Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO
CLIV
APENAS SEPARADOS,
deu-se em ambos um contraste.
Rubião,
na rua, voltou a cabeça para todos os lados, a realidade
apossava-se dele e o delírio esvaía-se. Andava, estacava
diante de uma loja, atravessava a rua, detinha um conhecido, pedia-lhe
notícias e opiniões; esforço inconsciente para
sacudir de si a personalidade emprestada.
Ao contrário,
Sofia, passado o susto e o espanto, mergulhou no devaneio; todas
as referências e histórias mentirosas de Rubião
como que lhe davam saudades,-saudades de quê?-"saudades
do céu" que é o que dizia o Padre Bernardes do
sentimento de um bom cristão. Nomes diversos relampejavam
no azul daquela possibilidade Quanto pormenor interessante! Sofia
reconstruiu a caleça velha, onde entrou rápida, donde
desceu trêmula, para esgueirar-se pelo corredor dentro, subir
a escada, e achar um homem,-que lhe disse os mimos mais apetitosos
deste mundo, e os repetiu agora, ao pé dela, no carro mas
não era, não podia ser o Rubião. Quem seria?
Nomes diversos relampejavam no azul daquela possibilidade.
CAPÍTULO
CLV
ESPALHOU-SE
a nova da mania de Rubião . Alguns, não o encontrando
nas horas do delírio, faziam experiências, a ver se
era verdadeiro o boato; encaminhavam a conversação
para os negócios de França do imperador. Rubião
resvalava ao abismo, e convencia-os.
CAPÍTULO
CLVI
PASSARAM-SE
alguns meses, veio a guerra franco-prussiana, e as crises de Rubião
tornaram-se mais agudas e menos espaçadas. Quando as malas
da Europa chegavam cedo, Rubião saía de Botafogo,
antes do almoço, e corria a esperar os jornais; comprava
a Correspondência de Portugal, e ia lê-la no Carceler.
Quaisquer que fossem as notícias dava-lhes o sentido da vitória.
Fazia a conta dos mortos e feridos, e achava sempre um grande saldo
a seu favor. A queda de Napoleão III foi para ele a captura
do rei Guilherme, a revolução de 4 de setembro um
banquete de bonapartistas.
Em casa, os
amigos do jantar não se metiam a dissuadi-lo. Também
não confirmavam nada, por vergonha uns dos outros; sorriam
e desconversavam. Todos, entretanto, tinham as suas patentes militares,
o Marechal Torres, o Marechal Pio, o Marechal Ribeiro, e acudiam
pelo título. Rubião via-os fardados; ordenava um reconhecimento,
um ataque, e não era necessário que eles saíssem
a obedecer; o cérebro do anfitrião cumpria tudo. Quando
Rubião deixava o campo de batalha para tornar à mesa,
esta era outra. Já sem prataria, quase sem porcelana nem
cristais, ainda assim aparecia aos olhos de Rubião regiamente
esplêndida. Pobres galinhas magras eram graduadas em faisões;
picados triviais, assados de má morte traziam o sabor das
mais finas iguarias da terra. Os comensais faziam algum reparo,
entre si,-ou ao cozinheiro,-mas Luculo ceava sempre com Luculo.
Toda a mais casa, gasta pelo tempo e pela incúria, tapetes
desbotados, mobílias truncadas e descompostas, cortinas enxovalhadas,
nada tinha o seu atual aspecto, mas outro, lustroso e magnífico.
E a linguagem era também diversa, rotunda e copiosa, e assim
os pensamentos, alguns extraordinários , como os do finado
amigo Quincas Borba,-teorias que ele não entendera, quando
lhas ouvira outrora, em Barbacena, e que ora repetia com lucidez,
com alma,- às vezes, empregando as mesmas frases do filósofo.
Como explicar essa repetição do obscuro, esse conhecimento
do inextricável, quando os pensamentos e as palavras pareciam
ter ido com os ventos de outros dias? E por que todas essas reminiscências
desapareciam com a volta da razão?
