir ao acaso. O acaso, em vez de levá-lo pela Rua do Ouvidor
abaixo até à da Quitanda, torceu-lhe o caminho pela
dos Ourives, atrás do préstito. Não iria ver
a execução, pensou ele; era só ver a marcha
do réu, a cara do carrasco, as cerimônias . . . Não
queria ver a execução. De quando em quando, parava
tudo, chegava gente às portas e janelas, e o oficial de justiça
relia a sentença. Depois, o préstito continuava a
andar com a mesma solenidade. Os curiosos iam narrando o crime,
- um assassinato em MataPorcos. O assassino era dado como homem
frio e feroz. A notícia dessas qualidades fez bem a Rubião;
deu-lhe força para encarar o réu sem delíquios
de piedade. Não era já a cara do crime; o terrar dissimulava
a perversidade. Sem reparar, deu consigo no largo da execução.
Já ali havia bastante gente. Com a que vinha formou-se multidão
compacta.
"Voltemos",
disse ele consigo.
Verdade é
que o réu ainda não subira à forca, não
o matariam de relance; sempre era tempo de fugir. E, dado que ficasse,
por que não fecharia os olhos, como fez certo Alípio
diante do espetáculo das feras? Note-se bem que Rubião
nada sabia desse tal rapaz antigo ignorava, não só
que fechara os olhos, mas também que os abrira logo depois,
devagarinho e curioso. . .
Eis o réu
que sobe à força. Passou pela turba um frêmito.
O carrasco pôs mãos à obra. Foi aqui que o pé
direito de Rubião descreveu uma curva na direção
exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas o esquerdo,
tomado de sentimento contrário, deixou-se estar, lutaram
alguns instantes. . . -Olhe o meu cavalo!-Veja, é um rico
animal! - Não seja mau! -Não seja medroso! Rubião
esteve assim alguns segundos, os que bastaram para que chegasse
o momento fatal. Todos os olhos fixaram-se no mesmo ponto, como
os dele. Rubião não podia entender que bicho era que
lhe mordia as entranhas, nem que mãos de ferro lhe pegavam
da alma e retinham ali. O instante fatal foi realmente um instante;
o réu esperneou, contraiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo
airoso e destro; passou pela multidão um rumor grande, Rubião
deu um grito, e não viu mais nada.
CAPÍTULO
XLVIII
-VOSSA SENHORIA
há de ter visto que o cavalinho é bom...
Rubião
abriu os olhos, meio fechados, e deu com o cocheiro que sacudia
ao de leve a pontinha do chicote para espertar o animal. Interiormente
zangou-se com o homem, que o veio tirar de recordações
antigas. Não eram belas, mas eram antigas,-antigas e enfermeiras
porque lhe davam a beber um elixir que de todo parecia curá-lo
do presente. E vai o cocheiro empurra-o e acorda-o. Iam subindo
a Rua da Lapa; o cavalo, em verdade, comia o espaço como
se fosse a descer.
- Este cavalo
tem-me uma amizade, continuou o cocheiro, que se não acredita.
Podia contar cousas extraordinárias. Há pessoas que
até dizem que é mentira minha; mas, não, senhor,
não é. Quem não sabe que cavalo e cachorro
são os animais que mais gostam da gente? Cachorro parece
que ainda gosta mais...
Cachorro trouxe
à memória de Rubião o Quincas Borba que lá
devia estar em casa, à espera dele, ansioso. Rubião
não esquecia a condição do testamento; jurava
cumpri-la à risca. Convém dizer que, de envolta com
o receio de vê-lo fugir, entrava o de vir a perder os bens.
Não valiam afirmações do advogado; não
há, dizia-lhe este, não há no testamento cláusula
reversível para outrem, no caso de fuga e cachorro; os bens
não podiam sair-lhe das mãos. Que lhe importava a
fuga, se era até melhor, um cuidado menos? Rubião
aceitava aparentemente a explicação, mas lá
ficava a dúvida, o exemplo de longas demandas, a variedade
das opiniões jurídicas sobre uma só matéria,
a ação de algum invejoso ou inimigo, e, o que resumia
tudo, o terror de ficar sem nada. Daí os rigores da reclusão;
daí também o remorso de ter passado a tarde e a noite
sem pensar uma só vez no Quincas Borba.
