Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO CVII
DAS REPLEXÕES
de Sofia é que não há que explicar. Todas tinham
o pé na verdade. Era certo e certíssimo que Carlos
Maria não correspondera às primeiras esperanças,-nem
às segundas e terceiras,- porque as houve em quadras diversas,
ainda que menos verdes e bastas. Quanto à causa disso, vimos
que Sofia, à míngua de uma, atribuiu-lhe sucessivamente
três. Não chegou a pensar em alguns amores que ele
porventura trouxesse e lhe tornassem insípidos quaisquer
outros. Seria uma quarta causa, e talvez a verdadeira.
CAPÍTULO CVIII
DURANTE alguns meses, Rubião deixou de ir ao Flamengo. Não
foi resolução fácil de cumprir. Custou-lhe
muita hesitação, muito arrependimento; mais de uma
vez chegou a sair com o propósito de visitar Sofia e pedir-lhe
perdão. De quê? Não sabia; mas queria ser perdoado.
Em todas as tentativas desse gênero, a lembrança de
Carlos Maria fazia-o recuar. De certo ponto em diante, foi o próprio
lapso de tempo que o tolheu; era esquisito aparecer lá um
dia. como um triste filho pródigo, unicamente para suplicar
o calor dos belos olhos da dona da casa. Ia ao armazém, visitar
o Palha; este, ao fim de cinco semanas, reprochou-lhe a ausência;
e, passados dous meses, perguntou-lhe se era formal propósito.
-Tenho tido
muito que fazer, acudiu Rubião; esses negócios políticos
tomam todo o tempo a uma pessoa. Vou lá domingo.
Sofia aparelhou-se
para recebê-lo. Espiaria a ocasião de lhe dizer o que
era a carta, jurando por todas as cousas santas, para que ele visse
que a verdade não era contra ela. Planos perdidos; Rubião
não compareceu. Veia outro domingo, vieram outros domingos...
Não obstante, Sofia remeteu-lhe um dia a subscrição
para as Alagoas; ele assinou cinco contos de réis.
-É muito,
disse-lhe o sócio, no armazém, quando ele lhe foi
levar o papel.
-Não
dou menos.
-Mas olhe que
pode dar muito, sem dar tanto. Parece-lhe então que esta
subscrição é feita entre meia dúzia
de pessoas? Anda nas mãos de muitas senhoras e de alguns
homens; está nos mostradores das lojas, na Praça do
Comércio, etc. Assine menos.
-Como, se está
escrito?
-Deste 5 pode-se
fazer muito bem um 3. Três contos já é uma boa
assinatura. Há maiores, m as são de pessoas obrigadas
pelo cargo ou pelos milhões; o Bonfim, por exemplo, assinou
dez contos.
Rubião
não pôde reter um risinho irônico; abanou a cabeça,
e não recuou dos cinco contos. Só emendaria, escrevendo
o algarismo 1 atrás,-quinze contos,-mais que o Bonfim.
-Seguramente,
que pode dar cinco, dez ou quinze contos, tornou o Palha; mas o
seu capital precisa cautelas, você está entrando muito
por ele. .. Repare que já lhe rende menos.
Palha era agora
o depositário dos títulos de Rubião (ações,
apólices, escrituras) que estavam fechados na burra do armazém.
Cobrava-lhe os juros, os dividendos e os aluguéis de três
casas, que Ihe fizera comprar algum tempo antes, a vil preço,
e que Ihe rendiam muito. Guardava também uma porção
de moedas de ouro, porque Rubião tinha a mania de as colecionar,
para a contemplação. Conhecia, mais que o dono, a
soma total dos bens, e assistia aos rombos feitos na caravela, sem
temporal, mar de leite. Três contos bastavam, insistiu ele;
e provou a sinceridade pelo fato de ser justamente marido da fundadora
da comissão. Mas o Rubião não desistiu dos
cinco, aproveitou a ocasião para pedir-lhe mais dez; precisava
de dez contos. Palha coçou a cabeça.
-Você
desculpe, disse-lhe ao cabo de alguns instantes, mas para que é
que os quer? Não está certo que vai perdê-los,
ou arriscá-los, ao menos?
Rubião
riu da objeção.
