PEDRO
GOBÁ
Ezequiel Freire
Pedro Gobá
x
Episódio da Vida Rural
(Ao Grande Artista
da Língua Portuguesa) (*)
Querido Mestre,
Felizmente para vós,
grande alma de artista, e felizmente para nós brasileiros, vieste
à nossa
pátria, que vos honra e vos ama,já quase a findar-se a tragédia
negra em que temos representado o vergonhoso papel de verdugo de uma raça
bruta e mísera. Justo que sois, que confessastes a proveniência
histórica desta herança de sangue e lama; e atribuindo à
vossa pátria metade do crime, atenuastes de metade a responsabilidade
da minha pátria. Que os vossos olhos encontrem no seio desta Natureza
americana belezas em que agradavelmente pousem para que não os
atraia, magoando-vos a sensibilidade de artista e revoltando-vos a consciência
do filósofo e do crítico, esta mancha da nossa pátria
- o negro.
E quando tiverdes a fazer a conta da escravidão, lembrai-vos de
que só uma herança maldita, tomando-nos no berço
e influindo sobre nossa alma desde a infância por todas as sugestões
da educação e do exemplo, pôde suplantar a generosidade
inata deste povo através do qual ides passando entre alas de sorrisos
afetuosos e de corações comovidos.
Ezequiel Freire
(*) O autor se refere a Ramalho Ortigão.
Maio, nas fazendas , é um mês de azáfama.
Colheram-se as roças; empaiolou-se o mantimento. Topetadas até
as cumieiras, garantem as tulhas um ano de fartura. Malhou-se feijão;
bateu-se o arroz; quebrou-se o milho; arrancaram-se as túberas
de toda a casta. Vêm chegando do mato-dentro as derradeiras carradas.
Chiam desesperadamente os grandes carros circundados por alta esteira
de taquara entrançada que boja com a pressão da carga. Pausadamente,
entra pelo terreiro a longa fila de bois, cangados aos pares, parelhos
no pêlo e no porte. Os da guia , retacos, dorso recurvo, pescoço
alongado, focinho abeirando a terra, esticam as tiradeiras, vergando os
canzis, ao esforço da tração. Corpulentos, possantes,
pampas de amarelo e branco, cabeça ao ar, entrechocando as armações
luzidias, marcham pesadamente os do couce, em passo processional e atitude
de resistência, escorando, no cangote pelado pelo diuturno atrito
da canga, o peso enorme da carrada.
De pé sobre o cabeçalho, seguro por uma das mãos
a um fueiro, com a outra, brande o carreiro alentado e retinto uma comprida
aguilhada, em cuja extremidade chocalha entre argolas a roseta de ferro,
de puas mais temíveis ao couro bovino do que o ferrão da
motuca.
- Eia, Lavrado! Fasta, Barroso ! Carrega, Damasco!
E, obediente ao comando, a dextra boiada contornea a linha das senzalas,
marcando o lento passo ao monótono chiar do carro.
Por todo o largo terreiro uma grande alacridade barulha entre a criação
doméstica, ao desabar da carga, à beira do paiol. Acodem
avoando as aves : grasnam os palmípedes, gritam as galinholas,
grugulam os perus; enquanto teimosamente grunhem a leitoada miúda,
torvelinhante em derredor do monte, fariscando por entre o milho os tenros
mogangos alaranjados tão doces ao dente do bácoro guloso.
De bodoque em punho um rio-branco traquinas, de cor de braúna,
mantém o respeito entre a bicharia ruidosa, arredando a pelotadas
certeiras os insofridos e os brigões.
Toda a fazenda ostenta um aspecto de abundância e fartura. O mantimento
anda a rodo. Cavalos de estimação, pêlo luzidio, garupa
redonda, relincham impacientes no cercado. Nédia e forte aguarda
a boiada o rude labor dos meses da colheita.
Tudo está pronto para o início da safra. Os cafezais prometem.
O ano passado fora de falha; neste a carga é de vergar.
De ponta a ponta do terreiro, indo e vindo, abstraidamente, o fazendeiro
calcula : - "20 contos, pelo menos, líquidos, sejam para reformar
a minha gente, 12 peças de lei, molecotes de 15 a 25 anos, na flor
da idade, cerne puro. Mais duas safras desta, e mando ao diabo a hipoteca
e o Banco".
