Peru versus Bolívia
Euclides da Cunha
Capítulo II
Os antigos mapas
sul-americanos têm às vezes a eloqüência
de seus próprios erros.
Abraham Ortelius, Joan Martines, ou Thevet, sendo os mais falsos
desenhadores do Novo Mundo, foram exatos cronistas de seus primeiros
dias. A figura do continente deformado, quase retangular, com as
suas cordilheiras de molde invariável, rios coleando nas
mais regulares sinuosas, e amplas terras uniformes, ermas de acidentes
físicos, cheias de seres anormais e extravagantes - é,
certo, incorretíssima. Mas tem rigorismos fotográficos
no retratar uma época. Sem o quererem, os cartógrafos,
tão absorvidos na pintura do novo typus orbis, desenhavam-lhe
as sociedades nascentes; e os seus riscos incorretos, gizados à
ventura, conforme lhos ditava a fantasia, tornam-se linhas estranhamente
descritivas. Num prodígio de síntese, valem livros.
A impressão que se nos amortece, e vai partindo-se no volver
das páginas mais vigorosas, ali desfecha num golpe único
do olhar. E vemos, como não no-lo mostrariam os mais lúcidos
historiadores, os aspectos dominantes do regímen instituído
pela conquista das recém-descobertas regiões.
Considere-se o antigo Vice-reinado do Peru.
Ninguém o compreende, de pronto, sem a sugestão de
uma daquelas informes caricaturas continentais, que lhe resumem,
exagerando-os, os traços incisivos. Sob todas as faces, da
administrativa à política, à civil e à
religiosa, a sua aparência mais viva é a de suas velhas
cartas: monstruosa, artificial, extravagante... O desenhista que
lhe riscou, do Panamá à Patagônia, a costa ocidental,
maciça, inarticulada, quase sem dobras, perlongando. inteiriçamente,
o Mare magelanicum, descreveu-lhe ao mesmo tempo, com um traço,
a sociedade rudimentar, sem órgãos, duma grande simplicidade
tribal, ou primitiva; e ao figurar-lhe no levante, por vezes com
áureas iluminuras, as minas numerosas, as serranias auríferas,
as lagoas doiradas, os palácios argênteos guardando
os tesouros incalculáveis dos Incas, denunciou o objetivo
exclusivo de seus novos povoadores.
De fato, ali não se fundou uma colônia, no significado
que, já naquele tempo, lhe sabiam dar os portugueses. A terra,
indivisa e sem fins, não se abria ao exercício das
atividades, firmando-se a correlação entre as suas
energias desencadeadas pelas culturas e as forças sociais
consecutivas. Era uma inexpressiva e vasta propriedade. Não
era, ainda, um domínio de Espanha, ou o prolongamento ultramarino,
onde ela se refugiasse naquele ameaçador entardecer da Idade
Média, carregando o seu velho fanatismo católico,
a sua lealdade feroz e a sua ferocidade cavalheiresca, abalados
aos primeiros fulgores da Reforma. Era um feudo. Um donativo papal
a um rei. O maior dos latifúndios sancionado por uma bula.
Uma sesmaria que se explorava de longe, desastradamente, de dentro
do Escurial; e mandada por um magnífico feitor, que era a
sombra passiva do soberano longínquo, o Vice-rei.
Sabe-se no que consistiu a exploração. Delatam-na,
melhor que os historiadores, os cartógrafos. No mapa de Descaliers
não se vê um rio, ou uma serrania, não se lobriga
um acidente físico; vêem-se cidades maravilhosas, vêem-se
minas estupendas, e sobre umas e outras, pisoando-as, uns tremendos
batalhões de castelhanos barbudos, a tropearem em arrancadas
violentas.
Não há concisão fulminante, de Tácito,
que valha aqueles riscos lapidários...
Com efeito, a diretriz intorcível da colonização
espanhola, traçou-a a primeira tropa de Pizarro, que entrou
pelo Peru e caminhou cem léguas para saquear um templo. O
processo não variou. Não podia variar. Ali estavam,
diante dos conquistadores, gratuitas, requerendo-lhes o só
trabalho de apanhá-las, as riquezas surpreendentes da imponente
teocracia que ruíra desde o primeiro assalto; e eles volveram,
logicamente, em recuo obrigatório, às formas primitivas
da atividade militar, sob o impulso irresistível, e até
material, do passado milenário que os estonteava.
