A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo V
Estava a subir
o pano.
Amélia
resolvera ficar onde estava, e não tomar o lugar da frente,
apesar de Laura ter voltado a seu camarote. Mas essa
resolução, tão solidamente calcada em seu coração,
caiu de repente: bastou um olhar. Vira na platéia, encostado
à balaustrada da orquestra, um elegante cavalheiro.
Era Horácio.
O sorriso brando
que manava dos lábios da moça, como a onda pura e
cristalina de um ribeiro, desapareceu então sob outro sorriso
mais brilhante, que borbulhava como a frol da cascata. Era o sorriso
da vaidade, como o outro era da inocência.
A moça
colocou-se na frente, fazendo realçar com a graça
de seus movimentos a suprema elegância do talhe. Demorou-se
mais do que era preciso nesse ato; e, sentando-se, houve em seu
corpo um impulso quase imperceptível de misteriosa expansão.
Dir-se-ia que ela se queria debuxar no quadro iluminado do camarote.
A causa desse
elance não o adivinham? O leão tinha assestado seu
binóculo de marfim; e a moça com um irresistível
assomo de faceirice abandonava-se ao olhar do mancebo.
Durante o ato,
Amélia distraiu mais a atenção do semblante
pálido de Leopoldo. Enleava os olhos na figura elegante de
Horácio; prendia-se ao fino buço negro que sombreava
o lábio desdenhoso do leão; embebia-se toda na graça
de sua atitude, tentando assim resistir à curiosidade incômoda
que atraía sua atenção para o importuno desconhecido.
Não sei
por quê, Leopoldo, cuja adoração era infatigável
como a emanação de uma chama perene, sentiu naquela
ocasião a necessidade de dar um repouso à sua contemplação.
Então como se a luz que o deslumbrava se fosse tornando mais
doce, ele pôde ver destacar-se o perfil gracioso da moça.
"Tem o
cabelo castanho! É pena! Acreditava que a mulher a quem amasse
algum dia, havia de ser loura. É a cor do reflexo da luz,
deve ser a cor desse véu casto que Deus fez para o pudor.
A madeixa foi dada à mulher para recatar a face que enrubesce
e o seio que palpita; essa gaza preciosa deve ser de ouro, ou antes
de graça e esplendor."
O moço
já não olhava para Amélia; com as pálpebras
cerradas estava agora vendo-a na penumbra d'alma.
"Mas para
mim é indiferente que tenha o cabelo castanho; podia tê-lo
negro como a treva. Eu a amo, amo sua alma, sua essência pura
e imaculada! Se Deus me enviou um anjo para consolar-me em minha
aflição, para amparar-me em meu isolamento, para encher
de inefáveis júbilos meu ser saturado de amarguras,
posso eu queixar-me por que o Senhor o vestiu de uma simples túnica
de lã, e não de um suntuoso manto de ouro? Eu gostava
dos cabelos louros: pois agora só gosto, só quero,
só vejo uns cabelos castanhos, porque pertencem a ela, se
impregnam de seu perfume e respiram seu hálito!"
Terminara o
ato. Leopoldo, contemplando a moça, pela primeira vez lembrou-se
de saber quem era, na sociedade, aquela mulher que lhe pertencia
pelo pensamento. Tinha-se habituado a considerá-la como uma
coisa sua; parecia-lhe que ninguém mais existia senão
eles dois.
Volveu os olhos
em busca de algum conhecido, a quem dirigisse a pergunta. Não
encontrou; mas ao cabo de alguns instantes descobriu o leão
em seu posto.
"Ah! lá
está Horácio que pode me informar, ele conhece todo
o mundo! Justamente agora pôs o binóculo para o camarote."
Como desejava
sair, dirigiu-se para aquele lado; mas o leão, inquieto e
preocupado, saíra açodadamente, e subia de um pulo
as escadas que o separavam da segunda ordem.
"Aquela
mão é irmã do meu adorado pezinho! Não
tem a graça dele, sem dúvida, nem se compara com aquele
mimo de amor; mas há um certo ar de família, um quer
que seja!..."
Assim cogitando,
Horácio chegara à porta de um camarote, e pela fresta
fitara com disfarce o olhar em Laura, cuja mão, excessivamente
pequena e calçada por uma luva muito justa, custava a segurar
o binóculo de madrepérola.
O moço,
apenas reconheceu o vestido de seda violeta e a mãozinha
que lhe servira de fanal, abaixou o olhar para a fímbria
do vestido a ver se descobria alguma coisa, o peito, a ponta, a
sombra ao menos do pezinho mimoso, do ídolo de sua alma.
