A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo XIII
A casa nobre
de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da Corte concorrera
ao suntuoso baile.
Toda a aristocracia,
a beleza, o talento, a riqueza, a posição e até
a decrépita fidalguia estavam dignamente representadas nas
ricas e vastas salas, adereçadas com luxo e elegância:
duas coisas que nem sempre se encontram reunidas.
Eram nove horas.
Ainda o baile não começara; e notava-se na reunião
a gravidade solene, o grande ar de cerimônia, que serve de
prólogo às festas esplêndidas. Os cavalheiros
percorriam lentamente as salas, observando o íris deslumbrante
que formavam os lindos vestidos das senhoras; mas admirando especialmente
as estrelas que brilhavam nessa via-láctea.
Amélia
acabava de sentar-se.
Horácio
foi logo saudá-la, e cumprimentou-a pelo bom gosto e delicadeza
de seu trajo.
Realmente não
se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era de escumilha
rubescente, formando regaços onde brilhavam aljôfares
de cristal; nos cabelos castanhos trazia uma grinalda de pequenos
botões de rosa, borrifados de gotas de orvalho.
Um poeta diria
que a moça tinha cortado seu trajo das finas gazas da manhã;
ou que a aurora vestindo as névoas rosadas, descera do céu
para disputar as admirações da noite.
- Dançaremos
a primeira, disse Horácio.
A moça
corou:
- Sim.
Laura passava.
Amélia chamou-a, mostrando-lhe um lugar a seu lado. Horácio
afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas principalmente
para poupar a Laura a contrariedade de sua presença. Desde
a noite do teatro o leão compreendera que a moça lhe
votava antipatia.
Conversando
com a amiga, Amélia descobriu defronte, no vão de
uma janela, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplá-la
com um olhar profundo e intenso, que servia de válvula às
exuberâncias de sua alma. Sentindo-se sob a influência
desse olhar, a moça inclinou a fronte, como um sinal de submissão,
e abandonou-se à contemplação do mancebo.
De vez em quando
procurava ler de relance no rosto de Leopoldo as impressões
de seu espírito, os movimentos de sua alma. Pressentiu que
o moço desejava aproximar-se dela para lhe falar, mas não
se animava; a solenidade da festa, a grande concorrência,
a proximidade de Laura tolhiam o mancebo, cujo caráter fora
da intimidade se confrangia, por uma espécie de pudor, próprio
das almas virgens.
Amélia
sentiu um desvanecimento, descobrindo aquela fraqueza no homem cujo
olhar a dominava, e lembrando-se de que ela podia nesse instante
protegê-lo. Não há para a fragilidade da mulher
maior orgulho e prazer do que observar a fragilidade no homem. Vinga-se
da tirania do sexo forte.
- Vamos sentar-nos
de outro lado, Laura?
- Para quê?
Estamos tão bem aqui.
- Dali vê-se
melhor a sala; e deve estar mais fresco.
- Como quiseres.
As duas moças
atravessaram a sala e foram tomar lugar justamente no vão
da janela onde Leopoldo se achava. Amélia conservou-se algum
tempo de pé, com o pretexto de arranjar a cadeira, mas para
dar ocasião a Leopoldo de falar-lhe. O mancebo adiantou-se
com efeito e cumprimentou.
Amélia
estendeu-lhe a mão com interesse, para animá-lo.
- Terei a felicidade
de dançar uma quadrilha...
- Qual?
- A última!
- A última?
repetiu Amélia rindo-se.
- Sim; depois
que tiver dançado com todos, replicou o moço completando
seu pensamento com o olhar.
- Então
a sexta.
A orquestra
abriu o baile com uma brilhante sinfonia, depois da qual deram o
sinal da primeira quadrilha. Rompeu-se então a simetria,
e formou-se o turbilhão.
Durante a contradança,
Horácio não se esqueceu do pezinho adorado; e procurou
todos os meios de o descobrir nalgum momento de confusão
ou descuido. Chegou até a fingir estouvamento em algumas
das marcas com o fim de embaraçar o vestido da moça.
- Eu me sento!
disse-lhe Amélia irritada.
- Bárbara,
non hai cor! replicou-lhe Horácio com as palavras do romance.
- O seu coração
está no botim? perguntou-lhe a moça com despeito.
- O meu, a senhora
bem o sabe, já não me pertence, pois lho dei há
muito tempo; e ando-o agora procurando no chão, onde creio
que o deixou esmagado um tirano que eu adoro e me repele. Mas conto
com a senhora para movê-lo em meu favor. Sim?
