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CAPÍTULO
VI
Ao fim
do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorára no
corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou
na sala, perguntando a Maria, já sentada ao piano:
- Então, definitivamente, v. exc.ª não vem ao
sarau da Trindade?...
Ella voltou-se para dizer, preguiçosamente, por entre a walsa
lenta que lhe cantava entre os dedos:
- Não me interessa, estou muito cançada...
- É uma sécca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona
onde se estirára consoladamente, fumando, d'olhos cerrados.
Ega protestou. Tambem era uma massada subir ás Pyramides
no Egypto. E no emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos
os dias póde um christão trepar a um monumento que
tem cinco mil annos de existencia... Ora a snr.ª D. Maria,
n'este sarau, ia vêr por dez tostões uma coisa tambem
rara,- a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao
mesmo tempo nua e de casaca.
- Vá, coragem! um chapéo, um par de luvas, e a caminho!
Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguiça.
- Bem, exclamou Ega, eu é que não quero perder o Rufino...
Vamos lá, Carlos, mexe-te!
Mas Carlos implorou clemencia:
- Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do Hamlet.
Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, só gorgeiam
mais tarde...
Então Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido
e amavel, enterrou-se no sofá com o charuto, para escutar
a canção d'Ophelia, de que Maria já murmurava
baixo as palavras scismadoras e tristes:
Pâle
et blonde,
Dort sous l'eau profonde...
Ega adorava
esta velha ballada escandinavia. Mais porém o encantava Maria
que nunca lhe parecera tão bella: o vestido claro que tinha
n'essa noite modelava-a com a perfeição d'um marmore:
e entre as velas do piano, que lhe punham um traço de luz
no perfil puro e tons d'ouro esfiado no cabello - o incomparavel
eburneo da sua pelle ganhava em esplendor e mimo... Tudo n'ella
era harmonioso, são, perfeito... E quanto aquella serenidade
da sua fórma devia tornar delicioso o ardor da sua paixão!
Carlos era positivamente o homem mais feliz d'estes reinos! Em torno
d'elle só havia facilidades, doçuras. Era rico, intelligente,
d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado;
só tinha o numero d'inimigos que é necessario para
confirmar uma superioridade; nunca soffrera de dyspepsia; jogava
as armas bastante para ser temido; e na sua complacencia de forte
nem a tolice publica o irritava. Sêr verdadeiramente ditoso!.
- Quem é por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando
mais os pés pelo tapete, quando Maria findou a canção
d'Ophelia.
Ega não sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um
inspirado...
Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:
- É esse grande orador de que fallavam na Toca?
Não, não! Esse era outro, a sério, um amigo
de Coimbra, o José Clemente, homem d'eloquencia e de pensamento...
Este Rufino era um ratão de pera grande, deputado por Monção,
e sublime n'essa arte, antigamente nacional e hoje mais particularmente
provinciana, de arranjar, n'um voz de theatro e de papo, combinações
sonoras de palavras...
- Detesto isso! rosnou Carlos.
Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idéas,
como um passaro n'um galho d'arvore...
- É conforme a occasião, observou Ega, olhando o relogio.
Uma valsa de Strauss tambem não tem idéas, e á
noite, com mulheres n'uma sala, é deliciosa...
Não, não! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava
sempre a palavra humana, que, pela sua natureza mesma, só
póde servir para dar forma, ás idéas. A musica,
essa, falla aos nervos. Se se cantar uma marcha a uma criança,
ella ri-se e salta no collo...
- E se lhe lêres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos,
o anjinho secca-se e berra!
- Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e
dos costumes que ella cria. Não ha inglez, por mais culto
e espiritualista, que não tenha um fraco pela força,
pelos athletas, pelo sport, pelos musculos de ferro. E nós,
os meridionaes, por mais criticos, gostamos do palavriadinho mavioso.
Eu cá pelo menos, á noite, com mulheres, luzes, um
piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica.
E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot,
voar á Trindade, n'um receio de perder o Rufino.
Carlos deteve-o ainda, com uma grande idéa:
- Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven;
nós declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre
Lacordaire se te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma
medonha orgia d'ideal!...
- E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.
- Melhores poetas, affirmou Carlos.
- Bons charutos!
- Bom cognac!
Ega alçou os braços ao ar, desolado. Ahi está
como se pervertia um cidadão, impedindo-o de proteger as
letras patrias - com promessas perfidas de tabaco e de bebidas!...
Mas de resto elle não tinha só uma razão litteraria
para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas Meditações
d'Outono, e era necessario dar palmas ao Cruges.
- Não digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona.
Esquecia-me o Cruges!... É um dever d'honra! Abalemos.
E d'ahi a pouco, tendo beijado a mão de Maria que ficava
ao piano, os dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno,
tão clara e dôce, seguiam devagar pela rua - onde Carlos
ainda duas vezes se voltou para olhar as janellas alumiadas.
- Estou bem contente, exclamou elle travando do braço do
Ega, em ter deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos
para um bocado de cavaco e de litteratura...
Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter
o quarto ao lado n'um fumoir forrado com as suas colchas da India,
depois ter um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se
realisava o velho sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte...
Além d'isso havia a lançar a Revista, que era a suprema
pandega intellectual. Tudo isto annunciava um inverno chic a valer,
como dizia o defunto Damaso.
- E tudo isto, resumiu o Ega, é dar civilisação
ao paiz. Positivamente, menino, vamo-nos tornar grandes cidadãos!...
- Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que
seja aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite!
Pararam á porta do theatro da Trindade no momento em que,
d'uma tipoia de praça, se apeava um sujeito de barbas de
apostolo, todo de luto, com um chapéo de largas abas recurvas
á moda de 1830. Passou junto dos dois amigos sem os vêr,
recolhendo um troco á bolsa. Mas Ega reconheceu-o.
- É o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo!
- E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos
rindo.
Por cima, de repente, no salão, estalaram grandes palmas.
Carlos, que dava o paletot ao porteiro, receou que já fosse
o Cruges...
- Qual! disse o Ega. Aquillo é applaudir de rhetorica!
E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao
ante-salão, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos
de pés, segredando - sentiram logo um vozeirão tumido,
garganteado, provinciano, de vogaes arrastadas em canto, invocando
lá do fundo, do estrado, «a alma religiosa de Lamartine!...»
- É o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama
que não passára da porta, com o charuto escondido
atraz das costas.
Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio
e magro, foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os
lados se cerravam filas de cabeças, embebidas, enlevadas,
atulhando os bancos de palhinha até junto ao tablado, onde
dominavam os chapéos de senhoras picados por manchas claras
de plumas ou flôres. Em volta, de pé, encostados aos
pilares ligeiros que sustêm a galeria, reflectidos pelos espelhos,
estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das Secretarias,
uns de gravata branca, outros de jaquetões. Ega avistou o
snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face
escaveirada, de barba rala; adiante o Gonçalo, com a sua
gaforinha ao vento; depois o marquez atabafado n'um cache-nez de
sêda branca; e, n'um grupo, mais longe, rapazes do Jockey
Club, os dois Vargas, o Mendonça, o Pinheiro, assistindo
áquelle sport da eloquencia com uma mistura d'assombro e
tedio. Por cima, no parapeito de velludo da galeria, corria outra
linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se mollemente; por
traz alçava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava
o Neves, o novo Conselheiro, grave, de braços cruzados, com
um botão de camelia na casaca mal feita.
O gaz suffocava, vibrando cruamente n'aquella sala clara, d'um tom
desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e além
uma tosse timida de catarrho desmanchava o silencio, logo abafada
no lenço. E na extremidade da galeria, n'um camarote feito
de tabiques, com sanefas de velludo côr de cereja, duas cadeiras
de espaldar dourado permaneciam vazias, na solemnidade real do seu
damasco escarlate.
No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito
trigueiro, de pera, alargava os braços, celebrava um anjo,
«o Anjo da Esmola que elle entrevira, além no azul,
batendo as azas de setim...» Ega não comprehendia bem
- entalado entre um padre muito gordo que pingava de suor, e um
alferes de lunetas escuras. Por fim não se conteve:- «Sobre
que está elle a fallar?» E foi o padre que o informou,
com a face luzidia, inflammada de enthusiasmo:
- Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime...