Entrementes, na alpendrada das senzalas, a um canto, os taquareiros se
ativam; e ao longo dos balaústres, em rumas simétricas,
se alinham as sururucas, os balaios de alqueires, as peneiras rasas de
abanar.
No cafezal :
Está limpa e ciscada a terra para receber as bagas que transbordarem
das peneiras com a pressurosa apanhação... porque em principio
de colheita a tarefa é alta e o Maurício feitor aperta o
serviço, a estralos de relho sobre o lombo nu da negrada, que escorre
em suor , encrostado de poeira, alternadamente mordido, - de manhã,
pelo frio orvalho que esborrifa das árvores, - alto dia pela soalheira
que mordica a pele como a dentada cáustica da formiga-monjolo.
Os cafeeiros, vermelhos de frutos, deixam vergarem-se os galhos flexíveis.
É uma carga enorme !
- "Desta vez tiro o pé do lodo", continua meditando o
fazendeiro, indo e vindo, abstraído, inteiramente alheio àquela
grande alacridade que em derredor barulha por todo o vasto terreiro entre
a criação doméstica...
*
**
Domingo, ao entardecer,
o sino da fazenda tocou à forma geral.
Vieram depressa os moços, trotando; depois as negras, com as crias
novas ao colo, arrastando pela mão um ou dois ingênuos seminus
e magritos; por último, com trôpego passo, os sexagenários,
alquebrados veteranos do eito, perrengada inválida e inútil.
- Salva ! manda o feitor.
- Vaássunscristo! bradam 50 míseros negros, num clamor uníssono,
vibrante e merencórico, como uma imprecação à
surda justiça de Deus, tantas vezes neste triste ermo bradada,
sem que ninguém a exalce; nem tu, duro egoísmo do senhor
de escravos; nem tu, meigo coração de esposa; nem vós,
inconscientes e insensíveis ainda crianças que ides crescendo
no espetáculo e nos exemplos desta dolorosa infâmia, que
veio de vossos pais e que haveis de legar a vossos filhos!... Ninguém,
ninguém te exalça, melancólico brado de angústia;
e tu não irás mais alto nem mais longe do que vão
o mugido dos bois e o ladrar dos cães; e te perderás, voz
animal que tu és, entre as outra vozes da animalidade que te rodeia,
no ar morto e sem ecos da Fazenda !
- Vaássunscristo !...
Em seguida, faz-se a distribuição anual da roupa : dois
parelhos de algodão, japona de baeta, coberta de lã grosseira;
porque o dono desta Fazenda é generoso ... outro fora, e dar-te-ia,
pobre pária, para cobrir-te a nudez lutulenta - de manhã,
o frio nevoeiro cortante dos eitos - alto dia, o sol que te mordiça
a pele como a penugem cáustica da urtiga.
No dia seguinte tinha de dar-se princípio à colheta.
Para que a solenidade fosse completa distribuiu-se pelos negros aguardente
e fumo, indo o Maurício com a canequinha de lata, ao longo da fila,
dando a cada qual um gole, que o negro sorvia com a beatitude de um padre
emborcando o cálice consagrado.
- "Agora, disse o Fazendeiro, indicando com o cabo do relho a melhor
peça da fila : amanhã começa a apanhação;
Gobá é o tarefeiro . No cafezal novo a tarefa , 10 alqueires.
Cada alqueire que passar dos dez, - duzentos réis; cada alqueire
que faltar, - uma dúzia de couro. Ouviram ?"
- - "Si siô ! responde o eito num só grito com o automatismo
dos entes em cujas almas a diuturnidade da escravidão sob o regime
cru das senzalas obliterou a pouco e pouco, e de todo, o sentimento da
personalidade.
Vergonhosamente, nesta pátria aviltada, a promiscuidade é
a lei capital que regula as relações do amor entre a escravatura.
Raro fazendeiro - ainda hoje ! - permite o casamento religioso aos seus
negros. Como em certas hipóteses o moderno direto pátrio
concede vantagens manumissórias aos cônjuges escravos, o
fazendeiro, receioso dos efeitos, obsta à aparição
da causa impedindo o sacramento, que - demais - ele considera como um
luxo de dignidade supérfluo para a honra do preto.
