Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO
CLXXXIII
A VIZINHA RIU-SE.
A mãe riu-se também. Confessou que o filho era uma
pestezinha, um endiabrado, que não sossegava; não
podia perdê-lo de vista. Qualquer distração,
estava na rua. E isto desde pequenino; tinha ainda dous anos, quando
escapou de morrer embaixo de um carro, ali mesmo; esteve por um
fio. Se não fosse um homem que passava, um senhor bem vestido,
que acudiu depressa, até com perigo de vida estaria morto
e bem morto. Nisto o marido, que vinha pela calçada oposta,
atravessou a rua, e interrompeu a conversação. Trazia
o cenho carregado, mal cumprimentou a vizinha, e entrou; a mulher
foi ter com ele. Que era? O marido contou a surriada.
-Passou por
aqui, disse ela.
-Não
conheceste o homem?
-Não.
O marido cruzou
os braços e ficou a olhar, fixo, calado. A mulher perguntou-lhe
quem era.
-É aquele
homem que nos salvou o Deolindo da morte.
A mulher estremeceu.
-Viste bem?
perguntou.
-Perfeitamente.
Se eu já o tinha encontrado outras vezes, mas então
não estava assim. Coitado! E a molecada berrava atrás
dele. Qual! não há polícia nesta terra.
O que Ihe doía
à mulher não era tanto o mal do homem, nem ainda a
surriada; mas a parte que teve nesta o filho,-a mesma criança
que o homem salvara da morte. Realmente, como podia o menino reconhecê-lo,
nem saber que lhe devia a vida? Doía-lhe o encontro, a coincidência.
Afinal, contentou-se de por todas as culpas em si. Se tivesse tido
mais cuidado, o pequeno não havia saído, e não
entraria na troça. Tremia de quando em quando, e estava inquieta.
O marido pegou na cabeça do filho, e deu-lhe dous beijos.
-Você
viu a cena toda? perguntou à mulher.
-Vi.
-Eu ainda quis
dar o braço ao homem, e trazê-lo para aqui, mas, tive
vergonha; os moleques eram capazes de dar-me uma vaia. Desviei o
rosto, porque ele podia conhecer-me. Coitado! Nota que não
parecia ouvir nada, e seguia satisfeito, creio que até ria.
. . Que triste cousa que é perder o juízo!
A mulher pensava
na travessura do filho; não a referiu ao marido, pediu à
vizinha que não aludisse a ela, e, de noite, só pregou
olho tarde. Metera-se-lhe em cabeça que, anos depois, o filho
endoudecia, era castigado pela mesma troça, e que ela cuspia
para o céu, indignada, blasfemando.
CAPÍTULO
CLXXXIV
DUAS HORAS
DEPOIS da cena da Rua da Ajuda chegou Rubião à casa
de D. Fernanda. Os vadios foram-se dispersando, a pouco e pouco,
e os claros não se preenchiam; os três últimos
juntaram os seus adeuses em um berro único e formidável.
Rubião continuou sozinho, mal percebido pelos moradores das
casas, porque a gesticulação diminuía ou mudava
de feitio. Não se dirigia à parede, à suposta
imperatriz; mas era ainda imperador. Caminhava, parava, murmurava,
sem grandes gestos, sonhando sempre, sempre, sempre, envolvido naquele
véu, através do qual todas as cousas eram outras,
contrárias e melhores; cada lampião tinha um aspecto
de camarista, cada esquina uma feição de reposteiro.
Rubião seguia direito à sala do trono, para receber
um embaixador qualquer, mas o paço era interminável,
cumpria atravessar muitas salas e galerias, verdade que sobre tapetes,
-e por entre alabardeiros, altos e robustos.
