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Papéis
Avulsos I
Machado de Assis
CAPÍTULO X
A RESTAURAÇÃO
Dentro de cinco dias,o alienista meteu na Casa Verde cerca
de cinqüenta aclamadores do novo governo. O povo
indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João
Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o
Porfírio estava "vendido ao ouro de Simão Bacamarte",
frase
que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da
vila. Porfírio vendo o antigo rival da navalha à testa da
insurreição, compreendeu que a sua perda era irremediável,
se não desse um grande golpe; expediu dois decretos, um
abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. João
Pina mostrou claramente com grandes frases que o ato de
Porfírio! era um simples aparato, um engodo, em que o povo
não devia crer. Duas horas depois caía Porfírio
ignominiosamente, e João Pina assumia a difícil tarefa do
governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação,
da exposição ao vice-rei e de outros atos inaugurais do
governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e
expedir; acrescentam os cronistas, e aliás subentende-se,
que ele lhes mudou os nomes, e onde o outro barbeiro falara,
de uma Câmara corrupta, falou este de "um intruso eivado
das más doutrinas francesas e contrário aos sacrossantos
interesses de Sua Majestade", etc.
Nisto entrou na vila uma força mandada pelo vice-rei e
restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a
entrega do barbeiro Porfírio e bem assim a de uns cinqüenta
e tantos indivíduos que declarou mentecaptos; e não só
lhe
deram esses como afiançaram entregar-lhe mais dezenove
sequazes do barbeiro, que convalesciam das feridas apanhadas
na primeira rebelião.
Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo
da influência de Simão Bacamarte. Tudo quanto quis, deu-se-
lhe e uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico
achamo-la na prontidão com que os vereadores, restituídos
a seus lugares, consentiram em que Sebastião Freitas também
fosse recolhido ao hospício. O alienista, sabendo da
extraordinária inconsistência das opiniões desse vereador,
entendeu que era um caso patológico, e pediu-o. A mesma
coisa aconteceu ao boticário. O alienista, desde que lhe
falaram da momentânea adesão de Crispim Soares à rebelião
dos Canjicas, comparou-a à aprovação que sempre recebera
dele ainda na véspera, e mandou capturá-lo. Crispim Soares
não negou o fato, mas explicou-o dizendo que cedera a um
movimento de terror ao ver a rebelião triunfante, e deu
como prova a ausência de nenhum outro aro seu, acrescentando
que voltara logo à cama, doente. Simão Bacamarte não
o
contrariou; disse, porém, aos circunstantes que o terror
também é pai da loucura, e que o caso de Crispim Soares
lhe parecia dos mais caracterizados.
Mas a prova mais evidente da influência de Simão Bacamarte
foi a docilidade com que a Câmara lhe entregou o próprio
presidente. Este digno magistrado tinha declarado, em plena
sessão, que não se contentava, para lavá-la da afronta
dos
Canjicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que
chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretário da
Câmara entusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte
começou por meter o secretário na Casa Verde, e foi dali
à
Câmara à qual declarou que o presidente estava padecendo
da
"demência dos touros", um gênero que ele pretendia
estudar,
com grande vantagem para os povos. A Câmara a princípio
hesitou, mas acabou cedendo.
Daí em diante foi uma coleta desenfreada. Um homem não
podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo,
ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que
não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os
cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de
anagramas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os
que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro
almotacé enfunado, ninguém escapava aos emissários
do
alienista. Ele respeitava as namoradas e não poupava as
namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso
natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou
pródigo, ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação
de que não havia regra para ns cronistas crêetido na Casa
Vens cronistas crêem que Simão Bacamarte nem sempre procedia
com lisura, e citam em abono da afirmação (que não
sei se
pode ser aceita) o fato de ter alcançado da Câmara uma
postura autorizando o uso de um anel de prata no dedo
polegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra
prova documental ou tradicional, declarasse ter nas veias
duas ou três onças de sangue godo. Dizem esses cronistas
que
o fim secreto da insinuação à Câmara foi enriquecer
um
ourives amigo e compadre dele; mas, conquanto seja certo que
o ourives viu prosperar o negócio depois da nova ordenação
municipal, não o é menos que essa postura deu à Casa
Verde
uma multidão de inquilinos; pelo que, não se pode definir,
sem temeridade, o verdadeiro fim do ilustre médico. Quanto à
razão determinativa da captura e aposentação na Casa
Verde
de todos quantos usaram do anel, é um dos pontos mais
obscuros da história de Itaguaí a opinião mais verossímil
é
que eles foram recolhidos por andarem a gesticular, à loa,
nas ruas, em casa, na igreja. Ninguém ignora que os doidos
gesticulam muito. Em todo caso, é uma simples conjetura;
de positivo, nada há.