CAPÍTULO
CLVII
A COMPAIXÃO
DE SOFIA, - explicado o mal de Rubião pelo amor que ele lhe
tinha,-era um sentimento médio, não simpatia pura
nem egoísmo ferrenho, mas participando de ambos. Uma vez
que evitasse alguma situação idêntica à
do coupé, tudo ia bem. Nas horas em que Rubião estava
lúcido, escutava-o e falava-lhe com interesse, -até
porque a doença, dando-lhe audácia nos momentos de
crise, dobrava-lhe a timidez nas horas normais. Não sorria,
como o Palha, quando Rubião subia ao trono ou comandava um
exército. Crendo-se autora do mal, perdoava-lho; a idéia
de ter sido amada até à loucura, sagrava-lhe o homem.
CAPÍTULO
CLVIII
-POR QUE NÃO
O TRATAM? perguntou uma noite D. Fernanda, que ali o conhecera no
ano anterior; pode ser que se cure.
-Parece que
não é cousa grave, acudiu o Palha; tem desses acessos,
mas assim mansos, como viu, idéias de grandeza, que passam
logo; e repare que, fora daquilo, conversa perfeitamente. Contudo,
pode ser... Que acha V. Ex.a?
Teófilo,
o marido de D. Fernanda, responde que sim, que era possível.
-Que fazia
ele, ou que faz agora? continuou o deputado.
-Nada, nem
agora nem antes. Era rico,-mas gastador. Conhecemo-lo quando veio
de Minas, e fomos, por assim dizer, o seu guia no Rio de Janeiro,
aonde não voltara desde longos anos. Bom homem. Sempre com
luxo, lembra-se? Mas, não há riqueza inesgotável,
quando se entra pelo capital; foi o que ele fez. Hoje creio que
tenha pouco...
-Podia salvar-lhe
esse pouco, fazendo-se nomear curador, enquanto ele se trata. Não
sou médico, mas pode ser que esse amigo fique bom.
-Não
digo que não. Realmente, é pena. . . Dá-se
com todos e presta seus serviços. Sabe que esteve para ser
nosso parente? Pois não? Quis casar com Maria Benedita.
-A propósito
de Maria Benedita, interrompeu D. Fernanda, ia me esquecendo que
trago uma carta dela para mostrar à senhora; recebi-a ontem.
Já há de saber que, em breve, estão de volta?
Está aqui.
Entregou a
carta a Sofia, que a abriu sem entusiasmo, e a leu com tédio.
Era mais que uma vulgar carta transatlântica, era um depósito
moral, uma confissão íntima e completa de pessoa feliz
e agradecida. Contava os mais recentes episódios da viagem,
desordenadamente, porque os viajantes eram sobrepostos a tudo, e
as mais belas obras do homem ou da natureza valiam menos que os
olhos que as miravam. Às vezes, um incidente de hospedaria
ou de rua comia mais papel e trazia mais interesse que outros, pela
razão de pôr em relevo as qualidades do marido. Maria
Benedita amava tanto ou ainda mais que no primeiro dia. No fim,
a medo em post scriptum, pedindo que o não dissesse a ninguém,
confessava que era mãe.
Sofia dobrou
o papel, não já com tédio, senão com
despeito, e por dous motivos que se contradizem; mas a contradição
deste mundo. Cotejada aquela carta com as que recebera de Maria
Benedita, dir-se-ia que ela era apenas uma conhecida, sem outro
laço de sangue ou de afeto; e, contudo, não quereria
ser confidente daquela felicidade cochichada do outro lado do oceano,
cheia de minúcias, de adjetivos, de exclamações,
do nome de Carlos Maria, dos olhos de Carlos Maria, dos ditos de
Carlos Maria, finalmente do filho de Carlos Maria. Parecia acinte,
e quase fazia crer na cumplicidade de D. Fernanda.
