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Papéis Avulsos I
Machado de Assis


ADVERTÊNCIA

Este título de Papéis Avulsos parece negar ao livro uma
certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos
de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é
essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vieram pa-
ra aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma
hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação
do pai fez sentar à mesma mesa.
Quanto ao gênero deles, não sei que diga que não seja
inútil. O livro está nas mãos do leitor. Direi somente, que
se há aqui páginas que parecem menos contos e outras que o
não são, defendo-me das segundas com dizer que os leitores
das outras podem achar nelas algum interesse, e das primei-
ras defendo-me com S. João e Diderot. O evangelista, descre-
vendo a famosa besta apocalíptica, acrescentava (XVII,9):
"E aqui há sentido, que tem sabedoria". Menos a sabedoria,
cubro-me com aquela palavra. Quanto a Diderot, ninguém
ignora que ele, não só escrevia contos, e alguns deliciosos,
mas até aconselhava a um amigo que os escrevesse também. E
eis a razão do enciclopedista: é que quando se faz um conto,
o espírito fica alegre, o tempo escoa-se, e o conto da vida
acaba, sem a gente dar por isso.
Deste modo, venha donde vier o reproche*, espero que daí
mesmo virá a absolvição.

MACHADO DE ASSIS

Outubro de 1882.

* Vide Nota no fim.


O ALIENISTA


CAPÍTULO I

DE COMO ITAGUAÍ GANHOU UMA CASA DE ORATES


As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos
vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da
nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de
Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos
trinta e quatro anos regressou ao Brasil, não podendo el-rei
alcançar dele que ficasse em Coimbra,regendo a universidade,
ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.
_ A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego
único; Itaguaí é o meu universo.
Dito isso, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e
alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as
leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. Aos
quarenta anos casou com D. Evarista da Costa e Mascarenhas,
senhora de vinte e cinco anos, viúva de um juiz de fora, e
não bonita nem simpática. Um dos tios dele, caçador de pacas
perante o Eterno, e não menos franco, admirou-se de
semelhante escolha e disse-lho. Simão Bacamarte explicou-lhe
que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas
de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia
regularmente, tinha bom pulso, e excelente vista; estava
assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e
inteligentes. Se além dessas prendas, - únicas dignas da
preocupação de um sábio, - D. Evarista era mal composta de
feições, longe de lastimá-lo, agradecia-o a Deus, porquanto
não corria o risco de preterir os interesses da ciência na
contemplação exclusiva, miúda e vulgar da consorte.
D.Evarista mentiu às esperanças do Dr. Bacamarte, não lhe
deu filhos robustos nem mofinos. A índole natural da ciência
é a longanimidade; o nosso médico esperou três anos, depois
quatro, depois cinco. Ao cabo desse tempo fez um estudo
profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e
outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às
universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à
mulher um regímen alimentício especial. A ilustre dama,
nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí,
não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência,
- explicável, mas inqualificável, - devemos a total extinção
da dinastia dos Bacamartes.
Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas;
o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na
prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta
lhe chamou especialmente a atenção, - o recanto psíquico, o
exame de patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda
no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal
explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu
que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira,
podia cobrir-se de "louros imarcescíveis", - expressão usada
por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica;
exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.
_ A saúde da alma, bradou ele,é a ocupação mais digna do
médico.