_ Onde é que este homem vai parar? diziam os principais da
terra. Ah! se nós tivéssemos apoiado os Canjicas...
Um dia de manhã,- dia em que a Câmara devia dar um grande
baile,- a vila inteira ficou abalada com a notícia de que
a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde.
Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato.
E
não era: era a verdade pura. D.Evarista fora recolhida
duas horas da noite. O Padre Lopes correu ao alienista e
interrogou-o discretamente acerca do fato.
_ Já há algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente
o
marido. A modéstia com que ela vivera em ambos os
matrimônios não podia conciliar-se com o furor das sedas,
veludos, rendas e pedras preciosas que manifestou logo que
voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observá-la.
Suas conversas eram todas sobre esses objetos; se eu lhe
falava das antigas cortes, inquiria logo da forma dos
vestidos das damas; se uma senhora a visitava na minha
ausência, antes de me dizer o objeto da visita, descrevia-me
o trajo, aprovando umas coisas e censurando outras. Um dia,
creio que Vossa Reverendíssima há de lembrar-se, propôs-se
a
fazer anualmente um vestido para a imagem de Nossa Senhora
da matriz. Tudo isto eram sintomas graves; esta noite,
porém, declarou-se a total demência. Tinha escolhido,
preparado, enfeitado o vestuário que levaria ao baile da
Câmara Municipal; só hesitava entre um colar de granada e
outro de safira. Anteontem perguntou-me qual deles levaria;
respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. Ontem repetiu
a pergunta ao almoço; pouco depois de jantar fui achá-la
calada e pensativa.- Que tem? perguntei-lhe.- Queria levar o
colar de granada,mas acho o de safira tão bonito!- Pois leve
o de safira.- Ah! mas onde fica o de granada?- Enfim, passou
a tarde sem novidade. Ceamos,e deitamo-nos. Alta noite,seria
hora e meia, acordo e não a vejo; levanto-me, vou ao quarto
de vestir, acho-a diante dos dois colares, ensaiando-os ao
espelho, ora um ora outro. Era evidente a demência:
recolhi-a logo.
O Padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não
objetou nada. O alienista, porém, percebeu e explicou-lhe
que o caso de D.Evarista era de "mania santuária", não
incurável e em todo caso digno de estudo.
_ Conto pô-la boa dentro de seis semanas, concluiu ele.
A abnegação do ilustre médico deu-lhe grande realce.
Conjeturas, invenções, desconfianças, tudo caiu por
terra
desde que ele não duvidou recolher à Casa Verde a própria
mulher, a quem amava com todas as forças da alma. Ninguém
mais tinha o direito de resistir-lhe, - menos ainda o de
atribuir-lhe intuitos alheios à ciência.
Era um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão.
CAPÍTULO XI
O ASSOMBRO DE ITAGUAÍ
E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que
ficou a vila ao saber um dia que os loucos da Casa Verde
iam todos ser postos na rua.
_ Todos?
_ Todos.
_ É impossível; alguns sim, mas todos...
_ Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de
manhã à Câmara
De fato o alienista oficiara à Câmara expondo: - 1º,
que
verificara das estatísticas da vila e da Casa
Verde que quatro quintos da população estavam aposentados
naquele estabelecimento; 2º, que esta deslocação de
popula-
ção levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das
moléstias cerebrais, teoria que excluía da razão
todos os
casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito
e absoluto; 3º, que desse exame e do fato estatístico,
resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina
não era aquela, mas a oposta, e portanto, que se devia
admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das
faculdades e como hipóteses patológicas todos os casos em
que aquele equilíbrio fosse ininterrupto; 4º, que à
vista
disso declarava à Câmara que ia dar liberdade aos reclusos
da Casa Verde e agasalhar nela as pessoas que se achassem
nas condições agora expostas; 5º, que tratando de descobrir
a verdade científica, não se pouparia a esforços
de toda a
natureza, esperando da Câmara igual dedicação; 6º,
que
restituí a à Câmara e aos particulares a soma do estipêndio
recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a
parte efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.;
o
que a Câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa
Verde.
O assombro de Itaguaí foi grande; não foi menor a alegria
dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares, danças,
luminárias, músicas, tudo houve para celebrar tão
fausto
acontecimento. Não descrevo as festas por não interessarem
ao nosso propósito; mas foram esplêndidas, tocantes e
prolongadas.
E vão assim as coisas humanas! No meio do regozijo produ-
zido pelo ofício de Simão Bacamarte, ninguém advertia
na
frase final do § 4º,uma frase cheia de experiências futuras.
CAPÍTULO XII
O FINAL DO § 4º
Apagaram-se as luminárias, reconstituíram-se as famílias,
tudo parecia reposto nos antigos eixos. Reinava a ordem, a
Câmara exercia outra vez o governo sem nenhuma pressão
externa; o presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus
lugares. O barbeiro Porfírio, ensinado pelos acontecimentos,
tendo "provado tudo", como o poeta disse de Napoleão,
e mais
alguma coisa, porque Napoleão não provou a Casa Verde, o
barbeiro achou preferível a glória obscura da navalha e
da
tesoura às calam idades brilhantes do poder; foi, é certo,
processado; mas a população da vila implorou a clemência
de
Sua Majestade; daí o perdão. João Pina foi absolvido,
atendendo-se a que ele derrocara um rebelde. Os cronistas
pensam que deste fato é que nasceu o nosso adágio:- ladrão
que furta ladrão tem cem anos de perdão;- adágio
imoral, é
verdade, mas grandemente útil.
Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até
nenhum ressentimento ficou dos atos que ele praticara;
acrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que ele
os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de
profundo reconhecimento e férvido entusiasmo. Muitos
entenderam que o alienista merecia uma especial manifestação
e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e
jantares. Dizem as crônicas que D.Evarista a princípio
tivera idéia de separar-se do consorte, mas a dor de perder
a companhia de tão grande homem venceu qualquer
ressentimento de amor-próprio e o casal veio a ser ainda
mais feliz do que antes.
Não menos íntima ficou a amizade do alienista e do
boticário. Este concluiu do ofício de Simão Bacamarte
que a
prudência é a primeira das virtudes em tempos de revolução
e
apreciou muito a magnanimidade do alienista, que ao dar-lhe
a liberdade estendeu-lhe a mão de amigo velho.
_ É um grande homem, disse ele à mulher, referindo aquela
circunstância.
Não é preciso falar do albardeiro, do Costa, do Coelho,
do Martim Brito e outros especialmente nomeados neste
escrito; basta dizer que puderam exercer livremente os seus
hábitos anteriores. O próprio Martim Brito, recluso por
um
discurso em que louvara enfaticamente D. Evarista, fez agora
outro em honra do insigne médico - "cujo altíssimo
gênio,
elevando as asas muito acima do sol, deixou abaixo de si
todos os demais espíritos da terra".
_ Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alienista, e
ainda me não arrependo de o haver restituído à liberdade.