Hábil,
sabendo domar-se a tempo, Sofia dissimulou o despeito, e restituiu
sorrindo a carta da prima. Quis dizer que, pelo texto, a felicidade
de Maria Benedita devia estar intacta como a levara daqui, mas a
voz não lhe passou da garganta. D. Fernanda é que
se incumbiu da conclusão
-Vê-se
bem que é feliz?
-Parece que
sim.
CAPÍTULO
CLIX
SE A MANHÃ
SEGUINTE não fosse chuvosa, outra seria a disposição
de Sofia. O sol nem sempre é oficial de boas idéias;
mas, ao menos, permite sair, e a troca do espetáculo muda
as sensações. Quando Sofia acordou, já a chuva
caía grossa e contínua, e o céu e o mar era
tudo um, tão baixas estavam as nuvens, tão espessa
era a cerração.
Tédio
por dentro e por fora. Nada em que espraiasse a vista e descansasse
a alma. Sofia meteu a alma em um caixão de cedro, encerrou
o de cedro no caixão de chumbo do dia. E deixou-se estar
sinceramente defunta. Não sabia que os defuntos pensam, que
um enxame de noções novas vem substituir as velhas,
e que eles saem criticando o mundo como os espectadores saem do
teatro criticando a peça e os atores. A defunta sentiu que
algumas noções e sensações continuavam
a vida. Vinham de mistura, mas tinham um ponto de partida comum,-a
carta da véspera e as recordações que lhe trouxe
de Carlos Maria.
Em verdade,
cuidara ter arredado para longe essa figura aborrecida, e ei-la
que reaparecia, que sorria, que a fitava, que lhe sussurrava ao
ouvido as mesmas palavras do vadio egoísta e enfatuado, que
a convidou um dia à valsa do adultério e a deixou
sozinha no meio do salão. A volta dessa vinham outras; Maria
Benedita, por exemplo, um caco de gente, que ela foi buscar à
roça para lhe dar lustre de cidade, e que esqueceu todos
os benefícios para só se lembrar das suas ambições.
E D. Fernanda também, madrinha dos seus amores, que de caso
pensado, trouxera na véspera a carta de Maria Benedita com
o post scriptum confidencial. Não advertiu que o prazer da
amiga bastava a explicar o esquecimento da parte reservada da carta;
menos ainda indagou se a natureza moral de D. Fernanda comportava
essa suposição. Vieram assim outras cogitações
e imagens, e tornaram as primeiras, e todas se iam ligando e desligando.
Entre elas, apareceu uma lembrança da véspera. O marido
de D. Fernanda envolvera Sofia em um grande olhar de admiração.
Ela, em verdade, estava nos seus melhores dias; o vestido sublinhava
admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura e o relevo
delicado das cadeiras;-era foulard, cor de palha.
-Cor de palha,
acentuou Sofia rindo, quando D. Fernanda o elogiou, pouco depois
de entrar; cor de palha, como uma lembrança deste senhor.
Não
é fácil dissimular o prazer da lisonja; o marido sorriu
cheio de vaidade, procurando ler nos olhos dos outros o efeito daquela
prova minuciosa de amor. Teófilo elogiou também o
vestido, mas era difícil mirá-lo sem mirar também
o corpo da dona; dali, os olhos compridos que lhe deitou, sem concupiscência,
é certo, e quase sem reincidência. Pois essa lembrança
da véspera, um gesto sem convite, uma admiração
sem desejo, veio meter-se de permeio agora, quando Sofia cuidava
na maldade da outra.