Assentou-se, então, o regímen daquela centralização
estúpida, que lanceiam os pontos de admiração
de todos os historiógrafos.
Mas era compreensível. O Vice-rei, procurador bastante de
um proprietário, devia, de fato, enfeixar todas as atribuições,
das que entendiam de simples casos administrativos, aos assuntos
da guerra, às delicadas exigências da justiça.
Além disto, o grande ajuntamento ilícito, de soldados
e exatores, adscrito a um esforço único, sem funções
especializadas, amorfo e inconsistente chegando, acampando, saqueando,
saindo - não tinha as exigências complexas de uma sociedade,
ou, sequer, de um esboço de sociedade.
Mostram-no as próprias leis, que os regulavam, vedando-lhes
a todos, do Vice-rei ao último intendente, o se ligarem à
paragem nova pelos vínculos da família, ou da propriedade.
Nem um palmo de terra os prendia ao Novo Mundo; nem uma afeição
os vinculava a seus destinos.
Os recém-vindos alheavam-se, por sistema, dos hábitos
e interesses do país. Naquele saquear-se uma civilização
estranha, baqueada, impunha-se-lhes a atividade exclusiva de atestarem
os galeões da metrópole com todos os seus efeitos.
Fora inconveniente qualquer adaptação, favorecida
pelo cruzamento, aparelhando os povoadores de outros atributos de
resistência aos novos cenários que se lhes abriam.
O título de espanhol, título único a todos
os empregos, devera conservar-se intacto na sua mais áspera
rigidez nativa, blindado pelo orgulho característico da raça,
como um privilégio e uma necessidade política. Embaixo,
o filho do país, embora o aparelhassem qualidades superiores,
submetia-se ao pecado original de ali ter nascido. O forasteiro
mais achamboado e bronco fulminava-o com uma frase, que rompeu séculos,
entre o espanto dos cronistas, concentrando a fórmula mais
altaneira e pejorativa de um domínio:
"Eres criollo y basta...
Deste modo, ia formando-se o agregado absurdo, que era uma espécie
de anômalo inorganismo social, sem tendências pessoais
definidas, crescendo apenas mecanicamente, como as pedras crescem,
pelas superposições sucessivas das levas que partiam
de Cádiz
Daí, a instabilidade. A mínima vontade individual
rebelde, combalia-o. A sua história, nos primeiros dias,
reduzida a monótona resenha de intermitentes revoltas, traduz-se
num círculo vicioso fatigante: qualquer capitão feliz,
gérmen ancestral dos caudilhos futuros, ao voltar de uma
campanha vitoriosa, contra os Incas remanescentes, tornava-se um
perigo público que era preciso afastar. . . inventando-se
outra expedição, que o distraísse.
Por exemplo: o primeiro esboço de subdivisão política
do incomensurável domínio, a gobernación de
Nueva Toledo, que seria mais tarde o Chile - não atendeu
a um princípio elevado de governo. Foi um recurso de ocasião
e um meio desesperado, aventando-se entre pavores, de afastar Diego
Almagro, o perigoso sócio de Pizarro, para as solidões
longínquas do estreito de Magalhães.
Multiplicavam-se sucessos semelhantes. E o domínio castelhano,
na América do Sul, consistindo na vasta pilhagem de uma sociedade
morta - difuso, inarticulado, informe - como no-lo desenham os antigos
cartógrafos, antes de organizar-se ia decompondo-se lastimavelmente.
*
Então
criou-se a Audiência e Chancelaria Real de La Plata, ou de
Charcas, que seria mais tarde a Bolívia, desligando-se daquele
conjunto amorfo, como se desliga um mundo de uma nebulosa.
A velhíssima imagem impõe-se. Realmente, ali houve,
sobretudo, um fato de evolução: o primeiro sinal da
vida no ajuntamento gregário, cuja significação
política se perdia, indeterminada, no vago de um conceito
geográfico imaginoso. Não há mesmo, talvez,
nenhum outro em que melhor se comprazam os que se aventuram a estender
aos sucessos sociais o princípio universal da redistribuição
da matéria e da força.
