Error processing SSI file
 

 

Poemas
Fagundes Varela

 


QUEIXAS DO POETA

Ao cedro majestoso que o firmamento espana
Ligou a mão de Deus a úmida liana,
Às amplas soledades arroios amorosos,
Às selvas passarinhos de cantos sonorosos,
Neblinas às montanhas, aos mares virações,
Ao céu mundos e mundos de fúlgidos clarões,
Mas presa de uma dor tantálica e secreta
Sozinho fez brotar o gênio do poeta!...

A aurora tem cantigas e a mocidade rosas,
O sono do opulento visões deliciosas,
Nas ondas cristalinas espelham-se as estrelas,
E as noites desta terra têm seduções tão belas,
Que as plantas, os rochedos e os homens eletrizam,
E os mais dourados sonhos na vida realizam.
Mas triste, do martírio ferido pela seta,
Soluça no silêncio o mísero poeta!...

As auras do verão, nas regiões formosas
Do mundo americano, as virações cheirosas
Parecem confundidas rolar por sobre as flores
Que exalam da corola balsâmicos odores;
As leves borboletas em bandos esvoaçam,
Os reptis na sombra às árvores se enlaçam;
Mas só, sem o consolo de uma alma predileta,
Descora no desterro a fronte do poeta!...

O viajor que à tarde sobre os outeiros passa
Divisa junto às selvas um fio de fumaça
Erguer-se preguiçoso da choça hospitaleira
Pousada alegremente de um ribeirão à beira;
Ali junto dos seus descansa o lavrador,
Dos homens afastado e longe do rumor;
Mas no recinto escuro que o desalento infecta
Sucumbe lentamente o gênio do poeta!...

No rio caudaloso que a solidão retalha,
Da funda correnteza na límpida toalha,
Deslizam mansamente as garças alvejantes;
Nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes
Embalam-se avezinhas de penas multicores
Pejando a mata virgem de cânticos de amores;
Mas presa de uma dor tantálica e secreta
De dia em dia murcha o louro do poeta!...

RESIGNAÇÃO
Sozinho no descampado,
Sozinho sem companheiro,
Sou como o cedro altaneiro
Pela tormenta açoitado.

Rugi, tufão desabrido!
Passai, temporais de pó!
Deixai o cedro esquecido,
Deixai o cedro estar só!

Em meu orgulho embuçado,
Do tempo zombo da lei...
Oh! venha o raio abrasado,
- Sem me vergar... tombarei!

Gigante da soledade,
Tenho na vida um consolo:
Se enterro as plantas no solo,
Chego a fronte à imensidade!

Nada a meu fado se prende,
Nada enxergo junto a mim;
Só o deserto se estende
A meus pés, fiel mastim.

À dor o orgulho sagrado
Deus ligou num grande nó...
Quero viver isolado,
Quero viver sempre só!

E quando o raio incendido
Roçar-me, então cairei
Em meu orgulho envolvido,
Como em um manto de rei.

PROTESTOS
Esquecer-me de ti? Pobre insensata!
Posso acaso o fazer quando em minh'alma
A cada instante a tua se retrata?
Quando és de minha vida o louro e a palma,
O faro amigo que anuncia o porto,
A luz bendita que a tormenta acalma?

Quando na angústia fúnebre do horto
És a sócia fiel que azinha instila
Na taça da amargura algum conforto?

Esquecer-me de ti, pomba tranqüila,
Em cujo peito, erário de esperança,
Entre promessa meu porvir se asila!

Esquecer-me de ti, frágil criança,
Ave medrosa que esvoaça e chora
Temendo o raio em dias de bonança!

Bane o pesar que a fronte te descora,
Seca as inúteis lágrimas no rosto...
Que, pois, receias se inda brilha a aurora?

Ermo arvoredo aos temporais exposto,
Tudo pode aluir, tudo apagar
Em minha vida a sombra do desgosto;

Ah! mas nunca teu nome há de riscar
De um coração que te idolatra, enquanto
Uma gota de sangue lhe restar!