_ Do verdadeiro médico, emendou Crispim Soares, boticário
da vila, e um dos seus amigos e comensais.
A vereança de Itaguaí,entre outros pecados de que é argüi-
da pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes.
Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova,
na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a
morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos
andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte entendeu desde
logo reformar tão ruim costume; pediu licença à Câmara para
agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os
loucos de Itaguaí, e das demais vilas e cidades, mediante um
estipêndio, que a Câmara lhe daria quando a família do
enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a
curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência,
tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos
absurdos, ou ainda maus. A idéia de meter os loucos na mesma
casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma sintoma de
demência e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do
médico.
_ Olhe, D.Evarista, disse-lhe o Padre Lopes, vigário do
lugar, veja se seu marido dá um passeio ao Rio de Janeiro.
Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo.
D.Evarista ficou aterrada. Foi ter com o marido, disse-lhe
"que estava com desejos", um principalmente, o de vir ao Rio
de Janeiro e comer tudo o que a ele lhe parecesse adequado a
certo fim. Mas aquele grande homem, com a rara sagacidade
que o distinguia, penetrou a intenção da esposa e
redargüiu-lhe sorrindo que não tivesse medo. Dali foi à
Câmara, onde os vereadores debatiam a proposta, e defendeu-a
com tanta eloqüência, que a maioria resolveu autorizá-lo ao
que pedira, votando ao mesmo tempo um imposto destinado a
subsidiar o tratamento, alojamento e mantimento dos doidos
pobres. A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo
estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudos,
assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos
dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche
mortuário pagaria dois tostões à Câmara, repetindo-se tantas
vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre
a do falecimento e a da última bênção na sepultura. O
escrivão perdeu-se nos cálculos aritméticos do rendimento
possível da nova taxa; e um dos vereadores, que não
acreditava na empresa do médico, pediu que se relevasse o
escrivão de um trabalho inútil.
_ Os cálculos não são precisos, disse ele, porque o Dr.
Bacamarte não arranja nada. Quem é que viu agora meter todos
os doidos dentro da mesma casa?
Enganava-se o digno magistrado; o médico arranjou tudo.Uma
vez empossado da licença começou logo a construir a casa.
Era na Rua Nova, a mais bela rua de Itaguaí naquele tempo;
tinha cinqüenta janelas por lado, um pátio no centro, e
numerosos cubículos para os hóspedes. Como fosse grande
arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os
doidos, pela consideração de que Alá lhes tira o juízo para
que não pequem. A idéia pareceu-lhe bonita e profunda, e ele
a fez gravar no frontispício da casa; mas, como tinha medo
ao vigário, e por tabela ao bispo, atribuiu o pensamento a
Benedito VIII, merecendo com essa fraude aliás pia, que o
Padre Lopes lhe contasse, ao almoço, a vida daquele
pontífice eminente.
A Casa Verde foi o nome dado ao asilo,por alusão à cor das
janelas, que pela primeira vez apareciam verdes em Itaguaí.
Inaugurou-se com imensa pompa; de todas as vilas e povoações
próximas, e até remotas, e da própria cidade do Rio de
Janeiro, correu gente para assistir às cerimônias, que
duraram sete dias. Muitos dementes já estavam recolhidos; e
os parentes tiveram ocasião de ver o carinho paternal e a
caridade cristã com que eles iam ser tratados. D. Evarista,
contentíssima com a glória do marido, vestiu-se
luxuosamente, cobriu-se de jóias, flores e sedas. Ela foi
uma verdadeira rainha naqueles dias memoráveis; ninguém
deixou de ir visitá-la duas e três vezes, apesar dos
costumes caseiros e recatados do século, e não só a
cortejavam como a louvavam; porquanto, - e este fato é um
documento altamente honroso para a sociedade do tempo, -
porquanto viam nela a feliz esposa de um alto espírito, de
um varão ilustre, e, se lhe tinham inveja, era a santa e
nobre inveja dos admiradores.
Ao cabo de sete dias expiraram as festas públicas;Itaguaí,
tinha finalmente uma casa de orates.

