Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO XXX
RUBIÃO perguntou-lhe uma vez
-Diga-me, Sr.
Freitas, se me desse na cabeça ir à Europa, o senhor
era capaz de acompanhar-me?
-Não.
-Por que não?
- Porque eu
sou amigo livre, e bem podia ser que discordássemos logo
no itinerário.
- Pois tenho
pena, porque o senhor é alegre.
- Engana-se,
senhor; trago esta máscara risonha, mas eu sou triste. Sou
um arquiteto de ruínas. Iria primeiro às ruínas
de Atenas; depois ao teatro, ver o Pobre das Ruínas, um drama
de lágrimasdepois, aos tribunais de falências, onde
os homens arruinados...
E Rubião
ria-se; gostava daqueles modos expansivos e francos.
CAPÍTULO
XXXI
QUERES o avesso disso, leitor curioso? Vê este outro convidado
para o almoço, Carlos Maria. Se aquele tem os modos "expansivos
e francos",- no bom sentido laudatório,-claro é
que ele os tem contrários. Assim, não te custará
nada vê-lo entrar na sala, lento, frio e superior, ser apresentado
ao Freitas, olhando para outra parte. Freitas que já o mandou
cordialmente ao diabo por causa da demora (é perto do meio-dia),
corteja-o agora rasgadamente, com grandes aleluias íntimas.
Também
podes ver por ti mesmo que o nosso Rubião, se gosta mais
do Freitas, tem o outro em maior consideração; esperou-o
até agora, e esperá-lo-ia até amanhã.
Carlos Maria é que não tem consideração
a nenhum deles. Examinai-o bem, um galhardo rapaz de olhos grandes
e plácidos, muito senhor de si, ainda mais senhor dos outros.
Olha de cima; não tem o riso jovial, mas escarninho. Agora,
ao sentar-se à mesa, ao pegar no talher, ao abrir o guardanapo,
em tudo se vê que ele está fazendo um insigne favor
ao dono da casa, -talvez dous,-o de lhe comer o almoço, e
o de lhe não chamar pascácio.
E, malgrado
essa disparidade de caracteres, o almoço foi alegre. Freitas
devorava, com alguma pausa é certo.-e, mesmo que o almoço,
se tivesse vindo à hora marcada (onze) talvez não
trouxesse o mesmo sabor. Agora orçava pelos primeiros bocados
que acodem à fome do náufrago. Ao cabo de uns dez
minutos, pôde começar a falar, cheio de riso, multiplicando-se
em gestos e olhares, desfiando um rosário de ditos agudos
e anedotas picarescas. Carlos Maria ouviu a maior parte deles com
seriedade, para humilhá-lo, a ponto que o Rubião,
que realmente achava graça no Freitas, já não
ousava rir. Para o fim do almoço, Carlos Maria afrouxou um
tanto a gravata do espírito, expandiu-se, referiu algumas
aventuras amorosas de outros; Freitas, para lisonjeá-lo,
pediu-lhe uma ou duas dele mesmo. Carlos Maria estourou de riso.
-Que papel
quer o senhor que eu faça? disse ele.
Freitas explicou-se;
não era uma apologia, eram fatos, pedia-lhe fatos; não
havia inconveniente, nem ninguém era capaz de supor. . .
-O senhor dá-se
bem com a residência aqui em Botafogo? interrompeu Carlos
Maria dirigindo-se ao dono da casa.
Freitas, interrompido,
mordeu os beiços, e, pela segunda vez, mandou o moço
ao diabo. Colou-se ao espaldar, teso, grave, olhando para um painel
da parede. Rubião respondeu que se dava bem, que a praia
era linda.
-A vista é
bonita, mas nunca pude tolerar o mau cheiro que há aqui,
em certas ocasiões, disse Carlos Maria. Que lhe parece? continuou
voltando-se para o Freitas.
Freitas desencostou-se
e disse tudo o que pensava, que um e outro podiam ter razão;
mas insistiu em que a praia, a despeito de tudo, era magnífica;
discorreu sem amuo, nem vexame; fez até o obséquio
de chamar a atenção do Carlos Maria para um pedacinho
de fruta que lhe ficara na ponta do bigode.
Chegaram ao
fim, era pouco mais de uma hora. Rubião, calado, recompunha
mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos
e os seus resíduos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto
final da mesa, em vésperas de café. De quando em quando
dava um olhar à casaca do criado. Chegou a apanhar o rosto
de Carlos Maria em flagrante prazer, quando tirava as primeiras
fumaças de um dos charutos que ele mandara distribuir. Nisto
entrou o criado com uma cestinha coberta por um lenço de
cambraia, e uma carta, que acabavam de trazer.