Carlos Maria
Teófilo... Outros nomes relampejavam no céu daquela
possibilidade, como ficou expresso no cap. CLIV. E vieram todos
agora, porque a chuva continuando a cair o céu e o mar estavam
ainda unidos pela mesma cerração. Vieram todos esses
nomes, com os próprios sujeitos correspondentes, e até
vieram sujeitos sem nomes,-os adventícios e ignorados,-que
uma só vez passaram por ela, cantaram o hino da admiração
e receberam o óbolo da boa vontade. Por que não reteve
algum de tantos, para ouvi-lo cantar e enriquecê-lo? Não
é que os óbulos enriqueçam a ninguém,
mas há outras moedas de maior valia. Por que não reteve
um de tantos nomes elegantes, e até egrégios? Essa
pergunta sem palavras correu-lhe assim pelas veias, pelos nervos,
pelo cérebro, sem outra resposta mais que a agitação
e a curiosidade.
CAPÍTULO
CLX
NISTO, A CHUVA
CESSOU um pouco, e um raio de sol logrou rompeu o nevoeiro,-um desses
raios úmidos que parecem vir de olhos que choraram. Sofia
cuidou que ainda podia sair; estava inquieta por ver, por andar,
por sacudir aquele torpor, e esperou que o sol varres se a chuva
e tomasse conta do céu e da terra; mas o grande astro percebeu
que a intenção dela era constituí-lo lanterna
de Diógenes e disse ao raio úmido"Volta, volta
ao meu seio, raio casto e virtuoso; não vás tu conduzi-la
onde o seu desejo a quer levar. Que ame, se lhe parece; que responda
aos bilhetes namorados,-se os recebe e não queima,-não
lhe sirvas tu de archote, luz do meu seio, filho das minhas entranhas,
raio, irmão dos meus raios. "
E o raio obedeceu,
recolhendo-se ao foco central, um pouco espantado do temor do sol,
que tem visto tantas cousas ordinárias e extraordinárias.
Então o véu de nuvens fez-se outra vez espesso, e
mais escuro, e a chuva tornou a cair em grandes bátegas.
CAPÍTULO
CLXI
SOFIA RESIGNOU-SE
à reclusão. Já agora tinha a alma tão
confusa e difusa como o espetáculo exterior. Todas as imagens
e nomes perdiam-se no mesmo desejo de amar. t justo dizer que ela,
quando regressava desses estados de consciência vagos e obscuros,
tentava fugir-lhes e guiava o espírito para diverso assunto;
mas sucedia-lhe como aos que têm sono e forcejam por velaros
olhos fecham-se de cada vez que espertam, e tornam a espertar para
se fecharem outra vez. Afinal, deixou a vista da chuva e do nevoeiro,
estava cansada, e para repousar, foi abrir as folhas do último
número da Revista dos Dous Mundos. Um dia. no melhor dos
trabalhos da comissão das Alagoas, perguntara-lhe uma das
elegantes do tempo, casada com um senador.
-Está
lendo o romance de Feuillet, na Revista dos Dous Mandos?
-Estou, acudiu
Sofia; é muito interessante.
Não
estava lendo, nem conhecia a Revista; mas, no dia seguinte pediu
ao marido que a assinasse; leu o romance, leu os que saíram
depois, e falava de todos os que lera ou ia lendo. Abertas as folhas
daquele número, e acabada uma novela, Sofia recolheu-se ao
quarto e atirou-se à cama. Passara mal a noite, não
lhe custou pegar no sono,-profundo, largo e sem sonhos,-exceto para
o fim, em que teve um pesadelo. Estava diante da mesma parede de
cerração daquele dia, mas no mar, à proa de
uma lancha, deitada de bruços, escrevendo com o dedo na água
um nome-Carlos Maria. E as letras ficavam gravadas, e para maior
nitidez, tinham os sulcos de espuma. Até aqui nada havia
que atordoasse, a não ser o mistério; mas sabido que
os mistérios dos sonhos parecem fatos naturais. Eis que a
parede da cerração se rasga, e nada menos que o próprio
dono do nome aparece aos olhos de Sofia, caminha para ela, toma-a
nos braços e diz-lhe muitas palavras de ternura, análogas
às que ela, alguns meses antes, ouvira ao Rubião.
