A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo XI
Eram onze horas
da manhã.
Amélia
estudava ao piano os exercícios de Hertz. As janelas cerradas
deixavam entrar frouxa claridade, coada pela cassa transparente
das cortinas. Nesse crepúsculo artificial a beleza da moça
tomava uns tons suaves e meigos, que mais seduziam.
Os lindos cabelos,
ainda úmidos do banho, cobriam-lhe as espáduas de
uma túnica de veludo castanho. O bajó de cassa que
trazia no seu desalinho matutino, conchegado à cútis,
coloria-se com os reflexos rosados do colo mimoso.
Tanta graça
e formosura, realçadas pela singeleza do trajo e pela naturalidade
da posição, ficavam ali ocultas na doce penumbra da
sala e recatadas à admiração. Às duas
horas Amélia costumava subir à sua alcova para se
pentear; e o gracioso desalinho desaparecia, substituído
por um trajo mais apurado e elegante. Era a flor singela que o vento
desfolha na mata, e passa efêmera e desconhecida.
Tantas moças
despendem um avultado cabedal de sorrisos, de olhares e gestos,
e põem em contribuição a seda, a renda e a
moda para realçarem sua formosura! Mal sabem, entretanto,
que nunca são elas tão bonitas e feiticeiras como
em certo momento de sedutora negligência, quando parece que
a beleza desabrocha de seu gracioso botão.
A porta da sala
abriu-se e deu entrada ao Sr. Sales Pereira.
O aspecto do
negociante era grave; mas da gravidade serena que anuncia uma preocupação
agradável. Trazia na mão uma carta aberta.
Amélia
assustou-se vendo entrar na sala o pai, que ela supunha na cidade.
Como todos os negociantes, o Sr. Sales Pereira passava a manhã
em seu escritório; partia logo depois do almoço e
só voltava à hora do jantar. A surpresa da moça
era pois natural.
- Ah! papai!
exclamara ela, voltando-se ao rumor da porta. Já veio do
escritório?
- Ainda não
fui, respondeu Sales Pereira sorrindo. Recebi uma carta, que me
obrigou a demorar-me até agora para conversar com tua mãe
e... contigo, a quem o objeto mais interessa.
- A mim? O que
será, papai? Algum convite de baile?
- Lê,
disse o negociante apresentando-lhe a carta.
Amélia
correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos rubores.
O coração palpitava-lhe com tanta força que
debuxava no linho o contorno dos lindos seios.
A carta era
de Horácio, que pedia ao negociante a mão da filha.
Acabando de
a ler, a moça de olhos baixos e o corpo trêmulo, parecia
vendar-se com sua inocência para subtrair-se ao olhar terno
e curioso de seu pai. Nesse momento ela desejava, se possível
fosse, esconder-se dentro de si mesma.
- Que devo eu
responder, Amélia? perguntou o negociante.
- O que papai
quiser! balbuciou a menina.
- Estás
bem certa de que meu desejo é o teu? Se eu não aceitar
a honra que nos quer fazer o Sr. Horácio de Almeida?
As pálpebras
da moça ergueram-se, desvendando seus olhos límpidos.
- Papai não
acha bom?
- Se ele te
for indiferente, eu por mim não tenho grande empenho. É
um excelente moço; tem alguma coisa de seu; mas anda em certa
roda que não me agrada.
- Que roda,
papai?
- De moços
da moda.
- Porque é
solteiro.
- Então
o que decides?
- Desde que
papai e mamãe desejam, eu...
- Nós
não desejamos coisa alguma; queremos saber tua vontade.
Amélia
emudeceu.
- Bem, já
vejo que não é de teu gosto. Vou responder ao homem
com um não.
Sales Pereira
encaminhou-se para a porta.
- Mas, papai!...
murmurou a moça.
- Que temos?...
Fala, que já me demorei muito. Quase meio-dia!
- Vai responder
já?
- Já.
- Deixe para
amanhã.
- Nada; são
coisas que se decidem logo.
- O que vai
responder então?
- Que não.
- Mas eu não
disse isto!
- Tu nada disseste.
- Pois se eu
não gostasse, diria logo.
- Ah! neste
caso, gostou?
Amélia
sorrindo acenou com a cabeça.
- Não
entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas a Horácio?
A moça
fez um supremo esforço:
- Amo! disse
ela escondendo o rosto no seio do pai.
O negociante
beijou-a na fronte com ternura e carinho.
- Ah! minha
sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste
coraçãozinho! E eu que pensava que ele só queria
bem a mim?
- Oh! papai!
