´ POEMAS ESCOLHIDOS
Cláudio Manoel da Costa
LXXIV
Sombrio bosque, sítio destinado
À habitação de um infeliz amante,
Onde chorando a mágoa penetrante
Possa desafogar o seu cuidado;
Tudo quieto está,
tudo calado;
Não há fera, que grite; ave, que cante;
Se acaso saberás, que tens diante
Fido, aquele pastor desesperado!
Escuta o caso seu:
mas não se atreve
A erguer a voz; aqui te deixa escrito
No tronco desta faia em cifra breve:
Mudou-se aquele bem;
hoje é delito
Lembrar-me de Marfisa; era mui leve:
Não há mais, que atender; tudo está dito.
LXXV
Clara fonte, teu passo lisonjeiro
Pára, e ouve-me agora um breve instante;
Que em paga da piedade o peito amante
Te será no teu curso companheiro.
Eu o primeiro fui,
fui o primeiro,
Que nos braços da ninfa mais constante
Pude ver da fortuna a face errante
Jazer por glória de um triunfo inteiro.
Dura mão, inflexível
crueldade
Divide o laço, com que a glória, a dita
Atara o gosto ao carro da vaidade:
E para sempre a dor
ter n'alma escrita,
De um breve bem nasce imortal saudade,
De um caduco prazer mágoa infinita.
LXXVI
Enfim te hei de deixar, doce corrente
Do claro, do suavíssimo Mondego;
Hei de deixar-te enfim; e um novo pego
Formará de meu pranto a cópia ardente.
De ti me apartarei;
mas bem que ausente,
Desta lira serás eterno emprego;
E quanto influxo hoje a dever-te chego,
Pagará de meu peito a voz cadente.
Das ninfas, que na
fresca, amena estância
Das tuas margens úmidas ouvia,
Eu terei sempre n'alma a consonância;
Desde o prazo funesto
deste dia
Serão fiscais eternos da minha ânsia
As memórias da tua companhia.
LXXVII
Não há no mundo fé, não há lealdade;
Tudo é, ó Fábio, torpe hipocrisia;
Fingido trato, infame aleivosia
Rodeiam sempre a cândida amizade.
Veste o engano o aspecto
da verdade;
Porque melhor o vício se avalia:
Porém do tempo a mísera porfia,
Duro fiscal, lhe mostra a falsidade.
Se talvez descobrir-se
se procura
Esta de amor fantástica aparência,
É como à luz do Sol a sombra escura:
Mas que muito, se
mostra a experiência,
Que da amizade a torre mais segura
Tem a base maior na dependência!
LXXVIII
Campos, que ao respirar meu triste peito
Murcha, e seca tornais vossa verdura,
Não vos assuste a pálida figura,
Com que o meu rosto vedes tão desfeito.
Vós me vistes
um dia o doce efeito
Cantar do Deus de Amor, e da ventura;
Isso já se acabou; nada já dura;
Que tudo à vil desgraça está sujeito.
Tudo se muda enfim:
nada há, que seja
De tão nobre, tão firme segurança,
Que não encontre o fado, o tempo, a inveja.
Esta ordem natural
a tudo alcança;
E se alguém um prodígio ver deseja,
Veja meu mal, que só não tem mudança.
LXXIX
Entre este álamo, ó Lise, e essa corrente,
Que agora estão meus olhos contemplando,
Parece, que hoje o céu me vem pintando
A mágoa triste, que meu peito sente.
Firmeza a nenhum deles
se consente
Ao doce respirar do vento brando;
O tronco a cada instante meneando,
A fonte nunca firme, ou permanente.
Na líquida
porção, na vegetante
Cópia daquelas ramas se figura
Outro rosto, outra imagem semelhante:
Quem não sabe,
que a tua formosura
Sempre móvel está, sempre inconstante,
Nunca fixa se viu, nunca segura?