Mas não nos delongaremos por aí.
Falam por si mesmos os acontecimentos, no revelarem que a Bolívia
foi, entre todas as repúblicas espanholas, a primeira que
se delineou em um passado longínquo, rodeando-se, desde o
princípio, com os mais notáveis elementos de uma organização
poderosa.
As Cédulas Reais que a constituíram, e entre todas
a de 29 de agosto de 1563, são o inesperado exemplo de uma
resolução da metrópole castelhana, na América,
que se discutiu e se afirmou sobranceira aos caprichos da vontade
real ilimitada. Retratam a primeira medida governamental, digna
deste nome, subordinando-se, esclarecidamente, às exigências
do meio. Os seus motivos resultaram de fatores físicos, tangíveis:
a distância, e os sérios embaraços de comunicações
entre a sede litorânea do governo, em Lima, e as paragens
remotas, no levante. Entre estas e aquela, aprumam-se os paredões
das cordilheiras, ásperos, abruptos, não raro impraticáveis,
alongando os caminhos no torneado das vertentes, agravando-os nos
pendores, estirando-os, monotonamente, pelo desnudo das punas enregeladas.
Deste modo, o alvará da metrópole sancionava uma condição
imposta pela harmonia natural.
Destaque-se bem este caso: determinou-o a mais imponente fatalidade
física de todo o Novo Mundo.
A Bolívia é uma criação dos Andes.
A Cédula Real, definitiva, de 26 de maio de 1573, rematando
a gênese do novo distrito, primeiro esboço de uma articulação
no organismo inteiriço e rudimentar do Vice-reinado, demonstra-o,
claramente, ao prescrever-lhe os limites. Considerando-a, observa-se
que as suas divisas ocidentais, ajustando-se às cordilheiras,
são claras. Pormenorizam-se, nomeiam-se, especificam-se até
nas veredas que por ali serpeiam; e a serrania de Vilcanota, último
contraforte da cadeia principal, pelo oriente, tornou-se, por isso
mesmo, a última barreira oriental da antiga Audiência
de Los Reyes, ou de Lima, no Departamento de Cuzco, traçando-se,
rigorosamente, como um limite arcifínio indestrutível.
Ao passo que nos quadrantes de N E. e S. E., a entestar os domínios
portugueses, a nova Audiência se expandia em extremas incaracterísticas:
ao norte, as regiões ainda misteriosas, inçadas de
infietes genericamente designados pelos nomes de chunchos e mojos;
ao sul, os terrenos do Paraguai, e as províncias de Tucuman
e Juries, que hoje se integram na Confederação Argentina.
E atendendo-se que estas últimas se segregaram, naquela ocasião,
da gobernación transandina do Chile, que se já formara,
trai-se, ainda neste incidente, o determinismo natural daquele repartimento
político administrativo - no propósito manifesto de
incluírem-se na nova circunscrição todos os
territórios cisandinos.
De feito, a magistral dos Andes orientais era a única divisória
compreensível e estável das duas Audiências,
de Lima e de Charcas, uma e outra ilimitadas nos outros rumos defrontando
no poente a vastidão do Pacífico, e no levante as
terras indivisas dos domínios lusitanos.
Ora, esta subdivisão, a princípio quase apenas judiciária,
e resultante imediata do antagonismo entre a centralização
antiga e a estrutura da terra, traduziu-se depois como o primeiro
estalo no aparelho inteiriço e patriarcal do Vice-reinado.
Realmente, o tribunal supremo instituído em La Plata, destinado
a multiplicar-se em doze outros, ulteriores, desde Buenos Aires
até Nova Granada, balanceava, não só por Ordenança
expressa da metrópole, como pela autonomia advinda daquele
afastamento no âmago da terra, a influência do delegado
real.
O governo tornara-se mais complexo; e progrediu, diferenciando-se
mais e mais, à medida que o sistema regulador preexiste,
sem plasticidade para o regímen que nascia, se quebrantava,
ou desaparecia, num decaimento inevitável.