Das gentes
que o viam e paravam na rua, ou se debruçavam das janelas,
muitas suspendiam por instantes os seus pensamentos tristes ou enfastiados,
as preocupações do dia. os tédios, os ressentimentos,
este uma dívida, outro uma doença, desprezos de amor,
vilanias de amigo. Cada miséria esquecia-se, o que era melhor
que consolar-se; mas o esquecimento durava um relâmpago. Passado
o enfermo, a realidade empolgava-os outra vez, as ruas eram ruas,
porque os paços suntuosos iam com Rubião. E mais de
um tinha pena do pobre-diabo; comparando as duas fortunas, mais
de um agradecia ao céu a parte que lhe coube,-amarga, mas
consciente. Preferiam o seu casebre real ao alcáçar
fantasmagórico.
CAPÍTULO
CLXXXV
RUBIÃO
foi recolhido a uma casa de saúde. Palha esquecera a obrigação
que Sofia lhe impôs, e Sofia não se lembrou mais da
promessa feita à rio-grandense. Cuidavam ambos de outra casa,
um palacete em Botafogo, cuja reconstrução estava
prestes a acabar, e que eles queriam inaugurar, no inverno, quando
as câmaras trabalhassem, e toda a gente houvesse descido de
Petrópolis. Mas agora a promessa foi cumprida; Rubião
deu entrada no estabelecimento, onde ficou ocupando uma sala e um
quarto especiais, recomendado pelo Dr. Falcão e pelo Palha.
Não resistiu a nada; acompanhou-os com satisfação,
e entrou nos seus aposentos, como se os conhecesse desde muito.
Quando eles se despediram, dizendo que já voltavam, Rubião
convidou-os para uma revista militar, no sábado.
-Pois sim,
sábado, assentiu Falcão.
-Sábado
é bom dia. continuou Rubião. Não faltes, duque
de Palha.
-Não
falto, disse o Palha andando.
-Olha, mandar-te-ei
um dos meus coches, novo em folha; é preciso que tua mulher
pouse o seu lindo corpo onde ninguém ainda ousou sentar-se.
Almofadas de damasco e veludo, arreios de prata e rodas de ouro;
os cavalos descendem do próprio cavalo que meu tio montava
em Marengo. Adeus, duque de Palha.
CAPÍTULO
CLXXXVI
PARA MIM, é
claro, saiu pensando o Dr. Falcão, aquele homem foi amante
da mulher deste sujeito."
CAPÍTULO
CLXXXVII
LÁ FICOU
O HOMEM. Quincas Borba tentara entrar na carruagem que levou o amigo,
e porfiou em acompanhá-la, correndo; foi necessária
toda a força do criado para agarrá-lo, contê-lo
e trancá-lo em casa. Era a mesma situação de
Barbacena; mas a vida, meu rico senhor, compõe-se rigorosamente
de quatro ou cinco situações, que as circunstâncias
variam e multiplicam aos olhos. Rubião pediu instante mente
que lhe mandassem o cão. D. Fernanda, alcançado o
consentimento do diretor, cuidou de satisfazer o desejo do doente.
Quis escrever a Sofia, mas foi ela própria ao Flamengo.
CAPÍTULO
CLXXXVIII
- MANDO VER,
é aqui perto, propôs Sofia.
-Vamos nós
mesmas. Que tem? Já pensei em uma cousa. Valera a pena conservar
a casa pronta e alugada, quando a cura pode prolongar-se? Melhor
é deixá-la, vender os trastes e apurar o que houver.
Foram a pé do Flamengo à Rua do Príncipe, três
a quatro minutos. Raimundo estava na rua, mas viu gente à
porta e veio abri-la. O interior da casa tinha a feição
do abandono, sem a fixidez e regularidade das cousas, que parecem
conservar um resto da vida interrompida; era o abandono do desmazelo.
Mas, por outro lado, o transtorno dos móveis da sala exprimia
bem o delírio do morador, suas idéias tortas e confusas.
-Ele foi muito
rico? perguntou D. Fernanda a Sofia.