- Não,
respondeu a moça agastada.
- Realmente
eu não compreendo. Será possível que a senhora
tenha ciúmes dele? perguntou Horácio gracejando.
A moça
olhou-o com expressão.
- Tenho sim,
tenho ciúmes!
Terminada a
quadrilha, Horácio, depois de algumas voltas de passeio pela
sala, deixou a moça no seu lugar e desceu a escada de mármore
que levava ao jardim, iluminado com lampiões de diversas
cores. Havia ao lado da casa, e ao longo de uma latada, mesas de
ferro para tomar sorvetes e refrescos. Horácio, dirigindo-se
para esse lugar, avistou Leopoldo sentado a uma das mesas.
- Oh! por cá
também, Leopoldo?
- É verdade;
contra meus hábitos.
- Está
esplêndido! Não achas?
- Sem dúvida.
Mas parece que não tem grande interesse para ti.
- Por que pensas
assim?
- Vens te esconder
aqui, quando se dança. Devias deixar isso para mim, que sou
uma espécie de misantropo, uma alma errante neste mundo das
fadas.
- Para ser franco,
devo-te confessar, que neste baile, onde se acham reunidas as mais
bonitas mulheres do Rio de Janeiro, onde nada falta do que pode
tornar brilhante uma festa, nem o luxo, nem a riqueza, nem a concorrência,
nem as notabilidades de toda espécie, neste baile só
há uma coisa que me interessa; uma coisa bem pequenina e
por isso mesmo de um encanto inexprimível.
- Que condão
será esse tão poderoso?
- Disseste a
palavra. É um condão, um verdadeiro condão
de fada, que me transformou de repente, e fez do senhor um escravo
humilde e submisso.
- Mas no fim
de contas o que é?
- Um pezinho!
Tendo proferido
esta palavra, Horácio julgou ter dito tudo quanto era possível
exprimir na linguagem humana. Um pezinho, era aquele ente adorado
que ele entrevia nos sonhos dourados de sua imaginação;
era o primor, que deixara impressa a sua forma delicada na mimosa
botina. O moço desenhava na fantasia aquele ídolo
de suas adorações; e acreditava que Leopoldo devia,
como ele, extasiar-se ante a maravilha da natureza.
Longe disso,
Leopoldo depreendera das palavras do amigo, que ele estava sob a
influência de uma paixão materialista; que ele amava
a forma e levava sua idolatria a ponto de adorar não a forma
completa, a imagem viva e palpitante da mulher, mas um fragmento,
um trecho apenas dessa forma.
- Pois para
mim também, disse Leopoldo, só há neste baile
como neste mundo uma coisa que me ilumina a existência.
- A glória?...
aposto.
- Um sorriso,
apenas.
Horácio
não pôde reprimir um gesto desdenhoso. O sorriso era
para ele uma das coisas mais triviais; tinha-os colhido tantas vezes,
e em lábios tão puros e mimosos, que já não
lhe excitavam a atenção. Eram como as flores de um
vaso, que todos os dias se substituem.
- Vais dançar?
perguntou o leão.
- Agora não.
- Pois façamos
uma coisa. Conta-me a história de teu sorriso, que eu te
contarei a história de meu pezinho.
- Começa
então. Cabe-te a preferência, disse Leopoldo.
- Eu a aceito;
porque o objeto de meu culto não tem igual no mundo.
Horácio
acendeu o charuto. Ele não tinha o menor interesse em saber
a história de Leopoldo; o que desejava era um pretexto para
falar do objeto de sua adoração e vazar o que tinha
n'alma.
- Há
cerca de dois meses, passando pela Rua da Quitanda, achei por acaso
sobre a calçada um objeto que tinha caído de um carro.
Era uma botina, mas que botina!... um mimo, um primor, uma coisa
divina!
"Não
podes fazer idéia, não, Leopoldo. Sabes que tenho
amado mulheres lindas de todos os tipos, alvas ou morenas; formosuras
de todas as raças, desde a loura escocesa até a brasileira
de tranças negras; adorei-as, uma depois de outras e às
vezes ao mesmo tempo, essas diferentes irradiações
de beleza. Pois confesso-te que nunca o sorriso, o beijo da mais
sedutora dentre elas me fez palpitar o coração como
aquela botina.
Pensem os fisiologistas
como quiserem, o pé é a parte mais distinta do corpo
humano; sem ele a estatura não teria a nobreza que Deus só
concedeu à criatura racional.