E não a afligiram, como as deste; ao contrário, escutou-as
com prazer, meia caída para trás, como se desmaiasse.
Já não era lancha, mas carruagem, onde ela se ia com
o primo, mãos presas, namorada de uma linguagem de ouro e
sândalo. Também aqui não há que aterre.
O terror veio quando a carruagem parou, muitos vultos mascarados
a cercaram, mataram o cocheiro, arrancaram as portinholas, apunhalaram
Carlos Maria e deitaram o cadáver ao chão. Depois,
um deles, que parecia ser o chefe de todos, tomou o lugar do defunto,
tirou a máscara e disse a Sofia que se não assustasse,
que ele a amava cem mil vezes mais que o outro. Logo em seguida,
pegou-lhe nos pulsos e deu-lhe um beijo, mas um beijo úmido
de sangue, cheirando a sangue. Sofia soltou um grito de horror e
acordou. Tinha ao pé do leito o marido.
-Que foi? perguntou
ele.
-Ah! respirou
Sofia. Gritei, não gritei?
Palha não
respondeu nada; olhava à toa, pensava em negócios.
Então um receio assaltou a mulher, se haveria efetivamente
falado, murmurado alguma palavra, um nome qualquer,-o mesmo que
escrevera na água. E logo, espreguiçando os braços
para o ar, fê-los cair sobre os ombros do marido, cruzou as
pontas dos dedos na nuca, e murmurou meio alegre, meio triste
-Sonhei que
estavam matando você.
Palha ficou
enternecido. Havê-la feito padecer por ele, ainda que em sonhos,
encheu-o de piedade, mas de uma piedade gostosa, um sentimento particular,
íntimo, profundo,-que o faria desejar outros pesadelos, para
que o assassinassem aos olhos dela, e para que ela gritasse angustiada,
convulsa, cheia de dor e de pavor.
CAPÍTULO
CLXII
NO DIA SEGUINTE,
o sol apareceu claro e quente, o céu límpido, e o
ar fresco. Sofia meteu-se no carro e saiu a visitas e a passeio
para desforrar-se da reclusão. Já o próprio
dia lhe fez bem. Vestiu-se cantarolando. O trato das senhoras que
a receberam em suas casas,- e das que achou na Rua do Ouvidor, a
agitação externa, as notícias da sociedade,
a boa feição de tanta gente fina e amiga, bastaram
a espancar-lhe da alma os cuidados da véspera.
CAPÍTULO
CLXIII
ASSIM, POIS,
O que parecia vontade imperiosa reduzia-se a veleidade pura, e,
com algumas horas de intervalo, todos os maus pensamentos se recolheram
às suas alcovas. Se me perguntardes por algum remorso de
Sofia, não sei que vos diga. Há uma escala de ressentimento
e de reprovação. Não é só nas
ações que a consciência passa gradualmente da
novidade ao costume, e do temor à indiferença. Os
simples pecados de pensamentos são sujeitos a essa mesma
alteração, e o uso de cuidar nas cousas afeiçoa
tanto a elas,-que, afinal, o espírito não as estranha,
nem as repele. E nestes casos há sempre um refúgio
moral na isenção exterior, que é, por outros
termos mais explicativos, o corpo sem mácula.
CAPÍTULO
CLXIV
UM SÓ
INCIDENTE afligiu Sofia naquele dia puro e brilhante,-. um encontro
com Rubião. Tinha entrado em uma livraria da rua do Ouvidor
para comprar um romance; enquanto esperava o troco, viu entrar o
amigo. Rapidamente voltou o rosto e percorreu com os olhos os livros
da prateleira,-uns livros de anatomia e de estatística,-recebeu
o dinheiro, guardou-o, e, de cabeça baixa, rápido
como uma flecha, saiu à rua, e enfiou para cima. O sangue
só lhe sossegou, quando a Rua dos Ourives ficou para trás.
