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Bento Teixeira
Prosopopéia

 


LXVIII
À Cidade de Ulisses destroçados

Chegarão da Fortuna e Reino salso,

Os Templos visitando Consagrados,

Em procissão, e cada qual descalço.

Desta maneira ficarão frustrados

Os pensamentos vãos de Lémnio falso,

Que o mau tirar não pode o benefício

Que ao bom tem prometido o Ceo propício.

LXIX
Neste tempo Sebasto Lusitano,

Rei que domina as águas do grão Douro,

Ao Reino passará do Mauritano,

E a lança tingirá em sangue Mouro;

O famoso Albuquerque, mais ufano

Que Iason na conquista do veo d'ouro,

E seu Irmão, Duarte valeroso,

Irão co Rei altivo, Imperioso.

LXX
Nô a Nau, mais que Pístris, e Centauro,

E que Argos venturosa celebrada,

Partirão a ganhar o verde Lauro

À região da secta reprovada.

E depois de chegar ao Reino Mauro,

Os dous irmãos, com lança e com espada,

Farão nos Agarenos mais estrago

Do que em Romanos fez o de Cartago.

LXXI
Mas, ah! ínvida sorte, quão incertos

São teus bens e quão certas as mudanças;

Quão brevemente cortas os enxertos

A ô as mal nascidas esperanças.

Nos mais riscosos trances, nos apertos,

Antre mortais pelouros, antre lanças,

Prometes triunfal palma e victória,

Pera tirar no fim a fama, a glória.

LXXII
Assim sucederá nesta batalha

Ao mal afortunado Rei ufano,

A quem não valerá provada malha,

Nem escudo d'obreiros de Vulcano.

Porque no tempo que ele mais trabalha

Victória conseguir do Mauritano

Num momento se vê cego e confuso,

E com seu esquadrão roto e difuso".

LXXIII
Anteparou aqui Proteu, mudando

As cores e figura monstruosa,

No gesto e movimento seu mostrando

Ser o que há de dizer cousa espantosa.

E com nova eficácia começando

A soltar a voz alta e vigorosa,

Estas palavras tais tira do peito,

Que é cofre de profético conceito:

LXXIV
"Antre armas desiguais, antre tambores

De som confuso, rouco e redobrado,

Antre cavalos bravos corredores,

Antre a fúria do pó, que é salitrado;

Antre sanha, furor, antre clamores,

Antre tumulto cego e desmandado,

Antre nuvens de setas Mauritanas,

Andará o Rei das gentes Lusitanas.

LXXV
No animal de Neptuno, já cansado

Do prolixo combate, e mal ferido,

Será visto por Jorge sublimado,

Andando quási fora de sentido.

O que vendo o grande Albuquerque ousado,

De tão trágico passo condoído,

Ao peito fogo dando, aos olhos água,

Tais palavras dirá, tintas em magoa":

LXXVI
- Tão infelice Rei, como esforçado,

Com lágrimas de tantos tão pedido,

Com lágrimas de tantos alcançado,

Com lágrimas do Reino, em fim perdido.

Vejo-vos co cavalo já cansado,

A vós, nunca cansado, mas ferido,

Salvai em este meu a vossa vida,

Que a minha pouco vai em ser perdida.

LXXVII
Em vós do Luso Reino a confiança

Estriba, como em base só, fortíssimo;

Com vós ficardes vivo, segurança

Lhe resta de ser sempre florentíssimo.

Antre duros farpões e Maura lança,

Deixai este vassalo fidelíssimo,

Que ele fará por vós mais que Zopiro

Por Dario, até dar final suspiro.

LXXVIII
"Assim dirá o Herói, e com destreza

Deixará o genete velocíssimo,

E a seu Rei o dará: Ó Portuguesa

Lealdade do tempo florentíssimo!

O Rei Promete, se de tal empresa

Sai vivo, o fará senhor grandíssimo,

Mas 'te nisto lhe será avara a sorte,

Pois tudo cubrirá com sombra a morte.

LXXIX
Com lágrimas d'amor e de brandura,

De seu Senhor querido ali se espede,

E que a vida importante e mal segura

Assegurasse bem, muito lhe pede,

Torna à batalha sanguinosa e dura,

O esquadrão rompe dos de Mafamede,

Lastima, fere, corta, fende, mata,

Decepa, apouca, assola, desbarata.

LXXX
Com força não domada e alto brio,

Em sangue Mouro todo já banhado,

Do seu vendo correr um caudal Rio,

De giolhos se pôs, debilitado.

Ali dando a mortais golpes desvio,

De feridas medonhas trespassado,

Será captivo, e da proterva gente

Maniatado em fim mui cruelmente.

LXXXI
Mas adonde me leva o pensamento?

Bem parece que sou caduco e velho,

Pois sepulto no Mar do esquecimento

A Duarte sem par, dicto Coelho.

Aqui mister havia um novo alento

Do Poder Divinal e alto Conselho,

Porque não hai quem feitos tais presuma

A termo reduzir e breve suma.

LXXXII
Mas se o Ceo transparente e alta Cúria

Me for tão favorável, como espero,

Com voz sonora, com crescida fúria,

Hei de cantar Duarte e Jorge fero.

Quero livrar do tempo e sua injúria

Estes claros irmãos, que tanto quero,

Mas, tornando outra vez a triste História,

Um caso direi digno de memória.

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