Mas não foi possível: o vestido arrastava no chão;
nenhum movimento fazia ondular a seda; e contudo o mancebo ali ficou
imóvel, palpitante de emoção, como se esperasse
dos lábios da mulher amada o monossílabo que devia
decidir de seu destino.
A paixão
que o mancebo concebera pela dona incógnita da botina achada,
longe de se desvanecer, adquirira uma veemência extrema. Horácio,
o feliz conquistador, o coração fogoso e inflamável,
nunca ardera por mulher alguma como agora ardia por aquele pezinho
idolatrado. Era um verdadeiro amor de leão, terrível
e indômito; era um delírio, uma raiva.
Seus amigos
já não o reconheciam; ele aparecia nos bailes, nos
teatros, nos pontos de reunião, de relance, como um meteoro,
seguindo após uma idéia fixa, ou uma sombra que fugia
diante de seus passos. Conversou-se muito na Rua do Ouvidor a este
respeito. Uns atribuíam o fato inaudito à primeira
derrota.
- Horácio,
dizia um de seus amigos, como Napoleão, só devia ser
derrotado uma vez. Mas essa vez foi Waterloo!
- Que pensa
então?
- Que o pobre
rapaz caminha para o seu rochedo de Santa Helena. Ou casa aí
com alguma mulher feia e rica, ou engorda como um cevado.
Outros lembravam-se
de algum desarranjo de fortuna, de alguma veleidade política,
para explicar o mistério. Mas sabia-se que o moço
tinha bom e seguro rendimento; e quanto à política,
ele a comparava a uma embriaguez causada pela mais ordinária
zurrapa de taberna.
Muitas vezes
disse, gracejando, a seus amigos:
- Quando me
quiser embriagar, em vez de zurrapa, beberei champanhe. É
mais fino, e também mais barato, porque não deixa
uma irritação de estômago, cujo preço
é muito superior ao de uma caixa de superior clicquot.
A causa real
da mudança do leão, ninguém pois a sabia nem
a suspeitava.
Depois da achada
da botina, sua vida tomara um aspecto muito diferente. Naquela mesma
tarde em que o deixamos na sua casa de Botafogo, terminado o jantar,
mandou aprontar o tílburi e voltou à cidade. Seu aparecimento
àquela hora na Rua do Ouvidor causou estranheza: um leão
de raça, como ele, não passeia ao escurecer, sobretudo
no centro do comércio, onde só ficam os que trabalham.
Seria misturar-se com os leopardos que aproveitam a ausência
dos reis da moda, para restolhar alguma caça retardada.
Correu Horácio
todas as lojas de calçado à procura de informações.
Para disfarçar sua paixão, inventara uma aposta, como
pretexto à sua curiosidade. A um freguês como ele,
não se recusava tão pequeno favor, sobretudo quando
levava o sainete de uma anedota de bom-tom. A todos eles o leão
se dirigia mais ou menos nestes termos:
- Fiz uma aposta
com uma senhora. Que em todo o Rio de Janeiro não se encontram
três moças de dezoito anos que calcem nº 29. Tenho
todo o empenho em ganhar a aposta, não tanto pelos botões
de punho, como porque, se ela perder, há de ser obrigada
a mostrar-me seu pé, para eu verificar se é realmente
desse tamanho. Peço-lhe, pois, que me dê uma nota das
freguesas a quem costuma vender calçado deste número.
Nesta pesquisa
gastou Horácio muitos dias, sem colher o menor resultado.
Os poucos pares de calçado nº 29, vendidos pelas diferentes
lojas, eram destinados a meninas de doze anos ou a pessoas desconhecidas,
cuja idade se ignorava. Apesar de tudo o leão não
desanimava; todas as manhãs, ao acordar, levantava um plano
de campanha, que punha em prática durante o dia.
Horácio
sentira-se de repente tomado de indefinível ternura por uma
classe, de que antes só se lembrava para amaldiçoá-la:
a classe dos sapateiros. Quando via um sujeito de avental de couro
e sovela, o leão sentia-se atraído para aquele indivíduo,
que talvez encerrasse o segredo de sua felicidade, seu futuro, sua
existência. Outras vezes, porém, tinha de repente uns
acessos de ciúme selvagem. Lembrando-se que esse operário
talvez já houvesse tomado medida ao adorado pezinho, que
essas mãos calosas teriam tocado a cútis acetinada
do anjo de seus pensamentos, o mancebo sentia em si o furor de Otelo
e procurava um punhal no seio; felizmente só achava a carteira,
a adaga de ouro com que neste século se assassina mais cruelmente.
