´ POEMAS ESCOLHIDOS
Cláudio Manoel da Costa
ÉCLOGAS
ARÚNCIO
ÉCLOGA V
Frondoso e Alcino
Fron. Em vão te estás cansando o dia inteiro,
Alcino, em perguntar, que significa
Este, que vês cortar, triste letreiro:
Ele não é debalde: aqui se explica
Tudo, quanto há de grande, novo, e raro,
Na pobre aldeia, e na cidade rica.
Nada pode escapar
do golpe avaro...
(Diz cifra breve): agora entende;
Que deste dito o assunto eu não declaro.
Alc. Se o meu juízo o caso compreende,
Essa letra, que entalhas, e que admiro,
Com a morte de Arúncio fala, ou prende.
Fron. Ah! Que arrancas
um mísero suspiro
Do centro de minha alma; o nome amado
Me faz deixar a vida, que respiro.
Alc. Eu bem via, que
estava o teu cuidado,
Frondoso meu, lembrando a triste morte
Desse caro pastor, tão estimado.
Fron. E quando esperas
tu, que o fatal corte,
Que de mim separou tão doce amigo,
Possa romper de amor o laço forte!
Primeiro se verá
nascer o trigo
No céu; dará primeiro a terra estrelas,
Que tenha esta lembrança algum perigo.
Alc. Triste, e funesto
caso! As ninfas belas
Do pátrio Ribeirão tanto choraram,
Que inda alívio não há, nem gosto entre elas.
Os gados largos dias
não pastaram;
E mugindo à maneira de sentidos,
A pele sobre os ossos encostaram.
Os mochos pelas faias
estendidos
Enchendo a terra, e céu de mil agouros,
Espalharam tristíssimos grasnidos.
Os campos, que té
ali se viam louros
Com o matiz vistoso das searas,
Perderam de repente seus tesouros.
Fron. Esses sinais,
Alcino, se reparas,
Dizem cousa maior, que sentimentos
Consagrados da morte sobre as aras.
Quando há mostras
no céu, quando há portentos
Na terra, algum segredo há, não sei onde,
Que não é para humanos pensamentos.
Ao meu conhecimento
não se esconde
A grandeza do golpe: mas alcanço,
Que a tanta perda a dor não corresponde.
De te buscar exemplos
me não canso;
Só te lembro porém, que o tronco duro
Faz mais estrago que o arbusto manso.
Alc. O que queres
dizer, eu conjeturo:
No vime, e no carvalho há igual ruína:
Igual a conseqüência eu não seguro.
Aquele cai sem dano, este destina
Fatal estrago a tudo, o que está posto
Debaixo dele. É isto? Ora imagina.
Fron. Jove aparte
de nós tanto desgosto:
Baste, para avivar nossa saudade,
O ser cortado em flor aquele rosto.
Contente-se da morte
a crueldade
Em nos levar com passo tão ligeiro
Uma tão bela, tão mimosa idade.
Roubou-nos um pastor,
que era o primeiro
Entre os nossos do monte; ele nos dava
As justas leis no campo, e no terreiro.
Ele as dúvidas
nossas concertava;
E sendo maioral, por arte nova,
Com respeito o agrado temperava.
De mil virtudes suas
nos deu prova;
Sempre a bem dirigindo os nossos passos.
Oh quanto esta lembrança a dor renova!
Alc. Ai! E com quanta
mágoa nos teus braços
Eu vi, Frondoso meu, que Arúncio esteve
Desatando da vida os doces laços!
Fron. Meu pensamento,
Amigo, não se atreve
A lembrar-se (ai de mim!) da mortal hora.
Em que vi acabar vida tão breve.
Quem fora duro seixo,
ou bronze fora,
Para animar agora na lembrança
Aquela imagem, com que esta alma chora!
Eu vi, Alcino, eu
vi, que na mudança
Que do caduco e eterno bem fazia,
A alma tinha cheia de esperança.
Tudo, o que era mortal,
aborrecia:
A cópia dos seus gados, o cajado,
(Bem que era de ouro fino) em nada havia.
Em vão o molestava
o doce estado
Da honra, e da grandeza: a Jove entregue
O espírito seguia outro cuidado.
Mas ai, Alcino! A voz já não prossegue;
Que tudo, o que a memória vem trazendo,
Receio, Amigo, que a matar-me chegue.
Alc. As ninfas do
Mondego estou já vendo
Descerem para nós com triste pranto.
Ou eu me engano, ou elas vêm dizendo:
Se do lírio,
da murta, e do amaranto
Cercada deve ser a sepultura
De Arúncio, a nós nos toca ofício tanto.
Nós o criamos,
com feliz ternura,
Dando-lhe o mel, e o leite: a nós nos toca
Mandar o corpo belo à terra dura.
Fron. De outro lado
igualmente se provoca
O Tejo (onde ele viu a luz primeira):
E as ninfas do centro úmido convoca.
A mim só se
me deve a glória inteira
(Fala o soberbo Tejo) eu o demando:
Minha há de ser esta honra derradeira.
Aqui lhe estou uma
urna preparando,
Coberta de um cipreste; onde a memória
Seu nome viverá sempre guardando.
Por mais que voe a
idade transitória,
Nunca se há de apagar aquele afeto,
Que de Arúncio consagro à triste história.
