Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO
CLXVIII
E DAÍ,
QUEM SABE? repetiu o Dr. Falcão na manhã seguinte.
A noite não apagara a desconfiança do homem. E daí,
quem sabe? Sim, não seria só simpatia mórbida.
Sem conhecer Shakespeare, ele emendou Hamlet "Há entre
o céu e a terra, Horácio, muitas cousas mais do que
sonha a vossa vã filantropia". Ali andou dedo de amor.
E não chasqueava nem lastimava nada. Já disse que
era céptico; mas, como era também discreto, não
transmitiu a ninguém a sua conclusão.
CAPÍTULO
CLXIX
A VOLTA DE
CARLOS MARIA e da mulher interrompeu as preocupações
de D. Fernanda, relativamente a Rubião. Esta foi a bordo
recebê-los conduziu-os à Tijuca onde um velho amigo
da família de Carlos Maria alugara e trastejara uma casa,
por ordem dele. Sofia não foi a bordo, mandou o coupé
esperá-los no cais Pharoux, mas D. Fernanda já ali
tinha uma caleça, que os levou, e mais a ela e ao Palha.
De tarde, Sofia foi visitar os recém-chegados.
D. Fernanda
não cabia em si de contente. As cartas de Maria Benedita
os davam por felizes; ela não pôde ler desde logo nos
olhos e nas maneiras do casal a confirmação do escrito.
Pareciam satisfeitos. Maria Benedita não reteve as lágrimas,
quando abraçou a amiga nem esta as suas, e ambas se apertaram
como duas irmãs de sangue. No dia seguinte, D. Fernanda perguntou
a Maria Benedita se ela e o marido eram felizes, e, sabendo que
sim, pegou-lhe nas mãos e fitou-a longamente sem achar palavra.
Não logrou mais que repetiu a pergunta
-Vocês
são felizes?
-Somos, respondia
Maria Benedita.
-Não
sabe que bem me faz a sua resposta. Não é só
porque eu teria remorsos, se vocês não tivessem a felicidade
que eu imaginei dar-lhes, mas também porque é bem
bom ver os outros felizes. Ele gosta de você como no primeiro
dia?
-Creio que
mais, porque eu o adoro.
D. Fernanda
não entendeu esta palavra. Creio que mais, porque eu o adoro!
Em verdade, a conclusão não parecia estar nas premissas;
mas era o caso de emendar outra vez Hamlet"Há entre
o céu e a terra, Horácio, muitas cousas mais do que
sonha a vossa vã dialética." Maria Benedita começou
a contar-lhe a viagem, a desfiar as suas impressões e reminiscências;
e, como o marido viesse ter com elas, pouco depois, recorria à
memória dele para preencher as lacunas.
-Como foi,
Carlos Maria?
Carlos Maria
lembrava, explicava, ou retificava, mas sem interesse quase impaciente.
Adivinhara que Maria Benedita acabava de confiar à outra
as suas venturas, e mal podia encobrir o efeito desagradável
que isto lhe trazia. Para que dizer que era feliz com ele, se não
podia ser outra cousa? E por que divulgar os seus carinhos e palavras,
as suas misericórdias de deus grande e amigo?
A volta ao
Rio de Janeiro foi uma condescendência sua. Maria Benedita
queria ter aqui o filho; o marido cedeu,-a custo, mas cedeu. A custo,
por quê? É difícil explicá-lo, não
menos que entendê-lo. Relativamente à maternidade,
Carlos Maria tinha idéias pessoais e singulares, recônditas,
não confiadas a ninguém. Achava impudica a natureza
em fazer da gestação humana um fenômeno público,
franco às vistas, crescente até ao aleijão,
sugestivo até ao despeito. Daí vinha o desejo da solidão,
do mistério e da ausência. Viveria de de boa mente
os últimos tempos no interior de uma casa única, posta
no alto de um morro, vedada ao mundo, donde a mulher baixasse um
dia com o filho nos braços e a divindade nos olhos.