- Bem, bem,
não tenho ciúmes! Vai consolar tua mãe, que
eu vou responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro.
O negociante
voltou ao gabinete, e Amélia dirigiu-se ao interior. Sua
mãe estava no quarto, com os olhos ainda úmidos de
lágrimas. Quem não conhece essas lágrimas abençoadas,
que a mãe derrama pelos filhos, e que são bálsamos
para as aflições e orvalhos para as flores da ventura?
D. Leonor beijou
a filha e estreitou-a ao seio como receosa de que lha arrancassem
dos braços. Seu coração ora alegrava-se com
a felicidade próxima da moça, ora se entristecia com
a lembrança da separação.
De repente Amélia
sobressaltou-se com uma idéia que lhe acudiu; e, deixando
a mãe, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado
à escrivaninha, passando por cima da carta que terminara,
um rolete de mata-borrão.
O pai sorriu
vendo entrar a filha.
- Curiosa!
- Já
acabou? disse a moça recostando-se com gentileza à
poltrona.
- Vê se
está de teu gosto, disse o Sales cingindo-lhe a cintura com
o braço.
Amélia
leu a carta rapidamente; ela já sabia de antemão que
faltava alguma coisa.
- Então,
que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento.
- Está
muito boa, papai. Só acho uma coisa.
- O quê?
O negociante
sofreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra-prima
com aquela carta, escrita em seu mais belo estilo comercial, mas
recheada de alguns rasgos sentimentais.
- Não
acha, papai, que ele ficará todo cheio de si, obtendo logo,
assim com tanta facilidade, o que deseja? A carta é de hoje;
responder no mesmo dia... mostra muita vontade demais.
- Que mal há
nisso? Para que deixá-lo na dúvida, quando podes torná-lo
feliz desde já?
- Papai pensa
que ele duvida?
- Ah! Já
sabe então! Muito bem!
- Eu não
lhe disse nada, papai.
- Então
como sabe ele? Adivinhou?
- Não
adivinhou nada. Papai bem sabe como são esses senhores da
moda; cuidam que todas as moças andam morrendo por eles,
e que a dificuldade está somente em escolher. Como eu não
quero que o Sr. Horácio me julgue uma de suas conquistas,
estou resolvida, papai, a pensar bem durante quinze dias, antes
de dar a resposta.
- Portanto,
esta carta não serve, disse o Sales com um suspiro.
- Há
de servir, mas daqui a quinze dias. Agora papai deve dizer unicamente,
que, tendo-me consultado, eu pedi algum tempo para dar a resposta.
O negociante
escreveu, e Amélia esperou até que partiu a carta,
confiada a um criado.
Momentos depois,
Sales saía para a cidade, e Amélia entrava em sua
alcova, descantando trechos de árias e romances. Não
se podia dizer que estivesse alegre, apesar do tom garrido com que
modulava, e do fresco riso que trinava em seus lábios.
O que ela sentia
era um alvoroço íntimo, uma sôfrega agitação,
estado indefinível d'alma prurida por mil desejos e contida
por mil receios.
Vejamos se é
possível descobrir o que passava ali, dentro daquele seio
mimoso.
Desvanecida
a primeira comoção produzida pela carta de Horácio,
Amélia recordara-se do que tinha ocorrido na véspera,
e sobretudo das palavras proferidas pelo moço. Sua vaidade
revoltou-se como era natural.
"Hei de
mostrar-lhe que não basta querer, para ser meu marido; e
que não basta ser meu marido para ver..."
Foi então
que se dirigiu ao gabinete do pai e adiou a resposta definitiva.
Voltando, sentiu lá num cantinho do coração
uns receios que estavam nascendo. Não fosse Horácio
zangar-se com a demora e retirar o pedido? Quinze dias talvez fossem
demais.
Eis qual era
o estado de ânimo de Amélia: orgulho de ver subjugado
a seus pés o rei da moda; prazer de o ter cativo de uma palavra
sua durante muitos dias; arrependimento do que fizera; susto do
que podia acontecer; gozo da ventura que sorria; tais foram os sentimentos
desencontrados que vibraram na alma da moça.
Nessa tarde
Amélia preparou-se com maior esmero do que se fosse a um
baile. Seu adorno simples, um modesto vestido branco com fitas azuis,
tomou-lhe mais tempo, do que não levaria a compor um trajo
suntuoso.
Ela esperava
Horácio.
Toda a noite
passou, indo do sofá à janela, e da janela ao consolo,
onde estava a pêndula de alabastro.
As horas se
escoaram, sem que o tílburi do moço parasse à
porta do negociante.