CAPÍTULO II

TORRENTE DE LOUCOS


Três dias depois,numa expansão íntima com o boticário Cris-
pim Soares, desvendou o alienista o mistério do seu coração.
_ A caridade,Sr.Soares,entra decerto no meu procedimento,
mas entra como tempero, como o sal das coisas, que é assim
que interpreto o dito de São Paulo aos Coríntios: "Se eu
conhecer quanto se pode saber, e não tiver caridade, não sou
nada". O principal nesta minha obra da Casa Verde é estudar
profundamente a loucura, os seus diversos graus,
classificar-lhe os casos, descobrir enfim a causa do
fenômeno e o remédio universal. Este é o mistério do meu
coração. Creio que com isto presto um bom serviço à
humanidade.
_ Um excelente serviço, corrigiu o boticário.
_ Sem este asilo, continuou o alienista,pouco poderia
fazer; ele dá-me, porém, muito maior campo aos meus estudos.
_ Muito maior, acrescentou o outro.
E tinha razão. De todas as vilas e arraiais vizinhos a
fluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram
monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito.
Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não
bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma
galeria de mais trinta e sete. O Padre Lopes confessou que
não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e
menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo,
um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois
do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico,
ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus
recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e
Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um
rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!
_ Não digo que não,respondia-lhe o alienista;mas a verdade
é o que Vossa Reverendíssima está vendo.Isto é todos os dias
_ Quanto a mim,tornou o vigário, só se pode explicar pela
confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a
Escritura; provavelmente,confundidas antigamente as línguas,
é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...
_ Essa pode ser,com efeito,a explicação divina do fenômeno
concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas
não é impossível que haja também alguma razão humana, e
puramente científica, e disso trato...
_ Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!
Os loucos por amor eram três ou quatro, mas só dois
espantavam pelo curioso do delírio. O primeiro, um Falcão,
rapaz de vinte e cinco anos, supunha-se estrela-d’alva,
abria os braços e alargava as pernas, para dar-lhes certa
feição de raios, e ficava assim horas esquecidas a perguntar
se o sol já tinha saído para ele recolher-se. O outro
andava sempre, sempre, sempre, à roda das salas ou do pátio,
ao longo dos corredores, à procura do fim do mundo. Era um
desgraçado, a quem a mulher deixou por seguir um peralvilho.
Mal descobrira a fuga, armou-se de uma garrucha, e saiu-lhes
no encalço; achou-os duas horas depois, ao pé de uma lagoa,
matou-os a ambos com os maiores requintes de crueldade.
O ciúme satisfez-se, mas o vingado estava louco. E então
começou aquela ânsia de ir ao fim do mundo à cata dos
fugitivos.
A mania das grandezas tinha exemplares notáveis. O mais
notável era um pobre-diabo, filho de um algibebe, que
narrava às paredes ( porque não olhava nunca para nenhuma
pessoa ) toda a sua genealogia, que era esta:
_ Deus engendrou um ovo, o ovo engendrou a espada,a espada
engendrou Davi, Davi engendrou a púrpura, a púrpura
engendrou o duque, o duque engendrou o marquês, o marquês
engendrou o conde, que sou eu.
Dava uma pancada na testa,um estalo com os dedos,e repetia
cinco, seis vezes seguidas:
_ Deus engendrou um ovo, o ovo, etc.
Outro da mesma espécie era um escrivão, que se vendia por
mordomo do rei; outro era um boiadeiro de Minas, cuja mania
era distribuir boiadas a toda a gente, dava trezentas
cabeças a um, seiscentas a outro, mil e duzentas a outro, e
não acabava mais. Não falo dos casos de monomania religosa;
apenas citarei um sujeito que, chamando-se João de Deus,
dizia agora ser o deus João, e prometia o reino dos céus a
quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros; e depois
desse, o licenciado Garcia, que não dizia nada, porque
imaginava que no dia em que chegasse a proferir uma só
palavra, todas as estrelas se despegariam do céu e
abrasariam a terra; tal era o poder que recebera de Deus.
Assim o escrevia ele no papel que o alienista lhe mandava
dar, menos por caridade do que por interesse científico.
Que, na verdade, a paciência do alienista era ainda mais
extraordinária do que todas as manias hospedadas na Casa
Verde; nada menos que assombrosa. Simão Bacamarte começou
por organizar um pessoal de administração; e, aceitando essa
idéia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois
sobrinhos, a quem incumbiu da execução de um regimento que
lhes deu, aprovado pela Câmara, da distribuição da comida e
da roupa, e assim também da escrita, etc. Era o melhor que
podia fazer, para somente cuidar do seu ofício.
_ A Casa Verde,disse ele ao vigário,é agora uma espécie de
mundo, em que há o governo temporal e o governo espiritual.
E o Padre Lopes ria deste pio trocado, - e acrescentava, -
com o único fim de dizer também uma chalaça: - Deixe estar,
deixe estar, que hei de mandá-lo denunciar ao papa.

Uma vez desonerado da administração,o alienista procedeu a
uma vasta classificação dos seus enfermos. Dividiu-os
primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os
mansos; daí passou às subclasses, monomanias, delírios,
alucinações diversas.
Isto feito,começou um estudo aturado e contínuo; analisava
os hábitos de cada louco, as horas de acesso, as aversões,
as simpatias, as palavras, os gestos, as tendências;
inquiria da vida dos enfermos, profissão, costumes,
circunstâncias da revelação mórbida, acidentes da infância e
da mocidade, doenças de outra espécie, antecedentes na
família, uma devassa, enfim, como a não faria o mais atilado
corregedor. E cada dia notava uma observação nova, uma
descoberta interessante, um fenômeno extraordinário. Ao
mesmo tempo estudava o melhor regímen, as substâncias
medicamentosas, os meios curativos e os meios paliativos,
não só os que vinham nos seus amados árabes, como os que
ele mesmo descobria, à força de sagacidade e paciência. Ora,
todo esse trabalho levava-lhe o melhor e o mais do tempo.
Mal dormia e mal comia; e, ainda comendo, era como se
trabalhasse, porque ora interrogava um texto antigo, ora
ruminava uma questão, e ia muitas vezes de um cabo a outro
do jantar sem dizer uma só palavra a D.Evarista.