Depois de consumir
as horas em suas indagações, ia contemplar a botina,
prenda querida de seu amor, e prosseguia à noite sua porfia
incansável. Corria os espetáculos e bailes, com o
olhar rastejando para descobrir por baixo da orla do vestido, o
ignoto deus de suas adorações. Não dançava
para observar melhor o arregaçado dos vestidos; de ordinário
andava pelas escadas e portas, a fim de aproveitar o ensejo da subida
e descida; muitas vezes ia fumar junto ao lugar onde se colocavam
os lacaios, na esperança de conhecer o portador da botina.
Quando as rainhas
da moda, as deusas do salão, surpresas e atônitas,
o viam passar sem distingui-las com uma palavra ou uma fineza, ele,
atirando-lhes um olhar de compaixão, dizia consigo:
"Coitadas!
não sabem que o leão viu a pata da gazela e fareja-lhe
o rasto. Que lhe importam as garras da pantera?..."
Recolhendo,
Horácio acendia duas velas transparentes e colocava-as a
um e outro lado da almofada de veludo escarlate, sobre uma mesinha
de charão, embutida de madrepérolas. Tirava de um
elegante cofre de platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza
deitava-a sobre a almofada, de modo que se visse perfeitamente a
graciosa forma do pé que habitara aquele ninho de amor.
Então
acendia o charuto, sentava-se numa cadeira de espreguiçar,
defronte, porém distante, para que o fumo não se impregnasse
na botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação
até alta noite.
Sobre aquela
botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de estátua,
mas vago, indistinto; e contudo esse esboço sem formas sedutoras,
aquela sombra sem alma e sem calor, lhe parecia de uma beleza deslumbrante.
Não era ela a mulher a que pertencia o mais formoso pé
do mundo, o mimo, a obra-prima da natureza?
Recordava-se
das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas senhoras
a quem amara com paixão, e sua memória as trazia todas,
uma após outra, para as colocar ao lado daquela figura vaga
e desvanecida, que planava sobre a almofada como sobre uma nuvem
de ouro. Como elas fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso
desdém!
"Não
são dignas", murmurava ele, "nem de beijarem o
chão pisado pela fada desta botina"!
Eis qual tinha
sido a vida de Horácio até o momento em que o vamos
encontrar no mesmo lugar defronte da porta entreaberta do camarote.
Laura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A atenção
do rei da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe
agradecer.
Fitando com
mais força o olhar na pupila da moça como para travar-lhe
da vontade, Horácio abaixou lentamente esse olhar até
a fímbria do vestido de chamalote com uma insistência
significativa. Laura fez-se escarlate; e a porta do camarote, rapidamente
fechada, a subtraiu às vistas ardentes do leão.
"É
ela!" exclamou o coração do mancebo afogado em
júbilo. "Não há dúvida. Para sentir
esse pudor exagerado e incompreensível, é preciso
ter ali oculto um pé como aquele que eu sonhei. Um pé?...
Não; um mimo, uma maravilha, um tesouro, um céu!...
É o pudor da violeta, que se esconde na sombra; é
o pudor da pérola, oculta na concha; é o pudor do
diamante, sumido no seio da terra; é o pudor da estrela,
imergindo-se no azul."
O leão
desceu as escadas murmurando:
"Vê-lo
e morrer."
Pouco depois
terminou o espetáculo. Amélia com um ressaibo de melancolia
na fronte, embuçou-se na peliça e desceu. Ela perdera
de vista Horácio, e só o tornara a ver parado em frente
à porta do camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do
gentil mancebo, sofrera todo o resto do espetáculo o desassossego
que lhe incutia o olhar de Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto,
sentia a fosforescência estranha desse olhar repulsivo, que
entretanto a prendia, mau grado seu.
Leopoldo esperava
no corredor da entrada a passagem da moça, quando avistou
a seu lado Horácio. O leão sôfrego e impaciente
volvia o olhar em várias direções; naturalmente
procurava alguém, e receava que lhe escapasse.
- Adeus, Horácio.
- Boa-noite,
Leopoldo.
Amélia
apareceu nesse momento.
- Conheces aquela
moça, Horácio?
- Qual?... Espera!
Horácio
tinha avistado Laura, que descia o lanço da escada oposta,
e correra pressuroso, com os olhos fitos na fímbria de seda.
Seu olhar tinha tal força que parecia um croque a levantar
a orla do vestido. Debalde; nem a sombra do pé: o encorpado
estofo arrastava pesadamente pelo chão.
Chegou a moça
à porta, onde o carro a esperava. Horácio teve um
vislumbre de esperanças, porém nova decepção
o esperava. Não viu mais do que uma nuvem de sedas ondular
e sumir-se.
O leão
fez um movimento de desespero.
"Senhor!
por que em vez de homem não me fizeste estribo de um carro!
Teria a felicidade de ser pisado por aquele pezinho."
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