Poemas
Fagundes Varela
DE CANTOS E FANTASIAS
JUVENÍLIA
I
Lembras-te, Iná, dessas noites
Cheias de doce harmonia,
Quando a floresta gemia
Do vento aos brandos açoites?
Quando as estrelas
sorriam,
Quando as campinas tremiam
Nas dobras de úmido véu?
E nossas almas unidas
Estreitavam-se, sentidas
Ao langor daquele céu?
Lembras-te,
Iná? Belo e mago,
Da névoa por entre o manto,
Erguia-se ao longe o canto
Dos pescadores do lago.
Os regatos soluçavam,
Os pinheiros murmuravam
No viso das cordilheiras,
E a brisa lenta e tardia
O chão revolto cobria
De flores das trepadeiras.
Lembras-te,
Iná? Eras bela,
Ainda no albor da vida,
Tinhas a fronte cingida
De uma inocente capela.
Teu seio era
como a lira
Que chora, canta e suspira
Ao roçar de leve aragem;
Teus sonhos eram suaves,
Como o gorjeio das aves
Por entre a escura folhagem.
Do mundo os
negros horrores
Nem pressentias sequer;
Teus almos dias, mulher,
Passavam num chão de flores.
Oh! primavera
sem termos!
Brancos luares dos ermos!
Auroras de amor sem fim!
Fugistes, deixando apenas
Por terra esparsas as penas
Das asas de um serafim!
Ah! Iná!
Quanta esperança
Eu não vi brilhar nos céus
Ao luzir dos olhos teus,
A teu sorrir de criança!
Quanto te amei!
Que futuros!
Que sonhos gratos e puros!
Que crenças na eternidade!
Quando a furto me falavas,
E meu ser embriagavas
Na febre da mocidade!
Como nas noites
de estio,
Ao sopro do vento brando,
Rola o selvagem cantando
Na correnteza do rio;
Assim passava
eu no mundo,
Nesse descuido profundo
Que etérea dita produz!
Tu eras, Iná, minh'alma,
De meu estro a glória e a palma,
De meus caminhos a luz!
Que é
feito agora de tudo?
De tanta ilusão querida?
A selva não tem mais vida,
O lar é deserto e mudo!
Onde foste,
oh! pomba errante?
Bela estrela cintilante
Que apontavas o porvir?
Dormes acaso no fundo
Do abismo tredo e profundo,
Minha pérola de Ofir?
Ah! Iná!
por toda parte
Que teu espírito esteja,
Minh'alma que te deseja
Não cessará de buscar-te!
Irei às
nuvens serenas,
Vestindo as ligeiras penas
Do mais ligeiro condor;
Irei ao pego espumante,
Como da Ásia o possante,
Soberto mergulhador!
Irei à
pátria das fadas
E dos silfos errabundos,
Irei aos antros profundos
Das montanhas encantadas;
Se depois de
imensas dores,
No seio ardente de amores
Eu não puder apertar-te,
Quebrando a dura barreira
Deste mundo de poeira,
Talvez, Iná, hei de achar-te!
II
Era à
tardinha. Cismando,
Por uma senda arenosa
Eu caminhava. Tão brando,
Como a voz melodiosa
Da menina enamorada,
Sobre a grama aveludada,
Corria o vento a chorar.
Gemia a pomba... no ar
Passava grato e sentido
O aroma das maravilhas
Que cresciam junto às trilhas
Do deserto umedecido.
Mais bela que
ao meio-dia,
Mais carinhosa batia
A luz nos canaviais;
E o manso mover das matas,
O barulho das cascatas
Tinham notas divinais.
Tudo era tão calmo e lindo,
Tão fresco e plácido ali,
Que minh'alma se expandindo
Voou, foi junto de ti,
Nas asas do
pensamento,
Gozar do contentamento
Que noutro tempo fruí.
Oh! Como através dos mantos
Das saudades e dos prantos
Tão meigamente sorrias!
Tinhas o olhar tão profundo
Que de minh'alma no fundo
Fizeste brotar um mundo
De sagradas alegrias.
Uma grinalda
de rosas
Brancas, virgens, odorosas,
Te cingia a fronte triste...
