A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo III
Ninguém
imagina que belos talentos sorve essa voragem do mundo, que chamam
a vida elegante.
São como
as árvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e
consomem toda a seiva nessa gala estéril e efêmera.
Nunca elas dão fruto, nem sequer flor.
Horácio
de Almeida era uma de tantas inteligências desperdiçadas
no incessante bulício da moda.
Muitos poetas,
dos que têm seu nome estampado em rosto de livro, não
empregaram na fábrica de seus versos o aticismo, a inspiração
e a graça com que o nosso leão torneava no baile um
galanteio, ou aguçava um epigrama.
Pintores são
festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados
e do supremo gosto, que Horácio imprimia no laço de
sua gravata, em suas maneiras distintas, nos mínimos acidentes
de seu trajo apurado.
E a fisiologia?
Poucos homens
conheciam como Horácio o coração da mulher;
porque bem raros o teriam estudado com tanta assiduidade. O mais
sábio professor ficaria estupefato da lucidez admirável,
com que o leão costumava ler nesse caos da paixão,
que a anatomia chamou coração de mulher.
A razão
é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as
obras dos mestres, coligiu observações alheias, e
arranjou um sistema sobre o que não sofre regras: sobre a
paixão cuja essência é o imprevisto, o anômalo,
o indefinível.
Ao contrário,
Horácio tinha estudado na realidade da vida; devassara os
refolhos do pólipo, lhe sentira as pulsações,
e fizera experiências in anima vili. Não fatigou sua
memória com a inútil bagagem dos termos técnicos
e das noções científicas: lia os hieróglifos
do amor com a linguagem garrida do homem da moda.
A perspicácia
do olhar, a profundeza da investigação e a certeza
de observação, com que o nosso leão sondava
o abismo do coração e rastreava no semblante da mulher
os vagos sintomas de uma inclinação nascente, ou de
uma afeição expirante, só os grandes médicos
possuem tão altos dotes.
Assim gastava
Almeida a mocidade, desfolhando seu belo talento pelas salas e pontos
de reunião. As riquezas de sua elevada inteligência,
as ia ele esparzindo nas elegantes futilidades de um ócio
tão laborioso, como é o far niente de um leão.
Consumir o tempo
não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo pesado
das horas sem ocupação; há nada mais difícil
para o homem que ignora o trabalho?
Se o Almeida
poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos
no dia para dedicá-los a um fim sério e útil,
à ciência, à literatura, à arte, que
belos triunfos não obteria sua rica imaginação
servida por um espírito cintilante?
Mas o nosso
leão tinha a este respeito idéias excêntricas.
"A política",
dizia ele, "quando não dá em especulação,
passa a mistificação. A ciência, se escapa de
mania, torna-se uma gleba em que o sábio trabalha para o
néscio. Literatura e arte são plágios; quem
pode fazer poesia e romance ao vivo, não se dá ao
trabalho de reproduzi-los; nem contempla estátuas, quem lhes
admira os modelos animados e palpitantes".
Com tais paradoxos,
Horácio não achava emprego mais digno para a inteligência,
do que a difícil ciência de consumir gradualmente a
vida e atravessar sem fadiga e sem reflexão por este vale
de lágrimas, em que todos peregrinamos.
A mulher era
para ele a obra suprema, o verbo da criação. Toda
a religião como toda a felicidade, toda a ciência como
toda a poesia, Deus a tinha encarnado nesse misto incompreensível
do sublime e do torpe, do celeste e do satânico: amálgama
de luz e cinzas, de lodo e néctar.
"Amar é
adorar a Deus na sua ara mais santa, a mulher. Amar é estudar
a lei da criação em seu mais profundo mistério,
a mulher. Amar é admirar o belo em sua mais esplêndida
revelação; é fazer poemas e estátuas
como nunca as realizou o gênio humano."
Mas o que sentia
Horácio era apenas o culto da forma, o fanatismo do prazer.