Todavia, pois que é conveniente no próprio interesse da
disciplina das senzalas, aparentar alguma moralidade, os nossos grandes
proprietários rurais, alguns deles portadores de títulos
de nobreza consentem (quando pessoalmente não promovem) o concubinato
entre a escravatura.
Alguns levam a solicitude ao excesso de eles próprios designarem
os nubentes e sacramentarem o conúbio, com a tranquila consciência
de quem exerce dentro do seu latifúndio uma legítima função
senhorial; outros deixam aos próprios interessados os cuidados
da eleição.
Estes curiosos casamentos, nota simultaneamente cômica e torpe dos
nossos costumes agrícolas, dão-se com a maior frequência
na época da colheita do café ; e são , principalmente
com referência às mulheres, determinados mais por um cálculo
interesseiro do trabalho do que pelo intuito genésico ou pelos
impulsos naturais da simpatia.
O que importa para interesse da Fazenda é "aparelhar-se a
gente", formando de um negro diligente e dextro com uma crioula morosa
e inábil - uma entidade mixta, espécie de trabalhador andrógino
cujos constituintes perfeitamente se equilibrem para o exercício
desta suprema função agrícola - dar a tarefa marcada.
Fazendeiros há, de tanta sagacidade no arranjo destas delicadas
equações da aritmética rural, que , possuindo no
eito, entre peças de lei (do preço de 2 a 3 contos) e velhos
perrengues ( herdados da fazenda paterna) apanhadores que tiram por dia
até 16 alqueires nos cafezais carregados, quando outros nem à
força de relho chegam a atingir 3 ou 4 balaios; - entretanto, por
meio da referida organização conjugal sabiamente exploradas,
conseguem obter o equilíbrio do eito , do que resultam napreciáveis
vantagens.
Bem hajas, prole maldita de Cham , que nos libertas , a nós que
no cimo do Ararat soubemos pela sizudez dos nossos avós bíblicos
conter o riso ante a descompostura vínica do papai Noé;
bem hajas, prole bendita , que amassa o nosso pão com o suor do
rosto.
*
**
Tecla é a mulata mais bonita da fazenda. Sob os seus precoces treze
anos borbulha o ardente sangue mestiço, inflando-lhes as veias
que serpenteiam túmidas debaixo da pele acobreada, pubescente,
de tons quentes como os do gerivá, verdoengo. - "Flor de cafeeiro",
deve ser colhida pelo melhor apanhador de todo o eito.
Pedro Gobá, de Olinda, veio num comboio escolhido a dedo, de gente
de primeira ordem. Moço atlético, retinto, forte e dócil,
é a melhor peça dentre toda a escravatura. Para tocar uma
enchada, cantando uma cantilena triste, morro acima, num eito de mato
bravo, ninguém como ele !
No manejo da foice, à roçada de um guaixumal de pasto velho,
nem o Peroba o acompanha : e , entretanto era Peroba o melhor crioulo
da redondeza, antes de aparecer o Gobá.
Naquele dia inicial da colheita, Tecla - a flor do cafeeiro, bonita e
indolente na exuberante precocidade dos seus treze anos, foi escolhida
por Gobá, o tarefeiro , rei da negrada.
Casou-os o Balbino, velho africano feiticeiro e manhoso, puxador do Terço,
que exercia na fazenda um arremedo de funções sacerdotais.
Era ele quem paramentado com uma sobrepeliz por cima de uma batina de
seda - feita de um dominó carnavalesco que lhe dera o senhor moço
estudante em São Paulo - casava os parceiros, todos os anos , em
véspera da colheita, no oratório da Fazenda, perante um
Cristo envergonhado da sua impotência para aliviar a miséria
da raça negra maldita, condenada pelo Padre Eterno da legenda bíblica
a eternamente trabalhar em benefício nosso, dos que temos pais
fazendeiros e contamos por avós históricos - Sem e Jafet.
Tecla, confiada no esforço dedicado do marido, acompanhava-o entre
os arruados dos cafeeiros, toda atenta a resguardar dos galhos secos o
seu vestido de chita, por que se não rasgasse; e esquecida da tarefa
, ia cantarolando, eito acima , a mesma toada triste da cantiga do marido.