-Se eu estivesse
certo de que os perdia, não vinha buscá-los Pode ser
arriscado, mas não é sem arriscar que se ganha. Preciso
deles para um negócio,-quero dizer, três negócios.
Dous são empréstimos seguros, e não passam
de um conto e quinhentos. Os oito contos e quinhentos são
para uma empresa. Por que abana a cabeça, se não sabe
de que se trata?
-Por isso mesmo.
Se você me consultasse, se me dissesse que empresa e que pessoas
eram, eu veria logo se podia arriscar-se; e receio muito que nada
preste, a não ser o dinheiro que se perder. Lembra-se das
ações daquela Companhia União dos Capitais
Honestos? Disse-lhe logo que este título era enfático,
um modo de embair a gente, e dar emprego a sujeitos necessitados.
Você não quis crer, e caiu. As ações
estão por baixo, e já este semestre não há
dividendos
-Pois venda
justamente essas ações; contento-me com o sólido.
Ou então
dê-me da caixa da nossa casa. . . Passo logo por aqui, se
você quiser,-ou mande-me lá a Botafogo. Caucione umas
apóli-ces, se lhe parecer melhor...
-Não,
não faço nada, não dou os dez contos, atalhou
fogosa-mente o Palha. Basta de ceder a tudo; o meu dever é
resistir. Emprés-timos seguros? Que empréstimos são
esses? Não vê que Ihe levam o dinheiro, e não
lhe pagam as dívidas? Sujeitos que vão ao ponto de
jantar diariamente com o próprio credor, como um tal Carneiro,
que lá tenho visto. Dos outros não sei se Ihe devem
também; é possível que sim. Vejo que é
demais. Falo-lhe por ser amigo; não dirá algum dia
que não foi avisado em tempo. De que há de viver,
se estragar o que possui? A nossa casa pode cair.
-Não
cai, acudiu o Rubião.
-Pode cair;
tudo pode cair. Eu vi cair o banqueiro Souto, em 1864.
Rubião remoía os conselhos do sócio, não
por serem bons nem prováveis, mas por achar neles uma intenção
maviosa, revestida de forma crua. Agradeceu-os de coração,
mas rejeitou-os; precisava dos dez contos. Podia ter mais tento,
dali em diante, e afirmava-lhe que seria menos fácil. De
resto, possuía de sobra, tinha dinheiro para dar e vender.
. .
-Para vender
só emendou o Palha.
E, depois de
um instante
-Bem, agora
é tarde, amanhã levo-lhe os dez contos. E por que
os não há de ir buscar lá à nossa casa
ao Flamengo? Que mal lhe fizemos nós? Ou que lhe fizeram
elas? porque a zanga parece ser com elas, visto que o vejo aqui.
Que foi, para castigá-las? concluiu rindo.
Rubião
desviou os olhos do sócio, cuja palavra Ihe parecia afiada
de ironia,-como de pessoa que soubesse tudo, e risse dele. Quando
lhos tornou, viu o mesmo semblante interrogativo, e respondeu
-Não me fizeram nada; lá irei amanhã à
noite.
-Vá
jantar.
-Jantar, não
posso, tenho uns amigos em casa; vou de noite. E querendo rir-Não
as castigue, que não me fizeram nada.
-Alguém
o possui, refletiu Palha logo que ele saiu; alguém, por inveja
às nossas relações.. . Também pode ser
que Sofia lhe fizesse alguma para arredá-lo de casa. ..
Rubião
assomou outra vez à porta; não tivera tempo de chegar
à esquina. Voltava para dizer que, precisando do dinheiro
cedo, viria buscá-lo ao armazém; de noite iria então
visitá-los. Precisava do dinheiro até às duas
horas da tarde.
CAPÍTULO
CIX
NESSA NOITE, Rubião sonhou com Sofia e Maria Benedita. Viu-as
num grande terreiro, apenas vestidas de saia, costas inteiramente
des-pidas; o marido de Sofia, armado de um azorrague de cinco pontas
de couro, rematando em bicos de ferro, castigava-as despiedadamente.