"Sou um
ingrato!" disse consigo.
Emendou-se logo; mais ingrato era não ter pensado no outro
Quincas Borba, que lhe deixou tudo. Vai senão quando, ocorreu-lhe
que os dous Quincas Borba podiam ser a mesma criatura, por efeito
da entrada da alma do defunto no corpo do cachorro, menos a purgar
os seus pecados que a vigiar o dono. Foi uma preta de São
João d'EI-Rei que lhe meteu, em criança, essa idéia
de transmigração. Dizia ela que a alma cheia de pecados
ia para o corpo de um bruto; chegou a jurar que conhecera um escrivão
que acabou feito gambá...
-Vossa Senhoria
não se esqueça de dizer onde é a casa, disse-lhe
repentinamente o cocheiro.
- Pare.
CAPÍTULO XLIX
O CÃO LADROU de dentro; mas, logo que Rubião entrou,
recebeu-o com grande alegria; e por mais importuno que fosse, Rubião
desfez-se em carícias. A possibilidade de estar ali o testador
dava-lhe arrepios. Subiram juntos a escada de pedra; ali ficaram
por alguns instantes, à luz do lampião que Rubião
mandara deixar aceso. Rubião era mais crédulo que
crente; não tinha razões para atacar nem para defender
nada-terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer cousa.
A vida da Corte deu-lhe até uma particularidadeentre incrédulos,
chegava a ser incrédulo...
Olhou para
o cão, enquanto esperava que lhe abrissem a porta. O cão
olhava para ele, de tal jeito que parecia estar ali dentro o próprio
e defunto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do filósofo,
quando examinava negócios humanos. . . Novo arrepio; mas
o medo, que era grande, não era tão grande que lhe
atasse as mãos. Rubião estendeu-as sobre a cabeça
do animal, coçando-lhe as orelhas e a nuca.
-Pobre Quincas
Borba! Gosta de seu senhor, não gosta? Rubião é
muito amigo de Quincas Borba. . .
E o cão
movia devagar a cabeça, para a esquerda e para a direita
ajudando a distribuição das carícias às
duas orelhas pendentes; depois levantava o queixo, para que lhe
coçasse embaixo, e o dono obedecia; mas então os olhos
do cão, meio fechados de gosto, tinham um ar dos olhos do
filósofo na cama, contando-lhe cousas de que ele entendia
pouco ou nada... Rubião fechava os seus. Abriram-lhe a porta;
despediu-se do cão, mas com tais carinhos, que era o mesmo
que pedir-lhe que entrasse. O criado espanhol incumbiu-se de o levar
para baixo.
-Não
lhe dê pancadas, recomendou Rubião.
Não
lhe deu pancadas; mas só a descida era dolorosa, e o cão
amigo gemeu por muito tempo no jardim. Rubião entrou, despiu-se
e deitou-se. Ah! tinha vivido um dia cheio de sensações
diversas e contrárias, desde as recordações
da manhã, e o almoço aos dous amigos , até
aquela última idéia de metempsicose, passando pela
lembrança do enforcado, e por uma declaração
de amor não aceita, mal repelida, parece que adivinhada por
outros. . . Misturava tudo; o espírito ia de um para outro
lado como bola de borracha entre mãos de crianças.
Contudo, a sensação maior era a do amor. Rubião
estava admirado de si mesmo, e arrependia-se ; mas o arrependimento
era obra da consciência, ao passo que a imaginação
não soltava por nenhum preço a figura da bela Sofia..
. Uma, duas, três horas.. . Sofia ao longe, os latidos do
cão embaixo... O sono esquivo... Onde iam já as três
horas? Três e meia... Enfim, depois de muito cuidar, apareceu-lhe
o sono, espremeu as clássicas papoulas, e foi um instante;
Rubião dormiu antes das quatro.
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