Não
fez sobre isto nenhuma proposta à mulher. Teria de discutir,
e ele não gostava de discutir; preferia ceder. Maria Benedita
tinha naturalmente o sentimento contrárioconsiderava-se a
si mesma um templo divino e recatado, em que vivia um deus, filho
de outro deus. A gestação ia cheia de tédios,
de dores, de incômodos que ela ocultava o mais que podia ao
marido; mas tudo isso dava maior preço à criaturinha
futura. Acolhia o mal com resignação,-se não
é que o agasalhava com alegria,- uma vez que era a condição
da vinda do fruto. Fazia cordialmente o ofício da espécie.
E repetia sem palavras a resposta de Maria de Nazaré"Eu
sou a serva do Senhor; faça-se em mim a sua vontade".
CAPÍTULO
CLXX
-VOCÊ
QUE TEM? perguntou Maria Benedita ao marido, logo que ficaram sós.
-Eu? Nada.
Por quê?
-Parecia estar
aborrecido.
-Não,
não estava aborrecido.
-Estava, sim,
insistiu ela.
Carlos Maria
sorriu, sem responder. Maria Benedita já lhe conhecia esse
sorriso especial, inexpressivo, sem ternura nem censura, superficial
e pálido. Não teimou em querer saber, mordeu os beiços
e retirou-se.
No quarto,
durante algum tempo, não cuidou de outra cousa que não
fosse aquele sorriso descorado e mudo, sinal de algum aborrecimento,
cuja culpa não podia ser senão ela. E percorria toda
a conversação, todos os gestos que fizera, e não
achava nada que explicasse a frieza, ou o que quer que era de Carlos
Maria. Talvez ela se mostrasse excessiva nas palavras; era seu costume,
se estava contente, pôr o coração nas mãos
e distribuí-lo a amigos e a estranhos. Carlos Maria reprovava
essa generosidade, porque dava um ar de sorte grande ao seu estado
moral e doméstico, e porque lhe parecia banal e inferior.
Maria Benedita recordava-se que, em Paris, na colônia brasileira,
sentira mais de uma vez esse efeito de suas expansões, e
reprimira-se. Mas D. Fernanda estaria no mesmo caso? Não
era a autora da felicidade de ambos? Rejeitou essa hipótese,
e tratou de ver outra. Não a achando,-voltou à primeira,
e, segundo lhe sucedia sempre, deu razão ao marido. Em verdade,
por mais íntima e grata que fosse, não devia contar
à boa amiga as minúcias da vida; era leviandade sua...
Náuseas
vieram interrompê-la neste ponto das reflexões. A natureza
lembrava-lhe uma razão de Estado,-a razão da espécie,-
mais instante e superior aos tédios do marido. Ela cedeu
à necessidade; mas, poucos minutos depois, estava ao p de
Carlos Maria, contornando-lhe o pescoço com o braço
direito. Ele, sentado, lia uma revista inglesa; pegou-lhe na mão,
pendente sobre o peito e acabou a página.
-Você
me perdoa? perguntou a mulher, quando o viu fechar o folheto. Daqui
em diante vou ser menos tagarela.
Carlos Maria
pegou-lhe nas duas mãos, sorrindo, e respondeu com a cabeça
que sim. Foi como se lançasse uma onda de luz sobre ela a
alegria penetrou-lhe a alma. Dir-se-ia que o próprio feto
repercutiu a sensação e abençoou o pai.
CAPÍTULO
CLXXI
- PERFEITAMENTE!
Assim é que eu os quero ver! bradou uma voz do lado da varanda.
Maria Benedita
afastou-se rapidamente do marido. A varanda, que comunicava para
a sala, por três portas, tinha uma destas aberta Dali viera
a voz; dali espiava e ria a cabeça de Rubião. Era
a primeira vez que o viam. Carlos Maria, sem se levantar, olhava
para ele, sério, esperando. E a cabeça ria, com os
seus fartos bigodes de ponta de agulha, mirando um e outro, e repetindo
-Perfeitamente!
Assim é que eu os quero ver!
