Quem Casa,
Quer Casa
Martins Pena
CENA VII
Nicolau e os ditos.
NICOLAU - Ó
senhora?
FABIANA - O que me quer?
NICOLAU - Oh, já chegaste, Sabino? As flores de cera para
os tocheiros?
SABINO, gago - Ficaram prontas e já foram para a igreja.
NICOLAU - Muito bem; agora vai vestir o hábito, que são
horas de sairmos. Vai, anda.
SABINO - Sim senhor. (A Fabiana:) Vou ordenar que lhe venha pedir
perdão e fazer as pazes. (Vai-se.)
CENA VIII
Nicolau e Fabiana.
NICOLAU - Os
teus brincos de brilhantes e os teus adereços, para nossos
filhos levarem? Quero que sejam os anjinhos mais ricos... Que glória
para mim! Que inveja terão!
FABIANA - Homem, estão lá na gaveta. Tire tudo quanto
quiser, mas deixe-me a paciência...
NICOLAU - Verás que anjinhos asseados e ricos! (Chamando:)
Ó Eduardo? Eduardo? Meu genro?
EDUARDO, dentro - Que é lá?
NICOLAU - Olha que são horas. Veste-te depressa, que a procissão
não tarda a sair.
EDUARDO, dentro - Sim senhor.
FABIANA - Ainda a mania deste é inocente... Assim tratasse
ele da família.
NICOLAU - Verá, mulher, verás que guapos ficam nossos
filhinhos... Tu não os irá ver passar?
FABIANA - Sai de casa quem a tem em paz. (Ouve-se dobrar os sinos.)
NICOLAU - É o primeiro sinal! Sabino, anda depressa! Eduardo?
Eduardo?
EDUARDO, dentro - Sim senhor.
SABINO, dentro - Já vou, senhor.
NICOLAU - Já lá vai o primeiro sinal! Depressa, que
já saiu... Sabino? Sabino? Anda, filho... (Correndo para
dentro:) Ah, senhor Bernardo, vista os pequenos... Ande, ande! Jesus,
chegarei tarde! (Vai-se.)
CENA IX
Fabiana e depois Paulina
FABIANA - É
o que se vê... Deus lhe dê um zelo mais esclarecido...
PAULINA, entrando e à parte - Bem me custa...
FABIANA, vendo-a e à parte - Oh, a desavergonhada de minha
nora!
PAULINA, à parte - Em vez de conciliar-me, tenho vontade
de dar-lhe uma descompostura.
FABIANA, à parte - Olhem aquili! Não sei por que não
a descomponho já!
PAULINA, à parte - Mas é preciso fazer a vontade a
meu marido...
FABIANA, à parte - Se não fosse por amor da paz...
(Alto:) Tem alguma coisa que dizer-me?
PAULINA, à parte - Maldita suçurana! (Alto:) Sim senhora,
e a rogos de meu marido é que aqui estou.
FABIANA - Ah, foram a rogos seus? O que lhe rogou ele?
PAULINA - Que era tempo de se acabarem essas desavenças em
que andamos...
FABIANA - Mais que tempo...
PAULINA - E eu dei-lhe a minha palavra que faria todo o possível
para de hoje em diante vivermos em paz... e que principiaria por
pedir-lhe perdão, como faço, dos agravos que de mim
tem...
FABIANA - Quisera Deus que assim tivesse sido desde princípio!
E acredite, menina, que prezo muito a paz doméstica, e que
minha maior satisfação é viver bem com vocês
todos.
PAULINA - De hoje em diante espero que assim será. Não
levantarei a voz nesta casa sem vosso consentimento. Não
darei uma ordem sem vossa permissão... Enfim, serei uma filha
obediente e submissa.
FABIANA - Só assim poderemos viver juntos. Dá cá
um abraço. (Abraça-a.) És uma boa rapariga...
Tens um bocadinho de gênio; mas quem não o tem?
PAULINA - Hei de moderá-lo...
FABIANA - Olha, minha filha, e não tornes a culpa a mim.
É impossível haver em uma casa mais de uma senhora.
Havendo, é tudo confusão...
PAULINA - Tem razão. E quando acontece haver duas, toca à
mais velha o governar.
FABIANA - Assim é.
PAULINA - A mais velha tem sempre mais experiência...
FABIANA - Que dúvida!
PAULINA - A mais velha sabe o que convém...
FABIANA - Decerto.
PAULINA - A mais velha conhece as necessidades...
FABIANA, à parte - A mais velha!
PAULINA, com intenção - A mais velha deve ter mais
juízo...
FABIANA - A mais velha, a mais velha... Que modo de falar é
esse?
PAULINA, no mesmo - Digo que a mais velha...
FABIANA, desbaratando - Desavergonhada! A mim, velha!...
PAULINA, com escárnio - Pois então?
FABIANA, desesperada - Salta daqui! Salta!
PAULINA - Não quero, não recebo ordens de ninguém.
FABIANA - Ai, ai, que estalo! Assim insultar-me, este belisco!
PAULINA - Esta coruja!
