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Bento Teixeira
Prosopopéia

 


XXXV
Ó sorte tão cruel, como mudável,

Por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

Reprovas e abominas o perfeito,

O menos digno fazes agradável,

O agradável mais, menos aceito.

Ó frágil, inconstante, quebradiça,

Roubadora dos bens e da justiça!

XXXVI
Não tens poder algum, se houver prudência;

Não tens Império algum, nem Majestade;

Mas a mortal cigueira e a demência

Co título te honrou de Deïdade.

O sábio tem domínio na influência

Celeste e na potência da vontade,

E se o fim não alcança desejado,

É por não ser o meio acomodado.

XXXVII
Este meio faltará ao velho invicto,

Mas não cometerá nenhum defeito,

Que o seu calificado e alto esprito

Lhe fará a quanto deve ter respeito.

Aqui Balisário, e Pacheco aflicto,

Cerra com ele o número perfeito.

Sobre os três, ô a dúvida se excita:

Qual foi mais, se o esforço, se a desdita?

XXXVIII
Foi o filho de Anquises, foi Acates,

À região do Caos litigioso,

Com ramo d'ouro fino e de quilates,

Chegando ao campo Elíseo deleitoso.

Quão mal, por falta deste, a muitos trates

(Ó sorte!) neste tempo trabalhoso,

Bem claro no-lo mostra a experiência

Em poder mais que a justiça a aderência.

XXXIX
Mas deixando (dizia) ao tempo avaro

Cousas que Deos eterno e ele cura,

E tornando ao Preságio novo e raro,

Que na parte mental se me figura,

De Jorge d'Albuquerque, forte e claro,

A despeito direi da enveja pura,

Pera o qual monta pouco a culta Musa,

Que Meónio em louvar Aquiles usa.

XL
Bem sei que, se seus feitos não sublimo,

É roubo que 1he faço mui notável;

Se o faço como devo, sei que imprimo

Escândalo no vulgo variável.

Mas o dente de Zoilo, nem Minimo,

Estimo muito pouco, que agradável

É impossível ser nenhum que canta

Proezas de valor e glória tanta.

XLI
Uô a cousa me faz dificuldade

E o esprito profético me cansa,

A qual é ter no vulgo autoridade

Só aquilo a que sua força alcança.

Mas, se é um caso raro, ou novidade

Das que, de tempo em tempo, o tempo lança,

Tal crédito lhe dão, que me lastima

Ver a verdade o pouco que se estima."

XLII
E prosseguindo (diz: "que Sol luzente

Vem d'ouro as brancas nuvens perfilando,

Que está com braço indômito e valente

A fama dos antigos eclipsando;

Em quem o esforço todo juntamente

Se está como em seu centro tresladando?

É Jorge d'Albuquerque mais invicto

Que o que desceo ao Reino de Cocito.

XLIII
Depois de ter o Bárbaro difuso

E roto, as portas fechar de Jano,

Por vir ao Reino do valente Luso

E tentar a fortuna do Oceano."

Um pouco aqui Proteu, como confuso,

Estava receando o grave dano,

Que havia de acrescer ao claro Herói

No Reino aonde vive Cimotoe.

XLIV
"Sei mui certo do fado (prosseguia)

Que trará o Lusitano por designo

Escurecer o esforço e valentia

Do braço Assírio, Grego e do Latino.

Mas este pressuposto e fantasia

Lhe tirará de enveja o seu destino,

Que conjurando com os Elementos

Abalará do Mar os fundamentos.

XLV
Porque Lémnio cruel, de quem descende

A Bárbara progênie e insolência,

Vendo que o Albuquerque tanto ofende

Gente que dele tem a descendência,

Com mil meos ilícitos pretende

Fazer irreparável resistência

Ao claro Jorge, baroil e forte,

Em quem não dominava a vária sorte.

XLVI
Na parte mais secreta da memória,

Terá mui escripta. impressa e estampada

Aquela triste e maranhada História,

Com Marte, sobre Vênus celebrada.

Verá que seu primor e clara glória

Há de ficar em Lete sepultada,

Se o braço Português victória alcança

Da nação que tem nele confiança.

XLVII
E com rosto cruel e furibundo,

Dos encovados olhos cintilando,

Férvido, impaciente, pelo mundo

Andará estas palavras derramando":

- Pôde Nictélio só no Mar profundo

Sorver as Naus Meónias navegando,

Não sendo mor Senhor, nem mais possante

Nem filho mais mimoso do Tonante?

XLVIII
E pôde Juno andar tantos enganos,

Sem razão, contra Tróia maquinando,

E fazer que o Rei justo dos Troianos

Andasse tanto tempo o Mar sulcando?

E que vindo no cabo de dez anos,

De Cila e de Caríbdis escapando,

Chegasse à desejada e nova terra,

E co Latino Rei tivesse guerra?

XLIX
E pôde Palas subverter no Ponto

O filho de Oileu per causa leve?

Tentar outros casos que não conto

Por me não dar lugar o tempo breve?

E que eu por mil razões, que não aponto,

A quem do fado a lei render se deve,

Do que tenho tentado já desista,

E a gente Lusitana me resista?

L
Eu por ventura sou Deus indigete,

Nascido da progênie dos humanos,

Ou não entro no número dos sete,

Celestes, imortais e soberanos?

A quarta Esfera a mim não se comete?

Não tenho em meu poder os Centimanos?

Jove não tem o Ceo? O Mar, Tridente?

Plutão, o Reino da danada gente?

LI
Em preço, ser, valor, ou em nobreza,

Qual dos supremos é mais qu'eu altivo?

Se Neptuno do Mar tem a braveza,

Eu tenho a região do fogo activo.

Se Dite aflige as almas com crueza,

E vós, Ciclopes três, com fogo vivo,

Se os raios vibra Jove, irado e fero,

Eu na forja do monte lhos tempero.

LII
E com ser de tão alta Majestade,

Não me sabem guardar nenhum respeito?

E um povo tão pequeno em quantidade

Tantas batalhas vence a meu despeito?

E que seja agressor de tal maldade

O adúltero lascivo do meu leito?

Não sabe que meu ser ao seu precede,

E que prendê-lo posso noutra rede?

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