Entretanto, a Câmara que respondera o ofício de Simão
Bacamarte com a ressalva de que oportunamente estatuiria em
relação ao final do § 4º, tratou enfim de legislar
sobre
ele. Foi adorada sem debate uma postura, autorizando o
alienista a agasalhar na Casa Verde as pessoas que se
achassem no gozo do perfeito equilíbrio das faculdades
mentais. E porque a experiência da Câmara tivesse sido
dolorosa, estabeleceu ela a cláusula de que a autorização
era provisória, limitada a um ano, para o fim de ser
experimentada a nova teoria psicológica, podendo a Câmara
antes mesmo daquele prazo mandar fechar a Casa Verde, se a
isso fosse aconselhada por motivos de ordem pública. O
vereador Freitas propôs também a declaração
de que, em
nenhum caso, fossem os vereadores recolhidos ao asilo dos
alienados: cláusula que foi aceita, votada e incluída na
postura apesar das reclamações do vereador Galvão.
O
argumento principal deste magistrado é que a Câmara
legislando sobre uma experiência científica, não podia
excluir as pessoas dos seus membros das conseqüências da
lei; a exceção era odiosa e ridícula. Mal proferira
estas
duas palavras, romperam os vereadores em altos brados contra
a audácia e insensatez do colega; este, porem, ouviu-os e
limitou-se a dizer que votava contra a exceção.
_ A vereança,concluiu ele,não nos dá nenhum poder
especial
nem nos elimina do espírito humano.
Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restrições.
Quanto à exclusão dos vereadores, declarou que teria
profundo sentimento se fosse compelido a recolhê-los à Casa
Verde; a cláusula, porém, era a melhor prova de que eles
não
padeciam do perfeito equilíbrio das faculdades mentais. Não
acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo acerto na objeção
feita, e cuja moderação na resposta dada às invectivas
dos
colegas mostravam da parte dele um cérebro bem organizado;
pelo que rogava à Câmara que lho entregasse. A Câmara
sentindo-se ainda agravada pelo proceder do vereador Galvão,
estimou o pedido do alienista e votou unanimemente a
entrega.
Compreende-se que, pela teoria nova, não bastava um fato
ou um dito para recolher alguém à Casa Verde; era preciso
um
longo exame, um vasto inquérito do passado e do presente.
O Padre Lopes, por exemplo, só foi capturado trinta dias
depois da postura, a mulher do boticário quarenta dias. A
reclusão desta senhora encheu o consorte de indignação.
Crispim Soares saiu de casa espumando de cólera e
declarando às pessoas a quem encontrava que ia arrancar as
orelhas ao tirano. Um sujeito, adversário do alienista,
ouvindo na rua essa noticia, esqueceu os motivos de
dissidência, e correu à casa de Simão Bacamarte a
participar-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte
mostrou-se grato ao procedimento do adversário, e poucos
minutos lhe bastaram para conhecer a retidão dos seus
sentimentos, a boa-fé, o respeito humano, a generosidade;
apertou-lhe muito as mãos, e recolheu-o à Casa Verde.
_ Um caso destes é raro, disse ele à mulher pasmada. Agora
esperemos o nosso Crispim.
Crispim Soares entrou. A dor vencera a raiva, o boticário
não arrancou as orelhas ao alienista. Este consolou o seu
privado, assegurando-lhe que não era caso perdido; talvez
a mulher tivesse alguma lesão cerebral; ia examiná-la com
muita atenção; mas antes disso não podia deixá-la
na rua.
E, parecendo-lhe vantajoso reuni-los, porque a astúcia e
velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a beleza
moral que ele descobrira na esposa, disse Simão Bacamarte:
_ O senhor trabalhará durante o dia na botica,mas almoçará
e jantará com sua mulher, e cá passará as noites,
e os
domingos e dias santos.
A proposta colocou o pobre boticário na situação
do asno
de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar
à Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que
D.Evarista o tirou da dificuldade, prometendo que se
incumbiria de ver a amiga e transmitiria os recados de um
para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido.
Este último rasgo de egoísmo pusilânime pareceu sublime
ao
alienista.