Elas gritavam, pediam misericórdia, torciam-se, alagadas
em sangue, as carnes caíam-lhes aos bocados. Agora, por que
razão Sofia era a imperatriz Eugênia, e Maria Benedita
uma aia sua, é o que na sei dizer com exatidão. "São
sonhos, sonhos, Penseroso!" exclamava um personagem do nosso
Alvares de Azevedo. Mas eu prefiro a reflexão do velho Polonius,
acabando de ouvir uma fala tresloucada de Hamlet"Desvario embora,
lá tem seu método". Também há me
todo aqui, nessa mistura de Sofia e Eugênia; e ainda há
método no que se lhe seguiu, e que parece mais extravagante.
Sim, Rubião,
indignado, mandou logo cessar o castigo, enforcar o Palha e recolher
as vítimas. Uma delas, Sofia, aceitou um lugar na carruagem
aberta que esperava pelo Rubião, e lá foram a galope,
ela garrida e sã, ele glorioso e dominador. Os cavalos, que
eram dous a saída, eram daí a pouco, oito, quatro
belas parelhas. Ruas e janelas cheias de gente, flores chovendo
em cima deles, aclamações.. Rubião sentiu que
era o imperador Luís Napoleão; o cachorro ia no carro
aos pés de Sofia...
Tudo acabou
sem fim, nem fracasso. Rubião abriu os olhos; talvez alguma
pulga o mordeu; qualquer cousa"Sonhos, sonhos, Pense roso!"
Ainda agora prefiro o dito de Polonius "Desvario embora, lá
tem seu método!"
CAPÍTULO
CX
RUBIÃO fez os dous empréstimos e o negócio.
O negócio era um Empresa Melhoradora dos Embarques e Desembarques
no Porto do Rio de Janeiro. Um dos empréstimos tinha por
fim pagar certa conta atrasada de papel da Atalaia, dívida
urgente. A folha estava ameaçada de parar.
-Perfeitamente,
disse Camacho, quando Rubião lhe foi levar o dinheiro à
casa. Muito obrigado. Veja você como, por uma miséria
desta ordem, podia emudecer o nosso órgão. São
os espinhos naturais da carreira. O povo não está
educado; não reconhece, não apóia os que trabalham
por ele, os que descem à arena todos os dias em defesa das
liberdades constitucionais. Imagine que, de momento, não
dispúnhamos deste dinheiro, tudo estava perdido, cada um
ia para os seus negócios, e os princípios ficavam
sem o seu leal expositor.
-Nunca! protestou
Rubião
-Tem razão;
redobraremos de esforços. A Atalaia será como o Anteu
da fábula. De cada vez que cair, erguer-se-á com mais
vida.
Dito isto,
Camacho mirou o maço de notas. Um conto e duzentos não?
perguntou; e meteu-o no bolso do fraque. Continuou a dizer que estavam
seguros agora, a folha ia de vento em popa. Tinha certas reformas
materiais em vista; foi ainda mais longe.
-Precisamos
desenvolver o programa, dar um empurrão aos correligionários,
atacá-los, se for preciso...
-Como?
-Ora, como?
atacando. Atacar é um modo de dizer; corrigir. É evidente
que o órgão do partido está afrouxando. Chamo
órgão do partido, porque a nossa folha é órgão
das idéias do partido, compreende a diferença?
-Compreendo.
-Vai afrouxando,
continuou Camacho apertando um charuto entre os dedos, antes de
o acender; nós precisamos de acentuar os princípios,
mas francamente, nobremente, dizendo a verdade. Creia que os chefes
precisam ouvi-la a seus próprios amigos e aderentes. Nunca
rejeitei a conciliação dos partidos, pugnei por ela;
mas conciliação não é jogo de empulha.
Para lhe dar um exemplo, na minha província a gente dos Pinheiros
tem o apoio do governo, unicamente para me deslocar; e os meus correligionários
da Corte, em vez de a combater, visto que o governo lhe dá
força, que pensa que fazem? Dão também apoio
aos Pinheiros.
-Têm
ao menos alguma influência os Pinheiros?
-Nenhuma, respondeu
Camacho fechando violentamente a caixa de fósforos que ia
a abrir. Há um réu de polícia entre eles, e
há outro que até foi aprendiz de barbeiro. Matriculou-se,
é verdade, na Faculdade do Recife, creio que em 1855, por
morte do padrinho que lhe deixou alguma cousa, mas tal é
o escândalo da carreira desse homem que, logo depois de receber
o diploma de bacharel, entrou na assembléia provincial. É
uma besta; é tão bacharel como eu sou papa.