Rubião
entrou, estendeu-lhes a mão, que eles receberam sem carinho,
disse muitas frases de admiração e louvor a Maria
Benedita, ela tão galante, ele tão galhardo; notou
que ambos tivessem o nome de Maria, espécie de predestinação,
e acabou noticiando a queda do ministério.
-Caiu o ministério?
perguntou involuntariamente Carlos Maria.
-Não
se fala em outra cousa na cidade. Vou abancar-me, sem pedir licença,
já que não me oferecem cadeira, continuou ele, sentando-se,
tirando a bengala que trazia debaixo do braço e firmando
as mãos sobre ela. Pois é verdade, o ministério
pediu demissão. Vou organizar outro. Há de entrar
o Palha, o nosso Palha,-seu primo Palha, e o senhor também,
se lhe dá gosto, será ministro. Preciso de um bom
gabinete, todo gente amiga, e forte, capaz de dar a vida por mim.
Hei de chamar o Morny, o Pio, o Camacho, o Rouher, o Major Siqueira.
A senhora lembra-se do major? Creio que fica com a guerra; não
conheço homem mais apto para os negócios militares.
Maria Benedita,
aborrecida e impaciente, andava pela sala, à espera que o
marido mandasse alguma cousa; este disse-lhe com os olhos que se
fosse embora; ela não aguardou outro gesto, pediu licença
ao hóspede e retirou-se. Rubião, depois que ela saiu,
elogiou-a novamente,-uma flor, disse ele; e emendou-se rindoduas
flores creio que há ali duas flores. Nosso Senhor as abençoe!
Carlos Maria estendeu-lhe a mão em ar de despedida.
-Meu caro senhor...
-Posso incluí-lo
no ministério? perguntou Rubião.
Não
ouvindo resposta, entendeu que sim e prometeu-lhe uma boa pasta.
O major iria para a guerra, e o Camacho para a justiça. Não
os conhecia acaso? "Dous grandes homens, Camacho ainda maior
que o outro". E obedecendo a Carlos Maria, que ia andando na
direção da porta, Rubião retirava-se sem se
sentir; mas não foi tão pronto. Na varanda, antes
de descer os degraus, referiu vários fatos da guerra. Por
exemplo, tinha restituído a Alemanha aos alemães;
era bonito e político. Já havia dado Veneza aos italianos.
Não precisava mais território; as províncias
do Reno, sim, mas havia tempo de as ir buscar.
-Meu caro senhor...
insistiu Carlos Maria estendendo-lhe a mão.
Despediu-o
e fechou a porta; Rubião proferiu ainda algumas palavras
e desceu os degraus. Maria Benedita, que os espreitava do fundo
veio ter com o marido, reteve-o pela mão, e ficou a ver o
Rubião que atravessava o jardim. Não ia direito, nem
apressado, nem calado; detinha-se, gesticulava, apanhava um galho
seco, vendo mil cousas no ar, mais galantes que a dona da casa,
mais galhardas que o dono. Da vidraça miravam o nosso amigo,
e, em certo lance grotesco Maria Benedita não pôde
suster o riso; Carlos Maria, porém, olhava plácido.
CAPÍTULO
CLXXII
-MAS SE A QUEDA
do ministério é verdadeira. disse ela, sabe você
quem está ministro?
-Quem? perguntou
Carlos Maria com os olhos.
-Seu primo
Teófilo. Nanã contou-me que ele andava com suas esperanças,
e foi por isso que ficou este ano na Corte. Desconfiou, ou já
se falava na saída do ministério; talvez desconfiasse.
Não me lembra bem o que ela me disse; mas parece que entra.
-Pode ser.
-Olha, lá
vai Rubião; parou, está olhando para cima, espera
talvez a diligência ou o carro. Ele tinha carro. Lá
vai andando...
CAPÍTULO
CLXXIII
-Com que, O
Teófilo está ministro! exclamou Carlos Maria.
E, depois de
um instante
-Creio que
dará um bom ministro. Você queria ver-me também
ministro?
-Se você
gostasse, que remédio?
-De maneira
que, por teu voto, não o era? perguntou Carlos Maria.