Infelizmente está a acabar!
Parecia ser, com effeito, a peroração. O Rufino arrebatára
o lenço, limpara a testa lentamente; depois arremetteu para
a borda do tablado, voltando-se para as cadeiras reaes com um tão
ardente gesto d'inspiração - que o collete repuxado
descobriu o começo da ceroula. Foi então que Ega comprehendeu.
Rufino estava exaltando uma princeza que dera seiscentos mil reis
para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio d'elles organisar
um bazar na Tapada. Mas não era só essa soberba esmola
que deslumbrava o Rufino - porque elle, «como todos os homens
educados pela philosophia e que têm a verdadeira orientação
mental do seu tempo, via nos grandes factos da historia não
só a sua belleza poetica, mas a sua influencia social. A
multidão, essa, sorria simplesmente, enlevada, para a incomparavel
poesia da mão calçada de fina luva que se estende
para o pobre. Elle porém, philosopho, antevia já,
sahindo d'esses delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo
e formoso... O quê, meus senhores? O renascimento da Fé!»
De repente, um leque que escorregára da galeria, arrancando
em baixo um berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta
emoção. Um commissario do sarau, D. José Sequeira,
ergueu-se logo nos degraus do tablado, com o seu laçarote
de sêda vermelha na casaca, dardejando severamente os olhos
vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos risos esfusiavam.
Outros cavalheiros, indignados, gritavam «chut, silencio,
fóra!» E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial
do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando duramente...
Então Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim
mais longe, com um chapéo azul, entre a Alvim toda de preto
e umas vastas espádoas cobertas de setim malva que eram as
da baroneza de Craben. Todo o rumor findava - e o Rufino, que molhára
lentamente os labios no copo, avançou um passo, sorrindo,
com o lenço branco na mão:
- Dizia eu, meus senhores, que dada a orientação mental
d'este seculo...
Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a impressão
de que o padre ao lado cheirava mal. E não aturou mais, furou
para traz, para desabafar com Carlos.
- Tu imaginavas uma besta assim?
- Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocará o Cruges?
Ega não sabia, todo o programma fôra alterado.
- E tens cá a Gouvarinho! Está lá adiante,
d'azul... Hei de querer vêr logo esse encontro!
Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente
«bonsoir, messieurs...» Era Steinbroken e o seu secretario,
graves, de casaca, em pontas de pés, com as claques fechadas.
E immediatamente Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real...
- Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assuré
que la reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce
pas, toute cette musique, ces vers?... Voilà pourquoi je
suis venu. C'est très ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours
en santé?
- Merci...
Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traça
n'uma tela linhas lentas e nobres, descrevia a doçura d'uma
aldeia, a aldeia em que elle nascera, ao pôr do sol. E o seu
vozeirão velava-se, enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo.
Então Steinbroken, subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria
saber se era esse o grande orador de que lhe tinham fallado...
Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da
Europa!
- Em qual génerro?...
- Genero sublime, genero de Demosthenes!
Steinbroken alçou as sobrancelhas com admiração,
fallou em filandez ao seu secretario que entalou languidamente o
monoculo: e com as claques debaixo do braço, cerrados os
olhos, recolhidos como n'um templo, os dois enviados da Filandia
ficaram escutando, á espera do sublime.
Rufino, no emtanto, com as mãos descahidas, confessava uma
fragilidade de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia
natal, onde a violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira
provavam Deus irrefutavelmente, - elle fôra dilacerado pelo
espinho da descrença! Sim, quantas vezes, ao cahir da tarde,
quando os sinos da velha torre choravam no ar a Ave-Maria e no valle
cantavam as ceifeiras, elle passára junto da cruz do adro
e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de lado, cruelmente, o sorriso
frio de Voltaire...
Um largo fremito d'emoção passou. Vozes suffocadas
de gozo mal podiam : murmurar «muito bem, muito bem...»
Pois fôra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino
ouvira um grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que
succedera? Era a Natureza que atacava seus filhos! - E lançando
os braços, como quem se debate n'uma catastrophe, Rufino
pintou a inundação... Aqui aluia um casal, ninho florido
d'amores; além, na quebrada, passava o balar choroso dos
gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando um botão
de rosa e um berço!...
Os bravos partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em
torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns
para os outros, com um brilho na face, commungando no mesmo enthusiasmo:
«Que rajadas!... Caramba!... Sublime!...»
Rufino sorria bebendo esta commoção, que era a obra
do seu verbo. Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras
reaes, solemnes e vazias...
Vendo que a cólera da Natureza rugia implacavel elle erguera
os olhos para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde desce
a salvação, para o Throno de Portugal! E de repente,
deslumbrado, vira por sobre elle estenderam-se as azas brancas d'um
anjo! Era o anjo da esmola, meus senhores! E d'onde vinha? d'onde
recebera a inspiração da caridade? d'onde sahia assim,
com os seus cabellos d'ouro? Dos livros da sciencia? dos laboratorios
chimicos? d'esses amphitheatros d'anatomia onde se nega covardemente
a alma? das sêccas escólas de philosophia que fazem
de Jesus um precursor de Robespierre? Não! Elle ousára
interrogar o anjo, submisso, com o joelho em terra. E o anjo da
esmola, apontando o espaço divino, murmurára: «Venho
d'além!»
Então pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo.
Era como se os estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem
no alto. Um estremecimento devoto e poetico arrepiava as caias das
senhoras.
E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores!
Desde esse momento, a duvida fôra n'elle como a nevoa que
o sol, este radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora,
apesar de todas as ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos
d'um Benan, d'um Littré e d'um Spencer, elle, que recebera
a confidencia divina, podia alli, com a mão sobre o coração,
affirmar a todos bem alto - havia um céo!
- Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento.
E por todo o salão, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros
das Secretarias, da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo
as mãos, affirmaram soberbamente o céo!
O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de cólera.
Era o Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente
os bigodes.
- Que te parece, Thomaz?
- Faz nojo! rugiu surdamente o poeta.
Tremia, revoltado! N'uma noite d'aquellas, toda de poesia, quando
os homens de letras se deviam mostrar como são, filhos da
democracia e da liberdade, vir aquelle pulha pôr-se alli a
lamber os pés á familia real... Era simplesmente ascoroso!
Lá na fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto
d'abraços, de comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia
todo de orgulho e suor. E pela porta os homens escoavam-se, afogueados,
commovidos ainda, puxando das charuteiras. Então o poeta
travou do braço do Ega:
- Ouve lá, eu vinha justamente procurar-te. É o Guimarães,
o tio do Damaso, que me pediu para te ser apresentado... Diz que
é uma coisa séria, muito séria... Está
lá em baixo no botequim, com um grog.
Ega pareceu surprendido... Coisa séria!?
- Bem, vamos nós lá abaixo tomar tambem um grog! E
que recitas tu logo, Alencar?
- A Democracia, foi dizendo o poeta pela escada, com certa reserva.
Uma coisita nova, tu verás... São algumas verdades
duras a toda essa burguezia...
Estavam á porta do botequim - e precisamente o snr. Guimaráes
sahia, com o chapéo sobre o olho, de charuto accêso,
abotoando a sobrecasaca. Alencar lançou a apresentação,
com immensa gravidade:
- O meu amigo João da Ega... O meu velho amigo Guimarães,
um bravo cá dos nossos, um veterano da Democracia.
Ega acercou-se d'uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano
da Democracia, quiz saber se elle preferia cognac ou cerveja.
- Tomei agora o meu grog de guerra, disse o snr. Guimarães
com seccura, tenho para toda a noite.
Um criado dava uma limpadella lenta sobre o marmore da mesa. Ega
ordenou cerveja. E directamente, largando o charuto, passando a
mão pelas barbas a retocar a magestade da face, o snr. Guimarães
começou com lentidão e solemnidade:
- Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar
para me apresentar a v. exc.ª, com o fim de o intimar a que
olhe bem para mim e que diga se me acha cara de bebedo...
Ega comprehendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia:
- V. exc.ª refere-se a uma carta que seu sobrinho me escreveu...
- Carta que v. exc.ª dictou! Carta que v. exc.ª o forçou
a assignar!
- Eu?...