Entenderam-se
sobre as modificações políticas da folha. Camacho
lembrou ao Rubião que a candidatura deste naufragara por
causa justamente da oposição dos chefes. De alguns,
emendou logo. Rubião concordou; assim Iho tinha dito o amigo
em tempo, e a lembrança avivou o ressentimento do desastre.
Podia, devia estar na Câmara. Os tais é que o não
quiseram; mas haviam de ver, pensava Rubião; tinham de amargar
o mal feito. Deputado, senador, ministro, vê-lo-iam tudo,
com olhos tortos e espantados. A cabeça de nosso amigo, tanto
que o outro lhe pôs a faísca, foi ardendo de si mesma,
não por ódio, nem inveja, mas de ambição
ingênua, e cordial certeza, visão antecipada e deslumbrante
das grandezas. Camacho estimou achá-lo de acordo.
-A nossa gente
é de igual opinião, disse ele. Creio que não
faz mal uma pequena ameaça aos amigos.
Nessa mesma
noite, leu-lhe o artigo em que advertia o partido da conveniência
de não ceder às perfídias do poder, apoiando
em algumas províncias certa gente corrupta e sem valor. Eis
aqui a conclusão:
Os partidos
devem ser unidos e disciplinados. Há quem pretenda (mirabile
dictu!) que essa disciplina e união não podem ir ao
ponto de rejeitar os benefícios que caem das mãos
dos adversários. Risum teneatis! Quem pode proferir tal blasfêmia
sem que lhe tremam as carnes? Mas suponhamos que assim seja, que
a oposição possa, uma ou outra vez, fechar os olhos
aos desmandos do governo, à postergação das
leis, aos excessos da autoridade, à perversidade e aos sofismas.
Ouid inde? Tais casos,-aliás raros,-só podiam ser
admitidos quando favorecessem os elementos bons, não os maus.
Cada partido tem os seus díscolos e sicofantas. É
interesse dos nossos adversários ver-nos afrouxar, a troco
da animação dada à parte corrupta do partido.
Esta é a verdade; negá-lo é provocar-nos à
guerra intestina, isto é, à dilaceração
da alma nacional... Mas, não, as idéias não
morrem; elas são o lábaro da justiça. Os vendilhões
serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os
puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locais
e passageiros a vit6ria indefectível dos princípios.
Tudo que não for isto ter-nos-á contra si. Alea jacta
est.
CAPÍTULO CXI
RUBIÃO aplaudiu o artigo; achava-o excelente. Talvez pouco
enérgico. Vendilhões, por exemplo, era bem dito; mas
ficava melhor vis vendilhões.
-Vis vendilhões?
Há só um inconveniente, ponderou Camacho. É
a repetição dos vv. Vis ven... Vis vendilhões;
não sente que o som fica desagradável?
-Mas lá
em cima há vés vis...
-Voe victis.
Mas é uma frase latina. Podemos arranjar outra cousa; vis
mercadores.
-Vis mercadores
é bom.
-Contudo, mercadores
não tem a força de vendilhões.
-Então,
por que não deixa vendilhões? Vis vendilhões
é forte; ninguém repara no som. Olhe, eu nunca dou
por isso. Gosto de energia. Vis vendilhões
-Vis vendilhões,
vis vendilhões, repetiu Camacho, à meia voz. Já
estou achando melhor. Vis vendilhões. Aceito, concluiu emendando.
E releu
Os vis vendilhões
serão expulsos do templo; ficarão os crentes e os
puros, os que põem acima dos interesses mesquinhos, locais
e passageiros a vitória. indefectível dos princípios.
Tudo que não for isto ter-nos-á contra si. Alea Zacta
est.
-Muito bem!
disse Rubião, sentindo-se algum tanto autor de artigo.
-Parece-lhe
bem? perguntou Camacho, sorrindo. Há pessoas que ainda me
acham no estilo a frescura do meu tempo de estudante Não
sei, não digo nada; a disposição, sim, é
a mesma. Hei de castigá-los; havemos de castigá-los.