CAPÍTULO III

DEUS SABE O QUE FAZ!


A Ilustre dama, no fim de dois meses, achou-se a mais
desgraçada das mulheres: caiu em profunda melancolia, ficou
amarela, magra, comia pouco e suspirava a cada canto. Não
ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche, porque
respeitava nele o seu marido e senhor, mas padecia calada,
e definhava a olhos vistos. Um dia, ao jantar, como lhe
perguntasse o marido o que é que tinha, respondeu
tristemente que nada; depois atreveu-se um pouco, e foi ao
ponto de dizer que se considerava tão viúva como dantes. E
acrescentou:
_ Quem diria nunca que meia dúzia de lunáticos...
Não acabou a frase; ou antes, acabou-a levantando os olhos
ao teto, - os olhos, que eram a sua feição mais insinuante,-
negros, grandes, lavados de uma luz úmida, como os da
aurora. Quanto ao gesto, era o mesmo que empregara no dia em
que Simão Bacamarte a pediu em casamento. Não dizem as
crônicas se D.Evarista brandiu aquela arma com o perverso
intuito de degolar de uma vez a ciência, ou, pelo menos,
decepar-lhe as mãos; mas a conjetura é verossímil. Em todo
caso, o alienista não lhe atribuiu intenção. E não se
irritou o grande homem, não ficou sequer consternado. O
metal de seus olhos não deixou de ser o mesmo metal, duro,
liso, eterno, nem a menor prega veio quebrar a superfície da
fronte quieta como a água de Botafogo. Talvez um sorriso lhe
descerrou os lábios, por entre os quais filtrou esta palavra
macia como o óleo do Cântico:
_ Consinto que vás dar um passeio ao Rio de Janeiro.D.Eva-
rista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos pés. Nunca dos
nuncas vira o Rio de Janeiro, que posto não fosse sequer uma
pálida sombra do que hoje é, todavia era alguma coisa mais
do que Itaguaí, Ver o Rio de Janeiro, para ela, equivalia ao
sonho do hebreu cativo. Agora, principalmente, que o marido
assentara de vez naquela povoação interior, agora é que ela
perdera as últimas esperanças de respirar os ares da nossa
boa cidade; e justamente agora é que ele a convidava a
realizar os seus desejos de menina e moça. D. Evarista não
pôde dissimular o gosto de semelhante proposta. Simão
Bacamarte pagou-lhe na mão e sorriu, - um sorriso tanto ou
quanto filosófico, além de conjugal, em que parecia
traduzir-se este pensamento: _ "Não há remédio certo para as
dores da alma; esta senhora definha, porque lhe parece que a
não amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e consola-se". E porque
era homem estudioso tomou nota da observação.
Mas um dardo atravessou o coração de D.Evarista.
Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer ao marido que, se
ele não ia, ela não iria também, porque não havia de
meter-se sozinha pelas estradas.
_ Irá com sua tia, redargüiu o alienista.
Note-se que D.Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não
quisera pedi-lo nem insinuá-lo, em primeiro lugar porque
seria impor grandes despesas ao marido, em segundo lugar
porque era melhor, mais metódico e racional que a proposta
viesse dele.
_ Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou
D.Evarista sem convicção.
_ Que importa?Temos ganho muito,disse o marido.Ainda ontem
o escriturário prestou-me contas. Queres ver?
E levou-a aos livros. D.Evarista ficou deslumbrada.Era uma
via-láctea de algarismos. E depois levou-a às arcas, onde
estava o dinheiro. Deus! eram montes de ouro, eram mil
cruzados sobre mil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a
opulência.
Enquanto ela comia o ouro com os seus olhos negros, o
alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais pérfida
das alusões:
_ Quem diria que meia dúzia de lunáticos...
D.Evarista compreendeu, sorriu e respondeu com muita
resignação:
_ Deus sabe o que faz!
Três meses depois efetuava-se a jornada. D.Evarista,a tia,
a mulher do boticário, um sobrinho deste, um padre que o
alienista conhecera em Lisboa, e que de aventura achava-se
em Itaguaí cinco ou seis pajens, quatro mucamas, tal foi a
comitiva que a população viu dali sair em certa manhã do mês
de maio. As despedidas foram tristes para todos, menos para
o alienista. Conquanto as lágrimas de D. Evarista fossem
abundantes e sinceras, não chegaram a abalá-lo. Homem de
ciência, e só de ciência, nada o consternava fora da
ciência; e se alguma coisa o preocupava naquela ocasião, se
ele deixava correr pela multidão um olhar inquieto e
policial, não era outra coisa mais do que a idéia de que
algum demente podia achar-se ali misturado com a gente de
juízo.
_ Adeus! soluçaram enfim as damas e o boticário.
E partiu a comitiva. Crispim Soares, ao tornar a casa,
trazia os olhos entre as duas orelhas da besta ruana em que
vinha montado; Simão Bacamarte alongava os seus pelo
horizonte adiante, deixando ao cavalo a responsabilidade do
regresso. Imagem vivaz do gênio e do vulgo! Um fita o
presente, com todas as suas lágrimas e saudades, outro
devassa o futuro com todas as suas auroras.