CAPÍTULO
XXXII
-QUEM É
que manda isto? perguntou Rubião.
-D. Sofia.
Rubião
não conhecia a letra; era a primeira vez que ela lhe escrevia
Que podia ser? Via-se-lhe a comoção no rosto e nos
dedos. Enquanto ele abria a carta, Freitas familiarmente descobria
a cestinhaeram morangos. Rubião leu trêmulo estas linhas
Mando-lhe estas
frutinhas para o almoço, se chegarem a tempo; e, por ordem
do Cristiano, fica intimado a vir jantar conosco, hoje, sem falta.
Sua verdadeira amiga,
SOFIA.
- Que frutas
são? perguntou Rubião fechando a carta.
- Morangos.
-Chegaram tarde.
Morangos? repetiu ele sem saber o que dizia.
-Não
é preciso corar, meu caro amigo, disse-lhe rindo o Freitas,
logo que o criado saiu. Estas cousas acontecem a quem ama...
-A quem ama?
repetiu Rubião corando deveras. Mas, pode ler a carta, veja...
Ia mostrá-la,
recuou e meteu-a no bolso. Estava fora de si, meio confuso, meio
alegre; Carlos Maria deleitou-se em dizer-lhe (que ele não
podia encobrir que o mimo era de alguma namorada. E não achava
que repreender; o amor era lei universalse era alguma senhora casada,
louvava-lhe a discrição...
- Mas pelo
amor de Deus! interrompeu o anfitrião.
-Viúva?
Estamos no mesmo caso, continuou Carlos Maria; a discrição
aqui é ainda um merecimento. O maior pecado, depois do pecado,
é a publicação do pecado. Eu, se fosse legislador
propunha que se queimassem todos os homens convencidos de indiscrição
nestas matérias; e haviam de ir para a fogueira, como os
réus da inquisição com a diferença que,
em vez de sambenito, levariam uma capa de penas de papagaio...
Freitas não
podia ter-se com riso e batia na mesa, à maneira de aplauso;
Rubião, meio enfiado, acudia que não era casada nem
viúva . . .
-Solteira então?
replicou o moço. Um casório em breve? Vá que
é tempo. Morangos de noivado, continuou, pegando alguns entre
os dedos. Cheiram a alcova de donzela e a latim de padre.
Rubião
não sabia mais que dissesse; afinal tornou atrás e
explicou se; eram da senhora de um seu amigo particular. Carlos
Maria piscou o olho, Freitas interveio dizendo que agora, sim, senhor,
estava explicado; mas que, a princípio, o mistério,
o arranjo da cestinha. o ar dos próprios morangos,-morangos
adúlteros, disse ele, rindo - todas essas cousas davam ao
negócio um aspecto imoral e pecaminoso; mas tudo ficara acabado.
Tomaram em
silêncio o café; depois passaram à sala. Rubião
desfazia-se em obséquios, mas preocupado. Corridos alguns
minutos, estava satisfeito com a primeira suposição
dos dous convivasa de um amor adúltero; achou até
que se defendera com demasiado calor. Uma vez que não dissesse
o nome de ninguém, podia ter confessado que era, em verdade,
um negócio íntimo. Mas também podia acontecer
que o próprio calor da negativa deixasse alguma dúvida
no animo dos dous, alguma suspeita... Aqui sorriu consolado.
Carlos Maria
consultou o relógio, eram duas horas, ia-se embora. Rubião
agradeceu-lhe muito e muito o obséquio e pediu-lhe que repetisse;
podiam passar alguns domingos assim em boa palestra amigável
- Apoiado!
bradou Freitas aproximando-se.
Tinha metido
meia dúzia de charutos no bolso, e, ao sair. disse ao ouvido
do Rubião;
- Cá
vai a lembrança do costume; seis dias de delícias,
uma delícia por dia.
-Leve mais.
-Não;
virei buscá-los depois.
Rubião
acompanhou-os ao portão de ferro. Quincas Borba, logo que
ouviu vozes, correu do fundo do jardim e veio saudá-los,
particularmente ao senhor; fez festas a Carlos Maria, quis lamber-lhe
a mão; o rapaz afastou-se com repugnância. Rubião
deu um pontapé no cachorro, que o fez gritar e fugir. Afinal
despediram-se todos.
-O senhor para
onde vai? perguntou Carlos Maria ao Freitas.