O amor, o verdadeiro
amor consiste na possessão mútua de duas almas; e
essa, pode o homem iludir-se alguma vez, mas quando se realiza,
é indissolúvel. Nada separa duas almas gêmeas
que prende o vínculo de sua origem divina.
O mancebo admirava
na mulher a formosura unicamente: apenas artista, ele procurava
um tipo. Durante dez anos atravessara os salões, como uma
galeria de estátuas animadas e vivos painéis, parando
um instante em face dessas obras-primas da natureza.
Vieram uns após
outros todos os tipos: a beleza ardente das regiões tépidas,
ou a suave gentileza da rosa dos Alpes; o moreno voluptuoso ou a
alvura do jaspe; a fronte soberana e altiva ou o gesto gracioso
e meigo; o talhe opulento e garboso ou as formas esbeltas e flexíveis.
Seu gosto foi-se
apurando; e ao cabo de algum tempo tornou-se difícil. A beleza
comum já não o satisfazia; era preciso a obra-prima
para excitar-lhe a atenção e comovê-lo.
Mas os sentidos
se gastam; os mesmos primores da formosura caíram na monotonia.
Já o leão não sentia pela mais bela mulher
aqueles entusiasmos ardentes da primeira mocidade. Seu olhar era
frio e severo como o de um crítico.
Então
começou o moço a amar, ou antes a admirar, a mulher
em detalhe. Sua alma embotada carecia de um sainete. Foi a princípio
uma boca bonita, cofre de pérolas, de sorrisos, de beijos
e harmonias. Veio depois uma trança densa e negra, como a
asa da procela que se inflama. Uma cintura de sílfide, um
colo de cisne, um requebro sedutor, um sinal da face, uma graça
especial, um não-sei-quê: tudo recebeu culto do nosso
leão.
Como um conviva,
a quem as iguarias do banquete já não excitam, sua
alma babujava na sala essas gulosinas. Mas afinal embotou-se; e
o prazer não foi para ela mais do que a vulgar satisfação
de um hábito.
O moço
cortejava as senhoras como uma ocupação indispensável
à sua vida, como o desempenho da tarefa diária; mas
sem a menor comoção.
Amar era um
entretenimento do espírito, como passear a cavalo, freqüentar
o teatro, jogar uma partida de bilhar.
O amor já
não tinha novidades nem segredos para ele, que o gozara em
todas as formas; na comédia e no drama; no idílio
e na ode. Como Richelieu, diziam até que ele já o
havia calcado com o tacão da bota.
Nestas circunstâncias
bem se compreende a impressão profunda que nele produzia
a mimosa botina, achada naquela manhã.
Almeida tinha
admirado a mulher em todos os tipos e em todos os seus encantos;
mas nunca a tinha amado sob a forma sedutora de um pezinho faceiro.
Era realmente para surpreender.
Como lhe passara
despercebido esse condão mágico da mulher, a ele que
julgava ter esgotado todas as emoções do amor?
Sucedeu, como
era natural, que uma vez percutidas as energias dessa alma enervada
por longa apatia, a reação foi violenta. Inflamou-se
a imaginação e especialmente com o toque do mistério
que trazia a aventura. Se o dono da botina, o sonhado pezinho, se
mostrasse desde logo, não produziria o mesmo efeito; não
teria o sabor do desconhecido, que é irmão do proibido.
Imagine, quem
conhecer o coração humano, a veemência dessa
paixão, excitada pelo tédio do passado e alimentada
por uma imaginação ociosa. De que loucuras não
é capaz o homem que se torna ludíbrio de sua fantasia?
As extravagâncias
de Horácio, contemplando a botina, verdadeiras infantilidades
de homem feito, bem revelavam a agitação dessa existência,
embotada para o verdadeiro amor e gasta pelo prazer.
Não se
riam, homens sérios e graves, não zombem de semelhantes
extravagâncias; são elas o delírio da febre
de materialismo que ataca o século.