- Affirmou-m'o elle, senhor!
Alencar interveio:
- Fallem vocês baixo, que diabo!... Isto é terra de
curiosos...
O snr. Guimarães tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa.
Tinha estado, contou elle, havia semanas fóra de Lisboa por
negocios da herança de seu irmão. Não vira
o sobrinho, porque só por necessidade se encontrava com esse
imbecil. Na vespera, em casa d'um antigo amigo, o Vaz Forte, deitára
por acaso os olhos ao Futuro, um jornal republicano, bem escripto,
mas frouxo de idéas. E avistára logo na primeira pagina,
em typo enorme, sob esta rubrica aliás justa Coisas do highlife,
a carta do sobrinho... Imagine o snr. Ega o seu furor! Alli mesmo,
em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco mais ou menos n'estes
termos: «Li a tua infame declaração. Se ámanhã
não fazes outra, em todos os jornaes, dizendo que não
tinhas intenção de me incluir entre os bebedos da
tua familia, vou ahi e quebro-te os ossos um por um. Treme!»
Assim lhe escrevera. E sabia o snr. João da Ega qual fôra
a resposta do snr. Damaso?
- Tenho-a aqui, é um documento humano, como diz o amigo Zola!
Aqui está... Grande papel, monogramma d'ouro, corôa
de conde. Aquelle asno! Quer v. exc.ª que eu leia?
A um gesto risonho do Ega, elle mesmo leu, lentamente, e sublinhando:
- «Meu caro tio! A carta de que falla foi escripta pelo snr.
João da Ega. Eu era incapaz de tal desacato á nossa
querida família. Foi elle que me agarrou na mão, á
força, para eu assignar: e eu, n'aquella atrapalhação,
sem saber o que fazia, assignei para evitar fallatorios. Foi um
laço que me armaram os meus inimigos. O meu querido tio,
que sabe como eu gósto de si, que até estava o anno
passado com tenção, se soubesse a sua morada em Paris,
de lhe mandar meia pipa de vinho de Collares, não fique pois
zangado commigo. Bem infeliz já eu sou! E se quizer procure
esse João da Ega que me perdeu! Mas acredite que hei de tirar
uma vingança que ha de ser fallada! Ainda não decidi
qual, n'esta atarantação; mas em todo o caso a nossa
familia ha de ficar desenxovalhada, porque eu nunca admitti que
ninguem brincasse com a minha dignidade... E se o não fiz
já antes de partir para Italia, se ainda não pugnei
pela minha honra, é porque ha dias, com todos estes abalos,
veio-me uma tremenda dysenteria, que estou que me não tenho
nas pernas. Isto por cima dos meus males moraes!...» V. exc.ª
ri-se, snr. Ega?
- Pois que quer v. exc.ª que eu faça? balbuciou o Ega
por fim, suffocado, com os olhos em lagrimas. Rio-me eu, ri-se o
Alencar, ri-se v. exc.ª. Isso é extraordinario! Essa
dignidade, essa dysenteria...
O snr. Guimarães, embaçado, olhou o Ega, olhou o poeta
que fungava sob os longos bigodes, e terminou por dizer:
- Com effeito, a carta é d'uma cavalgadura... Mas o facto
permanece...
Então Ega appellou para o bom senso do snr. Guimarães,
para a sua experiencia das coisas d'honra. Comprehendia elle que
dois cavalheiros, indo desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem
no pulso, o forcem violentamente a assignar uma carta em que elle
se declara bebedo?...
O snr. Guimarães, agradado com aquella deferencia pelo seu
tacto e pela sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em
Paris, seria pouco natural.
- E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto não é a Cafraria!
E diga-me o snr. Guimarães outra coisa, de gentleman para
gentleman: como considera seu sobrinho? um homem irreprehensivelmente
veridico?
O snr. Guimarães cofiou as barbas, declarou lealmente:
- Um refinado mentiroso.
- Então! gritou Ega em triumpho, atirando os braços
ao ar.
De novo Alencar interveio. A questão parecia-lhe satisfactoriamente
finda. E não restava senão os dois apertarem-se a
mão fraternalmente, como bons democratas...
Já de pé, atirou a genebra ás guelas. Ega sorria,
estendia a mão ao snr. Guimarães. Mas o velho demagogo,
ainda com uma sombra na face enrugada, desejou que o snr. João
da Ega (se n'isso não tinha duvida) declarasse, alli diante
do amigo Alencar, que não lhe achava a elle, Guimarães,
cara de bebedo...
- Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa
para chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar
diante do Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara d'um
perfeito cavalheiro e d'um patriota!
Então trocaram um rasgado aperto de mãos - emquanto
o snr. Guimarães affirmava a sua satisfação
por conhecer o snr. João da Ega, moço de tantos dotes
e tão liberal. E quando s. exc.ª quizesse qualquer coisa,
politica ou litteraria, era escrever este endereço bem conhecido
no mundo:
- Redaction du RAPPEL, Paris!
Alencar abalára. E os dois deixaram o botequim, trocando
impressões do sarau. O snr. Guimarães estava enojado
com a carolice, a sabujice d'esse Rufino. Quando o ouvira palrar
das azas da princeza e da cruz do adro, quasi lhe gritára
cá do fundo: «Quanto te pagam para isso, miseravel?»
Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapéo:
- Oh snr.ª baroneza, então já nos abandona?
Era a Alvim que descia devagar, com a Joanninha
Villar, atando as largas fitas d'uma capa de pellucia verde. Queixou-se
d'uma dôr de cabeça que a torturava, apesar de ter
gostado loucamente do Rufino... Mas uma noite toda de litteratura,
que estafa! E agora, para mais, ficára lá um homemzinho
a fazer musica classica...
- É o meu amigo Cruges!
- Ah! é seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse
antes o Pirolito.
- V. exc.ª afllige-me com esse desdem pelos grandes mestres...
Não quer que a vá acompanhar á carruagem? Paciencia...
Muito boa noite, snr.ª D. Joanna!... Um servo seu, snr.ª
baroneza! E Deus lhe tire a sua dôr de cabeça!
Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaçar risonhamente
com o leque:
- Não seja impostor! O snr. Ega não acredita em Deus.
- Perdão... Que o Diabo lhe tire a sua dôr de cabeça,
snr.ª baroneza!
O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega
avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um môcho muito baixo
que lhe fazia roçar pelo chão as longas abas da casaca
- o Cruges, com o nariz bicudo contra o caderno da Sonata, martellando
sabiamente o teclado. Foi então subindo em pontas de pés
pela coxia tapetada de vermelho, agora desafogada, quasi vazia:
um ar mais fresco circulava: as senhoras, cançadas, bocejavam
por traz dos leques.
Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo
um rancho intimo, a marquesa de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza
Darque. E a boa D. Maria tocou-lhe logo no braço para saber
quem era aquelle musico de cabelleira.
- Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o não conheciam.
E era composiçao d'elle, aquella coisa triste?
- É de Beethoven, snr.ª D. Maria da Cunha, a Sonata
pathetica.
Uma das Pedrosos não percebera bem o nome da Sonata. E a
marqueza de Soutal, muito séria, muito bella, cheirando devagar
um frasquinho de saes, disse que era a Sonata pateta. Por toda a
bancada foi um rastilho de risos suffocados. A Sonata pateta! Aquillo
parecia divino! Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu
a face enorme, imberbe e côr de papoula:
- Muito bem, snr.ª marqueza, muito catita!
E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam á
marqueza, entre o frou-frou dos leques. Ella triumphava, bella e
séria, com um velho vestido de velludo preto, respirando
os saes - emquanto adiante um amador de barba grisalha cravava n'aquelle
rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que faiscavam de cólera.
No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados
tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a Tarde. E cahido
sobre o teclado, oom a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre
Cruges, suando, estonteado por aquella desattenção
rumorosa, atabalhoava as notas, n'uma debandada.
- Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximára do Ega
e do rancho.
Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! Até
que emfim se via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que
fizera elle durante esse verão? Todo o mundo a esperal-o
em Cintra, alguem mesmo com anciedade... Um chut furioso do amador
de barbas grisalhas emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de
bater dois accordes bruscos, arredára o môcho, esgueirava-se
do estrado, enxugando as mãos ao lenço. Aqui e além
algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um grande murmurio
d'allivio. E o Ega e Carlos correram á porta, onde já
esperavam o marquez, o Craft, o Taveira - para abraçar, consolar
o pobre Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados.