LXXX
Quando cheios de gosto, e de alegria
Estes campos diviso florescentes,
Então me vêm as lágrimas ardentes
Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.
Aquele mesmo objeto,
que desvia
Do humano peito as mágoas inclementes,
Esse mesmo em imagens diferentes
Toda a minha tristeza desafia.
Se das flores a bela
contextura
Esmalta o campo na melhor fragrância,
Para dar uma idéia da ventura;
Como, ó Céus,
para os ver terei constância,
Se cada flor me lembra a formosura
Da bela causadora de minha ânsia?
LXXXI
Junto desta corrente contemplando
Na triste falta estou de um bem que adoro;
Aqui entre estas lágrimas, que choro,
Vou a minha saudade alimentando.
Do fundo para ouvir-me
vem chegando
Das claras hamadríades o coro;
E desta fonte ao murmurar sonoro,
Parece, que o meu mal estão chorando.
Mas que peito há
de haver tão desabrido,
Que fuja à minha dor! que serra, ou monte
Deixará de abalar-se a meu gemido!
Igual caso não
temo, que se conte;
Se até deste penhasco endurecido
O meu pranto brotar fez uma fonte.
LXXXII
Piedosos troncos, que a meu terno pranto
Comovidos estais, uma inimiga
É quem fere o meu peito, é quem me obriga
A tanto suspirar, a gemer tanto.
Amei a Lise; é
Lise o doce encanto,
A bela ocasião desta fadiga;
Deixou-me; que quereis, troncos, que eu diga
Em um tormento, em um fatal quebranto?
Deixou-me a ingrata
Lise: se alguma hora
Vós a vedes talvez, dizei, que eu cego
Vos contei... mas calai, calai embora.
Se tanto a minha dor
a elevar chego,
Em fé de um peito, que tão fino adora,
Ao meu silêncio o meu martírio entrego.
LXXXIII
Polir na guerra o bárbaro gentio,
Que as leis quase ignorou da natureza,
Romper de altos penhascos a rudeza,
Desentranhar o monte, abrir o rio;
Esta a virtude, a
glória, o esforço, o brio
Do Russiano Herói, esta a grandeza,
Que igualou de Alexandre a fortaleza,
Que venceu as desgraças de Dario:
Mas se a lei do heroísmo
se procura,
Se da virtude o espírito se atende,
Outra idéia, outra máxima o segura:
Lá vive, onde
no ferro não se acende;
Vive na paz dos povos, na brandura:
Vós a ensinais, ó Rei; em vós se aprende.
LXXXIV
Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci! oh quem cuidara,
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!
Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.
Por mais que eu mesmo
conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:
Vós, que ostentais
a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.
LXXXV
Parece, ou eu me engano, que esta fonte
De repente o licor deixou turvado;
O céu, que estava limpo, e azulado,
Se vai escurecendo no horizonte:
Por que não
haja horror, que não aponte
O agouro funestíssimo, e pesado,
Até de susto já não pasta o gado;
Nem uma voz se escuta em todo o monte.
Um raio de improviso
na celeste
Região rebentou; um branco lírio
Da cor das violetas se reveste;
Será delírio!
não, não é delírio.
Que é isto, pastor meu? que anúncio é este?
Morreu Nise (ai de mim!) tudo é martírio.
LXXXVI
Musas, canoras musas, este canto
Vós me inspirastes, vós meu tenro alento
Erguestes brandamente àquele assento
Que tanto, ó musas, prezo, adoro tanto.
Lágrimas tristes são, mágoas, e pranto,
Tudo o que entoa o músico instrumento;
Mas se o favor me dais, ao mundo atento
Em assunto maior farei espanto.
Se em campos não
pisados algum dia
Entra a ninfa, o pastor, a ovelha, o touro,
Efeitos são da vossa melodia;
Que muito, ó
musas, pois, que em fausto agouro
Cresçam do pátrio rio à margem fria
A imarcescível hera, o verde louro!
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