Ao cabo de cinco meses estavam alojadas umas dezoito
pessoas; mas Simão Bacamarte não afrouxava; ia de rua em
rua, de casa em casa, espreitando, interrogando, estudando;
e quando colhia um enfermo levava-o com a mesma alegria
com que outrora os arrebanhava às dúzias. Essa mesma
desproporção confirmava a teoria nova; achara-se enfim a
verdadeira patologia cerebral. Um dia conseguiu meter na
Casa Verde o juiz de fora; mas procedia com tanto escrúpulo
que o não fez senão depois de estudar minuciosamente todos
os seus atos e interrogar os principais da vila. Mais de
uma vez esteve prestes a recolher pessoas perfeitamente
desequilibradas; foi o que se deu com um advogado, em quem
reconheceu um tal conjunto de qualidades morais e mentais
que era perigoso deixá-lo na rua. Mandou prendê-lo; mas o
agente, desconfiado, pediu-lhe para fazer uma experiência;
foi ter com um compadre, demandado por um testamento falso,
e deu-lhe de conselho que tomasse por advogado o Salustiano;
era o nome da pessoa em questão.
_ Então parece-lhe...?
_ Sem dúvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira, seja
qual for, e confie-lhe a causa.
O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificado
o testamento e acabou pedindo que lhe tomasse a causa.Não se
negou o advogado; estudou os papéis, arrazoou longamente, e
provou a todas as luzes que o testamento era mais que
verdadeiro. A inocência do réu foi solenemente proclamada
pelo juiz e a herança passou-lhe às mãos. O distinto
jurisconsulto deveu a esta experiência a liberdade.
Mas nada escapa a um espírito original e penetrante. Simão
Bacamarte, que desde algum tempo notava o zelo, a
sagacidade, a paciência, a moderação daquele agente,
reconheceu a habilidade e o tino com que ele levara a cabo
uma experiência tão melindrosa e complicada, e determinou
recolhê-lo imediatamente à Casa Verde; deu-lhe todavia um
dos melhores cubículos.
Os alienados foram alojados por classes.Fez-se uma galeria
de modestos; isto é, os loucos em quem predominava esta
perfeição moral; outra de tolerantes, outra de verídicos,
outra de símplices, outra de leais, outra de magnânimos,
outra de sagazes, outra de sinceros, etc. Naturalmente as
famílias e os amigos dos reclusos bradavam contra a teoria;
e alguns tentaram compelir a Câmara a cassar a licença. A
câmara porém, não esquecera a linguagem do vereador
Galvão,
e, se cassasse a licença, vê-lo-ia na rua e restituído
ao
lugar; pelo que, recusou. Simão Bacamarte oficiou aos
vereadores, não agradecendo, mas felicitando-os por esse ato
de vingança pessoal.
Desenganados da legalidade, alguns principais da vila
recorreram secretamente ao barbeiro Porfírio e
afiançaram-lhe todo o apoio de gente, de dinheiro e
influência na corte, se ele se pusesse à testa de outro
movimento contra a Câmara e o alienista. O barbeiro
respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da
primeira
vez a transgredir as leis, mas que ele se emendara,
reconhecendo o erro próprio e a pouca consistência da
opinião dos seus mesmos sequazes; que a Câmara entendera
autorizar a nova experiência do alienista, por um ano:
cumpria, ou esperar o fim do prazo, ou requerer ao vice-rei,
caso a mesma Câmara rejeitasse o pedido. Jamais aconselharia
o emprego de um recurso que ele viu falhar em suas mãos e
isso a troco de mortes e ferimentos que seriam o seu eterno
remorso.
_ O que é que me está dizendo?perguntou o alienista quando
um agente secreto lhe contou a conversação do barbeiro com
os principais da vila.
Dois dias depois o barbeiro era recolhido à Casa Verde. -
Preso por ter cão, preso por não ter cão! exclamou
o infeliz
o fim do prazo, a Câmara autorizou um prazo suplementar de
seis meses para ensaio dos meios terapêuticos. O desfecho
deste episódio da crônica itaguaiense é de tal ordem
e tão
inesperado, que merecia nada menos de dez capítulos de
exposição; mas contento-me com um, que será o remate
da
narrativa, e um dos mais belos exemplos de convicção
científica e abnegação humana.
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