Quem Casa,
Quer Casa
Martins Pena
CENA XIV
Fabiana e os ditos.
FABIANA, falando
para dentro - Verás como o ensino! (Vendo Eduardo:) Oh, muito
estimo encontrá-lo.
EDUARDO - Ai, que não me deixam estudar!
FABIANA - Pois você, sô mandrião, rabequista
das dúzias, tem o atrevimento de insultar e espancar a minha...
EDUARDO - Então acha a senhora que uma arcada nos dedos é
espancar?
FABIANA - E por que deu-lhe o senhor com o arco nos dedos?
EDUARDO - Porque não voltou à música a tempo,
fazendo-me assim perder dois compassos... Dois compassos de Bériot!
FABIANA - Pois se perdeu, anunciasse pelos jornais e prometesse
alvíssaras, que eu havia dá-las, mas havia de ser
a quem te achasse o juízo, cabeça de avelã!
Ora, que estafermo este! Não me dirão para que serve
semelhante figura? Ah, se eu fosse homem havia de tocar com esse
arco, mas havia ser no espinhaço; e essa rabeca havia de
a fazer em estilhas nessa cabeça desmiolada... Não
arregale os olhos que não me mete medo.
EDUARDO, enquanto Fabiana fala, vai-se chegando para junto dela
e lhe diz na cara, com força - Velha! (Volta, quer entrar
no seu quarto.)
FABIANA - Mariola! (Segura-lhe no hábito. Eduardo dá
com o arco nos dedos de Fabiana. Vai-se. Fabiana, largando o hábito:)
Ai, que me quebrou os dedos!
CENA XV
Entra Olaia e após ela Paulina.
OLAIA - Falta
de educação será ela! (Encaminhando-se para
o quarto.)
PAULINA - Cala-me o bico!
OLAIA - Bico terá ela, malcriada!
FABIANA - O que é isto? (Olaia entra no quarto sem dar atenção.)
PAULINA - Deixa estar, minha santinha de pau oco, que te hei de
dar educação, já que tua mãe não
te deu... (Entra no seu quarto.)
FABIANA - Psiu, como é isso?... (Vendo Paulina entrar no
quarto:) Ah! (Chama:) Sabino! Sabino! Sabino!
CENA XVI
Sabino, de hábito, e Fabiana.
SABINO, entrando
- O que temos, minha mãe?
FABIANA - Tu és homem?
SABINO - Sim senhora, e prezo-me disso.
FABIANA - Que farias tu a quem insultasse tua mãe e espancasse
uma irmã?
SABINO - Eu? Dava-lhe quatro canelões.
FABIANA - Só quatro?
SABINO - Darei mais, se for preciso.
FABIANA - Está bem, em tua mulher basta que só dês
quatro.
SABINO - Em minha mulher? Eu não dou em mulheres...
FABIANA - Pois então vai dar em teu cunhado, que espancou
a tua mãe e a tua irmã.
SABINO - Espancou-as?
FABIANA - Vê como tenho os dedos roxos, e ela também.
SABINO - Oh, há muito tempo que tenho vontade de lhe ir ao
pêlo, cá por muitas razões... Chegou o dia...
FABIANA - Assim, meu filhinho da minha alma; dá-lhe uma boa
sova! Ensina-lhe a ser bem-criado.
SABINO - Deixe-o comigo.
FABIANA - Quebra-lhe a rabeca no queixos.
SABINO - Verá.
FABIANA - Anda, chama-o cá para esta sala, lá dentro
o quarto é pequeno e quebraria os trastes, que não
são dele... Rijo, que eu vou para dentro atiçar também
teu pai... (Encaminha-se para o fundo, apressada.)
SABINO, principia a despir o hábito - Eu o ensinarei...
FABIANA, da porta - Não te esqueças de lhe quebrar
a rabeca nos queixos.
CENA XVII
SABINO, só,
continunando a tirar o hábito - Já é tempo;
não posso aturar este meu cunhado! Dá conselhos à
minha mulher; ri-se quando eu falo; maltrata minha mãe...