Não é preciso exemplificar. Não há,
neste lance, a voz dissonante de um só historiador.
Toda a evolução dos Estados hispano-americanos acentua-se
e desdobra-se no triunfo gradual e contínuo daqueles governantes
mais aditos ao povo, sobre o prestígio tradicional dos Vice-reis,
em fases tão golpeantes, nos seus efeitos, que já
muito antes de 1810 estes últimos se reduziam a platônicas
figuras, meramente decorativas, porque o Conselho das Índias,
na Espanha, e as Audiências pretoriais, na América
atribuíam-se todos os misteres de governo.
Assim germinaram com a Bolívia os fatores iniciais da independência
hispano-americana.
O próprio internamento favorecia-lhe a marcha gradativa para
uma harmonia superior de energias autônomas, ao mesmo passo
que a distância da costa a libertava da emigração
tumultuária, ou atraída pelo anseio exclusivo da vida
aventurosa, em cata da fortuna. A cordilheira foi - materialmente
- um cordão sanitário. Ao menos, um desmedido aparelho
seletivo: para afrontá-la e transpô-la, requeriam-se
atributos excepcionais de coragem, pertinácia, vigor. E transpondo-as
os mais volúveis forasteiros fixavam-se, forçadamente,
ao solo, tolhidos pelas próprias dificuldades da volta.
Ao mesmo tempo, naquelas terras interiores, os jesuítas fundaram
as suas mais notáveis Missões, resguardando o elemento
indígena, que se dizimava no Peru sob o tríplice assalto
simultâneo das guerras, dos repartimentos e das mitas. Viram-se,
então, desde logo, fronteirando-se, o melhor das gentes forasteiras
e o aborígine. O cruzamento entrelaçou-se como em
nenhuma outra possessão espanhola. Surgiu uma gente nova,
mais robusta, mais estável, equilibrando-se ao meio, e refletindo,
a par dos atributos físicos da aclimação, mais
firmes tendências para o domínio e para a luta nos
dilatados cenários que se lhe ofereciam.
Ora, por mais díspares que fossem tais estímulos,
rompentes do temperamento impulsivo dos mestiços recém-formados
-retificou-os, depois, harmonizando-os numa admirável solidariedade
de esforços e destinos, uma outra circunstância positiva
incontrastável.
Não há obscurecê-la: a contigüidade dos
domínios de Portugal, no levante, foi, desde o século
XVII, um reagente enérgico para a organização
autônoma da Bolívia. As forças, que no litoral
peruano se dispersavam e dispartiam em tumultos e revoltas intestinas,
ali se compunham num movimento geral e instintivo de defesa. Leiam-se
os cronistas do tempo. Os bolivianos acordaram na história
aos prolongados rumores de uma invasão. Adestraram-se desde
cedo num tirocínio de batalhas. Uniram-se sob o império
de uma ameaça, que durou dois séculos. Evoluíram,
transfigurando-se, num persistente apelo às energias heróicas
do caráter. E disciplinaram-se: os portugueses, no Oriente,
eram, sem o saberem, os carregadores incorruptíveis do grande
ayuntamiento nacional que se formava.
Estudando-se a constituição territorial da Bolívia,
ao chegar-se a Cédula Real de 2 de novembro de 1661 que lhe
segregou as províncias de Tucuman e do Paraguai, para constituírem
a Audiência pretorial de Buenos Aires, nota-se, ainda uma
vez, com a ordenança, aparentemente arbitrária, da
metrópole, obedeceu a motivos externos, prementes, inadiáveis.
A Audiência de Charcas não diminuía, mutilada;
consolidava-se, concentrando-se. Definia-se. Indeterminada, a princípio,
nos quadrantes de N. E. e S. E., apenas demarcada no ocidente pelos
Andes, lindava-se, agora, rigorosamente, em toda a banda do sul.
Permanecia, certo, indefinida em toda a amplitude das terras setentrionais;
mas, neste definido, define-se, eloqüentemente, a sua missão
histórica. Realmente, a invasão portuguesa, estacionando
à margem esquerda do rio Paraguai, alongava-se de suas cabeceiras
para o norte - indefinidamente - assoberbando o Mato Grosso e seguindo
as linhas naturais do Guaporé e do Madeira até ao
Amazonas.