Dias depois,
indo a entrar em casa de D. Fernanda, deu com ele no saguão.
Cuidou que subisse, e dispôs-se a subir também, ainda
que receosa; mas Rubião descia, apertaram-se as mãos
familiarmente, e despediram-se até à tarde.
-Ele vem aqui
muitas vezes? perguntou Sofia a D. Fernanda depois de lhe contar
o encontro no saguão.
-Esta é
a quarta vez, quarta ou quinta; mas só da segunda vez apareceu
delirando. Das outras é como viu agora, sossegado, e até
conversador. Há nele sempre alguma cousa que mostra não
estar completamente bem. Não reparou nos olhos, um pouco
vagos? É isso; no mais, conversa bem. Creia, D. Sofia; aquele
homem pode sarar. Por que não faz com que seu marido tome
isto a peito?
-Cristiano
tem projeto de o mandar examinar e tratar, mas, deixe estar que
eu o apresso.
-Pois sim.
Ele parece ser muito amigo da senhora e do Sr. Palha
"Ter-lhe-á
dito alguma inconveniência no delírio, a meu respeito?
pensou Sofia. Convirá revelar-lhe a verdade?"
Concluiu que
não; o próprio mal do Rubião explicaria as
inconveniências. Prometeu que apressaria o marido, e nessa
mesma tarde expôs o negócio ao Palha. É uma
grande amolação, redargüiu este. E perguntou
que interesse tinha D. Fernanda em tornar àquele negócio.
Que o tratasse ela mesma! Era uma atrapalhação ter
de cuidar do outro, de o acompanhar, e, provavelmente, de recolher
e gerir algum resto de dinheiro que ainda houvesse, fazendo-se curador
como dissera o Dr. Teófilo. Um aborrecimento de todos os
diabos.
-Já
ando com grande carga sobre mim, Sofia. E depois como há
de ser? Havemos de trazê-lo para casa? Parece que não.
Metê-lo onde? Em alguma casa de saúde. . . Sim, mas
se não puderem aceitá-lo? Não hei de mandá-lo
para a Praia Vermelha... E as responsabilidades? Você prometeu
que me falaria?
- Prometi,
e afirmei que você faria isto, respondeu Sofia sorrindo. Talvez
não custe tanto como parece.
Sofia insistiu
ainda. A compaixão de D. Fernand a tinha-a impressionado
muito; achou-lhe um quê distinto e nobre, e advertiu que se
a outra, sem relações estreitas nem antigas com Rubião,
assim se mostrava interessada, era de bom-tom não ser menos
generosa
CAPÍTULO
CLXV
TUDO SE FEZ
sossegadamente. Palha alugou uma casinha na Rua do Príncipe,
cerca do mar, onde meteu o nosso Rubião, alguns trastes,
e o cachorro amigo. Rubião adotou a mudança sem desgosto,
e, desde que lhe tornou o delírio, com entusiasmo. Estava
nos seus paços de S. Cloud.
Não
sucedeu assim aos amigos da casa, que receberam a notícia
da mudança como um decreto de exílio. Tudo na antiga
habitação fazia parte deles, o jardim, a grade, os
canteiros, os degraus de pedra, a enseada. Traziam tudo de cor.
Era entrar, pendurar o chapéu, e ir esperar na sala. Tinham
perdido a noção da casa alheia e do obséquio
recebido. Depois, a vizinhança. Cada um daqueles amigos do
Rubião estava afeito a ver as pessoas do lugar, as caras
da manhã, e as da tarde, alguns chegavam a cumprimentá-las,
como aos seus próprios vizinhos. Paciência! iriam agora
para Babilônia, como os desterrados de Sião. Onde quer
que estivesse o Eufrates, achariam salgueiros em que pendurassem
as harpas saudosas,-ou propriamente, cabides em que pusessem os
chapéus. A diferença entre eles e os profetas é
que, ao cabo de uma semana, pegariam outra vez dos instrumentos,
e os tangeriam com a mesma graça e força; cantariam
os velhos hinos, tão novos como no primeiro dia. e Babel
acabaria por ser a mesma Sião, perdida e resgatada.