No dia seguinte,
Amélia perguntou ao criado se a carta fora entregue a Horácio.
- Entreguei
em mão, quando entrava no tílburi.
- E que disse
ele?
- Nada; leu
e riu-se.
"Ah! ele
riu-se", murmurou Amélia consigo. "Pois eu lhe
mostrarei." '
Desde então,
empenhada sua vaidade, os sustos se desvaneceram. Estava decidida
a não ceder. Horácio depois de vencido tentava ainda
resistir-lhe? Pois havia de subjugá-lo completamente.
À noite
foi à casa de D. Clementina, onde estava reunida a roda do
costume. Leopoldo ali se achava também e
cumprimentou-a com um modo triste e resignado.
Deve existir
uma corrente magnética entre os homens, um fluido que serve
de veículo ao pensamento recôndito e ainda não
divulgado. Não se explicam de outro modo certas revelações
de um fato somente conhecido de poucas pessoas e por estas recatado.
A emoção, que desperta esse fato n'alma de alguns,
repercute n'alma de outros, e produz uma espécie de intuição.
Na casa de D.
Clementina sabia-se já que Amélia fora pedida em casamento,
embora se ignorasse o nome do pretendente, talvez por não
ser conhecido das pessoas presentes. Sales Pereira, a mulher e a
filha não tinham dito a menor palavra sobre o objeto da carta
de Horácio; mas a impressão produzida por essa carta,
a preocupação que deixara nas pessoas da família,
as conversas íntimas e recatadas não escaparam aos
escravos.
Daí gerou-se
o boato, que já tinha passado à casa de D. Clementina.
- Ah! chegou
a Amélia Sales! Sabia que vai casar-se? Já foi pedida,
disse uma senhora a Leopoldo.
- Não,
senhora, não sabia, respondeu o moço com mágoa,
mas sem perturbar-se.
- Com quem?
perguntou outra moça.
- Com um moço
bonito e rico. Disseram-me o nome, mas já não me lembro.
Nisso Amélia
entrou na sala, onde foi muito festejada pelas amigas e conhecidas.
As alusões
e gracejos a respeito do segredo incomodaram a moça, embora
por outro lado lhe causassem certo
desvanecimento.
Pelo meio da
noite, Leopoldo aproximou-se de Amélia para lhe pedir uma
contradança. Tinham dançado a primeira marca sem trocar
palavra; afinal o mancebo rompeu o silêncio:
- É verdade
que foi pedida em casamento?
Amélia
empalideceu; quis disfarçar iludindo a pergunta, mas encontrou
o olhar de Leopoldo, olhar tão doce e sincero, que não
se animou a enganá-lo.
- É verdade,
murmurou em voz quase imperceptível. Mas ainda não
respondi.
- Estimo que
seja muito feliz.
- Obrigada.
Amélia
ficou surpresa; ela supunha que Leopoldo tinha-lhe ardente paixão,
e que portanto sentiria profundo pesar, senão desespero,
com a notícia de seu casamento. Em vez disso, o mancebo mostrava
uma resignação serena.
- Quando comecei
a amá-la, D. Amélia, disse Leopoldo depois de alguns
instantes, acreditei na felicidade, e esperei alcançá-la
neste mundo. Minha alma pressentiu a aproximação da
irmã que Deus lhe destinara, e cuidou atraí-la e embebê-la
em seu seio. Mas essa ilusão se desvaneceu logo. Soube qual
era sua posição, e compreendi que a senhora não
me podia pertencer. Resignei-me, pois, a amar unicamente sua alma;
essa, ninguém me pode roubar, nem mesmo a senhora, porque
Deus a fez para mim. Eu estava desde muito preparado para a notícia
de seu casamento; ela não me surpreendeu, embora me entristecesse.
Até agora adorei sua alma, como se adora a imagem da Virgem
no templo; de agora em diante terei de adorar essa alma querida,
como se adora uma santa no sepulcro.
Leopoldo falou
por algum tempo ainda, e a moça, que a princípio se
acanhara com a expansão viva desse amor tão puro,
bebia as palavras ardentes do mancebo como fluido que derramava
em sua alma suave calor.
Nessa noite,
ao recolher-se, ia absorvida neste pensamento:
"Por que
julgou ele impossível que eu o amasse? Sem dúvida
não o amo; mas talvez... Se eu não conhecesse Horácio...
Quem sabe?"
Nisto lembrou-se
que já se tinham passado dois dias depois do pedido, e portanto
faltavam treze para a decisão.
"Se ele
não vier antes disso? Se não vier... respondo que
não. Está decidido."
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