E immediatamente, no silencio atento que redominava, um sujeito
muito magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na
mão. Alguem ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia
fallar sobre o Estado agricola da provincia do Minho. Atraz, um
criado veio collocar sobre a mesa um candelabro de duas velas: o
Prata, d'ilharga para a luz, mergulhou no caderno: e d'entre o perfil
triste e as folhas largas um rumor lento foi escorrendo, rumor de
reza n'uma somnolencia de novena, onde por vezes destacavam como
gemidos - «riqueza dos gados..., esphacelamento da propriedade...,
fertil e desprotegida região...»
Começou então uma debandada sorrateira e formigueira,
que nem os chuts do commissario do sarau, vigilante e de pé
sobre um degrau do estrado, podiam conter. Só as senhoras
ficavam; e um ou outro burocrata idoso, que se inclinava zelosamente
para o murmurio de reza, com a mão em concha sobre a orelha.
Ega, que fugia tambem «ao vecejante paraiso do Minho»,
achou-se em frente do snr. Guimarães.
- Que massada, hein?
O democrata concordou que aquelle preopinante não lhe parecia
divertido... Depois, mais sério, com outra idéa, segurando
um botão da casaca do Ega:
- Eu espero que v. exc.ª ha pouco não ficasse com a
impressão de que eu sou solidario ou me importo com meu sobrinho...
Oh! decerto que não! Ega vira bem que o snr. Guimarães
não tinha pelo Damaso nenhum enthusiasmo de familia.
- Asco, senhor, só asco! Quando elle foi a primeira vez a
Paris, e soube que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou!
Porque aquelle imbecil dá-se ares d'aristocrata... E como
v. exc.ª sabe, é filho d'um agiota!
Puxou a charuteira, ajuntou gravemente:
- A mãi, sim! Minha irmã era d'uma boa familia. Fez
aquelle desgraçado casamento, mas era d'uma boa familia!
Que, com os meus principios, já v. exc.ª vê que
tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazões, são
para mim blague e mais blague! Mas emfim os factos são os
factos, a historia de Portugal ahi está... Os Guimarães
da Bairrada eram de sangue azul.
Ega sorriu, n'um assentimento cortez:
- E v. exc.ª então parte brevemente para Paris?
- Amanhã mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada
do marechal de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi
pelos ares, já se póde lá respirar...
N'esse instante Telles e o Taveira, passando de braço dado,
voltaram-se, a observar curiosamente aquelle velho austero, todo
de preto, que fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega
reparou: o democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira
nova; o seu altivo chapéo reluzia; e Ega ficou de bom grado
a conversar com aquelle gentleman correcto e venerando que impressionava
os seus amigos.
- A republica com effeito observou elle, dando alguns passos ao
lado do snr. Guimarães, esteve alli um momento compromettida!
- Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me vê, para ser
expulso por causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma reunião
anarchista. Até me affirmaram que n'um conselho de ministros
o marechal de Mac-Mahon, que é um tarimbeiro, batera um murro
na mesa e dissera: Ce sacré Guimaran, il nous embête,
faut lui donner du pied dans le derrière! Eu não estava
lá, não sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como os
francezes não sabem pronunciar Guimarães, e eu embirro
que me estropiem o nome, assigno Mr. Guimaran. Ha dois annos, quando
fui á Italia, era Mr. Guimarini. E se fôr agora á
Russia, cá por coisas, hei de ser Mr. Guimaroff... Embirro
que me estropiem o nome!
Tinham voltado á porta do salão. Longas bancadas vazias
punham dentro, no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono
e tedio; e no estrado o Prata continuava, de mão no bolso,
com o nariz sobre o manuscripto, sem que se sentisse agora surdir
um som d'aquelle espantalho esguio. Mas o marquez, que descia do
fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sêda, disse ao Ega
ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da póda,
e lá tinha ficado ás voltas com Proudhon.
Ega e o democrata recomeçaram então os seus passos
lentos na ante-sala onde o susurro de conversas mal abafadas crescia,
como n'um palco, entre fumaças furtivas de cigarro. E o snr.
Guimarães chasqueava, achando uma boa bêtise que se
citasse Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a proposito d'estrumes
do Minho...
- Oh, Proudhon entre nós, acudiu Ega rindo, cita-se muito,
é já um monstro classico. Até os conselheiros
d'Estado já sabem que para elle a propriedade era um roubo,
e Deus era o mal...
O democrata encolheu os hombros:
- Grande homem, senhor! Homem immenso! São os tres grandes
pimpões d'este seculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre!
- O compadre! exclamou Ega, attonito.
Era o nome d'amizade que o snr. Guimarães dava em Paris a
Gambetta. Gambetta nunca o via, que não lhe gritasse de longe,
em hespanhol: «Hombre, compadre!» E elle tambem, logo:
«Compadre, caramba!» D'ahi ficára a alcunha,
e Gambetta ria. Porque lá isso, bom rapaz, e amigo d'esta
franqueza do sul, e patriota, até alli!
- Immenso, meu caro senhor! O maior de todos!
Pois Ega imaginaria que o snr. Guimarães, com as suas relações
do Rappel, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo...
- Esse, meu caro senhor, não é um homem, é
um mundo!
E o snr. Guimarães ergueu mais a face, ajuntou infinitamente
grave:
- É um mundo!... E aqui onde me vê, ainda não
ha tres mezes que elle me disse uma coisa que me foi direita ao
coração!
Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata
contou largamente esse glorioso lance que ainda o commovia:
- Foi uma noite no Rappel. Eu estava a escrever, elle appareceu,
já um pouco trôpego, mas com o olho a luzir, e aquella
bondade, aquella magestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um
rei... Isto é, não! que se fosse um rei tinha-lhe
dado com a bota no rabiosque. Levantei-me como se elle fosse um
Deus! Qual Deus! não ha Deus que me fizesse levantar!...
Emfim, acabou-se, levantei-me! Elle olhou para mim, fez assim um
gesto com a mão, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio
que tinha sempre: Bonsoir, mon ami!
E o snr. Guimarães deu alguns passos dignos, em silencio,
como se aquelle bonsoir, aquelle mon ami, assim recordados,lhe fizessem
mais vivamente sentir a sua importancia no mundo.
De repente Alencar, que bracejava n'um grupo, rompeu para elles,
pallido, d'olhos chammejantes:
- Que me dizem vocês a esta pouca vergonha? Aquelle infame
alli ha meia hora, com o infolio, a rosnar, a rosnar... E toda a
gente a sahir, não fica ninguem! Tenho de recitar aos bancos
de palhinha!...
E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor.
Mas algumas palmas cançadas, dentro, fizeram voltar o Ega.
O estrado ficára novamente vazio, com as duas velas ardendo
no candelabro. Um cartão em grossas letras, que um criado
collocara no piano, annunciava um «intervallo de dez minutos»
como n'um circo. E n'esse instante a snr.ª condessa de Gouvarinho
sahira pelo braço do marido, deixando atraz um sulco largo
de comprimentos, d'espinhas que se vergavam, de chapéos de
burocratas rasgadamente erguidos. O commissario do sarau azafamava-se
procurando duas cadeiras para ss. exc.as A condessa porém
foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ella vira, com as Pedrosos
e a marqueza de Soutal, refugiada n'um vão de janella. Ega
immediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as senhoras
se beijocassem.
- Então, snr.ª condessa, ainda muito commovida com a
eloquencia do Rufino?
- Muito cansada... E que calor, hein?
- Horrivel. A snr.ª baronesa d'Alvim sahiu ha pouco, com uma
dôr de cabeça...
A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos
cantos da boca, murmurou:
- Não admira, isto não é divertido... Emfim,
já agora é necessario levar a cruz ao Calvario.
- Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente
é uma lyra!
Ella riu. E D. Maria da Cunha, n'essa noite mais remoçada
e viva, ficou logo toda banhada n'um sorriso, com aquella carinhosa
admiração pelo Ega, que era um dos seus sentimentos.