-Que hei de
responder? pensou ela, escrutando o rosto do marido.
Ele, rindo
-Confessa que
me adorarias, ainda que eu fosse uma simples ordenança de
ministro.
-Justamente!
exclamou a moça, lançando-lhe os braços aos
ombros.
Carlos Maria
afagou-lhe os cabelos, e murmurou sério-Bernadotte foi rei,
e Bonaparte imperador. Você queria ser a rainha-mãe
da Suécia?
Maria Benedita
não entendeu a pergunta nem ele a explicou. Para explicá-la
seria mister dizer que possivelmente trazia ela no seio um Bernadotte;
mas esta suposição significava um desejo, e o desejo
uma confissão de inferioridade. Carlos Maria espalmou outra
vez sobre a cabeça da mulher, com um gesto que parecia dizer
tu escolheste a melhor parte..." E ela pareceu entender o sentido
daquele gesto.
-Sim! sim!
O marido sorriu
e tornou à revista inglesa. Ela, encostada à trona,
passava-lhe os dedos pelos cabelos, muito ao de leve e caladinha
para não perturbá-lo. Ele ia lendo, lendo, lendo.
Maria Benedita foi atenuando a carícia, retirando os dedos
aos poucos, até que saiu da sala, onde Carlos Maria continuou
a ler um estudo de Sir Charlen Little, M.P., sobre a famosa estatueta
de Narciso, do Museu de Nápoles.
CAPÍTULO
CLXXIV
QUANDO RUBIÃO
foi à casa de D. Fernanda, à tardinha, ouviu do criado
que não podia subir. A senhora estava incomodada; o senhor
estava com ela; parece que esperavam o médico. O nosso amigo
não teimou, e retirou-se.
Era o contrário;
era o senhor que estava doente, e a senhora que o acompanhava; mas
o criado não podia trocar o recado que lhe deram. Outro criado
desconfiou, é certo, que o doente fosse ele e não
ela, porque o vira entrar abatido. Em cima, no quarto deles havia
algum rumor de vozes, ora alto, ora baixo, com intervalos de silêncio.
Uma criadinha, que subira pé ante pé, desceu dizendo
que ouvira lastimar-se o amo; provavelmente a senhora estava pendida.
Embaixo, um palavrear surdo, ouvidos compridos, conjeturas, notavam
que de cima não pedissem água, qualquer remédio,
um caldo, ao menos. A mesa posta, o criado engravatado, o cozinheiro
orgulhoso e ansioso... Justamente, um dos melhores jantares!
Que era? Teófilo
tinha ainda o gesto abatido com que entrou; estava sentado em um
canapé, sem colete, olhos fixos. Ao p dele, sentada também,
segurando-lhe uma das mãos, D. Fernanda pedia-lhe que sossegasse,
que não valia a pena. E inclinava-se para ver-lhe o rosto,
chamava-o para si, queria que ele encostasse a cabeça ao
ombro dela.
-Deixa, deixa,
murmurava o marido.
-Não
vale a pena, Teófilo! Pois agora um ministério...
? Valerá tanto um cargo de pouco tempo, cheio de desgostos,
insultos, trabaIhos, para quê? Não é melhor
a vida tranqüila? Vá que haja injustiça creio
que sim, você tem serviços; mas será tamanha
perda assim? Anda, querido, sossega; vamos jantar.
Teófilo
mordia os beiços, puxando uma das suíças. Não
ouvira nada do que a mulher dissera, nem exortações,
nem consolações. Ouvira as conversas da noite anterior
e daquela manhã, as combinações políticas,
os nomes lembrados, os recusados e os aceitos. Nenhuma combinação
o incluiu, posto que ele falasse com muita gente acerca do verdadeiro
aspecto da situação. Era ouvido com atenção,
por uns, com impaciência por outros. Uma vez, os óculos
do organizador pareceram interrogá-lo,-mas foi rápido
o gesto e ilusório. Teófilo recompunha agora a agitação
de tantas horas e lugares,- lembrava os que o olhavam de esguelha,
os que sorriam, os que traziam a mesma cara que ele. Para o fim
já não falava; as últimas esperanças
estalavam-lhe nos olhos como lamparina de madrugada . Ouvira os
nomes dos ministros, fora obrigado a achá-los bons; mas que
força não lhe era precisa para articular alguma palavra!