CAPÍTULO CXII
AQUI É QUE EU QUISERA ter dado a este livro o método
de tantos outros,-velhos todos,-em que a matéria do capítulo
era posta no sumário"De como aconteceu isto assim, e
mais assim." Aí está Bernardim Ribeiro; aí
estão outros livros gloriosos. Das línguas estranhas,
sem querer subir a Cervantes nem a Rabelais, bastavam-me Fielding
e Smollet, muitos capítulos dos quais só pelo sumário
estão lidos. Pegai em Tom Jones, livro IV, cap. I, lede este
título Contendo cinco folhas de pape. É claro, é
simples, não engana a ninguém; são cinco folhas,
mais nada, quem não quer não lê, e quem quer
lê, para os últimos é que o autor concluiu obsequiosamente"E
agora, sem mais prefácio, vamos ao seguinte capítulo".
CAPÍTULO
CXIII
SE TAL FOSSE O MÉTODO deste livro, eis aqui um título
que explicaria tudo"De como Rubião, satisfeito da emenda
feita no artigo, tantas frases compôs e ruminou, que acabou
por escrever todos os livros que lera".
Lá haverá
leitor a quem só isso não bastasse. Naturalmente,
quereria toda a análise da operação mental
do nosso homem, sem advertir que, para tanto, não chegariam
as cinco folhas de papel de Fielding. Há um abismo entre
a primeira frase de que Rubião era co-autor até a
autoria de todas as obras lidas por ele; é certo que o que
mais lhe custou foi ir da frase ao primeiro livro;-deste em diante
a carreira fez-se rápida. Não importa; a análise
seria ainda assim longa e fastiosa. O melhor de tudo deixar só
isto; durante alguns minutos, Rubião se teve por autor de
muitas obras alheias.
CAPÍTULO CXIV
AO CONTRÁRIO, não sei se o capítulo que se
segue poderia estar todo no título.
CAPÍTULO CXV
RUBIÃO foi mantendo o propósito de não tornar
a ver Sofia; pelo menos, não ia ao Flamengo. Viu-a um dia
passar de carro, com uma das damas da comissão das Alagoas;
ela inclinou-se risonha, dizendo-lhe adeus com a mão. Ele
retribuiu o cumprimento, tirando o chapéu, com tal ou qual
alvoroço, mas não ficou parado como lhe aconteceria
dantes; apenas lançou um olhar ao carro que ia andando. Também
ele foi andando,-e pensando no lance da carta , não compreendendo
aquele gesto de mão, sem ódio nem vexame,-como se
nada houvesse entre eles. Podia ser que o serviço da comissão
e a companheira que levava explicassem a benevolência graciosa
de Sofia; mas Rubião não cogitou desta hipótese.
-Estará
assim tão falta de brio? perguntava ele. Pois não
se lembra da carta que achei, mandada por ela ao tal gamenho da
Rua dos Inválidos? É muito; é demais. Parece
um desafio, um modo de dizer que não faz caso, que escreverá
todas as cartas que quiser. Que as escreva, mas gaste algum dinheiro
em registrá-las no correio; é barato. . .
Achou algum
pico em si mesmo, e riu-se. Isto, e um homem que passou rasgando-lhe
uma cortesia, tiraram-lhe o amargor das saudades, e ele esqueceu
o assunto, para cuidar de outro, que o levava ao Banco do Brasil.
Ao entrar no
Banco esbarrou no sócio, que saiu.
-Creio que
vi agora D. Sofia, disse-lhe Rubião.
-Onde?
-Na Rua dos
Ourives; ia de carro, com outra senhora, que não conheço.
Como tem você passado?
-Viu-a, e não
se lembrou de nada, observou Palha, sem responder à pergunta.
Não se lembrou que ela faz anos, quarta-feira, depois de
amanhã. Não lhe peço que vá jantar,
não ouso tanto, seria convidá-lo a aborrecer-se; mas
uma xícara de chá bebe-se depressa. Faz-me esse favor?
Rubião
não respondeu logo.