- O nosso amigo
precisa de repouso por algum tempo, disse-lhes o Palha, em Botafogo,
na véspera da mudança. Hão de ter reparado
que não anda bom; tem suas horas de esquecimento, de transtorno,
de confusão, vai tratar-se, por enquanto preciso que descanse.
Arranjei-lhe uma casa pequena, mas pode ser que, ainda assim, passe
para um estabelecimento de saúde. Ouviram atônitos.
Um deles, o Pio, voltando a si mais depressa que os outros, respondeu
que há mais tempo se devia ter feito aquilo; mas para fazê-lo,
era preciso ter influência decisiva no mínimo de Rubião.
- Muitas vezes
lhe disse, por boas maneiras, que era indispensável consultar
um médico, por me parecer que tinha alguma cousa no estômago.
.. Era um modo de desviar o sentido, compreende? Mas ele respondia
sempre, que não tinha nada, digeria bem... - Mas come menos,
dizia-lhe eu; há dias em que não come quase nada;
está mais magro, um pouco amarelo..." Compreende que
não podia dizer-lhe a verdade. Cheguei a consultar um médico,
meu amigo; mas o nosso bom Rubião não o quis receber.
Os outros quatro
iam confirmando de cabeça toda aquela invençãoera
o mais que se lhes podia pedir e tudo o que lhes consentia o atordoamento
do golpe. Acabaram perguntando o número da nova casa, para
irem saber dele. Pobre amigo! Quando se arrancaram dali se despediram
uns dos outros, deu-se um fenômeno com que não contavam;
é que eles mesmos mal podiam separar-se. Não que os
ligasse amizade nem estima; o próprio interesse os fazia
antipáticos. Mas o costume de se verem todos os dias, ao
almoço e ao jantar,- à mesma mesa, como que os tinha
fundido uns nos outros; a necessidade os fez suportáveis,
o tempo os tornou mutuamente precisos. Em resumo, eram os olhos
de cada um que iam padecer com ausência das caras de uso,
do gesto, das suíças, dos bigodes, da calva, dos sestros
particulares, do modo de comer, de falar e o estar dos companheiros.
Era mais que separação, era desarticulação.
CAPÍTULO
CLXVI
Rubião
notou que eles não o acompanharam à casa nova, e mandou-os
chamarnenhum veio, e a ausência encheu de tristeza o nosso
amigo,-durante as primeiras semanas. Era a família que o
abandonava. Rubião procurou recordar se lhes fizera algum
mal, por obra ou por palavra, e não achou nada.
CAPÍTULO
CLXVII
-CONVERSEI
com o homem; achei-lhe idéias delirantes. Conquanto não
seja alienista, acho que pode ficar bom. . . Mas quer saber uma
descoberta interessante?
-Crê
que fique bom? disse D. Fernanda, sem atender à pergunta
do Dr. Falcão.
Era deputado
o Dr. Falcão, deputado e médico, amigo da casa, varão
sabedor, céptico e frio. D. Fernanda tinha-lhe pedido o favor
de examinar o Rubião, pouco depois que este se transportou
para a casa da Rua do Príncipe.
-Sim, creio
que fique bom, desde que seja regularmente tratado. Pode ser que
a doença não tenha antecedentes na família.
Mande ver um especialista. Mas não quer saber a minha interessante
descoberta?
-Qual é?
-Talvez tenha
parte na moléstia uma pessoa sua conhecida, respondeu ele
sorrindo.
-Quem?
-D. Sofia.
-Como assim?
-Ele falou-me
dela com entusiasmo, disse-me que era a mais esplêndida mulher
do mundo, e que a nomeara duquesa, por não poder nomeá-la
imperatriz; mas que não brincassem com ele, que era capaz
de fazer como o tio, divorciar-se e casar com ela. Concluí
que terá tido paixão pela moça; e depois a
intimidade, Sofia para aqui, Sofia para ali...Desculpe-me, mas eu
creio que os dous se amaram . . .