FABIANA, no maior desespero - Sai, sai de o pé de mim, que
minhas mãos já comem!
PAULINA - Não faço caso...
FABIANA - Atrevida, malcriada! Desarranjada! Peste! Mirrada! Estupor!
Linguaruda! Insolente! Desavergonhada!
PAULINA, ao mesmo tempo - Velha, tartaruga, coruja, arca de Noé!
Antigualha! Múmia! Centopéia! Pergaminho! Velhusca,
velha velha! (Fabiana e Paulina acabam gritando ao mesmo tempo,
chegando-se uma para a outra; finalmente agarram-se. Nisto acode
Sabino, em mangas de camisa, e com o hábito na mão.)
CENA X
As ditas, Sabino, Olaia e Eduardo. Sabino entra, Eduardo e Olaia
o seguem.
SABINO, vendo-as
agarradas - Que diabo é isto? (Puxa pela mulher.)
OLAIA, ao mesmo tempo - Minha mãe! (Puxando-a.)
FABIANA, ao mesmo tempo - Deixa-me! Desavergonhada!
PAULINA, ao mesmo tempo - Larga-me! Velha! Velha! (Sabino, não
podendo tirar a mulher, lança-lhe o hábito pela cabeça
e a vai puxando à força até a porta do quarto;
e depois de a empurrar para dentro, fecha a porta a chave. Fabiana
quer seguir Paulina.)
OLAIA, retendo a mãe - Minha mãe! Minha mãe!
EDUARDO, puxando Olaia pelo braço - Deixa-as lá brigar.
Vem dar-me o hábito.
OLAIA - Minha mãe!
EDUARDO - Vem dar-me o hábito! (Arranca Olaia com violência
de junto de Fabiana e a vai levando para dentro, e sai.)
FABIANA, vendo Sabino fechar Paulina e sair - É um inferno!
É um inferno!
SABINO, seguindo-a - Minha mãe! (Fabiana segue para dentro.)
NICOLAU, entrando - O que é isto?
FABIANA, sem atender, seguindo - É um inferno! É um
inferno!
NICOLAU, seguindo-a - Senhora! (Vão-se.)
CENA XI
Sabino e depois Paulina.
SABINO - isto
assim não pode ser! Não me serve; já não
posso com minha mulher!
PAULINA, entrando pela segunda porta, esquerda - Onde está
a velha? (Sabino, vendo a mulher, corre para o quarto e fecha a
porta. Paulina:) Ah, corres? (Segue-o e esbarra na porta que ele
fecha.) Deixa estar, que temos também que conversar... Pensam
que hão de me levar assim? Enganam-se. Por bons modos, tudo...
Mas à força... Ah, será bonito quem o conseguir!
OLAIA, entra chorando - Vou contar a minha mãe!
PAULINA - Psiu! Venha cá; também temos contas que
ajustar. (Olaia vai seguindo para a segunda porta da direita. Paulina:)
Fale quando se lhe fala, não seja malcriada!
OLAIA, na porta, voltando-se - Malcrida será ela... (Vai-se.)
PAULINA - Hem?
CENA XII
Eduardo, de hábito, trazendo a rabeca, e a dita.
EDUARDO - Paulina,
que é de Olaia?
PAULINA - Lá vai para dentro choramingando, contar não
sei o que à mãe.
EDUARDO - Paulina, minha irmã, este modo de viver que levamos
já não me agrada.
PAULINA - Nem a mim.
EDUARDO - Nossa sogra é uma velha de todos os mil diabos.
Leva desde pela manhã até noite a gritar... O que
me admira é que ainda não estourasse pelas goelas...
Nosso sogro é um pacóvio, um banana que não
cuida senão em acompanhar procissões. Não lhe
tirem a tocha da mão, que está satisfeitíssimo...
Teu marido é um ga... ga... ga... ga... que quando fala faz-me
arrelia, sangue pisado. E o diabo que ature, agora que deu-lhe em
falar cantando... Minha mulher tem aqueles olhos que parecem fonte
perene... Por dá cá aquela palha, aí vêm
as lágrimas aos punhos. E logo atrás: Vou contar à
minha mãe... E no meio de toda esta matinada não tenho
tempo de estudar um só instante que seja, tranquilamente,
a minha rabeca. E tu também fazes sofrivelmente teu pé
de cantiga na algazarra desta casa.
PAULINA - E tu, não? Pois olha esta tua infernal rabeca!
EDUARDO - Infernal rabeca! Paulina, não fales mal da minha
rabeca; senão perco-te o amor de irmão. Infernal!
Sabes tu o que dizes? O rei dos instrumentos, infernal!
PAULINA, rindo - A rabeca deve ser rainha...
EDUARDO - Rei e rainha, tudo. Ah, desde a noite em que pela primeira
vez ouvi no Teatro de São Pedro de Alcântara os seus
harmoniosos, fantásticos, salpicados e repinicados sons,
senti-me outro. Conheci que tinha vindo ao mundo para artista rabequista.