-Vou até
jantar, disse finalmente. Quarta-feira? Conte comigo. Tinha-me esquecido,
confesso; mas ando com tanta cousa na cabeça. Espere por
mim daqui a meia hora, no armazém.
Antes de meia
hora estava lá, pedindo-lhe dous contos de réis. Palha
já não resistia ao desmoronamento do capital; e, se
uma ou outra vez, dizia alguma palavrinha frouxa, agora entregou-lhe
o dinheiro com indiferença. Rubião não tornou
à casa sem comprar um magnífico brilhante, que, na
quarta-feira, enviou a Sofia, acompanhado, um bilhete de visita,
e duas palavras de felicitação.
Sofia estava
só, no quarto de vestir, calçando os sapatos, quando
a criada lhe entregou o pacote. Era o terceiro presente do dia;
a criada esperou que ela o abrisse para ver também o que
era. Sofia ficou deslumbrada, quando abriu a caixa e deu com a rica
jóia, - uma bela pedra, no centro de um colar. Esperava alguma
cousa bonita; mas, depois dos últimos sucessos, mal podia
crer que ele fosse tão generoso. Batia-lhe o coração.
-O portador
está aí?
-Já
foi. Que bonito, minha ama!
Sofia fechou
a caixa, e acabou de calçar-se. Deteve-se algum tempo, sentada,
sozinha, recordando cousas idas, e levantou-se pensando
"Aquele
homem adora-me".
Tratou de vestir-se;
mas, ao passar por diante do espelho, deixou-se estar alguns instantes.
Comprazia-se na contemplação de si mesma, das suas
ricas formas, dos braços nus de cima a baixo, dos próprios
olhos contempladores. Fazia vinte e nove anos, achava que era a
mesma dos vinte e cinco, e não se enganava. Cingido e apertado
colete, diante do espelho, acomodou os seios com amor, e deixou
espraiar-se o colo magnífico. Lembrou-se então de
ver como lhe ficava o brilhante; tirou o colar e pô-lo ao
pescoço. Perfeito. Voltou-se da esquerda para a direita e
vice-versa, aproximou-se, afetou-se, aumentou a luz do camarim;
perfeito. Fechou a jóia e guardou-a.
"Aquele
homem adora-me", repetiu.
"Provavelmente,
ele lá estará, pensou Rubião indo jantar ao
Flamengo; duvido que tenha dado melhor presente que eu".
Carlos Maria
lá estava, efetivamente, conversando, entre uma das comissárias
das Alagoas, e Maria Benedita. Poucos eram os convivas; houve propósito
em escolher e limitar. Não estava ali o Major Siqueira, nem
a filha, nem as senhoras e os homens que Rubião conheceu
naquele outro jantar de Santa Teresa. Da comissão das Alagoas
viam-se algumas damas; via-se mais o diretor do banco,- o da visita
ao ministro,-com a senhora e as filhas,-outro personagem bancário,
um comerciante inglês, um deputado, um desembargador, um conselheiro,
alguns capitalistas, e pouco mais.
Posto que evidentemente
gloriosa, Sofia esqueceu por um instante os outros, quando viu Rubião
entrar na sala e caminhar para ela. Ou mudança, ou descostume,
achou-lhe outro ar, passo firme, cabeça levantada, o avesso,
em suma, do antigo gesto encolhido e diminuto. Sofia apertou-lhe
a mão com força e sussurrou um agradecimento. A mesa
fê-lo sentar ao pé de si, tendo do outro lado a presidente
da comissão. Rubião olhava superiormente para tudo.
A qualidade dos convivas não lhe produziu impressão,
nem o ar cerimonioso, nem o luxo da mesa; nada disso o deslumbrou.
O mesmo cuidado particular de Sofia, embora lhe fosse agradável,
não o tonteava, como outrora. E da parte dela era mais apurada
a atenção, e os olhos excepcionalmente meigos e serviçais.
Rubião procurou Carlos Maria; lá estava entre as mesmas
moças da sala,-Maria Benedita e a comissária das Alagoas.
Verificou que só se ocupava com elas, não olhava para
Sofia, nem esta para ele.
"Talvez
disfarcem", pensou.