Ora, a Audiência de Charcas foi o bloco continental que lhe
contrapôs a Espanha.
Devia ser, como ela, indefinida na direção do norte.
Salientemos bem este fato, preeminente no atual litígio:
o território oriental de Charcas era, no dizer enérgico
de um de seus mais famosos presidentes, la barrera de todo el Alto
Perú, (1) ante a vaga assaltante dos invasores, que o ameaçavam
na orla extensíssima do levante.
É natural que as leis do Livro 2º da Recopilación
das Índias, de 1680, sistematizando, ou corrigindo, as cédulas
e ordenanças anteriores, no estabelecerem as raias das circunscrições,
em que, largamente, ia fragmentando-se o Vice-reinado, traçassem
à de Charcas, em pleno contraste com as linhas mais firmes
de outros rumos, as mais distensas e vagas no quadrante de N.E.
Os seus dizeres são significativos:.
"Partiendo términos por el septentrión con la
Real Audiencia de Lima y Provincias no descubiertas... por el levante
con el mar del Norte y línea de demarcación entre
las coronas de los reynos de Castilla y de Portugal por la parte
de las provincias de Santa Cruz del Brasil."
Desta forma, as suas extremas setentrionais, apenas definidas nas
terras mais abeiradas da cordilheira, a defrontarem as do departamento
de Cuzco, ampliavam-se logo, indeterminadamente, para o norte, no
difuso de uma penumbra geográfica, provincias no descubiertas.
E o que pode afigurar-se de restritivo neste rumo desaparece de
todo naquele desafogo largo para o levante. A lei é límpida:
os limites por ali iriam até onde fosse a linha de demarcação
entre Portugal e Espanha.
As províncias ainda não descobertas, mostra-o o próprio
impreciso desta expressão crepuscular, predestinavam-se a
extinguir-se, ou a recuar, continuadamente, ante o simples desenvolvimento
de uma divisa oriental, que se dilataria, margeando a meridiana,
sem termos prefixos, até aonde se estendessem as terras lusitanas,
a extinguir-se no Atlântico Norte.
Não há interpretação mais lógica.
Todos os antecedentes a esteiam, inabalável.
A fatalidade física, tangível e rijamente geognóstica,
que apontamos, há pouco, como determinante da constituição
territorial da Bolívia, harmoniza-se, neste caso, com as
leis sociais mais altas.
A sua missão histórica erigindo-a, no levante, em
barreira protetora dos domínios castelhanos, traçou-lhe
desde o princípio, naturalmente - no indeterminado das paragens
ainda ignotas, ou no descubiertas, uma diretriz inflexível
para o norte, acompanhando, num movimento heróico, os rastros
da expansão lusitana.
Eram marchas paralelas, de objetivo dilatado, e cujo termo não
poderia prefixar-se.
A zona de ação da Audiência devotada à
defesa das possessões espanholas ampliar-se-ia consoante
se ampliasse a do adversário pertinaz que ela tinha de defrontar
(até por ordem expressa da metrópole, como veremos
depois) em todo o desmedido de uma fronteira internacional.
Deste modo, a posse virtual daqueles territórios, de que
ela se revestiu historicamente, posse perigosíssima e grave,
submetida às responsabilidades tremendas de uma campanha
perene, destaca-se, sem dúvida, superior à posse efetiva
e pacífica que, acaso, sobre eles ela exercitasse mais tarde.
*
Com efeito,
não há prodígios de perquirição
sutil e tenaz que nos revelem, por exemplo: até onde se estendiam,
ou sequer, onde se localizavam os prófugos infieles, Chunchos
e Mojos, cujas terras se incluíam nas de Charcas, ladeando
as províncias não sabidas.
Os recursos cartográficos são, neste caso, desesperadores.
Entretanto, são aquelas províncias não descobertas,
constituídas dos terrenos ocidentais do Madeira, em toda
a faixa desatada da foz do Mamoré à semidistância
daquele, que se lhe contestam, e formam a presente zona litigiosa.