Freitas calculou
que ele iria a alguma visita para os lados de S. Clemente, e quis
acompanhá-lo.
-Vou até
o fim da praia, disse.
-Eu volto para
trás, tornou o outro.
CAPÍTULO XXXIII
RUBIÃO
viu-os ir, entrou, meteu-se na sala, e ainda uma vez leu o bilhete
de Sofia. Cada palavra dessa página inesperada era um mistério;
a assinatura uma capitulação. Sofia apenas; nenhum
outro nome da família ou do casal. Verdadeira amiga era evidentemente
uma metáfora. Quanto às primeiras palavrasMando-lhe
estas frutinhas para o almoço respiravam a candidez de uma
alma boa e generosa. Rubião viu, sentiu, palpou tudo pela
única força do instinto e deu por si beijando o papel,-
digo mal, beijando o nome, o nome dado na pia de batismo, repetido
pela mãe, entregue ao marido como parte da escritura moral
do casamento, e agora roubado a todas essas origens e posses para
lhe ser mandado a ele, no fim duma folha de papel... Sofia! Sofia!
Sofia!
CAPÍTULO
XXXIV
-POR QUE VEIO
tão tarde? perguntou-lhe Sofia, logo que ele apareceu à
porta do jardim, em Santa Teresa.
-Depois do
almoço, que acabou às duas horas, estive arranjando
uns papéis. Mas não é tão tarde assim,
continuou Rubião vendo o relógio, são quatro
horas e meia.
-Sempre é
tarde para os amigos, replicou Sofia em ar de censura.
Rubião
caiu em si; mas não teve tempo de emendar a mão. Diante
dele, ao pé da casa, estavam sentadas em bancos de ferro
umas quatro senhoras, caladas, olhando para ele, curiosas; eram
visitas de Sofia que esperavam a vinda de um capitalista Rubião.
Sofia foi apresentá-lo a elas. Três delas eram casadas,
uma solteira, ou mais que solteira. Contava trinta e nove anos,
e uns olhos pretos, cansados de esperar. Era filha de um Major Siqueira,
que daí a alguns minutos apareceu no jardim.
-O nosso Palha
já me tinha falado em Vossa Excelência, disse o major
depois de apresentado ao Rubião. Juro que é seu amigo
às direitas. Contou-me o acaso que os ligou. Geralmente,
as melhores amizades são essas. Eu, em trinta e tantos, pouso
antes da Maioridade, tive um amigo, o melhor dos meus amigos daquele
tempo, que conheci assim por um acaso, na botica do Bernardes, por
alcunha o João das pantorrilhas. .. Creio que usou delas,
em rapaz, entre 1801 e 1812. O certo é que a alcunha ficou.
A botica era na Rua de São José, ao desembocar na
da Misericórdia. .. João das pantorrilhas... Sabe
que era um modo de engrossar a perna. . . Bernardes era o nome dele,
João Alves Bernardes. . . Tinha a botica na Rua de S. José.
Conversava-se ali muito, à tarde, e à noite. Ia a
gente com o seu capote, e bengalão; alguns levavam lanterna.
Eu não, levava só o meu capote.. Ia-se de capote;
o Bernardes,- João Alves Bernardes era o nome todo dele -
era filho de Maricá, mas criou-se aqui no Rio de Janeiro...
João das pantorrilhas era a alcunha; diziam que ele andara
de pantorrilhas, em rapaz, e parece que foi um dos petimetres da
cidade. Nunca me esqueciJoão das pantorrilhas... Ia-se de
capote...
A alma do Rubião
bracejava debaixo deste aguaceiro de palavras mas, estava num beco
sem saída por um lado nem por outro. Tudo muralhas. Nenhuma
porta aberta, nenhum corredor, e a chuva a cair. Se pudesse olhar
para as moças veria, ao menos, que era objeto de curiosidade
de todas, principalmente da filha do major, D. Tonica; mas não
podia; escutava, e o major chovia a cântaros. Foi o Palha
que lhe trouxe um guarda-chuva. Sofia tinha ido dizer ao marido
que o Rubião acabara de chegar; daí a nada estava
o Palha no jardim, e saudava o amigo, dizendo-lhe que viera tarde.
O major, que explicava ainda uma vez a alcunha do boticário,
abandonou a presa, e foi ter com as moças; depois saiu à
rua.