O pé
revela o caráter, a raça e a educação.
Cada uma das feições e dos gestos desse órgão
de nossa vontade tem uma expressão eloqüente. Há
quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma
de fina têmpera? Ao contrário, um pé chato e
pesado é a prova infalível de um gênio tardo
e pachorrento.
Vergílio,
o poeta mais elegante que tem existido, compreendeu que Vênus
ocultasse nos olhos do filho, na selva líbica, a beleza imortal
de seus olhos, de seu sorriso, de suas formas sedutoras; mas não
aquilo que era sua essência divina, sua graça olímpica.
Foi pelo andar que ela revelou-se deusa; et vera incessu patuit
dea.
Nunca sentiste
o doce contato do pé da mulher amada? É uma sensação
deliciosa que penetra no seio d'alma. Podes apertar-lhe a mão,
cingi-la ao seio, beijá-la. Nada vale aquele toque sutil
que abala até a última fibra.
Faze, pois,
idéia do que eu sentia. E a botina não era senão
a estátua ou a efígie do pé encantador que
a havia calçado. Ali estavam impressos seus graciosos contornos,
sua forma.
Apaixonei-me
por esse pezinho, que eu nunca vira, que não conhecia. Sagrei-lhe
minha alma como ao ignoto deo de minhas adorações."
Horácio
exagerou então os esforços por ele empregados para
descobrir o misterioso ídolo de suas adorações
e referiu os fatos que já conhecemos. Teve, porém,
a discrição, rara em um leão, de não
revelar os nomes; receava ainda que lhe arrebatassem a conquista.
- Finalmente,
concluiu ele, o acaso me fez descobrir a dona do pezinho que em
vão buscava. Hás de crer, Leopoldo? Conhecia essa
moça, que é realmente encantadora; diversas vezes
achei-me com ela em sociedade e nunca sentira à sua vista
a menor comoção. Mas, quando soube que a ela pertencia
o tesouro, adorei-a. Para ver o pezinho que sonhei, estou disposto
a fazer a maior das loucuras, casar-me!...
- É esta
a tua história?
- Dize antes
meu poema. Sinto não ser poeta para escrevê-lo.
- Pois, se me
permites franqueza, dir-te-ei que realmente o desenlace que lhe
pretendes dar será uma loucura. O casamento, quando não
une duas almas irmãs criadas uma para a outra, é uma
espécie de grilheta que prende dois galés; o suplício
de duas existências condenadas a se arrastarem mutuamente.
Tu não amas essa moça, Horácio...
- Não
a amo?
- Não!
- Quando lhe
vou fazer o sacrifício que nenhuma outra mulher obteve de
mim?
- Não
passa de um capricho. Essa moça é para ti um pé
e nada mais.
- A mulher que
amamos tem sempre um encanto, uma graça especial. Às
vezes são os cabelos; outras os olhos; tu amas o sorriso;
eu o pé.
Leopoldo levantou
os ombros.
- Sem dúvida.
A alma da mulher, como a do homem, se revela em cada pessoa por
uma feição mais distinta, por uma expressão
mais eloqüente. Mas não é isto que sucede contigo.
Tu sentes a idolatria da beleza material; procuraste sempre na mulher
a forma, o amor plástico; à força de admirar
os mais lindos rostos e os talhes mais sedutores, ficaste com o
sentido embotado, precisavas de algum sainete que estimulasse teu
gosto. Viste ou imaginaste um pezinho mimoso e gentil: tornou-se
logo para ti o tipo, o ideal da beleza material, que te habituaste
a adorar.
Horácio
soltou uma risada:
- Olha, Leopoldo,
cá para mim o platonismo em amor seria um absurdo incompreensível
se não fosse uma refinada hipocrisia. Esses mesmos que adoram
a mulher como um anjo, de que se nutrem senão da contemplação
de beleza material que tratas com tamanho desprezo? É possível
que uma mulher feia seja amada por aberração do gosto;
mas fazer disso uma regra geral!...
- Ninguém
pretende semelhante coisa. A beleza é um encanto, uma graça,
um invólucro da mulher; mas não deve ser exclusivamente
a mulher, como a pétala é a flor, e a centelha é
a luz.
- Sofisma! Tira
a beleza à mulher amada e verás o que fica; o mesmo
que fica da flor que murcha e da chama que se apaga: pó ou
cinza.
- Queres que
te prove o contrário? Ouve a minha história.
- Ah! é
verdade. A história de teu sorriso?
- Sim.
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