A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo XVI
Fazia uma semana
que Horácio não aparecia em casa de Sales.
Amélia
tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da primeira contentou-se
com um recado; da segunda enviou-lhe uma saudade.
O negociante,
de sua parte, havia passado por casa do moço, que pretextou
um defluxo para justificar sua ausência; e prometeu aparecer
no dia seguinte.
Horácio
compreendia a necessidade de sair da posição difícil
em que se achava, mas debalde procurava um meio. Cansado de cogitar,
entendeu que o melhor era confiar-se à inspiração
do momento.
No dia seguinte
à noite, dirigiu-se à casa do negociante.
As duas senhoras
estavam sentadas junto à mesa; a mãe lia, a filha
pensava. Amélia estava triste, sua mãe supunha que
eram saudades.
Quando Horácio
entrou, D. Leonor o festejou com verdadeiro prazer. Amélia
sentiu um vislumbre de esperança, que iluminou o sorriso
de seus lábios.
- Felizmente!
exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte dos suspiros!
A conversação
começou friamente e foi-se arrastando por algum tempo.
- Não
tem saído? perguntou Horácio depois de uma pausa.
- Não;
Amélia não tem querido.
- Por quê?
perguntou o moço, voltando-se para a noiva.
- Então
não sabe? acudiu D. Leonor.
- Porque não
se ofereceu ocasião, disse Amélia.
- Mas tem recebido
visitas?
- Algumas.
- O Leopoldo
não apareceu?
- Não
freqüenta nossa casa, respondeu a moça.
- Ah!... cuidei.
- Se ele nos
visitasse, o senhor o teria encontrado aqui muitas vezes.
- Podíamos
nos desencontrar, disse Horácio com um sorriso motejador.
Amélia
percebeu que o moço estava procurando um pretexto para despeitar-se.
D. Leonor tendo continuado a leitura interrompida, estava alheia
à conversação.
- Foi em casa
do Azevedo que o apresentaram à senhora?
- Não;
conheço-o de muito tempo; há perto de dois meses.
- De onde, se
não é segredo?
- Segredo, por
quê? Ele freqüenta a casa de D. Clementina que recebe
às quintas-feiras. Constantemente nos encontramos aí.
É uma reunião muito agradável; estamos quase
em família, sem a menor cerimônia.
- Ah! nunca
me convidou para essas reuniões; eu teria muito prazer em
acompanhá-la, mas talvez fosse importuno, como já
vou sendo aqui.
- O senhor está
habituado a viver na alta sociedade; havia de aborrecer-se.
- Mas a senhora
não se aborrecia; ao contrário, divertia-se bastante.
- Alguma coisa.
- E Leopoldo
era seu par?
- Era.
- Par constante?
- Não
sei se era constante ou não; quase sempre ele dançava
comigo, porque lá não há muito onde escolher;
os pares são poucos.
- Ótimo
sistema! Assim não se repara.
- Em quê?
- Em certa assiduidade!
Ainda mesmo que uma moça já tenha noivo arranjado,
há gente que exige da parte dessa moça certa reserva,
porque enfim o outro pode não querer aceitar a responsabilidade
de tudo! É uma impertinência, concordo, mas o mundo
tem destes caprichos.
- Isso se entende
naturalmente com as moças que têm noivo arranjado,
retorquiu Amélia, frisando a palavra, e não com aquelas,
cuja mão se pediu talvez para satisfazer uma simples fantasia.
A moça
levantou-se da mesa, lançando ao leão um olhar desdenhoso,
e foi sentar-se ao piano. Enquanto ela tocava uma variação
de Thalberg, Horácio, para fazer alguma coisa, se entreteve
em arranjar as figuras chinesas de um jogo de paciência. Nunca
ele precisara tanto de prover-se dessa virtude evangélica.
Decorridos alguns
instantes o leão ergueu-se da mesa, deu algumas voltas pela
sala e aproximou-se do piano, como para ver a elegância com
que a moça dedilhava.
- A senhora
acha muito natural, D. Amélia, que uma noiva freqüente
assiduamente uma casa onde não tem entrada o homem com quem
vai casar-se; acha natural que essa moça tenha em tais reuniões
um par efetivo, que provavelmente cultiva uma dessas amizades cândidas
dos romances de Balzac, verdadeiros lírios do vale, que vivem
de orvalhos e de sombras. Eu, porém, sou um espírito
prosaico e material; tenho a infelicidade de não acreditar
na atração misteriosa dos espíritos, no consórcio
ideal das almas irmãs, nos sonhos etéreos, nos eflúvios
celestes, em toda essa gíria sentimental. Para mim, inteligência
grosseira, tudo isso não passa de uma hipocrisia do primeiro
tartufo deste mundo, o amor. É um tiranete que toma todas
as figuras e posições; faz-se menino ou velho, anjo
ou demônio, poeta ou banqueiro... Estou incomodando-a talvez?
- Não;
acabe.
A moça
fazia com uma ligeira surdina o acompanhamento das palavras do leão;
mas, à última frase, ela retirou as mãos do
teclado. Foi esse o motivo da pergunta de Horácio.