Receava que lhe descobrissem o abatimento ou despeito, e todos os
seus esforços concluíam por acentuá-los ainda
mais. Empalidecia, tremiam-lhe os dedos.
CAPÍTULO
CLXXV
- ANDA, VAMOS
JANTAR, repetiu D. Fernanda.
Teófilo
deu um golpe no joelho, com a mão aberta, e levantou-se,
dizendo palavras soltas e raivosas, andando de um lado para outro,
batendo o pé, ameaçando. D. Fernanda não pôde
vencer a violência daquele novo acesso, esperou que fosse
curto, e foi curto; Teófilo chegou-se a uma poltrona, sacudiu
a cabeça e caiu outra vez prostrado. D. Fernanda pegou de
uma cadeira e sentou-se ao pé dele.
-Tens razão,
Teófilo; mas é preciso ser homem. És moço
e forte, tens ainda futuro, e talvez grande futuro. Quem sabe se,
entrando agora no ministério, não perderias mais tarde?
Entrarás em outro. Às vezes, o que parece desgraça
é felicidade.
Teófilo
apertou-lhe a mão agradecido.
-Ë perfídia,
é intriga, murmurava ele, olhando para ela; eu conheço
toda essa canalha. Se eu contasse a você tudo, tudo. . . Mas
para quê? Prefiro esquecer... Não é por causa
de uma miserável pasta que estou aborrecido, continuou ele
depois de alguns instantes. Pastas não valem nada. Quem sabe
trabalhar e tem talento pode zombar das pastas, e mostrar que é
superior a elas. A maior parte dessa gente, Nanã não
me chega aos calcanhares. Disso estou certo e eles também.
Súcia de intrigantes! Onde acharão mais sinceridade,
mais fidelidade, mais ardor para a luta? Quem trabalhou mais na
imprensa, no tempo do ostracismo? Desculpam-se; dizem que os gabinetes
já vêm organizados de S. Cristóvão...
Ah! eu quisera falar ao Imperador!
-Teófilo!
-Eu diria ao
Imperador"Senhor, Vossa Majestade não sabe o que é
essa política de corredores, esses arranjos de camarilha.
Vossa Majestade quer que os melhores trabalhem nos seus conselhos,
mas os medíocres é que se arranjam. . . O merecimento
fica para o lado." t o que lhe hei de dizer um dia; pode ser
até que amanhã...
Calou-se. Depois
de longa pausa, ergueu-se e foi ao gabinete de trabalho, que ficava
ao pé do quarto; a mulher acompanhou-o. Era já escuro,
acendeu o bico de gás, e circulou pelo gabinete os olhos
velados de melancolia. Havia ali quatro largas estantes cheias de
livros, de relatórios, de orçamentos, de balanços
do Tesouro. A secretária estava em ordem. Três armários
altos, sem portas, guardavam os manuscritos, notas, lembranças,
cálculos, apontamentos, tudo empilhado e rotulado metodicamente;-créditos
extraordinários, créditos suplementares,-créditos
de guerra,-créditos de marinha, -empréstimos de 1868,-estradas
de ferro,-dívida interna, exercício de 61-62, de 62-63,
de 63-64, etc. Era ali que trabalhava de manhã e de noite,
somando, calculando, recolhendo o elementos dos seus discursos e
pareceres, porque era membro de três comissões parlamentares,
e trabalhava geralmente por si e pelos seis colegas; estes ouviam
e assinavam. Um deles, quando os pareceres eram extensos, assinava-os
sem ouvir.
-Homem, você
é mestre e basta, dizia-lhe, dê cá a pena.