Durarás entre
nós, Pastor discreto,
Renovando a lembrança de Corino,
Que da nossa saudade é inda objeto:
Ele te deu o ser;
tu peregrino
Retrato de seus dotes, consolavas
Nosso desejo, tão constante, e fino.
Aquele caro irmão,
que tanto amavas,
Aônio, digo, aquele, a quem devias
Toda a felicidade, que gozavas,
Hoje lamenta teus saudosos dias;
Hoje chora comigo: eu lhe desejo
Alívio a tão cansadas agonias.
Alc. Oh! Contente-se
embora o claro Tejo
De haver ao mundo dado, quem lhe ganha
Fama, e nome a seu reino assaz sobejo.
Contente-se o Mondego,
que na estranha
Ventura de educá-lo, deu ao mundo,
Quem lhe soube adquirir glória tamanha.
O fado, que conhece
inda o mais fundo,
Quer, que guarde seu corpo a turva areia
De outro rio, mais triste, e mais profundo.
Do rio, que seu curso
não refreia
Até chegar, onde entra a grande costa,
Que banha do Brasil salgada veia.
Rio das Velhas se
chama (se reposta
Buscamos nos antigos, a pintura
Das dórcades na história se vê posta).
Os primeiros, que
entraram na espessura
Dos ásperos sertões, dizem, que acharam
Três bárbaras, já velhas, nesta altura.
Fron. Das três
Parcas melhor eles tomaram
O nome desse rio; se é verdade,
Que elas a vida humana governaram.
Triste sejas, ó
rio: a divindade
De Apolo, que em ti cria o amável ouro,
Se aparte do teu seio em toda a idade.
Não sejas da
ambição rico tesouro:
Girar se vejam sobre as praias tuas
Os brancos cisnes não, aves d'agouro.
Do inverno as enxurradas
levem cruas
As sementeiras, que teus campos criam:
Deixem só sobre a terra as pedras nuas.
Os pobres navegantes, que se fiam
Dessas funestas águas, desde agora
Conheçam a traição, que não temiam.
Alc. E contra quem,
Frondoso, inda em tal hora
Se armam as pragas tuas! Um delírio
Só para extremo tal desculpa fora.
Se Jove é quem
nos manda este martírio,
Soframos o seu golpe: ao pastor belo
Derramemos em cima o goivo, o lírio.
O nosso Ribeirão
traz o modelo
Do enterro, que dispõe: nós entretanto
Demos a conhecer nosso desvelo.
Envolto o corpo em
um cândido manto,
Que distingue de Deus o brasão nobre,
Aqui se oferece para o nosso pranto.
Enquanto pois o corpo
a terra cobre,
Seguindo o teu princípio deixa, Amigo,
Que um voto lhe consagre um pastor pobre,
Um voto, que se escreva em seu jazigo.
Soneto
Nada pode escapar do golpe avaro,
Alcino meu: que a Parca endurecida
Corta igualmente os fios de uma vida
Ao pastor pobre, ao cortesão preclaro.
Cresça embora
esse tronco altivo, e raro,
Ostentação fazendo mais luzida;
Viva embora entre humilde, entre abatida,
Essa planta, a que o nome em vão declaro.
Tudo há de
achar o fim: bem que a vaidade
Em uma, e outra glória faça estudo,
Nada escapa à fatal voracidade.
Eu, que chego a pensá-lo,
fico mudo;
E só tiro por certa esta verdade:
Que, se Arúncio acabou, acaba tudo.
POLIFEMO
ÉCLOGA VIII
Ó linda Galatéia,
Que tantas vezes quantas
Essa úmida morada busca Febo,
Fazes por esta areia,
Que adore as tuas plantas
O meu fiel cuidado: já que Erebo
As sombras descarrega sobre o mundo,
Deixa o reino profundo:
Vem, ó Ninfa, a meus braços;
Que neles tece Amor mais ternos laços.
Vem, ó Ninfa
adorada;
Que Ácis enamorado,
Para lograr teu rosto precioso,
Bem que tanto te agrada,
Tem menos o cuidado,
Menos sente a fadiga, e o rigoroso,
Implacável rumor, que eu n'alma alento.
Nele o merecimento .
Minha dita assegura;
Mas ah! que ele de mais tem a ventura.
Esta frondosa faia
A qualquer hora (ai triste!)
Me observa neste sítio vigilante:
Vizinho a esta praia
Em uma gruta assiste,
Quem não pode viver de ti distante.
Pois de noite, e de dia
Ao mar, ao vento, às feras desafia
A voz do meu lamento:
Ouvem-me as feras, ouve o mar, e o vento.
Não sei, que
mais pretendes
Desprezas meu desvelo;
E excedendo o rigor da crueldade,
Com a chama do zelo
O coração me acendes:
Não é assim cruel a divindade.
Abranda extremo tanto;
Vem a viver nos mares do meu pranto:
Talvez sua ternura
Te faça a natureza menos dura.
E se não basta
o excesso
De amor para abrandar-te,
Quanto rebanho vês cobrir o monte,
Tudo, tudo ofereço;
Esta obra do divino Alcimedonte,
Este branco novilho,
Daquela parda ovelha tenro filho,
De dar-te se contenta,
Quem guarda amor, e zelos apascenta.
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