-Tinha alguma
cousa, respondeu esta, quando chegou de Minas; mas parece que estragou
tudo. Olhe, levante o vestido que o chão parece que não
se varre há um século.
Não
era só o chão; os trastes tinham a crosta da incúria.
Nem por isso o criado explicava nada, olhava, escutava, e, baixinho,
assobiava uma polca do dia. Sofia não lhe perguntou pelo
asseio; estava morta por fugir "daquela imundíce",
dizia a si mesma, e tinha vontade de indagar do cão, que
era o principal motivo da visita; mas, não queria mostrar
interesse por ele nem pelo resto. A trivialidade daquilo tudo não
lhe dizia nada ao espírito nem ao coração;
a lembrança do alienado não a ajudava a suportar o
tempo. De si para si achava a companheira singularmente romântica
ou afetada. "Que bobagem!" ia pensando, sem desconcertar
o sorriso aprovador com que acudia a todas as observações
de D. Fernanda.
-Abra aquela
janela, disse esta ao criado; tudo cheira a mofo.
-Oh! insuportável!
acudiu Sofia, respirando com asco.
Mas, apesar
da exclamação, D. Fernanda não se resolveu
a sair. Sem que nenhuma recordação pessoal lhe viesse
daquela miserável estancia, sentia-se presa de uma comoção
particular e profunda, não a que dá a ruína
das cousas. Aquele espetáculo não lhe trazia um tema
de reflexões gerais, não lhe ensinava a fragilidade
dos tempos, nem a tristeza do mundo, dizia-lhe tão-somente
a moléstia de um homem, de um homem que ela mal conhecia,
a quem falara algumas vezes. E ia ficando e olhando, sem pensar,
sem deduzir, metida em si mesma, dolente e muda. Sofia não
ousava articular nada, com receio de ser desagradável a tão
conspícua dama. Tinham ambas os vestidos apanhados, para
evitar a mácula da poeira; mas Sofia acrescentou a essa precaução
a agitação viva, contínua e impaciente da ventarola,
como pessoa que sufocasse naquela atmosfera. Chegou a tossir algumas
vezes.
-E o cachorro?
perguntou D. Fernanda ao criado.
-Está
preso no quarto, lá dentro.
-Vá
buscá-lo.
Quincas Borba
apareceu. Magro, abatido, parou à porta da sala, estranhando
as duas senhoras, mas sem latir; mal erguia os olhos apagados. Ia
a dar meia-volta ao corpo na direção do interior da
casa, quando D. Fernanda fez uns estalinhos com os dedos; ele parou,
agitando a cauda.
-Como é
mesmo que se chama? perguntou D. Fernanda.
-Quincas Borba,
respondeu o criado, rindo com a voz arrastada. Tem nome de gente.
Eh! Quincas Borba! vai lá! a senhora está chamando.
-Quincas Borba!
vem cá! Quincas Borba! repetiu D. Fernanda.
Quincas Borba
acudiu ao chamado, não pulando, nem alegre. D. Fernanda inclinou-se,
perguntou-lhe pe]o amigo, se estava longe, se queria ir vê-lo.
Assim mesmo inclinada, interrogava o criado sobre o trato do cão.
-Agora come,
sim, senhora; logo que meu amo foi embora, não queria comer
nem beber; -eu até pensei que estivesse danado.
-Come bem?
-Come pouco.
-Procura pelo
senhor?
-Parece que
procura, respondeu Raimundo tapando o riso com a mão; mas
eu tranquei ele no quarto, para não fugir. Já não
chora; a princípio chorava muito, que até me acordava...
Era preciso eu bater com um cacete na porta e gritar, para ele sossegar...