- Este Ega!... Não ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra
coisa, que é feito do seu amigo Maia?
Ega vira-a momentos antes, no salão, puxar pela manga de
Carles, cochichar com Carlos. Mas conservou um ar innocente:
-Está ahi, anda por ahi, assistindo a toda essa litteratura.
De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha
rebrilharam com uma faisca de malicia:
- Fallai no mau... N'este caso seria fallar do bom. Emfim ahi nos
vem o Principe Tenebroso!
E era com effeito Carlos que passava, se encontrára diante
dos braços do conde de Gouvarinho, estendidos para elle com
uma effusão em que parecia renascer o antigo affecto. Pela
primeira vez Carlos via a condessa, desde a noite em que no Aterro,
abandonando-a para sempre, fechára com odio a portinhola
da tipoia onde ella ficava chorando. Ambos baixaram os olhos, ao
adiantar a mão um para o outro, lentamente. E foi ella que
findou o embaraço, abrindo o seu grande leque de pennas de
avestruz:
- Que calor, não é verdade?
- Atroz! disse Carlos. Não vá v. exc.ª apanhar
ar d'essa janella.
Ella forçou os labios brancos a um sorriso:
- É conselho de medico?
- Oh, minha senhora, não são as horas da minha consulta!
É apenas caridade de christão.
Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido,
com a marqueza de Soutal, para o reprehender por elle não
ter apparecido terça-feira na rua de S. Marçal. Surprehendido
com tanto interesse, tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho,
balbuciou que nem sabia, fôra o seu infortunio, tinham-se
mettido umas coisas...
- Além d'isso não imaginei que v. exc.ª começasse
a receber tão cedo... V. exc.ª antigamente era só
depois da Cerração da Velha. Até me lembro
que o anno passado...
Mas emmudeceu. O conde de Gouvarinho voltára-se, pousando
a mão carinhosa no hombro de Carlos, desejando a sua impressão
sobre o «nosso Rufino». Elle conde estava encantado!
Encantado sobretudo com a variedade d'escala, aquella arte tão
difficil de passar do solemne para o ameno, de descer das grandes
rajadas para os brincados de linguagem. Extraordinario!
- Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher, o Gladstone, o Canovas,
outros muitos. Mas não são estes vôos, esta
opulencia... É tudo muito sêcco, idéas e factos.
Não entra n'alma! Vejam os amigos aquella imagem tão
pujante, tão respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar,
com as azas de setim... É de primeira ordem.
Ega não se conteve:
- Eu acho esse genio um imbecil.
O conde sorriu, como á tonteria d'uma criança:
- São opiniões...
E estendeu em redor as mãos ao Sousa Netto, ao Darque, ao
Telles da Gama, a outros que se juntavam ao rancho intimo - emquanto
os seus correligionarios, os seus collegas do Centro e da Camara,
o Gonçalo, o Neves, o Vieira da Costa rondavam de longe,
sem poder roçar pelo ministro que tinham creado, agora que
elle conversava e ria com rapazes e senhoras da «sociedade».
O Darque, que era parente do Gouvarinho, quiz saber como o amigo
Gastão se ia dando com os encargos do Poder... O conde declarou
para os lados que não fizera mais por ora do que passar em
revista os elementos com que contava para atacar os problemas...
De resto, em questões de trabalho, o ministerio fôra
infelicissimo! O presidente do conselho de cama com uma catarrheira,
inutil para uma semana. Agora o collega da fazenda com as febres
do Aterro...
- Está melhor? Já sae? foi em torno a pergunta cheia
de cuidado.
- Está na mesma, vai ámanhã para o Dáfundo.
Mas realmente esse não se acha de todo inutilisado. Ainda
hontem eu lhe dizia: «Você parte para o Dáfundo,
leva os seus papeis, os seus documentos... Pela manhã dá
os seus passeios, respira o bom ar... E á noite, depois de
jantar, á luz do candieiro, entretem-se a resolver a questão
de fazenda!»
Uma campainha retiniu. D. José Sequeira, escarlate d'azafama,
veio, furando, annunciar a s. exc.ª o fim do intervallo - offerecer
o braço á snr.ª condessa. Ao passar, ella lembrou
a Carlos as suas «terças-feiras», com a delicada
simplicidade d'um dever. Elle curvou-se em silencio. Era como se
todo o passado, o sofá que rolava, a casa da titi em Santa
Isabel, as tipoias em que ella deixava o seu cheiro de verbena -
fossem coisas lidas por ambos n'um livro e por ambos esquecidas.
Atraz, o marido seguiu, erguendo alto a cabeça e as lunetas,
como representante do Poder n'aquella festa da Intelligencia.
- Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha
tem topete!
- Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de paixão,
e agora continúa tranquillamente na rotina da vida.
- E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo comtigo,
que a viste em camisa!... Bonito mundo!
Mas o Alencar appareceu no alto da escada, voltando do botequim
e da genebra, com um brilho maior no olho cavo, de paletot no braço,
já preparado para gorgear. E o marquez juntou-se a elles,
abafado no cache-nez de sêda branca, mais rouco, queixando-se
de que a cada minuto a garganta se lhe punha peor... Aquella canalha
d'aquella garganta ainda lhe vinha a pregar uma!...
Depois, muito sério, considerando o Alencar:
- Ouve lá, isso que tu vaes recitar, a Democracia é
política ou sentimento? Se é política, raspo-me.
Mas se é sentimento, e a humanidade, e o santo operario,
e a fraternidade, então fico, que d'isso gosto e até
talvez me faça bem.
Os outros affirmaram que era sentimento. O poeta tirou o chapéo,
passou os dedos pelos anneis fôfos da grenha inspirada:
-Eu vos digo, rapazes... Uma coisa não vai sem a outra, vejam
vocês Danton!... Mas já não fallo emfim d'esses
leões da Revolução. Vejam vocês o Passos
Manoel! Está claro, é necessario logica... Mas, tambem,
caramba, sêbo para uma politica sem entranhas e sem um bocado
de infinito!
Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeirão
mais forte que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. João
de Castro e de Affonso d'Albuquerque... Todos se acercaram da porta,
curiosamente. Era um maganão gordo, de barba em bico e camelia
na casaca, que, de mão fechada no ar como se agitasse o pendão
das Quinas, lamentava aos berros que nós portuguezes, possuindo
este nobre estuario do Tejo e tão formosas tradições
de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do indifferentismo, a
sublime herança dos avós!...
- É patriotismo, disse o Ega. Fujamos!
Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas.
E foi o pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alçando
na ponta dos botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora
ahi, que, agarrando n'uma das mãos a espada e na outra a
cruz, saltasse para o convés d'uma caravella a ir levar o
nome portuguez através dos mares desconhecidos? Quem havia
ahi, heroico bastante, para imitar o grande João de Castro,
que na sua quinta de Cintra arrancára todas as arvores de
fructo, tal a era a isenção da sua alma de poeta?...
- Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega.
Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado
com aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mão,
n'um tedio completo de «todas as nossas glorias». E
Carlos, enervado, preso alli pelo dever de applaudir o Alencar,
chamava o Ega para irem abaixo ao botequim espairecer a impaciencia
- quando viu o Eusebiosinho que descia a escada, enfiando á
pressa um paletot alvadio. Não o encontrara mais desde a
infamia da Corneta, em que elle fôra «embaixador».
E a cólera que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo
n'um desejo irresistivel de o espancar. Disse ao Ega:
- Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar
as orelhas áquelle maroto!
- Deixa lá, acudiu Ega, é um irresponsavel!
Mas já Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto,
temendo uma violencia. Quando chegaram á porta, Eusebio mettera
para os lados do Carmo. E alcançaram-no no largo da Abegoaria,
áquella hora deserto, mudo, com dois bicos de gaz mortiços.
Ao vêr Carlos fender assim sobre elle, sem paletot, de peitilho
claro na noite escura, o Eusebio, encolhido, balbuciou atarantadamente:
«Olá, por aqui...»
- Ouve cá, estupôr! rugiu Carlos, baixo. Então
tambem andaste mettido n'essa maroteira da Corneta? Eu devia rachar-te
os ossos um a um!