Comprei uma rabeca - esta que aqui vês. Disse-me o belchior
que a vendeu, que foi de Paganini. Estudei, estudei... Estudo, estudo...
PAULINA - E nós o pagamos.
EDUARDO - Oh, mas tenho feito progressos estupendíssimos!
Já toco o Trêmolo de Bériot... Estou agora compondo
um tremul'rio e tenho em vista compor um tremendíssimo trêmolo.
PAULINA - O que aí vai!...
EDUARDO - Verás, hei de ser insigne! Viajarei por toda a
Europa, África e Ásia; tocarei diante de todos os
soberanos e figurões da época, e quando de lá
voltar trarei este peito coberto de grã-cruzes, comendas,
hábitos, etc., etc. Oh, por lá é que se recompensa
o verdeiro mérito... Aqui, julgam que fazem tudo pagando
com dinheiro. Dinheiro! Quem faz caso de dinheiro?
PAULINA - Todos. E para ganhá-lo é que os artistas
cá vêm.
EDUARDO - Paulina, o artista quando vem ao Brasil, digo, quando
se digna vir ao Brasil, é por compaixão que tem do
embrutecimento em que vivemos, e não por um cálculo
vil e interesseiro. Se lhe pagam, recebe, e faa muito bem; são
princípios da arte...
PAILINA - E depois das algibeiras cheias, safa-se para as suas terras,
e comendo o dinheiro que ganhara no Brasil, fala mal dele e de seus
filhos.
EDUARDO - Também isso são princípios de arte...
PAULINA - Qual arte?
EDUARDO - A do Padre antonio Vieira... Sabes quem foi esse?
PAULINA - Não.
EDUARDO - Foi um grande mestre da rabeca... Mas aí, que estou
a parolar contigo, deixando a trovoada engrossar. Minha mulher está
lá dentro com a mãe, e os mexericos fervem... Não
tarda muito que as veja em cima de mim. Só tu podes desviar
a tempestade e dar-me tempo para acabar de compor o meu tremulório.
PAULINA - E como?
EDUARDO - Vai lá dentro e vê se persuade a minha mulher
que não se quixe a mãe.
PAULINA - Minha cunhada não me ouve, e...
EDUARDO, empurrando-a - Ouvir-te-á, ouvir-te-á, ouvir-te-á.
Anda, minha irmãzinha, faz-me este favor.
PAULINA - Vou fazer um sacrifício, e não...
EDUARDO, o mesmo - E eu te agradecerei. Vai, vai...
CENA XIII
EDUARDO, só
- Muito bem! Agora que o meu parlamentário vai assinar o
tratado de paz, assentemo-nos e estudemos um pouco. (Assenta-se.)
O homem de verdadeiro talento não deve ser imitador; a imitação
mata a originalidade e nessa é que está a transcendência
e especialidade do indivíduo. Bériot, Paganini, Bassini
e Charlatinini muito inventaram, foram homens especiais e únicos
na sua individualidade. Eu também quis inventar, quis ser
único, quis ser apontado a dedo... Uns tocam com o arco...
(N.B.: Deve fazer os movimentos, segundo os vai mencionando.) Isto
veio dos primeiros inventores; outros tocam com as costas do arco...
ou com uma varinha... Este imita o canto dos passarinhos... zurra
como burro... e repinica cordas... Aquele toca abaixo do cavalete,
toca em cima no braço... e saca-lhe sons tão tristes
e lamentosos capazes de fazer chorar um bacalhau... Estoutro arrebenta
três cordas e toca só com uma, e creio mesmo que será
capas de arrebentar as quatro e tocar em seco... Inimitável
instrumentinho, por quantas modificações e glórias
não tens passado? Tudo se tem feito de ti, tudo. Tudo? (Levantando-se
estusiasmado:) Tudo não; a arte não tem limites para
o homem de talento criador... Ou eu havia de inventar um meio novo,
novíssimo de tocar rabeca, ou havia de morrer... Que dias
passei sem comer e beber; que noites sem dormir! Depois de muito
pensar e cismar, lembrei-me de tocar nas costas da rabeca... Tempo
perdido, não se ouvia nada. Quase enlouqueci. Pus-me de novo
a pensar... Pensei... cismei... parafusei... parafusei... pensei...
pensei... Dias, semanas e meses... Mas enfim, Ah, idéia luminosa
penetrou este cansado cérebro e então reputei-me inventor
original, como o mais pintado! Que digo? Mais do que qualquer deles...
Até agora esses aprendizes de rabeca desde Saens até
Paganini, coitados, têm inventado somente modificações
de modo primitivo: arco para aqui ou para ali... Eu, não,
inventei um modo novo, estupendo e desusado: eles tocam rabeca com
o arco, e eu toco a rabeca no arco - eis a minha descoberta! (Toma
o arco na mão esquerda, pondo-o na posição
da rabeca; pega nesta com a direita e a corre sobre o arco.) É
esta invenção que há de cobrir-me de glória
e nomeada e levar meu nome à imortalidade... Ditoso Eduardo!
Grande homem! Insigne artista!
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