Tudo ali respirava
atenção, cuidado, trabalho assíduo, meticuloso
e útil. Da parede, em ganchos, pendiam os jornais da semana,
que eram depois tirados, guardados e finalmente encadernados semestralmente,
para consultas. Os discursos do deputado, impressos e brochados
em 4.°, enfileiravam-se em uma estante. Nenhum quadro ou busto,
adereço, nada para recrear, nada para admirar;-tudo seco,
exato, administrativo.
-De que vale
tudo isto? perguntou Teófilo à mulher, após
alguns instantes de contemplação triste. Horas cansadas,
longas horas da noite até madrugada, às vezes. . .
Não se dirá que este gabinete é de homem vadio;
aqui trabalha-se. Você testemunha que eu trabalho. Tudo para
quê?
-Consola-te
trabalhando, murmurou ela.
Ele, acerbo
-Ruim consolação!
Não, não, acabo com isto, passo a ignorar tudo. Olha,
na Câmara, todos me consultam, até os ministros- porque
sabem que eu aplico-me deveras às cousas da administração.
Que prêmio? Vir para cá, em maio, aplaudir os novos
senhores? -Pois não aplaudas nada, disse-lhe mansamente a
mulher. Queres fazer-me um obséquio? Vamos à Europa,
em março ou abril, e voltemos daqui a um ano. Pede licença
à Câmara, donde quer que estejamos,-de Varsóvia,
por exemplo; tenho muita vontade de ir a Varsóvia, continuou
sorrindo e fechando-lhe graciosamente a cara entre as mãos.
Diga que sim; responda que é para eu escrever hoje mesmo
para o Rio Grande, o vapor sai amanhã. Está dito;
vamos a Varsóvia?
-Não
brinques, Nanã, que isto não é objeto de brincadeira
-Falo seriamente.
Já há muito tempo que ando para propor a você
uma viagem, a ver se descansa desta papelada infernal. É
demais, Teófilo! Você mal se pode arranjar para uma
visita. Passeio, é raro. Quase não conversa. Os nossos
filhos apenas vêem seu pai porque aqui não se entra
quando você trabalha. . .É preciso descansar; peço-lhe
um ano de repouso. Olhe que sério. Vamos para a Europa em
março.
-Não
pode ser, balbuciou ele.
-Por que não?
Não
podia ser. Era convidá-lo a sair da própria pele.
Política valia tudo. Que também houvesse política
lá fora, sim; mas que tinha ele com ela? Teófilo não
sabia nada do que ia por fora, exceto a nossa dívida em Londres,
e meia dúzia de economistas. Contudo, agradeceu à
mulher a intenção da proposta
-Tu és
boa.
E um sentimento
vago de esperança restituía à voz do deputado
a brandura que perdera naquela grande crise moral. Os papéis
sopravam-lhe animo. Toda aquela massa de estudos aparecia-lhe como
a terra adubada e semeada aos olhos do lavrador. Não tardaria
a grelar; o trabalho teria a recompensa; um dia. mais tarde ou mais
cedo, o grelo brotaria e a árvore daria frutos. Era justamente
o que a mulher havia dito por outras palavras diretas e próprias;
mas só agora é que ele via a possibilidade da colheita.
Lembrou-se das explosões de cólera, de indignação,
de desespero, das queixas de há pouco, ficou vexado. Quis
rir, fê-lo mal. Ao jantar e ao café entreteve-se com
os filhos, que naquela noite recolheram-se mais tarde. Nuno, que
já andava no colégio, onde ouvira falar da mudança
de gabinete, disse ao pai que queria ser ministro. Teófilo
ficou sério.
-Meu filho,
disse ele, escolhe outra cousa, menos ministro.
-Diz que é
bonito, papai; diz que anda de carro com soldado atrás.
-Pois eu te
dou um carro.
-Papai já
foi ministro?
Teófilo
tentou sorrir e olhou para a mulher, que aproveitou a ocasião
para mandar deitar os filhos.
-Já,
já fui ministro, respondeu o pai beijando a testa ao Nuno;
mas não quero mais, é muito feio, dá trabalho.
Tu hás de ser capelão.
-Que é
capelão?
-Capelão
é cama, respondeu D. Fernanda; vai dormir, Nuno.
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