Essa paixão
de Horácio, o que é senão uma aberração
da alma, consagrada ao culto da matéria? A voracidade insaciável
do desejo vai criando dessas monstruosidades incompreensíveis.
Sucede a esta
embriaguez do amor o mesmo que à embriaguez do álcool.
A princípio basta-lhe o vinho fino e aristocrático;
depois carece da aguardente; e, por fim, já não a
satisfaz a infusão de gengibre em rum, isto é, a lava
de um vulcão preparada à guisa de grogue.
Capítulo IV
Ao mesmo tempo
que o nosso leão, entrava Leopoldo de Castro na modesta habitação
que então ocupava na Glória.
Quando lhe fugira
a celeste visão, o mancebo foi seguindo com o passo e com
os olhos o carro que levava sua alma presa àquele rosto encantador.
O passo era rápido e o olhar ardente; um ansiava por chegar;
o outro quisera atrair pela força da paixão, pelo
ímã das centelhas magnéticas que desferia a
alma.
Fosse ilusão
dos sentidos perturbados pela comoção interior, ou
breve e confusa percepção da realidade, julgou o moço
ver, no momento do dobrar o carro pela Rua Sete de Setembro, um
talhe esbelto inclinar-se para a frente, e aparecer de relance um
rosto alvo, donde escapou-se vivo e rápido olhar.
Leopoldo não
tinha o intento de alcançar, nem mesmo seguir, o carro que
fugia com velocidade; mas embalava-o a esperança de que um
obstáculo qualquer, impedindo por instantes o livre trânsito,
lhe permitisse outra vez contemplar a moça. Quando, porém,
isso não sucedesse, consolava-o a idéia de conhecer
a direção que tomaria a linda vitória.
"Se eu
soubesse ao menos para que lado mora ela!... Esse ponto seria o
meu horizonte, o meu céu. Eu me voltaria para ali quando
adorasse a Deus e quando conversasse com ela. Amaria as estrelas,
as nuvens e até as borrascas dessa banda do firmamento; amaria
as ruas, as calçadas e até a poeira desse arrabalde
da cidade."
O mancebo vagou
assim durante duas horas, percorrendo as ruas sem destino. Não
era tanto a esperança de ver a moça, ou somente o
carro, como a necessidade de ocupar seu espírito, o que o
impelia nessa perseguição de uma sombra.
"Eu tornarei
a vê-la", pensava ele consigo; "e ela me há
de amar, tenho convicção. O amor é um magnetismo;
eu acredito que o magnetismo se resume nele; que a lei da atração
não é senão a lei da simpatia; os pólos
são a cabeça e o coração, na terra como
no homem. Se ela for a mesma que eu vi com os olhos de minha alma,
a mesma que se revelou à minha paixão, aquela a que
devo unir-me eternamente para formar um ser mais perfeito, eu caminharei
para ela, como ela para mim, impelidos por uma força misteriosa,
por mútua aspiração".
Com o ânimo
repousado por essa convicção que nele se derramara,
entrou Leopoldo em casa. Aí o esperava o isolamento em que
se ia escoando sua vida, depois da perda de uma irmã a quem
adorava.
Nessa irmã
tinha ele resumido todas as afeições da família,
prematuramente arrebatada à sua ternura; o amor filial, que
não tivera tempo de expandir-se, a amizade de um irmão,
seu companheiro de infância, todos esses sentimentos cortados
em flor, ele os transportara para aquele ente querido, que era a
imagem de sua mãe.
Essa perda deixara
um vácuo imenso no coração de Leopoldo; a princípio
enchera-o a dor, depois a saudade; agora essa mesma terna saudade
sentia-se desamparada na profunda solidão daquele coração
ermo. O mancebo carecia de uma afeição para povoar
esse deserto de sua alma, de uma voz que repercutisse nesse lúgubre
silêncio. É tão doce partilhar sua melancolia,
ou seu prazer, com um outro eu, com um amigo ou uma esposa. São
dois ombros para a cruz, e dois peitos para a alegria; alivia-se
o peso, mas duplica-se o gozo.