Pagará tudo por junto... (Arregaçando as mangas da
camisa:) Tratante! (Chega à porta do quarto de Eduardo.)
Senhor meu cunhado?
EDUARDO, dentro - Que é lá?
SABINO - Faça o favor de vir cá fora.
CENA XVIII
Eduardo e Sabino.
EDUARDO, da
porta - O que temos?
SABINO - Temos que conversar.
EDUARDO, gaguejando - Não sabe quanto estimo...
SABINO, muito gago e zangado - O senhor arremeda-me!
EDUARDO, no mesmo - Não sou capaz...
SABINO, tão raivoso, que sufoca-se - Eu... eu... eu... eu...
EDUARDO, falando direito - Não se engasgue, dê cá
o caroço...
SABINO, fica tão sufocado, que para exprimir-se rompe a fala
no tom da polca - Eu já... eu já não posso...
por mais tempo me conter... hoje mesmo... hoje mesmo... leva tudo
o diabo...
EDUARDO, desata a rir - Ah, ah, ah!
SABINO - Pode rir-se, pode rir-se... sô patife, hei de ensiná-lo...
EDUARDO, cantando como Sabino - Há de ensinar-me... mas há
de ser... mas há de ser... mas há de ser a polca...
(Dança.)
SABINO - Maroto! (Lança-se sobre Eduardo e atracam-se, gritando
ambos: Maroto! Patife! Diabo! Gago! Eu te ensinarei! - Etc., etc.)
CENA XIX
Olaia e Paulina.
PAULINA, entrando
- Que bulha é essa? Ah!
OLAIA, entrando - O que é... Ah! (Paulina e Olaia vão
apartar os dois que brigam. Olaia:) Eduardo! Eduardo! Meu irmão!
Sabino! (Etc.)
PAULINA - Sabino! Sabino! Meu irmão! Eduardo! (Eduardo e
Sabino continuam a brigar e a descomporem-se. Paulina, para Olaia:)
Tu é que tens a culpa!
OLAIA, para Paulina - Tu é que tens!
PAULINA, o mesmo - Cala esse bico!
OLAIA, o mesmo - Não seja tola!
PAULINA, o mesmo - Mirrada!
OLAIA, o mesmo - Tísica! (Paulina e Olaia atiram-se uma à
outra e brigam à direita. Eduardo e Sabino, sempre brigando
à esquerda.)
CENA XX
Fabiana e os ditos.
FABIANA - Que
bulha é esta? Ah! (Corre para as moças.) Então,
o que é isto? Meninas! Meninas! (Procura apartá-las.)
CENA XXI
Entra Nicolau apressado, trazendo pela mão dois meninos vestidos
de anjinhos.
NICOLAU - O
que é isto? Ah, a brigarem! (Larga os meninos e vai para
os dois.) Sabino! Eduardo! Então?... Então, rapazes?...
FABIANA, indo a Nicolau - Isto são obras tuas! (Puxando-o
pelo hábito:) Volta-te para cá; tu é que tens
culpa...
NICOLAU - Deixe-me! Sabino!
FABIANA - Volta-te para cá... (Nicolau dá com o pé
atrás, alcançando-a. Fabiana:) Burro!... (Agarra-lhe
nas goelas, o que o obriga a voltar-se e atracarem-se.)
OS DOIS ANJINHOS - Mamãe! Mamãe! (Agarram-se ambos
a Fabiana; um deles empurra o outro, que deve cair; levanta-se e
atraca-se com o que o empurra, e deste modo Fabiana, Nicolau, Sabino,
Eduardo, Olaia, Paulina, 1º e 2º Anjinhos, todos brigam
e fazem grande algazarra.)
CENA XXII
Anselmo, e os ditos, brigando.
ANSELMO - O que é isto? O que é isto? (Todos, vendo
Anselmo, apartam-se.)
FABIANA - Oh, é o senhor? Muito estimo...