Vimos-lhe, no capítulo anterior, a superfície enorme.
E, se nos alongássemos numa exposição analítica,
mostraríamos que ela se esboçou quando se lindaram,
em 1680, as audiências convizinhas, em que se tripartiu o
Vice-reinado do Peru - como um território relegado à
apropriação futura, consoante a capacidade delas,
e neutro naquela divisão audiencial. Provincias no descubiertas
são palavras que ressoam, monotonamente, nos deslindes de
1680. Entre a Audiência de Quito, que formaria depois o Equador
e se estendia naquele tempo para o sul até ao médio
Ucayali; a de los Reyes, ancestral do Peru, expandida para leste
até as margens do Inambari, limitando rigorosamente a diocese
de Cuzco; e a de Charcas, expressão histórica da Bolívia,
limitada em todos os sentidos, exceto no que lhe marcava um papel
preeminente na evolução americana - encravava-se a
massa continental, ignota, impérvia e misteriosa, velada
quase até aos nossos dias, em toda a área que se alarga
entre o médio Madeira e o Javari.
Portanto, no ventilarem este ponto, com os decrépitos testemunhos
coloniais dos séculos XVI e XVII, uniformes apenas no darem
uma expressão legal à ignorância absoluta que
havia acerca daqueles lugares, os Estados colitigantes só
podem iluminar, ou esclarecer, o assunto, de uma maneira originalíssima:
apelando para os dados mais obscuros, dúbios e vacilantes,
ou vendando-se com aquela espessa noite geográfica, onde,
como vimos, tanto se atarantaram, tontos, "às cegas",
às encontroadas, completamente perdidos no escuro, os negociantes
de 1750.
Prescrevem aos misteriosos aborígines os mais vários
e contrapostos habitats ora às ourelas direitas do Ucayali;
ora às do Beni; ou, mais distantes, a estirarem-se pelas
ribas do Amazonas.
Os selvagens vagabundos são, evidentemente, os mais erradios
dos selvagens, vagueando ao mesmo tempo pelas selvas e pelos mapas.
Por outro lado, os documentos escritos, memórias, roteiros,
ou crônicas, e até os mais lisamente legais - cédulas,
ordenanças, ou ofícios - engravescem e multiplicam
sobremaneira todas as dúvidas.
Aprende-se a ignorar, lendo-os. Recordam típicos compêndios
de erros. Sistematizam o absurdo. A mentira ressalta-lhes divinizada
nos mais românticos devaneios. Nas suas linhas faz-se uma
filtração pelo avesso: a inteligência penetra-as,
límpida; atravessa-as, torturada; sai impura. Cada página
é um diafragma, por onde se nos insinuam, por endosmose,
todas as sombras do passado. No emperramento de seus termos duros,
descontínuos a despeito da pobreza de vírgulas, onde
as idéias se desunem, desarticulando-se, deformadas ou decompostas,
retrata-se, irritantíssima, uma espécie de gagueira
gráfica, visível; e não há espírito
que se equilibre nas suas vacilações, nas suas alternativas,
no vaivém de seus repetimentos intermináveis, nos
seus hiatos distensos, nas suas pasmosas confusões originárias.
Ali todas as opiniões encontram um texto favorável.
A verdade é bifronte. Firmam-se todos os critérios.
As deduções irradiam. Os conceitos geográficos
disparam. Lemos aquelas milhares de páginas; cirandamo-las:
não fica uma partícula de realidade. Fica uma preocupação:
esquecê-las no menor prazo possível.
Cada um daqueles cronistas, cada um daqueles geógrafos, ou
mesmo historiógrafos, cada um daqueles pequenos proprietários
do Caos, como os estigmatizaria Carlyle, é um desordeiro
que se faz mister afastar pata que se não perturbe o pleito.
Afas temo-los.
O deslindamento tem recursos mais positivos, mais lúcidos,
mais sérios.
Esboçamos, retilínea e inquebrável, a diretriz
histórica da Bolívia.
Vejamos como ela se acentua e se ajusta em todos os seus pontos
aos elementos mais rigorosos no refletirem os intuitos da metrópole.
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