- A senhora
deve sentir muito, e Leopoldo com maior razão, de serem privados
de uma distração que tanto lhes agrada!
- Compreendo,
replicou Amélia. O senhor me proíbe que eu vá
à casa de D. Clementina?
- Que idéia!
Não tenho direito de proibir; ainda não sou seu marido;
a senhora é completamente livre de suas ações,
pode ir à casa de D. Clementina, ou onde lhe aprouver; assim
como eu posso, querendo, passar as noites no clube ou no Alcazar.
Amélia
soltou uma risada.
- Pensava que
os leões estavam isentos dessa fragilidade do ciúme.
- Perdão;
não se trata de ciúme, nem sei o que isso é.
A questão reduz-se a uma antipatia de caracteres, a uma contradição
de gênios, que deve ter para o futuro graves conseqüências.
A senhora é idealista, eu sou materialista. Um quisera viver
no mundo dos sonhos, outro neste vale das lágrimas e das
realidades. A senhora, procurando-me no céu entre as estrelas
e os anjos e não me achando aí, sofreria uma cruel
decepção; entretanto, que eu na terra, ficarei reduzido
à sombra da mulher que amei.
- Não
é tão pouco, para quem se contentava com um pé
de criança, disse Amélia com ironia.
- Mas esse pé
era a realidade, a expressão a mais sublime dela!
- Custa-lhe
pouco a possuir essa realidade. Mande fabricá-la em cera:
sairá ainda mais perfeita.
- Ainda não
perdi a esperança de encontrá-la.
O chá
interrompeu o diálogo. Os dois noivos aproximaram-se da mesa
oval, onde o criado acabava de colocar a bandeja.
A fisionomia
de Amélia perdera a expressão de tristeza e desânimo
que tinha a princípio; a conversa lhe deixara no semblante
alguns tons vivos.
Ocupada em dispor
as xícaras para enchê-las, os gestos sempre macios
da moça revelavam certa crispação nervosa.
Horácio
ficara contrariado, porque não tivera tempo de precipitar
o casus belli. Receava que se demorasse ainda o rompimento que ele
tanto desejava.
- Mamãe,
disse Amélia com intenção, amanhã é
quinta-feira. Vamos passar a noite em casa de D. Clementina?
- Se quiseres.
- Não
devemos faltar; deixamos de ir a semana passada.
- Foi logo depois
do baile do Azevedo.
- Não
o convido, disse Amélia voltando-se para Horácio,
porque o senhor não freqüenta essas reuniões
de gente pobre.
- Sem dúvida;
tenho medo de evaporar-me em devaneios e suspiros, respondeu Horácio,
cruzando com a moça um olhar de desafio.
Ele sentiu que
Amélia o provocara e exultou. A moça estava disposta
a resistir; o rompimento era infalível e pronto.
- Eu gosto bem
dessas partidas; a noite passa tão agradável.
Aproveitando-se
de um momento em que D. Leonor se afastou, Horácio atirou
à moça rapidamente estas palavras:
- Pois se a
senhora voltar à casa de D. Clementina, eu não voltarei
mais aqui.
Amélia
estremeceu.
Um quarto de
hora depois, Horácio retirou-se. Quando se despedia das senhoras,
disse o leão à moça apertando-lhe a mão:
- Desejo que
se divirta muito amanhã.
- Aonde? perguntou
D. Leonor.
- Em casa de
D. Clementina. Não vai, D. Amélia?
A moça
hesitou um instante. O ofego de seu colo traiu uma luta violenta,
mas rápida.
Sua resolução,
antes que ela a exprimisse, manifestou-se na altivez do porte, que
uma vibração íntima erigira.
- Vou sem falta!
Horácio,
soltando a mão da moça, que foi bater inerte nos folhos
do vestido, cortejou profundamente:
- Seja muito
feliz.
Apenas o leão
desapareceu na porta, Amélia, abraçando e beijando
a mãe, subiu precipitadamente à sua alcova; atirou-se
a uma conversadeira e desafogou em pranto e soluços a dor
que tinha recalcado desde muitos dias.
A maior parte
da noite foi para ela de vigília. Viu correrem as horas;
cada momento que se escoava era uma esperança, uma ilusão
que se desfolhava da flor viçosa de sua alma.
Aqueles que
se separam das pessoas ou dos sítios queridos, conhecem bem
esse travo de coração que chamamos saudade; e sabem
quanto é cruel o momento da separação.
Mas não
há despedida cruciante como seja a da alma pelo amor que
nutriu durante muito tempo. Há aí mais do que uma
separação: é quase a mutilação
moral.
Amélia
compreendera que tudo acabara entre Horácio e ela. Desde
o dia do jantar receara esse resultado; mas ainda alimentava uma
esperança. Naquela noite a esperança murchara, se
não foi ela própria, Amélia, quem a desfolhara.
Agora, na calada
da noite, em sua alcova que lhe parecia um ermo, ela tinha medo
do isolamento em que se achava. Algumas vezes sua alma sentia-se
como que asfixiada pelo silêncio e pela treva que a submergiam.
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