PAULINA e EDUARDO - Meu pai!
ANSELMO - Todos a brigarem!... (Todos se dirigem a Anselmo, querendo
tomar a dianteira para falar; cada um puxa para seu lado a reclamarem
serem atendidos; falam todos ao mesmo tempo. Grande confusão,
etc.)
FABIANA, ao mesmo tempo - Muito estimo que viesse, devia ver com
seus próprios olhos... o desaforo de seus filhos... Fazem
desta casa um inferno! Eu já não posso; leve-os, leve-os,
são dois demômios. Já não posso!
NICOLAU, ao mesmo tempo - Sabe o que mais? Carregue seus filhos
daqui para fora; não me deixam servir a Deus... Isto é
uma casa de Orates... Carregue-os, carregue-os, senão fazem-me
perder a alma... Nem mais um instante...
SABINO, falando ao mesmo tempo no tom do miudinho - Se continuo
a viver assim junto, faço uma morte. Ou o senhor, que é
meu sogro, ou meu pai, dêem-me dinheiro... dinheiro ou casa,
ou leva tudo o diabo... o diabo...
PAULINA, ao mesmo tempo - Meu pai, já não posso; tire-me
deste inferno, senão morro! Isto não é viver...
Minha sogra, meu marido, minha cunhada maltratam-me... Meu pai,
leve-me, leve-me daqui...
EDUARDO - Meu pai, não fico aqui nem mais um momento. Não
me deixam estudar a minha rabeca... É uma bulha infernal,
uma rixa desde pela manhã até a noite; nem um instante
eu tenho para tocar...
OLAIA - Senhor, se isto continua, fujo de casa... Abandono meu marido,
tudo, tudo... Antes quero viver só do meu trabalho, do que
assim. Não posso, não posso, não quero... Nem
mais um instante... É um tormento... (Os dois Anjinhos, enquanto
estas falas se recitam, devem chorar muito.)
ANSELMO - Com mil diabos, assim não entendo nada!
FABIANA - Digo-lhe que...
NICOLAU - Perderei a alma...
SABINO - Se eu não...
EDUARDO - Nada estudo...
PAULINA - Meu pai, se...
OLAIA - Nesta casa... (Todos gritam ao mesmo tempo.)
ANSELMO, batendo o pé - Irra, deixem-me falar!
FABIANA - Pois fale...
ANSELMO - Senhora, recebi a vossa carta e sei qual a causa das contendas
e brigas em que todos viveis. Andamos muito mal, a experiência
o tem mostrado, em casarmos nossos filhos e não lhes darmos
casa para morarem. Mas ainda estamos em tempo de remediar o mal...
Meu filho, aqui está a chave de uma casa que para ti aluguei.
(Dá-lhe.)
EDUARDO - Obrigado. Só assim poderei estudar tranquilo e
compor o meu tremendíssimo...
ANSELMO - Filha, dá esta outra chave a teu marido. É
a da tua nova casa...
PAULINA, tomando-a - Mil graças, meu pai. (Dá a chave
a Sabino.)
FABIANA - Agora, sim...
ANSELMO - Estou certo que em bem pouco tempo verei reinar entre
vós todos a maior harmonia e que visitando-vos mutuamente
e...
TODOS, uns para os outros - A minha casa está às vossas
ordens. Quando quiser...
ANSELMO - Muito bem. (Ao público:) E vós, senhores,
que presenciastes todas estas desavenças domésticas,
recordai-vos sempre que...
TODOS - Quem casa, quer casa. (Cai o pano.)
Quem Casa, Quer
Casa, de Martins Pena
Fonte:
PENA, Martins. Quem casa, quer casa, in As Melhores Comédias
de Martins Pena. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1996.
Texto proveniente
de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado
por:
Valéria Mello - Batatais/SP
Este material
pode ser redistribuído livremente, desde que não seja
alterado, e que as informações acima sejam mantidas.
Para maiores informações, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>.
Estamos em busca
de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter
este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um
e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso é
possível.
|