Pareceu-lhe,
ao levantarem-se da mesa, que trocavam um olhar; mas o movimento
geral da reunião podia iludi-lo, e Rubião não
fez maior cabedal da observação. Sofia dera-se pressa
em tomar-lhe o braço. De caminho, disse-lhe ela
-Tenho esperado
pelo senhor desde aquele dia, e nunca mais veio aqui. Era meu direito
exigi-lo, para explicar-me. Logo falaremos.
Rubião
foi daí a pouco para o gabinete dos fumantes. Ouviu calado,
com os olhos erradios. Quando os outros saíram. Rubião
deixou-se estar só, meio reclinado em um sofá de couro,
sem pensar. A imaginação é que fazia o seu
ofício, um tanto pachorrenta, agora, -talvez porque ele tivesse
comido muito. Lá fora iam entrando os convidados da noite;
enchia-se a casa, crescia o burburinho da conversação,
sem que o nosso amigo descesse dos seus belos sonhos. O próprio
som do piano, que fez calar todos os rumores, não o atraiu
à terra. Mas um farfalhar de sedas, entrando no gabinete,
fê-lo erguer-se de golpe, acordado.
-Aí
está, disse Sofia, recolhe-se aqui para fugir ao aborrecimento;
nem quer ouvir boa música. Pensei que tivesse ido embora.
Vim ter com o senhor.
E sem mais
demora, porque não podia perder um minuto, referiu-lhe o
que sabemos da carta achada no jardim de Botafogo; lembrou-lhe que,
antes de a abrir, pedira-lhe que ele mesmo a abrisse e lesse. Que
melhor prova de inocência? A palavra saía-lhe rápida,
séria, digna e comovida. Ocasião houve em que os olhos
se lhe tornaram úmidos; ela enxugou-os, e ficaram vermelhos.
Rubião pegou-lhe na mão, e viu ainda uma lágrima,-uma
pequena lágrima,-escorregar até o canto da boca. Jurou
então que sim, acreditava em tudo. Que idéia aquela
de chorar? Sofia enxugou ainda os olhos, e estendeu-lhe a mão
agradecida.
-Até
já, disse ela.
O piano continuava; Rubião notou-lhe esta circunstância.
Enquanto ouviam tocar, não viriam ter com eles.
-Mas eu é
que não posso estar ausente tanto tempo, acudiu Sofia. Demais,
tenho ordens que dar. Até já
-Olhe, escute,
insistiu Rubião.
Sofia parou.
-Escute; deixe-me
dizer-lhe, e não sei se pela última vez...
-Pela última
vez?
-Quem sabe?
Pode ser que última. Importa-me pouco que esse homem viva
ou não, mas posso achá-lo aqui alguma vez, e não
me sinto disposto a brigar.
-Há
de encontrá-lo todos os dias. Cristiano ainda lhe não
disse o que há? Vai casar com Maria Benedita
Rubião
deu um passo para trás.
-Casam-se,
continuou ela. O fato é de admirar porque surgiu quando menos
contávamos com isto; -ou eram muito fingidos, ou foi cousa
que lhes deu de repente. Casam-se. Maria Benedita contou-me uma
história, que me foi confirmada por outra pessoa; mas, afinal,
a história é sempre a mesma. Gostaram um do outro,
e adeus Casam-se brevemente. Quando ele falou a Cristiano, Cristiano
respondeu que dependia de mim... Como se fosse mãe dela Consenti
logo, e desejo que sejam felizes. Ele parece bom rapaz, ela é
excelente criatura; hão de ser felizes, por força.
E bom negócio, sabe? E1e está de posse de todos os
bens do pai e da mãe. Maria Benedita não tem nada,
em dinheiro; mas tem a educação que lhe dei. Há
de lembrar-se que, quando veio para minha companhia, era um bicho-do-mato;
não sabia quase nada; fui eu que a eduquei. Minha tia merecia
tudo, e ela também. Pois, é verdade, casam-se muito
breve. Não os viu hoje sempre juntos? Não há
ainda participação oficial; mas os íntimos
da família podem saber.
Para quem tinha
tanta pressa, eis aí um discurso demasiado comprido. Sofia
deu por isso um pouco tarde; repetiu a Rubião que até
logo, que fosse para a sala. O piano acabara; ouvia-se um burburinho
discreto de aplauso e conversação.
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