´ POEMAS ESCOLHIDOS
Cláudio Manoel da Costa
XXX
Não se passa, meu bem, na noite, e dia
Uma hora só, que a mísera lembrança
Te não tenha presente na mudança,
Que fez, para meu mal, minha alegria.
Mil imagens debuxa
a fantasia,
Com que mais me atormenta e mais me cansa:
Pois se tão longe estou de uma esperança,
Que alívio pode dar-me esta porfia!
Tirano foi comigo
o fado ingrato;
Que crendo, em te roubar, pouca vitória,
Me deixou para sempre o teu retrato:
Eu me alegrara da
passada glória,
Se quando me faltou teu doce trato,
Me faltara também dele a memória.
XXXI
Estes os olhos são da minha amada:
Que belos, que gentis, e que formosos!
Não são para os mortais tão preciosos
Os doces frutos da estação dourada.
Por eles a alegria
derramada,
Tornam-se os campos de prazer gostosos;
Em zéfiros suaves, e mimosos
Toda esta região se vê banhada;
Vinde, olhos belos,
vinde; e enfim trazendo
Do rosto de meu bem as prendas belas,
Dai alívios ao mal, que estou gemendo:
Mas ah delírio
meu, que me atropelas!
Os olhos, que eu cuidei, que estava vendo,
Eram (quem crera tal!) duas estrelas.
XXXII
Se os poucos dias, que vivi contente,
Foram bastantes para o meu cuidado,
Que pode vir a um pobre desgraçado,
Que a idéia de seu mal não acrescente!
Aquele mesmo bem,
que me consente,
Talvez propício, meu tirano fado,
Esse mesmo me diz, que o meu estado
Se há de mudar em outro diferente.
Leve pois a fortuna
os seus favores;
Eu os desprezo já; porque é loucura
Comprar a tanto preço as minhas dores:
Se quer, que me não
queixe, a sorte escura,
Ou saiba ser mais firme nos rigores,
Ou saiba ser constante na brandura.
XXXIII
Aqui sobre esta pedra, áspera, e dura,
Teu nome hei de estampar, ó Francelisa,
A ver, se o bruto mármore eterniza
A tua, mais que ingrata, formosura.
Já cintilam
teus olhos: a figura
Avultando já vai; quanto indecisa
Pasmou na efígie a idéia, se divisa
No engraçado relevo da escultura.
Teu rosto aqui se
mostra; eu não duvido,
Acuses meu delírio, quando trato
De deixar nesta pedra o vulto erguido;
É tosca a prata, o ouro é menos grato;
Contemplo o teu rigor: oh que advertido!
Só me dá esta penha o teu retrato!
XXXIV
Que feliz fora o mundo, se perdida
A lembrança de amor, de amor a glória,
Igualmente dos gostos a memória
Ficasse para sempre consumida!
Mas a pena mais triste,
e mais crescida
É ver, que em nenhum tempo é transitória
Esta de amor fantástica vitória,
Que sempre na lembrança é repetida.
Amantes, os que ardeis
nesse cuidado,
Fugi de amor ao venenoso intento,
Que lá para o depois vos tem guardado.
Não vos engane
o infiel contentamento;
Que esse presente bem, quando passado,
Sobrará para idéia do tormento.
XXXV
Aquele, que enfermou de desgraçado,
Não espere encontrar ventura alguma:
Que o Céu ninguém consente, que presuma,
Que possa dominar seu duro fado.
Por mais, que gire
o espírito cansado
Atrás de algum prazer, por mais em suma,
Que porfie, trabalhe, e se consuma,
Mudança não verá do triste estado.
Não basta algum
valor, arte, ou engenho
A suspender o ardor, com que se move
A infausta roda do fatal despenho:
E bem que o peito
humano as forças prove,
Que há de fazer o temerário empenho,
Onde o raio é do Céu, a mão de Jove.
XXXVI
Estes braços, Amor, com quanta glória
Foram trono feliz na formosura!
Mas este coração com que ternura
Hoje chora infeliz esta memória!
Quanto vês, é troféu de uma vitória,
Que o destino em seu templo dependura:
De uma dor esta estampa é só figura,
Na fé oculta, no pesar notória.
Saiba o mundo de teu
funesto enredo;
Por que desde hoje um coração amante
De adorar teus altares tenha medo:
Mas que empreendo,
se ao passo, que constante
Vou a romper a fé do meu segredo,
Não há, quem acredite um delirante!
XXXVII
Continuamente estou imaginando,
Se esta vida, que logro, tão pesada,
Há de ser sempre aflita, e magoada,
Se como o tempo enfim se há de ir mudando:
Em golfos de esperança
flutuando
Mil vezes busco a praia desejada;
E a tormenta outra vez não esperada
Ao pélago infeliz me vai levando.