D. Fernanda
coçava a cabeça do animal. Era o primeiro afago depois
de longos dias de solidão e desprezo. Quando D. Fernanda
cessou de acariciá-lo, e levantou o corpo, ele ficou a olhar
para ela, e ela para ele, tão fixos e tão profundos,
que pareciam penetrar no íntimo um do outro. A simpatia universal,
que era a alma desta senhora, esquecia toda a consideração
humana diante daquela miséria obscura e prosaica, e estendia
ao animal uma parte de si mesma, que o envolvia, que o fascinava,
que o atava aos pés dela. Assim, a pena que lhe dava o delírio
do senhor, dava-lhe agora o próprio cão, como se ambos
representassem a mesma espécie. E sentindo que a sua presença
levava ao animal uma sensação boa, não queria
privá-lo de benefício .
-A senhora
está-se enchendo de pulgas, observou Sofia.
D. Fernanda
não a ouviu. Continuou a mirar os olhos meigos e tristes
do animal, até que este deixou cair a cabeça e entrou
a farejar a sala. Sentira o cheiro do senhor. A porta da rua estava
aberta; ele teria fugido por ela, se Raimundo não acudisse
a prendê-lo. D. Fernanda deu algum dinheiro ao criado para
que o fosse lavar e conduzir à casa de saúde, recomendando-lhe
o maior cuidado, que o levasse ao colo, ou preso por um cordão.
Nesta parte acudiu também Sofia, ordenando que a procurasse
antes, em casa.
CAPÍTULO
CLXXXIX
SAÍRAM.
Sofia, antes de pôr o pé na rua, olhou para um e outro
lado, espreitando se vinha alguém; felizmente, a rua estava
deserta. Ao ver-se livre da pocilga, Sofia readquiriu o uso das
boas palavras, a arte maviosa e delicada de captar os outros, e
enfiou amorosamente o braço no de D. Fernanda. Falou-lhe
de Rubião e da grande desgraça da loucura; assim também
do palacete de Botafogo. Por que não ia com ela ver as obras?
Era só lanchar um pouco, e partiriam imediatamente.
CAPÍTULO
CXC
SOBREVEIO UM
SUCESSO que distraiu D. Fernanda do Rubião; foi o nascimento
de uma filha de Maria Benedita. Ela correu à Tijuca, encheu
de beijos a mãe e a criança, deu a mão a beijar
a Carlos Maria.
-Sempre exuberante!
exclamou o jovem pai, obedecendo.
-Sempre secarrão!
retorquiu ela.
Apesar da resistência
do primo, D. Fernanda acompanhou a convalescença de Maria
Benedita, tão cordial, tão boa, tão alegrem,
que era um encanto conservá-la em casa. A felicidade daqui
fê-la esquecer a desgraça dacolá; mas, convalescida
a recente mãe, D. Fernanda acudiu ao enfermo.
CAPÍTULO
CXCI
"CONTO
RESTITUÍ-LO à razão no fim de seis ou oito
meses. Vai muito bem."
D. Fernanda
mandou a Sofia esta resposta do diretor da casa de saúde,
e convidou-a a irem ver o enfermo, se achasse que não lhe
ficava mal. "Que mal pode haver?" respondeu Sofia em um
bilhete. "Mas eu é que não teria ânimo
de vê-lo; foi tão nosso amigo, que não sei se
poderia suportar a vista e a conversação do pobre
homem. Mostrei a carta a Cristiano, que me declarou ter liquidado
os bens do Sr. Rubião apurou três contos e duzentos."
CAPÍTULO
CXCIII
SEIS MESES,
oito meses passam depressa", reflexionou D. Fernanda.
E eles vieram
vindo, com os sucessos às costas, - a queda do ministério,
a subida de outro em março, a volta do marido, a discussão
da lei dos ingênuos, a morte do noivo de D. Tonica, três
dias antes de casar. D. Tonica espremeu as últimas lágrimas,
umas de amizade, outras de desesperança, e ficou com os olhos
tão vermeIhos, que pareciam doentes.