CAPÍTULO
XXXV
As SENHORAS
casadas eram bonitas; a mesma solteira não devia ter sido
feia, aos vinte e cinco anos; mas Sofia primava entre todas elas
Não
seria tudo o que o nosso amigo sentia, mas era muito. Era daquela
casta de mulheres que o tempo, como um escultor vagaroso, não
acaba logo, e vai polindo ao passar dos longos dias. Essas esculturas
lentas são miraculosas; Sofia rastejava os vinte e oito anos;
estava mais bela que aos vinte e sete; era de supor que só
aos trinta desse o escultor os últimos retoques, se não
quisesse prolongar ainda o trabalho, por dous ou três anos.
Os olhos, por
exemplo, não são os mesmos da estrada de ferro, quando
o nosso Rubião falava com o Palha, e eles iam sublinhando
a conversação... Agora, parecem mais negros, e já
não sublinham nada; compõem logo as cousas, por si
mesmos, em letra vistosa e gorda, e não é uma linha
nem duas, são capítulos inteiros. A boca parece mais
fresca. Ombros, mãos, braços, são melhores,
e ela ainda os faz ótimos por meio de atitudes e gestos escolhidos.
Uma feição que a dona nunca pôde suportar, -
cousa que o próprio Rubião achou a princípio
que destoava do resto da cara,- o excesso de sobrancelhas,-isso
mesmo, sem ter diminuído, como que lhe dá ao todo
um aspecto mui particular.
Traja bem comprime
a cintura e o tronco no corpinho de lã fina cor de castanha,
obra simples, e traz nas orelhas duas pérolas verdadeiras,-
mimo que o nosso Rubião lhe deu pela Páscoa.
A bela dama
é filha de um velho funcionário público. Casou
aos vinte anos com este Cristiano de Almeida e Palha, zangão
da praça, que então contava vinte e cinco. O marido
ganhava dinheiro, era jeitoso, ativo, e tinha o faro dos negócios
e das situações. Em 1864, apesar de recente no ofício,
adivinhou, - não se pode empregar outro termo,- adivinhou
as falências bancárias.
-Nós
temos cousa, mais dia menos dia; isto anda por arames. O menor brado
de alarma leva tudo.
O pior é
que ele despendia todo o ganho e mais. Era dado à boa-chira;
reuniões freqüentes, vestidos caros e jóias para
a mulher, adornos de casa, mormente se eram de invenção
ou adoção recente,- levavam-lhe os lucros presentes
e futuros. Salvo em comidas, era escasso consigo mesmo. Ia muita
vez ao teatro sem gostar dele, e a bailes, em que se divertia um
pouco,- mas ia menos por si que para aparecer com os olhos da mulher,
os olhos e os seios. Tinha essa vaidade singular, decotava a mulher
sempre que podia, e até onde não podia, para mostrar
aos outros as suas venturas particulares. Era assim um rei Candaules,
mais restrito por um lado, e, por outro, mais público. E
aqui façamos justiça à nossa dama. A princípio,
cedeu sem vontade aos desejos do marido; mas tais foram as admirações
colhidas, e a tal ponto o uso acomoda a gente às circunstâncias,
que ela acabou gostando de ser vista, muito vista, para recreio
e estímulo dos outros. Não a façamos mais santa
do que é, nem menos. Para as despesas da vaidade, bastavam-lhe
os olhos, que eram ridentes, inquietos, convidativos, e só
convidativospodemos compará-los à lanterna de uma
hospedaria em que não houvesse cômodos para hóspedes.
A lanterna fazia parar toda a gente, tal era a lindeza da cor, e
a originalidade dos emblemas; parava, olhava e andava. Para que
escancarar as janelas? Escancarou-as, finalmente; mas a porta, se
assim podemos chamar ao coração, essa estava trancada
e retrancada.
CAPÍTULO
XXXVI
"MEU DEUS!
como é bonita! Sinto-me capaz de fazer um escândalo!"
pensava Rubião, à noite, ao canto de uma janela, de
costas para fora, olhando para Sofia, que olhava para ele. Cantava
uma senhora. Os três maridos de fora, que ali estavam de visita,
interromperam o voltarete, em atenção à cantora,
e vieram à sala, por alguns instantes; a cantora era mulher
de um deles. Palha, que a acompanhava ao piano, não via a
contemplação mútua da esposa e do capitalista.
Não sei se todas as outras pessoas estavam no mesmo caso.
Uma delas, sim, essa sei que os viaD. Tonica, a filha do major.
"Meu Deus!
como é bonita! Sinto-me capaz de fazer um escândalo!"
continuava a pensar o Rubião, encostado à janela,
de costas para fora, com os olhos esquecidos na bela dama, que olhava
para ele.