Agarrára-lhe o braço, ainda sem odio. Mas, apenas
sentiu na sua mão de forte aquella carne mollenga e tremula,
resurgiu n'elle essa aversão nunca apagada - que já
em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho, esfrangalhal-o,
sempre que as Silveiras o traziam á quinta. E então
abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre
viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapéo
coberto de luto que lhe rolára nas lages, dançava,
escanifrado e desengonçado. Por fim Carlos atirou-o contra
a porta d'uma cocheira.
- Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraçado.
Já a mão de Carlos lhe empolgára as guelas.
Mas Ega interveio:
- Alto! Basta! O nosso querido amigo já recebeu a sua dóse...
Elle mesmo lhe apanhou o chapéo. Tremendo, arquejando, de
bruços, Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para
findar, a bota de Carlos atirada com nojo, estatelou-o nas pedras,
para cima d'uma sargeta onde restavam immundicies e humidade de
cavallo.
O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros
baços. Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristylo,
cheio de luz e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em
bico, rodeado d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao
lenço o pescoço e a face, exclamando com o cansaço
radiante d'um triumphador:
- Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda!
Já o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a
escada. E com effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia
ainda o candelabro de duas velas.
Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo côr de canario, o poeta
derramou pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado
e lento: e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia
e de tanta solemnidade.
- A Democracia! annunciou o auctor d'Elvira com a pompa d'uma revelação.
Duas vezes passou pelos bigodes o lenço branco, que depois
atirou para a mesa. E levantando a mão n'um gesto demorado
e largo:
Era n'um parque.
O luar
Sobre os vastos arvoredos,
Cheios de amor e segredos...
- Que lhe disse
eu? exclamou o Ega, tocando no cotovêlo do marquez. É
sentimento... Aposto que é o festim!
E era com effeito o festim, já cantado na Flôr de Martyrio,
festim romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam,
caudas de brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas
do lago sobem cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa
transpareceu a severa idéa social da Poesia. Emquanto, sob
as arvores radiantes de luar, tudo são «risos, brindes,
lascivos murmurios» - fôra, junto ás grades douradas
do parque, assustada com o latir dos molossos, uma mulher macilenta,
em farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o filho que pede
pão... E o poeta, sacudindo os cabellos para traz, perguntava
porque havia ainda esfomeados n'este orgulhoso seculo XIX? De que
servira então, desde Spartacus, o esforço desesperado
dos homens para a Justiça e para a Igualdade? De que servira
então a cruz do grande Martyr, erguida além na collina,
onde, por entre os abetos
Os raios do
sol se somem,
O vento triste se cala...
E as aguias revolteando
D'entre as nuvens estão olhando
Morrer o filho do Homem!
A sala permanecia
muda e desconfiada. E o Alencar, com as mãos tremendo no
ar, desolava-se de que todo o Genio das gerações fosse
impotente para esta coisa simples - dar pão á criança
que chora!
Martyrio do
coração!
Espanto da consciencia!
Que toda a humana sciencia
Não solva a negra questão!
Que os tempos
passem e rolem
E nenhuma luz assome,
E eu veja d'um lado a fome
E do outro a indigestão!
Ega torcia-se,
fungando dentro do lenço, jurando que rebentava. «E
do outro a indigestão!» Nunca, nas alturas lyricas,
se gritára nada tão extraordinario! E sujeitos graves,
em redor, sorriam d'aquelle realismo sujo. Um jocoso lembrou que
para indigestões já havia o bi-carbonato de potassa.
- Quando não são das minhas! rosnou um cavalheiro
esverdinhado, que alargava a fivela do colete.
Mas tudo emmudeceu ante um chut terrível do marquez, que
desapertára o cache-nez, já excitado, no enternecimento
que sempre lhe davam estes humanitarismos poeticos. E entretanto,
no estrado, o Alencar achára a solução do soffrimento
humano! Fôra uma Voz que lh'a ensinára! Uma Voz sahida
do fundo dos seculos, e que através d'elles, sempre suffocada,
viera crescendo todavia irresistivelmente desde o Golgotha até
á Bastilha! E então, mais solemne por traz da mesa,
com um arranque de Precursor e uma firmeza de Soldado, como se aquelle
honesto movel de mogno fosse um pulpito e uma barricada - o Alencar,
alçando a fronte n'uma grande audacia á Danton, soltou
o brado temeroso. Alencar queria a Bepublica!
Sim, a Republica! Não a do Terror e a do odio, mas a da mansidão
e do Amor. Aquella em que o Millionario sorrindo abre os braços
ao Operario! Aquella que é Aurora, Consolação,
Refugio, Estrella mystica e Pomba...
Pomba da Fraternidade,
Que estendendo as brancas azas
Por sobre os humanos lodos,
Envolve os seus filhos todos
Na mesma santa Igualdade!...
Em cima, na
galeria, resoou um bravo ardente. E immediatamente, para o suffocar,
sujeitos sérios lançaram, aqui e além: «Chut,
silencio!» Então Ega ergueu as mãos magras,
bem alto, berrou com um destaque atrevido:
- Bravo! Muito bem! Bravo!
E todo pallido da sua audacia, entalando o monoculo, declarou para
os lados:
- Aquella democracia é absurda... Mas que os burguezes se
dêem ares intolerantes, isso não! Então applaudo
eu!
E as suas mãos magras de novo se ergueram, bem alto, junto
das do marquez que retumbavam como malhos. Outros em volta, immediatamente,
não se querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquelle
fidalgo de tão grande linhagem, reforçaram os bravos
com calor. Já pela sala se voltavam olhares inquietos para
aquelle grupo cheio de revolução. Mas um silencio
cahiu, mais commovido e grave, quando o Alencar (que inspiradamente
previra a intolerancia burgueza) perguntou em estrophes iradas o
que detestavam, o que receavam elles, no advento sublime da Republica?
Era o pão carinhoso dado á criança? Era a mão
justa estendida ao proletario? Era a esperança? Era a aurora?
Receaes a grande
luz?
Tendes medo do Abecê?...
Então castigai quem lê,
Voltai á plebe soez!
Recuai sempre na Historia,
Apagai o gaz nas ruas,
Deixai as crianças nuas,
E venha a forca outra vez!
Palmas, mais
numerosas, já sinceras, estalaram pela sala, que cedia emfim
ao repetido encanto d'aquelle lyrismo humanitario e sonoro. Já
não importava a Republica, os seus perigos. Os versos rolavam,
cantantes e claros; e a sua onda larga arrastava os espiritos mais
positivos. Sob aquelle bafo de sympathia Alencar sorria, com os
braços abertos, annunciando uma a uma, como perolas que se
desfiam, todas as dadivas que traria a Republica. Debaixo da sua
bandeira, não vermelha mas branca, elle via a terra coberta
de searas, todas as fomes satisfeitas, as nações cantando
nos valles sob o olhar risonho de Deus. Sim, porque Alencar não
queria uma Republica sem Deus! A Democracia e o Christianismo, como
um lirio que se abraça a uma espiga, completavam-se, estreitando
os seios! A rocha do Golgotha tornava-se a tribuna da Convenção!
E para tão dôce ideal não se necessitavam cardeaes,
nem missaes, nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita só
de pureza e de fé, reza nos campos; a lua cheia é
hostia; os rouxinoes entoam o tantum ergo nos ramos dos loureiraes.
E tudo prospéra, tudo refulge - ao mundo do Conflicto substitue-se
o mundo do Amor...
Á espada
succede o arado,
A Justiça ri da Morte,
A escóla está livre e forte,
E a Bastilha derrocada.
Róla a tiára no lodo,
Brota o lirio da Igualdade,
E uma nova Humanidade
Planta a cruz na barricada!
Uma rajada
farta e franca de bravos fez oscillar as chammas do gaz! Era a paixão
meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo romantico, da
imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de foguete, conquistando
emfim tudo, pondo uma palpitação em cada peito, levando
chefes de repartição a berrarem, estirados por cima
das damas, no enthusiasmo d'aquella republica onde havia rouxinoes!
