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Bento Teixeira
Prosopopéia

 


DESCRIPÇÃO DO RECIFE DE PARANAMBUCO


XVII
Pera a parte do Sul, onde a pequena

Ursa se vê de guardas rodeada,

Onde o Ceo luminoso mais serena

Tem sua influïção, e temperada;

Junto da Nova Lusitânia ordena

A natureza, mãe bem atentada,

Um porto tão quieto e tão seguro,

Que pera as curvas Naus serve de muro.

XVIII
É este porto tal, por estar posta

Uma cinta de pedra, inculta e viva,

Ao longo da soberba e larga costa,

Onde quebra Neptuno a fúria esquiva.

Antre a praia e pedra descomposta,

O estanhado elemento se diriva

Com tanta mansidão, que ô a fateixa

Basta ter à fatal Argos aneixa.

XIX
Em o meio desta obra alpestre e dura,

ô a boca rompeo o Mar inchado,

Que, na língua dos bárbaros escura,

Paranambuco de todos ‚ chamado.

de Para'na, que é Mar; Puca, rotura,

Feita com fúria desse Mar salgado,

Que, sem no dirivar cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.

XX
Pera entrada da barra, à parte esquerda,

Está ua lajem grande e espaçosa,

Que de Piratas fora total perda,

Se ô a torre tivera sumptuosa.

Mas quem por seus serviços bons não herda

Desgosta de fazer cousa lustrosa,

Que a condição do Rei que não é franco

O vassalo faz ser nas obras manco.

XXI
Sendo os Deoses à lajem já chegados,

Estando o vento em calma, o Mar quieto,

Depois de estarem todos sossegados,

Per mandado do Rei e per decreto,

Proteu, no Ceo cos olhos enlevados,

Como que invistigava alto secreto,

Com voz bem entoada e bom meneio,

Ao profundo silêncio larga o freio.

XXII
"Pelos ares retumbe o grave acento

De minha rouca voz, confusa e lenta,

Qual torvão espantoso e violento

De repentina e hórrida tormenta;

Ao Rio de Aqueronte turbulento,

Que em sulfúreas burbulhas arrebenta,

Passe com tal vigor, que imprima espanto

Em Minos riguroso e Radamanto.

XXIII
De lanças e d'escudos encantados

Não tratarei em numerosa Rima,

Mais de Barões Ilustres afamados,

Mais que quantos a Musa não sublima.

Seus heróicos feitos extremados

Afinarão a dissoante prima,

Que não é muito tão gentil subjeito

Suplir com seus quilates meu defeito.

XXIV
Não quero no meu Canto algua ajuda

Das nove moradoras de Parnaso,

Nem matéria tão alta quer que aluda

Nada ao essencial deste meu caso.

Porque, dado que a forma se me muda,

Em falar a verdade serei raso,

Que assim convém fazê-lo quem escreve,

Se à justiça quer dar o que se deve.

XXV
A fama dos antigos coa moderna

Fica perdendo o preço sublimado:

A façanha cruel, que a turva Lerna

Espanta com estrondo d'arco armado:

O cão de três gargantas, que na eterna

Confusão infernal está fechado,

Não louve o braço de Hércules Tebano.

Pois procede Albuquerque soberano.

XXVI
Vejo (diz o bom velho) que, na mente,

O tempo de Saturno renovado,

E a opulenta Olinda florescente

Chegar ao cume do supremo estado.

Ser de fera e belicosa gente

O seu largo destricto povoado;

Por nome ter Nova Lusitânia,

Das Leis isenta da fatal insânia.

XXVII
As rédeas ter desta Lusitânia

O grão Duarte, valeroso e claro,

Coelho por cognome, que a insânia

Reprimir dos seus, com saber raro.

Outro Troiano Pio, que em Dardânia

Os Penates livrou e o padre caro;

Um Públio Cipião, na continência;

Outro Nestor e Fábio, na prudência.

XXVIII
O braço invicto vejo com que amansa

A dura cerviz bárbara insolente,

Instruindo na Fé, dando esperança

Do bem que sempre dura e ‚ presente;

Eu vejo co rigor da tesa lança

Acossar o Francês, impaciente

De lhe ver alcançar ua victória

Tão capaz e tão digna de memória.

XXIX
Ter o varão Ilustre da consorte,

Dona Beatriz, preclara e excelente,

Dous filhos, de valor e d'alta sorte.

Cada qual a seu Tronco respondente.

Estes se isentarão da cruel sorte,

Eclipsando o nome ... Romana gente,

De modo que esquecida a fama velha

Façam arcar ao mundo a sobrancelha.

XXX
O Princípio de sua Primavera

Gastarão seu destricto dilatando,

Os bárbaros cruéis e gente Austera,

Com meio singular, domesticando.

E primeiro que a espada lisa e fera

Arranquem, com mil meios d'amor brando,

Pretenderão tirá-la de seu erro,

E senão porão tudo a fogo e ferro.

XXXI
Os braços vigorosos e constantes

Fenderão peitos, abrirão costados,

Deixando de mil membros palpitantes

Caminhos, arraiais, campos juncados;

Cercas soberbas, fortes repugnantes

Serão dos novos Martes arrasados,

Sem ficar deles todos mais memória

Que a qu'eu fazendo vou em esta História.

XXXII
Quais dous soberbos Rios espumosos,

Que, de montes altíssimos manando,

Em Tétis de meter-se desejosos,

Vem com fúria crescida murmurando,

E nas partes que passam furiosos

Vem árvores e troncos arrancando,

Tal Jorge d'Albuquerque e o grão Duarte

Farão destruição em toda a parte.

XXXIII
Aquele branco Cisne venerando,

Que nova fama quer o Ceo que merque,

E me está com seus feitos provocando,

Que dele cante e sobre ele alterque;

Aquele que na Idea estou pintando,

Hierônimo sublime d'Albuquerque

Se diz, cuja invenção, cujo artifício

Aos bárbaros dar total exício.

XXXIV
Deste, como de Tronco florescente,

Nascerão muitos ramos, que esperança

Prometerão a todos geralmente

De nos berços do Sol pregar a lança.

Mas, quando virem que do Rei potente

O pai por seus serviços não alcança

O galardão devido e glória digna,

Ficarão nos alpendres da Piscina.

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