Ao cair da tarde,
quando o crepúsculo já desdobrava sobre a cidade o
véu de gaza pardacenta, Leopoldo, sentado à janela
de peitoril de sua casa, fumava um charuto, com os olhos engolfados
no azul diáfano do céu, onde cintilava a primeira
estrela. A seus pés desdobrava-se a baía plácida
e serena como um lago, com a sua graciosa cintura de montanhas,
caprichosamente recortadas.
O espírito
do moço não se embebia decerto na perspectiva dessa
encantadora natureza, sempre admirada e sempre nova. Ao contrário,
abandonava-se todo às recordações de seu encontro
pela manhã e aos enlevos que lhe deixara a contemplação
da linda moça. Passava e repassava em sua memória,
como em um cadinho, todas as circunstâncias mínimas
deste grande e importante acontecimento, desde o momento em que
assomou a visão até que desapareceu por último
ao dobrar o canto da rua.
Achava nisso
o mesmo prazer, que um menino guloso experimenta em chupar novamente
os favos já saboreados: lá ficou um raio de mel, que
o lábio ávido colhe. Para Leopoldo, esses raios de
mel eram os olhares, os movimentos, os sorrisos da moça,
avivados pela maior contensão do espírito.
Houve uma ocasião
em que o mancebo quis representar em sua lembrança a imagem
da moça; naturalmente começou interrogando sua memória
a respeito dos traços principais. Como era ela? Alta ou baixa,
torneada ou esbelta, loura ou morena? Que cor tinham seus olhos?
A nenhuma dessas
interrogações satisfez a memória; porque não
recebera a impressão particular de cada um dos traços
da moça. Não obstante, a aparição encantadora
ressurgia dentro de sua alma; ele a revia tal como se desenhara
a seus olhos algumas horas antes. Era a imagem diáfana de
um sonho que tomara vulto gracioso de mulher.
"Não
me lembro de seus traços, não posso lembrar-me!...
Eu a contemplei, como se contempla uma luz brilhante: vê-se
a chama, o esplendor, e nem se repara no espectro que a flama envolve
como uma roupagem. Ela é minha luz; não sei a cor
e a forma que tem, mas sei que cintila, que me deslumbra; que inunda
meu ser de uma aurora celeste. Não poderia descrevê-la,
como um poeta... Mas que importa? Pois que eu a sinto em mim; pois
que eu a possuo em meu coração?"
As pálpebras
do mancebo cerraram-se coando apenas uma réstia de olhar,
que se embebia nas alvas espirais da fumaça do charuto. Percebia-se
que naquela névoa se debuxava à sua imaginação
a sedutora imagem, diante da qual ele caía em êxtases
de uma doçura inefável.
"Quem sabe?
Talvez não seja ela o que nos bailes se chama uma moça
bonita; talvez não tenha as feições lindas
e o talhe elegante. Mas eu a amo!... O amor é sol do coração;
imprime-lhe o brilho e o matiz! Vênus, a deusa da formosura,
surgindo da espuma das ondas, não é outra coisa senão
o mito da mulher amada, surgindo dentre as puras ilusões
do coração! O que eu admiro nela, o que me enleva,
é sua beleza celeste; é o anjo que transparece através
do invólucro terrestre; é a alma pura e imaculada
que se derrama de seus lábios em sorrisos, e a envolve como
a cintilação de uma estrela."
Leopoldo já
não estava só na existência; tinha para acompanhá-lo
na esperança essa doce aparição, como para
partilhar a saudade tinha a memória querida de sua irmã.
O coração aproximou as duas imagens; ligou-as por
algum vínculo misterioso; e criou assim uma família
ideal, em cujo seio viveu para o futuro, como para o passado.