E quando Alencar, alçando os braços ao tecto, com
modulações de preghiera na voz roufenha, chamou para
a terra essa pomba da Democracia, que erguera o vôo do Calvario,
e vinha com largos sulcos de luz - foi um enternecimento banhando
as almas, um fundo arrepio d'extasi. As senhoras amolleciam nas
cadeiras, com a face meia voltada ao céo. No salão
abrazado perpassavam frescuras de capella. As rimas fundiam-se n'um
murmurio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de
setim cobrissem, estrellas d'ouro coroassem. E mal se sabia já
se Essa, que se invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade
- ou Nossa Senhora das Dôres.
Alencar no emtanto via-a descer, espalhando um perfume. Já
Ella tocava com os seus pés divinos os valles humanos. Já
do seu seio fecundo trasbordava a universal abundancia. Tudo reflorescia,
tudo rejuvenescia:
As rosas têm
mais aroma!
Os fructos têm mais doçura!
Brilha a alma clara e pura,
Solta de sombras e véos...
Foge a dôr espavorida,
Foi-se a fome, foi-se a guerra,
O homem canta na terra,
E Christo sorri nos céos!...
Uma acclamação
rompeu, immensa e rouca, abalando os muros côr de canario.
Moços exaltados treparam ás cadeiras, dois lenços
brancos fluctuavam. E o poeta, tremulo, exhausto, rolou pela escada
até aos braços que se lhe estendiam frementes. Elle
suffocava, murmurava: «filhos! rapazes!...» Quando Ega
correu do fundo, com Carlos, gritando - «Fôste extraordinario,
Thomaz!»... - as lagrimas saltaram dos olhos do Alencar, quebrado
todo d'emoção.
E ao longo da coxia a ovação continuou, feita de palmadinhas
pelo hombro, de shake-hands da gente séria, de «muitos
parabens a v. exc.ª!» Pouco a pouco elle erguia a cabeça,
n'um altivo sorriso que lhe mostrava os dentes maus, sentindo-se
o poeta da Democracia, consagrado, ungido pelo triumpho, com a inesperada
missão de libertar almas! D. Maria da Cunha puxou-lhe pela
manga quando elle passou, para murmurar, encantada, que achára
- «lindissimo, lindissimo». E o poeta, estonteado, exclamou:
«Maria, é necessario luz!» Telles da Gama veio
bater-lhe nas costas affirmando-lhe que «piára esplendidamente».
E Alencar, inteiramente perdido, balbuciou: «Sursum corda,
meu Telles, sursum corda!»
Ega no emtanto, através do tumulto, farejava buscando Carlos
que desapparecera depois dos abraços ao Alencar. Taveira
assegurou-lhe que Carlos passára para o botequim. Depois
em baixo um garoto jurou que o snr. D. Carlos tomára uma
tipoia e ia já, virando o Chiado...
Ega ficou á porta hesitando se aturaria o resto do sarau.
N'esse momento o Gouvarinho, trazendo a condessa pelo braço,
deseja rapidamente, com a face toda contrariada e sombria. O trintanario
de ss. exc.as correu a chamar o coupé. E quando o Ega se
acercou, sorrindo, para saber que impressão lhes deixára
o grande triumpho democratico do Alencar - a profunda cólera
do Gouvarinho escapou-se-lhe, mal contida, por entre os dentes cerrados:
- Versos admiraveis, mas indecentes!
O coupé avançou. Elle teve apenas tempo de rosnar
ainda, surdamente, apertando a mão ao Ega:
- N'uma festa de sociedade, sob a protecção da rainha,
diante d'um ministro da coroa, fallar de barricadas, prometter mundos
e fundos ás classes proletarias... É perfeitamente
indecente!
Já a condessa enfiára a portinhola, apanhando a larga
cauda de sêda. O ministro mergulhou tambem furiosamente na
sombra do coupé. Junto ás rodas passou choutando,
n'uma pileca branca, o correio agaloado.
Ega ia subir. Mas o marquez appareceu, abafado n'um gabão
d'Aveiro, fugindo a um poeta de grandes bigodes que ficára
em cima a recitar quadrinhas miudinhas a uns olhinhos galantinhos:
e o marquez detestava versos feitos a partes do corpo humano. Depois
foi o Cruges que surgiu do botequim, abotoando o paletot. Então,
perante essa debandada de todos os amigos, Ega decidiu abalar tambem,
ir tomar o seu grog ao Gremio com o maestro.
Metteram o marquez n'uma tipoia - e elle e Cruges desceram a rua
Nova da Trindade, devagar, no encanto estranho d'aquella noite d'inverno,
sem estrellas, mas tão macia que n'ella parecia andar perdido
um bafo de maio.
Passavam á porta do Hotel Alliança quando Ega sentiu
alguem, que se apressava, chamar atraz: - «Ó snr. Ega!
V. exc.ª faz favor, snr. Ega?...»
- Parou, reconheceu o chapéo recurvo, as barbas brancas do
snr. Guimarães.
- V. exc.ª desculpe! exclamou o demagogo esbaforido. Mas vi-o
descer, queria dar-lhe duas palavras, e como me vou embora ámanhã...
- Perfeitamente... Ó Cruges, vai andando, já te apanho!
O maestro estacionou á esquina do Chiado. O snr. Guimarães
pedia de novo desculpa. De resto eram duas curtas palavras...
- V. exc.ª, segundo me disseram, é o grande amigo do
snr. Carlos da Maia... São como irmãos...
- Sim, muito amigos...
A rua estava deserta, com alguns garotos apenas á porta alumiada
da Trindade. Na noite escura a alta fachada do Alliança lançava
sobre elles uma sombra maior. Todavia o snr. Guimarães baixou
a voz cautelosa:
- Aqui está o que é... V. exc.ª sabe, ou talvez
não saiba, que eu fui em Paris intimo da mãi do snr.
Carlos da Maia... V. exc.ª tem pressa, e não vem agora
a proposito essa historia. Basta dizer que aqui ha annos ella entregou-me,
para eu guardar, um cofre que, segundo dizia continha papeis importantes...
Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras coisas em que pensar,
os annos correram, ella morreu. N'uma palavra, porque v. exc.ª
está com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse deposito,
e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negocios da
herança de meu irmão... Ora hoje justamente, alli
no theatro, comecei a reflectir que o melhor era entregal-o á
familia...
O Cruges mexeu-se impaciente:
- Ainda te demoras?
- Um instante! gritou Ega, já interessado por aquelles papeis
e pelo cofre. Vai andando.
Então o snr. Guimarães, á pressa, resumiu o
pedido. Como sabia a intimidade do snr. João da Ega e de
Carlos da Maia, lembrára-se de lhe entregar o cofresinho
para que elle o restituisse á familia...
- Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no
Ramalhete.
- Ah, muito bem! Então v. exc.ª manda um criado de confiança
ámanhã buscal-o... Eu estou no Hotel de Paris, no
Pelourinho. Ou melhor ainda: levo-lh'o eu, não me dá
incommodo nenhum, apesar de ser dia de partida...
- Não, não, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo
a mão ao democrata.
Elle estreitou-lh'a com calor.
- Muito agradecido a v. exc.ª! Eu junto-lhe então um
bilhete e v. exc.ª entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia,
ou á irmã.
Ega teve um movimento d'espanto:
- Á irmã!... A que irmã?
O snr. Guimarães considerou Ega tambem com assombro. E abandonando-lhe
lentamente a mão:
- A que irmã!? A irmã d'elle, á unica que tem,
á Maria!
Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado gritou da esquina:
- Bem, eu vou andando para o Gremio.
- Até logo!
O snr. Guimarães, no emtanto, passava os dedos calçados
de pellica preta pelos longos fios da barba, fitando o Ega, n'um
esforço de penetração. E quando Ega lhe travou
do braço, pedindo-lhe para conversarem um pouco até
ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentidão
desconfiada.
- Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que nós
estamos aqui a enrodilhar-nos n'um equivoco... Eu conheço
o Maia desde pequeno, vivo até agora em casa d'elle, posso
afiançar-lhe que não tem irmã nenhuma...
Então o snr. Guimarães começou a rosnar umas
desculpas embrulhadas que mais enervavam, torturavam o Ega. O snr.
Guimarães imaginava que não era segredo, que todas
essas coisas da irmã estavam esquecidas, desde que houvera
reconciliação...
- Como vi, ainda não ha muitos dias, o snr. Carlos da Maia
com a irmã e com v. exc.ª, na mesma carruagem, no caes
do Sodré...