Tenho já o
meu mal tão descoberto,
Que eu mesmo busco a minha desventura;
Pois não pode ser mais seu desconcerto.
Que me pode fazer
a sorte dura,
Se para não sentir seu golpe incerto,
Tudo o que foi paixão, é já loucura!
XXXVIII
Quando, formosa Nise, dividido
De teus olhos estou nesta distância,
Pinta a saudade, à força de minha ânsia,
Toda a memória do prazer perdido.
Lamenta o pensamento
amortecido
A tua ingrata, pérfida inconstância;
E quanto observa, é só a vil jactância
Do fado, que os troféus tem conseguido.
Aonde a dita está?
aonde o gosto?
Onde o contentamento? onde a alegria,
Que fecundava esse teu lindo rosto?
Tudo deixei, ó
Nise, aquele dia,
Em que deixando tudo, o meu desgosto
Somente me seguiu por companhia.
XXXIX
Breves horas, Amor, há, que eu gozava
A glória, que minha alma apetecia;
E sem desconfiar da aleivosia,
Teu lisonjeiro obséquio acreditava.
Eu só à
minha dita me igualava;
Pois assim avultava, assim crescia,
Que nas cenas, que então me oferecia,
O maior gosto, o maior bem lograva;
Fugiu, faltou-me o
bem: já descomposta
Da vaidade a brilhante arquitetura,
Vê-se a ruína ao desengano exposta:
Que ligeira acabou,
que mal segura!
Mas que venho a estranhar, se estava posta
Minha esperança em mãos da formosura!
XL
Quem chora ausente aquela formosura,
Em que seu maior gosto deposita,
Que bem pode gozar, que sorte, ou dita,
Que não seja funesta, triste, e escura!
A apagar os incêndios
da loucura
Nos braços da esperança Amor me incita:
Mas se era a que perdi, glória infinita,
Outra igual que esperança me assegura!
Já de tanto
delírio me despeço;
Porque o meu precipício encaminhado
Pela mão deste engano reconheço.
Triste! A quanto chegou
meu duro fado!
Se de um fingido bem não faço apreço,
Que alívio posso dar a meu cuidado!
XLI
Injusto Amor, se de teu jugo isento
Eu vira respirar a liberdade,
Se eu pudesse da tua divindade
Cantar um dia alegre o vencimento;
Não lograras,
Amor, que o meu tormento,
Vítima ardesse a tanta crueldade;
Nem se cobrira o campo da vaidade
Desses troféus, que paga o rendimento:
Mas se fugir não
pude ao golpe ativo,
Buscando por meu gosto tanto estrago,
Por que te encontro, Amor, tão vingativo?
Se um tal despojo
a teus altares trago,
Siga a quem te despreza, o raio esquivo;
Alente a quem te busca, o doce afago.
XLII
Morfeu doces cadeias estendia,
Com que os cansados membros me enlaçava;
E quanto mal o coração passava,
Em sonhos me debuxa a fantasia.
Lise presente vi, Lise, que um dia
Todo o meu pensamento arrebatava,
Lise, que na minha alma impressa estava,
Bem apesar da sua tirania.
Corro a prendê-la
em amorosos laços
Buscando a sombra, que apertar intento;
Nada vejo (ai de mim!) perco os meus passos.
Então mais
acredito o fingimento:
Que ao ver, que Lise foge de meus braços,
A crê pelo costume o pensamento.
XLIII
Quem és tu? (ai de mim!) eu reclinado
No seio de uma víbora! Ah tirana!
Como entre as garras de uma tigre hircana
Me encontro de repente sufocado!
Não era essa,
que eu tinha posta ao lado,
Da minha Nise a imagem soberana?
Não era... mas que digo! ela me engana:
Sim, que eu a vejo ainda no mesmo estado:
Pois como no letargo
a fantasia
Tão cruel ma pintou, tão inconstante,
Que a vi...? mas nada vi; que eu nada cria.
Foi sonho; foi quimera;
a um peito amante
Amor não deu favores um só dia,
Que a sombra de um tormento os não quebrante.
XLIV
Há quem confie, Amor, na segurança
De um falsíssimo bem, com que dourando
O veneno mortal, vás enganando
Os tristes corações numa esperança!
Há quem ponha
inda cego a confiança
Em teu fingido obséquio, que tomando
Lições de desengano, não vá dando
Pelo mundo certeza da mudança!
Há quem creia,
que pode haver firmeza
Em peito feminil, quem advertido
Os cultos não profane da beleza!
Há inda, e
há de haver, eu não duvido,
Enquanto não mudar a Natureza
Em Nise a formosura, o amor em Fido.
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