-Oh! não!
- D. Fernanda,
creio que se amaram. Que admira? Eu mal a conheço; a senhora
parece que não a conhece há muito tempo nem viveu
na intimidade dela. Pode ser que se tivessem amado, e que alguma
paixão violenta. . . Suponhamos que ela o mandasse pôr
fora de casa. . . verdade que tem a mania das grandezas; mas tudo
se pode juntar...
D. Fernanda
não olhava para ele, vexada de lhe ouvir aquela suposição;
evitava discuti-la pelo melindre do assunto. Achava a suspeita sem
fundamento, absurda, inverossímil; não chegaria a
crer naquele amor espúrio, ainda que o ouvisse ao próprio
Rubião. Um desvairado, em suma. Quando o não fosse,
é ainda provável que lhe não desse fé.
Sim, não lhe daria fé. Não podia crer que Sofia
houvesse amado aquele homem, não por ele, mas por ela, tão
correta e pura. Era impossível . Quis defendê-la ;
mas, apesar da intimidade do Dr . Falcão, recuou segunda
vez do assunto, e repetiu a pergunta de há pouco
-Parece-lhe
então que ele pode ficar bom?
-Pode, mas
não basta o meu exame. A senhora sabe que, nestas cousas,
é melhor um especialista.
Pouco depois,
saindo à rua, Falcão sorria da resistência de
D. Fernanda em aceitar a sua hipótese. "Com certeza,
houve alguma cousa, dizia ele consigo; boa cara, e, se não
é um petimetre, é apessoado, e tem fogo nos olhos.
Com certeza..." E repetia algumas frases de Rubião,
evocava o gesto e a modulação terna da voz, e cada
vez mais se lhe ia agravando a suspeita. "Com certeza..."
Era já impossível que se não tivessem amado;
a oposição de D. Fernanda parecia-lhe ingênua,-se
não era antes um recurso para desconversar e não tocar
na matéria. Havia de ser isso. . .
Neste ponto,
sem querer, o deputado estacou. Uma suspeita nova assaltara-lhe
o espírito. Após alguns instantes rápidos,
abanou a cabeça voluntariamente, como a desmentir-se, como
a achar-se absurdo, e foi andando. Mas a suspeita era teimosa, e
a que ocupa deveras o interior do homem, não faz caso da
cabeça nem dos seus gestos. "Quem sabe se D. Fernanda
não suspirou também por ele? Essa dedicação
não seria um prolongamento de amor, etc.?" E assim foram
nascendo perguntas, que achavam no íntimo do Dr. Falcão
resposta afirmativa. Resistiu ainda, era amigo da casa, tinha respeito
a D. Fernanda, conhecia-a honesta; mas,-ia pensando,-bem podia ser
que um sentimento oculto, recatado,-quem sabe até se provocado
pela mesma paixão da outra...? Há dessas tentações.
O contágio da lepra corrompe o mais puro sangue; um triste
bacilo destrói o mais robusto organismo.
Pouco a pouco,
as veleidades de resistência foram cedendo à noção
da possibilidade, da probabilidade e da certeza. Em verdade tinha
notícia de algumas obras de caridade de D. Fernanda; mas
aquele caso era novo. Essa dedicação especial a um
homem que não era familiar da casa, nem velho amigo, nem
parente, aderente, colega do marido, qualquer cousa que o fizesse
partícipe da vida doméstica, pelas relações,
pelo sangue ou pelo costume, não era explicável sem
algum motivo secreto. Amor, seguramente curiosidade de mulher honesta,
que pode descambar no vício e no remorso. Aquela teria recuado
a tempo; fitou-lhe a simpatia mórbida. . . E daí,
quem sabe?
|