Nas horas do
trabalho, o moço absorvia-se completamente nas ocupações
habituais e cerrava sua alma para não deixar que as misérias
do mundo aí penetrando profanassem o templo de sua adoração,
o templo da esperança e da saudade. Fora dessas longas horas,
encerrava-se naquele asilo e aí vivia.
Alguns dias
depois do encontro da Rua da Quitanda, o Castro, percorrendo distraidamente
os jornais da manhã, deu com os olhos sobre os anúncios
de espetáculo, coisa que desde muito tempo não existia
para ele. Representava-se no Teatro Lírico a Lucia de Lammermoor,
o mais sublime poema de melancolia, que já se escreveu na
língua dos anjos.
O mancebo teve
um desejo irresistível de ir aquela noite ao espetáculo,
apesar de conservar ainda o luto pesado. Não compreendia
esse capricho de seu coração; atribuiu-o ao encanto
das reminiscências daquela música tão triste,
e também daquele amor tão estremecido, que os homens
quiseram romper, mas a fatalidade uniu para sempre no túmulo.
Ele ia saturar-se de tristeza; não havia, portanto, profanação
de uma dor santa.
Eram perto de
dez horas; cantava-se o final do segundo ato da ópera, e
Leopoldo, sentado em uma cadeira, do lado direito, estava completamente
absorvido no canto magistral de Lagrange e Mirati. Um momento, porém,
ergueu os olhos, e, volvendo-os lentamente, fitou-os em um camarote
de segunda ordem. Estremeceu; o olhar morno e baço que se
escapava de sua pupila iluminou-se de fogos sombrios e ardentes.
Vira a mulher
amada.
Amélia
estava nessa noite em uma de suas horas de inspiração;
a mulher bela tem, como o homem de inteligência, em certos
momentos, influições enérgicas de poesia; nessas
ocasiões ambos irradiam: a mulher fica esplêndida,
o homem sublime.
O talhe esbelto
da moça desenhava-se através da nívea transparência
de um lindo vestido de tarlatana com laivos escarlates. Coroava-lhe
a fronte o diadema de suas belas tranças, donde resvalavam
dois cachos soberbos, que brincavam sobre o colo. Os cabeleireiros
chamam esses cachos de arrependimentos, repentirs. Por que motivo?
A alma que se arrepende convolve-se daquela forma; o pesar a confrange.
Já se vê que os cabeleireiros também são
poetas.
Não foi,
porém, o suave perfil da moça, nem os contornos macios
de suas formas gentis, o que arrebatou o espírito do mancebo.
Ele só viu a luz, o brilho d'alma, rorejando do sorriso.
Contemplava a rosa, embebia-se nela, sem contar-lhe as pétalas.
Amélia,
que apoiava o lindo braço sobre a almofada de veludo da balaustrada,
prestava atenção à cena, recolhendo às
vezes a vista para discorrê-la vagamente pelos camarotes fronteiros.
Depois que o pano caiu, conservou-se na mesma posição,
conversando com sua mãe e Laura que ali estava de visita.
Então voltou rapidamente o rosto, e deixou cair sobre a platéia
um olhar súbito e vivo. Foi uma centelha elétrica,
listrando no espaço, para logo apagar-se.
Revelou-se no
semblante da moça alguma inquietação e visível
incômodo. Quis disfarçar, mas afinal ergueu-se, para
ocultar-se no interior do camarote, por detrás de Laura,
a qual ocupava o outro lugar da frente.
O olhar que
deitara à platéia encontrou o olhar profundo e ardente
de Leopoldo; e, batendo de encontro a esse raio brilhante, reagiu
como estilete para feri-la no coração.
Leopoldo notou
vagamente esse movimento; mas como entre a coluna e o busto de Laura
ele via a sombra da mulher a quem amava, não se interrompeu
seu enlevo. De vez em quando passava-lhe pelo rosto um lampejo sutil,
no qual pressentia o olhar furtivo da moça.
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