Teófilo,
que merecera do novo gabinete a mesma confiança do antigo,
teve parte copiosa nos debates da sessão parlamentar. Camacho
declarou pela sua folha que a lei dos ingênuos absolvia a
esterilidade e os crimes da situação. Em outubro,
Sofia inaugurou os seus salões de Botafogo, com um baile,
que foi o mais célebre do tempo. Estava deslumbrante. Ostentava,
sem orgulho, todos os seus braços e espáduas. Ricas
jóias; o colar era ainda um dos primeiros presentes do Rubião,
tão certo que, neste gênero de atavios, as modas conservam
se mais. Toda a gente admirava a gentileza daquela trintona fresca
e robusta; alguns homens falavam (com pena) das suas virtudes conjugais,
da profunda adoração que ela tinha ao marido.
CAPÍTULO
CXCIII
NO DIA SEGUINTE
ao baile, D. Fernanda acordou tarde. Foi ao gabinete do marido,
que já devorara cinco ou seis jornais, escrevera dez cartas
e retificava a posição de alguns livros nas estantes.
-Recebi esta
carta, há pouco, disse ele.
D. Fernanda
leu-a; era do diretor da casa de saúde; noticiava que Rubião,
desde três dias, desaparecera, não tendo podido ser
encontrado por mais esforços que houvessem empregado a polícia
e ele. Tanto mais me espanta esta fuga", concluía a
carta, "quanto que as melhoras eram grandes, e podia contar
que, em dous meses, o poria inteiramente bom".
D. Fernanda
ficou consternada; alcançou do marido que escrevesse ao chefe
de polícia e ao ministro da justiça, pedindo-lhes
que ordenassem as mais severas pesquisas. Teófilo não
tinha o menor interesse no achado nem na cura de Rubião;
mas quis servir à mulher, cuja bondade conhecia, e, porventura,
gostava de cartear-se com os homens da alta administração.
CAPÍTULO
CXCIV
COMO ACHAR,
porém, o nosso Rubião nem o cachorro, se ambos haviam
partido para Barbacena? Oito dias antes, Rubião escrevera
ao Palha que o procurasse; este acudiu à casa de saúde,
viu que ele raciocinava claramente, sem a menor sombra de delírio.
-Tive uma crise
mental, disse-lhe Rubião; agora estou bom, perfeitamente
bom. Peço-lhe que me ponha fora daqui. Creio que o diretor
não se oporá. Entretanto, como quero deixar algumas
lembranças à gente que me tem servido, e servido também
ao Quincas Borba, veja se me pode adiantar cem mil-réis.
Palha abriu
a carteira sem hesitação, e deu-lhe o dinheiro.
-Vou tratar
de o fazer sair, disse ele; mas, provavelmente são precisos
alguns dias (estava em vésperas do baile); não se
aflija por isso; daqui a uma semana está na rua.
Antes de sair,
consultou o diretor, que lhe deu boas notícias do enfermo.
Uma semana é pouco, disse ele; para pô-lo bom, bom,
preciso ainda uns dous meses. Palha confessou que o achara sãoem
todo caso, mandava quem sabia, e se fossem necessários seis
ou sete meses mais, não precipitasse a alta.
CAPÍTULO
CXCV
RUBIÃO,
logo que chegou a Barbacena e começou a subir a rua que ora
se chama de Tiradentes, exclamou parando
-Ao vencedor,
as batatas!
Tinhas-as esquecido
de todo, a fórmula e a alegoria. De repente como se as sílabas
houvessem ficado no ar, intactas, aguardando alguém que as
pudesse entender, uniu-as, recompôs a fórmula, e proferiu-a
com a mesma ênfase daquele dia em que a tomou por lei da vida
e da verdade. Não se lembrava inteiramente da alegoria; mas,
a palavra deu-lhe o sentido vago da luta e da vitória.