Gobá excedia-se de diligência para colher a tarefa sua e
da mulher.
Ao largar o serviço à noitinha , contou as chapas que o
feitor lhe dera a cada balaio de café levado ao monte : eram 15
. Depois contou as da Tecla : eram 3. Faltavam duas para inteirar a tarefa
da companheira : e o senhor bem lhes havia avisado :
- "O que faltar para 10 , uma dúzia de relho por alqueire
! ..."
À noite , na forma , recebiam-se as chapas da tarefa. Dois moleques,
nas extremidades da fila , suspendiam ao ar tachos de taquaraseca em labaredas.
A negrura daquela mísera gente , ao clarão do fogo, mais
negra ainda se tornava Cabisbaixos, mudos, iam entregando os discosinhos
de Flandres, à proporção que o Maurício os
tomava , passando-os depois , para verificação, ao feitor
do terreiro. Sob o alpendre da casa, a família dos brancos assistia
curiosa contagem :João Cassange , 10.Pedro Creoulo, 12.Nazário,
11.Tecla , 8.
E o Maurício , feitor prático , tomando o seu grande relho
de couro trançado , intimou :Tecla fora de forma.
Era o primeiro castigo por falta de tarefa , crime imperdoável
na alta justiça dos fazendeiros.
Tremendo, a mulata , "flor de cafeeiro", mimosa no abrolhar
dos seus treze anos, saiu para a frente da fila, quedou-se imóvel,
erguendo os braços para que o relho vibrado a dois pulsos pudesse
enlaçar-lhe num cíngulo de dor o torso flexível e
esbelto de mestiça nova. Mas antes que a primeira relhada caisse
sobre a carne trêmula daquela criança apenas revestida no
busto pelo fino morim da sua camisa de noivado, Pedro Gobá interpõe-se
, e se ajoelha . - Sinhô ! murmura comovido , com as mãos
postas em súplica, voltado para a família dos brancos o
rosto sempre risonho, agora crispado pelas contrações da
angústia. Sinhô ! repete mais trêmulo ainda.
- Que é lá, negro ? brada o fazendeiro irado ante aquele
ato de indisciplina.
- Sinhô , eu quero apanhar por minha mulher !
- Ah ! negro você conta histórias !...
*
**
Mas antes que ninguém tivesse tempo de mover-se , dominados todos
pela surpresa daquela cena , Gobá , o Pernambucano de raça,
altivo e nobre no íntimo da sua alma admirável , debalde
abafada desde o berço pela dominação dos senhores;
Gobá , a flor da escravatura, manso e bom , subitamente transformado
em homem pelo irresistível impulso da nobreza inata , arranca da
faca e crava-a no coração da mulher.
Depois , enquanto ela tomba inanimada, ele , placidamente, fitando com
um ar de asco a família atônita dos brancos , placidamente
crava a faca ainda rubra e quente no seu próprio coração.
7 / 10 / 87
Correspondência de agradecimento de Ramalho Ortigão:
Rio, 15 de outubro
1887
Meu bom amigo,
Somente ontem , aqui no Rio, li o conto encantador que me dedicou na Província
de São Paulo. Esta página é uma obra prima. Pela
intensidade do colorido e pela vibração do sentimento local
recorda-me alguns trechos da vida rústica da Rússia narrados
por "Tourgueneff" ou por "Tolstoi". Além disso
, para o encanto do
meu ouvido, V. tem o vocábulo o mais precioso, o mais nítido
e o mais forte.
A sua bela prosa neste precioso conto soa como um punhado de moedas de
ouro saidas da cunhagem, ásperas das serrilhas, frescas, reluzentes
e sonoras de têmpera e liga.
Ramalho Ortigão
Pedro Gobá,
de Ezequiel Freire
Fonte:
FREIRE, Ezequiel. "Pedro Gobá". Revista do Arquivo Municipal
de São Paulo. São Paulo, Prefeitura Municipal de São
Paulo, Departamento de Cultura, 16 (131).
Texto proveniente
de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado
por:
José Eduardo Oliveira Bruno - São Paulo/SP
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