CAPÍTULO
XXXVII
ENTENDE-SE
bem que D. Tonica observasse a contemplação dos dous.
Desde que Rubião ali chegou, não cuidou ela mais que
de atraí-lo. Os seus pobres olhos de trinta e nove anos,
olhos sem parceiros na terra, indo já a resvalar do cansaço
na desesperança, acharam em si algumas fagulhas. Volvê-los
uma e muitas vezes requebrando-os, era o longo ofício dela.
Não lhe custou nada armá-los contra o capitalista.
O coração, meio desenganado, agitou-se outra vez.
Alguma cousa lhe dizia que esse mineiro rico era destinado pelo
céu a resolver o problema do matrimônio. Rico era ainda
mais do que ela pedianão pedia riquezas, pedia um esposo.
Todas as suas campanhas fizeram-se sem a consideração
pecuniária; nos últimos tempos ia baixando, baixando,
baixando; a última foi contra um estudantinho pobre... Mas
quem sabe se o céu não lhe destinava justamente um
homem rico? D. Tonica tinha fé em sua madrinha, Nossa Senhora
da Conceição, e investiu a fortaleza com muita arte
e valor.
"Todas
as outras são casadas", pensou ela.
Não
tardou em perceber que os olhos de Rubião e os de Sofia caminhavam
uns para os outros; notou, porém, que os de Sofia eram menos
freqüentes e menos demorados, fenômeno que lhe pareceu
explicável, pelas cautelas naturais da situação.
Podia ser que se amassem... Esta suspeita afligiu-a; mas o desejo
e a esperança mostraram-lhe que um homem, depois de um ou
mais amores, podia muito bem vir a casar. A questão era captá-lo;
a perspectiva de; família podia ser que acabasse de matar
qualquer outra inclinação da parte dele, se alguma
houvesse.
Ei-la que redobra
esforços. Todas as suas graças foram chamadas a postos,
e obedeceram, ainda que murchas. Gestos de ventarola, apertos de
lábios, olhos oblíquos, marchas, contramarchas para
mostrar bem a elegância do corpo e a cintura fina que tinha,
tudo foi empregado. Era o velho formulário em ação;
nada lhe rendera até ali, mas a loteria é assim mesmolá
vem um bilhete que resgata os perdidos.
Agora, porém,
à noite, por ocasião do canto ao piano, é que
D. Tonica deu com eles embebidos um no outro. Não teve mais
dúvida; não eram olhares aparentemente fortuitos,
breves, como até ali, era uma contemplação
que eliminava o resto da sala. D.Tonica sentiu o grasnar do velho
corvo da desesperança. Quoth the RavenNEVER MORE.
Ainda assim
continuou a luta; chegou a conseguir que viesse sentar-se ao pé
dela, por alguns minutos, e tratou de dizer cousas bonitas, frases
que lhe ficaram de romances, outras própria melancolia da
situação lhe ia inspirando. Rubião ouvia e
respondia, mas inquieto, quando Sofia deixava a sala, e não
quando tornava a ela. Uma das vezes a distração foi
excessiva. D. Tonica confessava-lhe que tinha muita vontade de ver
principalmente Barbacena. Que tais eram os ares?
- Os ares,
repetiu maquinalmente o outro.
Olhava para
Sofia, que estava então em pé, de costas falando a
duas senhoras sentadas. Rubião admirou-lhe ainda uma vez
a figura, o busto bem talhado, estreito embaixo, largo em cima,
emergindo das cadeiras amplas, como uma grande braçada de
folhas sai de dentro de um vaso. A cabeça podia então
dizer-se que era como uma magnólia única, direita,
espetada no centro do ramo. Era isto que Rubião mirava, quando
D. Tonica lhe perguntou pelos ares de Barbacena, e ele repetiu a
palavra dela, sem lhe dar sequer a mesma forma interrogativa.
CAPÍTULO XXXVIII
RUBIÃO estava resoluto. Nunca a alma de Sofia pareceu convidar
a dele, com tamanha instancia, a voarem juntas até às
terras clandestinas, donde elas tornam, em geral, velhas e cansadas.
Algumas não tornam. Outras param a meio caminho. Grande número
não passa da beira dos telhados...
CAPÍTULO
XXXIX
A LUA era magnífica.
No morro, entre o céu e a planície, a alma menos audaciosa
era capaz de ir contra um exército inimigo, e destroçá-lo.