Subiu, acompanhado
do cão, e foi parar defronte da igreja. Ninguém lhe
abriu a porta; não viu sombra de sacristão. Quincas
Borba que não comia desde muitas horas, colava-se-lhe às
pernas, cabisbaixo, esperando. Rubião voltou-se, e do alto
da rua estendeu os olhos abaixo e ao longe. Era ela, era Barbacena;
a velha cidade natal ia-se-lhe desentranhando das profundas camadas
da memória. Era ela; aqui estava a igreja, ali a cadeia,
acolá a farmácia, donde vinham os medicamentos para
o outro Quincas Borba. Sabia que era ela, quando chegou, mas, à
medida que os olhos se derramavam, as reminiscências vinham
vindo, mais numerosas, em bando. Não via ninguém;
uma janela, à esquerda, parecia ter alguém que espiava.
Tudo o mais deserto.
"Talvez
não saibam que cheguei", pensou Rubião.
CAPÍTULO
CXCVI
SÚBITO,
RELAMPEJOU; as nuvens amontoavam-se às pressas. Relampejou
mais forte, e estalou um trovão. Começou a chuviscar
grosso. mais grosso, até que desabou a tempestade. Rubião,
que aos primeiros pingos, deixara a igreja, foi andando rua abaixo,
seguido sempre do cão, faminto e fiel, ambos tontos, debaixo
do aguaceiro, sem destino, sem esperança de pouso ou de comida...
A chuva batia-lhes sem misericórdia. Não podiam correr,
porque Rubião temia escorregar e cair, e o cão não
queria perdê-lo. A meia rua, acudiu à memória
do Rubião a farmácia, voltou para trás, subindo
contra o vento, que lhe dava de cara; mas, ao fim de vinte passos,
varreu-se-lhe a idéia da cabeça; adeus, farmácia!
adeus, pouso! Já se não lembrava do motivo que o fizera
mudar de rumo, e desceu outra vez, e o cão atrás,
sem entender nem fugir, um e outro alagados, confusos, ao som da
trovoada rija e contínua.
CAPÍTULO
CXCVII
VAGARAM sem
destino. O estômago de Rubião interrogava, exclamava,
intimava; por fortuna, o delírio vinha enganar a necessidade
com os seus banquetes das Tulherias. Quincas Borba é que
não tinha igual recurso. E toca a andar acima e abaixo. Rubião,
de quando em quando, sentava-se no lajedo, e o cão trepava-lhe
às pernas, para dormir a fome; achava as calcas molhadas,
e descia; mas tornava logo a subir, tão frio era o ar da
noite, já noite alta, já noite morta. Rubião
passava-lhe as mãos por cima, resmungando algumas palavras
magras.
Se, apesar
de tudo, Quincas Borba conseguia adormecer, acordava logo, porque
Rubião levantava-se e punha-se outra vez a descer e subir
ladeiras. Soprava um triste vento, que parecia faca, e dava arrepios
aos dous vagabundos. Rubião andava devagar; o próprio
cansaço não lhe permitia as grandes pernadas do princípio,
quando a chuva caía em bátegas. As paradas eram agora
mais freqüentes. O cão, morto de fome e de fadiga, não
entendia aquela odisséia, ignorava o motivo, esquecera o
lugar, não ouvia nada, senão as vozes surdas do senhor.
Não podia ver as estrelas, que já então rutilavam,
livres de nuvens. Rubião descobriu-as; chegara à porta
da igreja, como quando entrou na cidade; acabava de sentar-se e
deu com elas. Estavam tão bonitas, reconheceu que eram os
lustres do grande salão e ordenou que os apagassem. Não
pôde ver a execução da ordem; adormeceu ali
mesmo, com o cão ao pé de si. Quando acordaram de
manhã, estavam tão juntinhos que pareciam pegados.
CAPÍTULO
CXCVIII
-Ao VENCEDOR,
as batatas! exclamou Rubião quando deu com os olhos na rua,
sem noite, sem água, beijada do sol.