Cismavas queda, silente,
Mas, ao chegar-me, tremente
Te ergueste, e alegre, contente,
Sobre meus braços caíste.
Pouco a pouco, entre os palmares
Da longínqua serrania,
Sumia-se a luz do dia
Que aclarava esses lugares;
As campânulas pendidas
Sobre as fontes adormidas
De sereno gotejavam,
E no fundo azul dos céus,
Dos vapores entre os véus,
As estrelas despontavam.
Éramos sós, mais ninguém
Nossas palavras ouvia;
Como tremias, meu bem!
Como teu peito batia!...
Pelas janelas abertas
Entravam moles, incertas,
Daquelas plagas desertas
As virações suspirosas,
E cheias de mil desvelos,
Cheias de amor e de anelos,
Lançavam por teus cabelos
O eflúvio das tuberosas!...
Ai! tu não sabes que dores,
Que tremendos dissabores
Longe de ti eu padeço!
Em teu retiro
sozinha,
Pobre criança mesquinha,
Cuidas talvez que te esqueço!
A turba dos insensatos
Entre fúteis aparatos
Canta e folga pelas ruas,
Mas triste, sem um amigo,
Em meu solitário abrigo
Pranteio saudades tuas!
Nem um minuto
se passa,
Nem um inseto esvoaça,
Nem uma brisa perpassa
Sem uma lembrança aqui;
O céu da aurora risonho,
A luz de um astro tristonho,
Os sonhos que à noite sonho,
Tudo me fala de ti.
III
Tu és
a aragem perdida
Na espessura do pomar,
Eu sou a folha caída
Que levas sobre as asas ao passar.
Ah! voa, voa, a sina cumprirei:
Te seguirei.
Tu és
a lenda brilhante
Junto do berço cantada;
Eu sou o pávido infante
Que o sono esquece ouvindo-te a toada.
Ah! canta, canta, a sina cumprirei:
Te escutarei.
Tu és
a onda de prata
Do regato transparente;
Eu a flor que se retrata
No cristal encantado da corrente.
Ah! chora, chora, o fado cumprirei:
Te beijarei.
Tu és
o laço enganoso
Entre rosas estendido;
Eu o pássaro descuidoso
Por funesto prestígio seduzido.
Ah! não temas, a sina cumprirei:
Me entregarei.
Tu és
o barquinho errante
No espelho azul da lagoa;
Eu sou a espuma alvejante
Que agita nágua a cortadora proa.
Ah! voga, voga, o fado cumprirei:
Me desfarei.
Tu és a luz da alvorada
Que rebenta na amplidão;
Eu a gota pendurada
Na trepadeira curva do sertão.
Ah! brilha, brilha, a sorte cumprirei:
Cintilarei.
Tu és
o íris eterno
Sobre os desertos pendido;
Eu o ribeiro do inverno
Entre broncos fraguedos escondido.
Ah! fulge, fulge, a sorte cumprirei:
Deslizarei.
Tu és
a esplêndida imagem
De um romântico sonhar;
Eu cisne de alva plumagem
Que falece de amor a te mirar.
Ah! surge, surge, o fado cumprirei:
Desmaiarei.
Tu és
a luz crepitante
Que em noite trevosa ondeia;
Eu mariposa ofegante
Que em torno à chama trêmula volteia.
Ah! basta, basta, a sina cumprirei:
Me abrasarei.
IV
Teus olhos
são negros, negros
Como a noite nas florestas...
Infeliz do viajante
Se de sombras tão funestas
Tanta luz não rebentasse!
A aurora desponta e nasce
Da noite escura e tardia:
Também da noite sombria
De teus olhos amorosos
Partem raios mais formosos
Que os raios da luz do dia.
Teu cabelo mais
cheiroso
Que o perfume dos vergéis,
Na brancura imaculada
Da cútis acetinada
Rola em profusos anéis:
Eu quisera ter mil almas,
Todas ardentes de anelos,
Para prendê-la, meu anjo,
À luz de teus olhos belos,
Nos grilhões de teus olhares,
Nos anéis de teus cabelos!
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