É teu, e sempre teu, meu triste canto,
De ti rebenta a inspiração que tenho,
Sem ti me afogo num contínuo pranto;

Teu riso alenta meu cansado engenho,
E ao meigo auxílio de teus doces braços
Carrego aos ombros o funesto lenho.
De mais a mais se apertam nossos laços,
A ausência... oh! Que me importa! estás presente
Em toda a parte onde dirijo os passos.

Na brisa da manhã que molemente
Junca de flores do deserto as trilhas
Ouço-te a fala trêmula e plangente.

Do céu carmíneo nas douradas ilhas
Vejo-te, ao pôr-do-sol, a grata imagem,
Cercada de esplendor e maravilhas.

Da luz, do mar, da névoa e da folhagem
Uma outra tu mesma eu hei formado,
Outra que és tu, não pálida miragem.

E coloquei-te num altar sagrado
Do templo imenso que elevou talvez
Meu gênio pelos anjos inspirado!

Não posso te esquecer, tu bem o vês!
Abre-me d'alma o livro tão vendado,
Vê se te adoro ou não: por que descrês?

DESENGANO
Oh! não me fales da glória,
Não me fales da esperança!
Eu bem sei que são mentiras
Que se dissipam, criança!
Assim como a luz profliga
As sombras da imensidade,
O tempo desfaz em cinzas
Os sonhos da mocidade.
Tudo descora e se apaga:
É esta do mundo a lei,
Desde a choça do mendigo
Até aos paços do rei!
A poesia é um sopro,
A ciência uma ilusão,
Ambas tateiam nas trevas
A luz procurando em vão.
Caminham doidas, sem rumo,
Na senda que à dor conduz,
E vão cair soluçando
Aos pés de sangrenta cruz.
Oh! Não me fales da glória,
Não me fales da esperança!
Eu bem sei que são mentiras
Que se dissipam, criança!
Que me importa um nome impresso
No templo da humanidade,
E as coroas de poeta,
E o selo da eternidade,
Se para escrever os cantos
Que a multidão admira
É mister quebrar as penas
De minh'alma que suspira?
Se nos desertos da vida,
Romeiro da maldição,
Tenho de andar sem descanso
Como o Hebreu da tradição?...
Buscar das selvas o abrigo,
A sombra que a paz aninha,
E ouvir a selva bradar-me:
Ergue-te, doido, e caminha!
Caminha! dizer-me o mante!
Caminha! dizer-me o prado.
Oh! Mais não posso! - Caminha!
Responder-me o descampado?...
Ah! não me fales da glória,
Não me fales da esperança!
Eu bem sei que são mentiras
Que se dissipam, criança!

EM TODA A PARTE
Quando alta noite as florestas,
Ao soprar das ventanias,
Tenebrosas agonias
Traem nas vozes funestas,
Quando as torrentes bravejam,
Quando os coriscos rastejam
Na espuma dos escarcéus...
Então a passos incertos
Procuro os amplos desertos
Para escutar-te, meu Deus!
Quando na face dos mares
Espelha-se o rei dos astros,
Cobrindo de ardentes rastros
Os cerúleos alcaçares;
E a luz domina os espaços
Partindo da névoa os laços,
Rasgando da sombra os véus...

Então resoluto, ufano,
Corro às praias do oceano
Para mirar-te, meu Deus!
Quando às bafagens do estio
Tremem os pomos dourados,
Sobre os galhos pendurados
Do pomar fresco e sombrio;
Quando à flor d'água os peixinhos
Saltitam, e os passarinhos
Se cruzam no azul dos céus,
Então procuro as savanas,
Me atiro entre as verdes canas
Para sentir-te, meu Deus!
Quando a tristeza desdobra
Seu manto escuro em minh'alma,
E vejo que nem a calma
Desfruto que aos outros sobra,
E do passado no templo
Letra por letra contemplo
A nênia dos sonhos meus...
Então me afundo na essência
De minha própria existência
Para entender-te, meu Deus!

DE VOZES DA AMÉRICA
1 | 2 | 3

DE NOTURNAS
1 | 2

DE CANTOS RELIGIOSOS

DE AVULSAS

DE CANTOS E FANTASIAS
1 | 2 | 3 | 4 | 5

DE CANTOS MERIDIONAIS
1 | 2 | 3

DE CANTOS DO ERMO E DA CIDADE
1 | 2 | 3 | 4