CAPÍTULO
CXCIX
FOI A COMADRE
do Rubião, que o agasalhou e mais ao cachorro, vendo-os passar
defronte da porta. Rubião conheceu-a, aceitou o abrigo e
o almoço.
-Mas que é
isso, seu compadre? Como foi que chegou assim? Sua roupa está
toda molhada. Vou dar-lhe umas calças de meu sobrinho.
Rubião
tinha febre. Comeu pouco e sem vontade. A comadre pediu-lhe contas
da vida que passara na Corte, ao que ele respondeu que levaria muito
tempo, e só a posteridade a acabaria. Os sobrinhos de seu
sobrinho, concluiu ele magnificamente, que hão de ver-me
em toda a minha glória. Começou, porém, um
resumo. No fim de dez minutos, a comadre não entendia nada,
tão desconcertados eram os fatos e os conceitos; mais cinco
minutos, entrou a sentir medo. Quando os minutos chegaram a vinte,
pediu licença e foi a uma vizinha dizer que Rubião
parecia ter virado o juízo. Voltou com ela e um irmão,
que se demorou pouco tempo e saiu a espalhar a nova. Vieram vindo
outras pessoas, às duas e às quatro, e, antes de uma
hora, muita gente espiava da rua.
-Ao vencedor,
as batatas! -- bradava Rubião aos curiosos. Aqui estou imperador!
Ao vencedor, as batatas!
Esta palavra
obscura e incompleta era repetida na rua, examinada, sem que lhe
dessem com o sentido. Alguns antigos desafetos do Rubião
iam entrando, sem cerimônia, para gozá-lo melhor; e
diziam à comadre que não lhe convinha ficar com um
doudo em casa, era perigoso; devia mandá-lo para a cadeia,
até que a autoridade o remetesse para outra parte. Pessoa
mais compassiva lembrou a conveniência de chamar o doutor.
-Doutor para
quê? acudiu um dos primeiros. Este homem está maluco.
-Talvez seja
delírio de febre; já viu como está quente?
Angélica,
animada por tantas pessoas, tomou-lhe o pulso, e achou-o febril.
Mandou vir o médico,-o mesmo que tratara o finado Quincas
Borba. Rubião conheceu-o também; e respondeu-lhe que
não era nada. Capturara o rei da Prússia, não
ainda se o mandaria fuzilar ou não; era certo, porém,
que exigiria uma indenização pecuniária enorme,
- cinco biliões de francos.
-Ao vencedor,
as batatas! concluiu rindo.
CAPÍTULO
CC
POUCOS DIAS
DEPOIS morreu... Não morreu súbdito nem vencido. Antes
de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça,
-uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho
ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não,
senhor; ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só
ele via a insígnia imperial, pesada de ouro, rútila
de brilhantes e outras pedras preciosas. O esforço que fizera
para erguer meio corpo não durou muito; o corpo caiu outra
vez; o rosto conservou porventura uma expressão gloriosa.sabendo
-Guardem a
minha coroa, murmurou. Ao vencedor...
A cara ficou
séria, porque a morte é séria; dous minutos
de agonia um trejeito horrível, e estava assinada a abdicação.
CAPÍTULO
CCI
QUERIA DIZER
aqui o fim do Quincas Borba, que adoeceu também, ganiu infinitamente,
fugiu desvairado em busca do dono, e amanheceu morto na rua, três
dias depois. Mas, vendo a morte do cão narrada em capítulo
especial, é provável que me perguntes se ele, se o
seu defunto homônimo é que dá o título
ao livro, e por que antes um que outro,-questão prenhe de
questões, que nos levariam longe... Eia! chora os dous recentes
mortos, se tens lágrimas. Se só tens riso ri-te! E
a mesma cousa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar
como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não
discernir os risos e as lágrimas dos homens.
LITERATURA BRASILEIRA
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Texto-fonte:
Obra Completa, de Machado de Assis, vol. I, Nova Aguilar, Rio de
Janeiro, 1994.
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