CAPÍTULO IV

UMA TEORIA NOVA


Ao passo que D.Evarista, em lágrimas, vinha buscando o
Rio de Janeiro, Simão Bacamarte estudava por todos os lados
uma certa idéia arrojada e nova, própria a alargar as bases
da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da
Casa Verde, era pouco para andar na rua, ou de casa em casa,
conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais
heróicos.
Um dia de manhã, - eram passadas três semanas, - estando
Crispim Soares ocupado em temperar um medicamento, vieram
dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
_ Trata-se de negócio importante, segundo ele me disse,
acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se
não alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher?
Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e,
desde trinta anos, nunca estiveram separados um só dia.
Assim se explicam os monólogos que ele fazia agora, e que os
fâmulos lhe ouviam muita vez:
_ "Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de
Cesária? Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr.
Bacamarte. Pois agora agüenta-te; anda, agüenta-te, alma de
lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amem a tudo, não é?
aí tens o lucro biltre!"
_ E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer
aos outros, quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o
efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o recebeu como
abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um
sábio uma alegria abotoada de circunspeção até o pescoço.
_ Estou muito contente, disse ele.
_ Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz
trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
_ Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência
científica. Digo experiência, porque não me atrevo a
assegurar desde já a minha idéia; nem a ciência é outra
coisa, Sr.Soares, senão uma investigação constante.
Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que
vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus
estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão;
começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário.
Depois explicou compridamente a sua idéia. No conceito dele
a insânia abrangia uma vasta superfície de cérebros; e
desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos,
de exemplos. Os exemplos achou-os na história e em Itaguaí
mas, como um raro espírito que era, reconheceu o perigo de
citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história.
Assim, apontou com especialidade alguns personagens
célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal,
que via um abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano,
Calígula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de
mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E
porque o boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o
alienista disse-lhe que era tudo a mesma coisa, e até
acrescentou sentenciosamente:
_ A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
_ Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares
levantando as mãos ao céu.
Quanto à idéia de ampliar 0 território da loucura, achou-a
o boticário extravagante;mas a modéstia, principal adorno de
seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de
um nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e
acrescentou que era "caso de matraca". Esta expressão não
tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí
que como as demais vilas, arraiais e povoações da colônia,
não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma
notícia; ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na
porta da Câmara, e da matriz; - ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um
homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado,
com uma matraca na mão.
De quando em quando tocava a matraca,reunia-se gente,e ele
anunciava o que lhe incumbiam,- um remédio para sezões, umas
terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a
melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc. O
sistema tinha inconvenientes para a paz pública; mas era
conservado pela grande energia de divulgação que possuía.
Por exemplo, um dos vereadores, - aquele justamente que mais
se opusera à criação da Casa Verde, - desfrutava a reputação
de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca
domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de
fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as
crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis
dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente
falsa, mas só devida à absoluta confiança no sistema.
Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo
regímen mereciam o desprezo do nosso século.
_ Há melhor do que anunciar a minha idéia, é praticá-la,
respondeu o alienista à insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de
ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela
execução.
_ Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
_ Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim,
Sr.Soares, é ver se posso extrair a pérola, que é a
razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os
limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito
equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
insânia e só insânia.
O Vigário Lopes a quem ele confiou a nova teoria, declarou
lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra
absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal
que não merecia princípio de execução.
_ Com a definição atual, que é a de todos os tempos,
acrescentou, a loucura e a razão estão perfeitamente
delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa.
Para que transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista rogou a vaga
sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha
casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas
egrégias entranhas.
A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, - com
tal segurança, que a teologia não soube enfim se devia
crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam à beira
de uma revolução.

O ALIENISTA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII

A TEORIA DO MEDALHÃO

A CHINELA TURCA

NA ARCA