Vede o que não seria com este exército amigo. Estavam
no jardim. Sofia enfiara o braço no dele, para irem ver a
lua. Convidara D. Tonica, mas a pobre dama respondeu que tinha um
pé dormente, que já ia, e não foi.
Os dous ficaram
calados algum tempo. Pelas janelas abertas viam-se as outras pessoas
conversando, e até os homens, que tinham acabado o voltarete.
O jardim era pequeno; mas a voz humana tem todas as notas, e os
dous podiam dizer poemas sem ser ouvidos.
Rubião
lembrou-se de uma comparação velha, mui velha, apanhada
em não sei que décima de 1850, ou de qualquer outra
página em prosa de todos os tempos. Chamou aos olhos de Sofia
as estrelas da terra, e às estrelas os olhos do céu.
Tudo isso baixinho e trêmulo.
Sofia ficou
pasmada. De súbito endireitou o corpo, que até ali
viera pesando no braço do Rubião. Estava tão
acostumada à timidez do homem... Estrelas? olhos? Quis dizer
que não caçoasse com ela, mas não achou como
dar forma à resposta, sem rejeitar uma convicção
que também era sua, ou então sem animá-lo a
ir adiante. Daí um longo silêncio.
-Com uma diferença,
continuou Rubião. As estrelas são ainda menos lindas
que os seus olhos. e afinal nem sei mesmo o que elas sejam; Deus,
que as pôs tão alto, é porque não poderão
ser vistas de perto, sem perder muito da formosura. . . Mas os seus
olhos, não; estão aqui, ao pé de mim, grandes,
luminosos, mais luminosos que o céu...
Loquaz, destemido,
Rubião parecia totalmente outro. Não parou ali; falou
ainda muito, mas não deixou o mesmo círculo de idéias.
Tinha poucas; e a situação, apesar da repentina mudança
do homem, tendia antes a cerceá-las, que a inspirar-lhe novas.
Sofia é que não sabia que fizesse. Trouxera ao colo
um pombinho, manso e quieto, e sai-lhe um gavião,-um gavião
adunco e faminto.
Era preciso
responder, fazê-lo parar, dizer que ia por onde ela não
queria ir, e tudo isso, sem que ele se zangasse, sem que se fosse
embora... Sofia procurava alguma cousa; não achava, porque
esbarrava na questão, para ela insolúvel, se era melhor
mostrar que entendia, ou que não entendia. Aqui lembraram-lhe
os próprios gestos dela, as palavrinhas doces, as atenções
particulares; concluía " em tal situação,
não podia ignorar o sentido das finezas do homem. Mas confessar
que entendia, e não despedi-lo de casa, eis aí o ponto
melindroso.
CAPÍTULO
XL
EM CIMA, as
estrelas pareciam rir daquela situação inextricável.
Vá que
a lua os visse! A lua não sabe escarnecer; e os poetas, que
a acham saudosa, terão percebido que ela amou outrora algum
astro vagabundo, que a deixou ao cabo de muitos séculos.
Pode ser até que ainda se amem. Os seus eclipses (perdoe-me
a astronomia) talvez não sejam mais que entrevistas amorosas.
O mito de Diana descendo a encontrar-se com Endimião bem
pode ser verdadeiro. Descer e que é demais. Que mal há
em que os dous se encontrem ali mesmo no céu, como os grilos
entre as folhagens cá de baixo? A noite, mãe caritativa,
encarrega-se de velar a todos.
Depois, a lua
é solitária. A solidão faz a pessoa séria.
As estrelas em chusma, são como as moças entre quinze
e vinte anos, alegres, palreiras, rindo e falando a um tempo de
tudo e de todos.
Não
nego que são castas; mas tanto pior,-terão rido do
que não entendem. . . Castas estrelas! é assim que
lhes chama Otelo, o terrível, e Tristram Shandy, o jovial.
Esses extremos do coração e do espírito estão
de acordo num pontoas estrelas são castas. E elas ouviam
tudo (castas estrelas!) tudo o que a boca temerária de Rubião
ia entornando na alma pasmada de Sofia. O recatado de longos meses
era agora (castas estrelas!) nada menos que um libertino. Disséreis
que o Diabo andara a enganar a moça com as duas grandes asas
de arcanjo que Deus lhe pôs; de repente, meteu-as na algibeira
e desbarretou-se para mostrar as duas pontas malignas, fincadas
na testa. E rindo, daquele riso oblíquo dos maus, propunha
comprar-lhe só a alma, mas a alma e o corpo... Castas estrelas!
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