- O quê! Aquella senhora! A que ia na carruagem?
- Sim! exclamou o snr. Guimarães irritado, farto emfim d'essa
confusão em que se debatiam. Aquella mesma, a Maria Eduarda
Monforte, ou a Maria Eduarda Maia, como quizer, que eu conheci de
pequena, com quem andei muitas vezes ao collo, que fugiu com o Mac-Gren,
que esteve depois com a besta do Castro Gomes... Essa mesma!
Era ao meio do Loreto sob o lampeão de gaz. E o snr. Guimarães
de repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror,
uma terrivel pallidez cobrir-lhe a face.
- V. exc.ª não sabia nada d'isto?
Ega respirou fortemente, arredando o chapéo da testa sem
responder. Então o outro, embaçado, terminou por encolher
os hombros. Bem, via que tinha feito uma tolice! A gente nunca se
devia intrometter nos negocios alheios! Mas acabou-se! Imaginasse
o snr. Ega que aquillo fôra um pesadêlo, depois da versalhada
do sarau! Pedia desculpa sinceramente - e desejava ao snr. João
da Ega muitissimo boas noites.
Ega, como a um clarão de relampago, entrevira toda a catastrophe:
e agarrou avidamente o braço do snr. Guimarães, n'um
terror que elle abalasse, desapparecesse, levando para sempre o
seu testemunho, esses papeis, o cofre da Monforte, e com elles a
certeza - a certeza por que agora anciava. E através do Loreto,
vagamente, foi balbuciando, justificando a sua emoção,
para tranquillisar o homem, poder lentamente arrancar-lhe as coisas
que soubesse, as provas, a verdade inteira.
- O snr. Guimarães comprehende... Isto são coisas
muito delicadas, que eu suppunha absolutamente ignoradas de todos...
De modo que fiquei embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim
de repente fallar d'ellas com essa simplicidade... Porque emfim,
aqui para nós, essa senhora não passa em Lisboa por
irmã de Carlos.
O snr. Guimarães atirou logo a mão n'um grande-gesto.
Ah, bem! Então era jogo com elle? Pois tinha feito o snr.
Ega perfeitamente... Com certeza eram coisas muito sérias,
que necessitavam toda a sorte de vêos... Elle comprehendia,
comprehendia muito bem!... E realmente, dada a posição
dos Maias em Lisboa, na sociedade, aquella senhora não era
irmã que se apresentasse.
- Mas a culpa não a teve ella, meu caro senhor! Foi a mãi,
foi aquella extraordinaria mãi que o Diabo lhe deu!...
Desciam o Chiado. Ega parou um momento, devorando o velho com olhos
de febre:
- O snr. Guimarães conheceu muito essa senhora, a Monforte?
Intimamente! Já a conhecera em Lisboa - mas de longe, como
mulher de Pedro da Maia. Depois viera essa tragedia, ella fugira
com o italiano. Elle abalára tambem para Paris n'esse anno,
com uma Clemence, uma costureira da Levaillant: e, umas coisas enfiando
n'outras, negocios e desgraças, por lá ficára
para sempre! Emfim, não era a sua vida que lhe ia contar...
Só mais tarde encontrára a Monforte, uma noite, no
baile Laborde: e d'ahi datavam as suas relações. A
esse tempo já o italiano morrera n'um duello, e o velho Monforte
espichára da bexiga. Ella estava então com um rapaz
chamado Trevernnes - n'uma casa bonita, no Parc Monceaux, em grande
chic... Mulher extraordinaria! E não se envergonhava de confessar
que lhe devia obrigações! Quando essa rapariga, a
Clemence, que era um encanto, adoecera do peito, a Monforte trazia-lhe
flôres, frutas, vinhos, fazia-lhe companhia, velava-a como
um anjo... Porque lá isso coração largo e generoso
atá alli! Esta, a filha, a D. Maria, tinha então sete
ou oito annos, linda como os amores... E houvera uma outra pequena
do italiano, muito galantinha tarobem. Oh! muito galantinha tambem!
Mas morrera em Londres, essa...
- E com esta Maria andei muitas vezes ao collo, meu caro senhor...
Não sei se ella ainda se lembra d'uma boneca que eu lhe dei,
que fallava, dizia Napoléon... Era no bello tempo do Imperio,
até as desavergonhadas das bonecas eram imperialistas! Depois,
quando ella estava em Tours, no convento, fui lá duas vezes
com a mãi. Já então os meus principios me não
permittiam entrar n'esses covis religiosos: mas emfim fui acompanhar
a mãi... E quando ella fugiu com o irlandez, o MacGren, foi
commigo que a mãi veio ter, furiosa, a querer que eu chamasse
o commissario de policia para se prender o irlandez. Por fim metteu-se
n'um fiacre, foi para Fontainebleau, lá fez as pazes, viviam
até juntos... Emfim uma série de trapalhadas.
Um suspiro cansado escapou-se do peito do Ega, que arrastava os
passos, succumbido:
- E esta senhora, está claro, não sabia então
de quem era filha...
O snr. Guimarães encolheu os hombros:
- Nem suspeitava que existissem Maias sobre a face da terra! A Monforte
dissera-lhe sempre que o pai era um fidalgo austriaco com quem ella
casára na Mudeira... Uma mixordia, meu caro senhor, uma mixordia!
- É horrivel! murmurou Ega.
Mas, dizia o snr. Guimarães, que podia tambem fazer a Monforte?
Que diabo, era duro confessar á filha: «Olha que eu
fugi a teu pai, e elle por causa d'isso matou-se!» Não
tanto pela questão de pudor; a rapariga devia perceber que
a mãi tinha amantes, ella mesma aos dezoito annos, coitadinha,
já tinha um; mas por causa do tiro, do cadaver, do sangue...
-A mim mesmo! exclamou o snr. Guimarães, parando, alargando
os braços na rua deserta. A mim mesmo nunca ella fallou do
marido, nem de Lisboa, nem de Portugal. Lembra-me até uma
occasião em casa da Clemence, que eu alludi a um cavallo
lazão, um cavallo de Pedro da Maia, em que ella costumava
montar. Animal soberbo! Mas nem mencionei o marido, fallei só
do cavallo. Pois senhores, bate com o leque em cima da mesa, grita
como uma bicha: - Dites donc, mon cher, vous m'embêtez avec
ces histoires de l'autre monde!... Com effeito, bem o podia dizer,
eram historias do outro mundo! Para encurtar: estou convencido que
nos ultimos tempos ella mesmo julgava que Pedro da Maia nunca existira.
Uma insensata! Por fim até bebia... Mas acabou-se! Tinha
grande coração, e portou-se muito bem com a Clemence.
Parce sepultis!
- É horrivel! murmurou outra vez o Ega, tirando o chapéo
correndo a mão tremula pela testa.
E agora o seu unico desejo era a accumulação incessante
de provas, de detalhes. Fallou então d'esses papeis, d'esse
cofre da Monforte. O snr. Guimarães não sabia o que
elles continham; e não se admiraria se fossem apenas contas
de modista, ou pedaços velhos do Figaro em que se fallava
d'ella...
- É uma caixita pequena que a Monforte me deu, na vespera
de partir para Londres com a filha. Era no tempo da guerra... Já
a Maria vivia com o irlandez, tinha mesmo uma pequena, a Rosa. Depois
veio a Communa, todos aquelles desastres. Quando a Monforte voltou
de Londres eu estava em Marselha. Foi então que a pobre Maria
se metteu com o Castro Gomes, creio que para não morrer de
fome... Eu recolhi a Paris, mas não vi mais a Monforte, que
já estava muito doente... Á Maria, collada então
a essa besta do Castro Gomes, um pedante, um rastaquouère
mesmo a calhar para a guilhotina, não tornei tambem a fallar.
Se a encontrava era um comprimento de longe, como n'outro dia, quando
a vi na carruagem com v. exc.ª e com o irmão... De sorte
que fui ficando com os papeis. Nem a fallar a verdade, com estas
coisas todas de politica, me lembrei mais d'elles. E agora ahi estão,
ás ordens da familia.
- Se isso não fosse incommodo para v. exc.ª, acudiu
Ega, eu passava agora pelo seu hotel e levava-os logo commigo...
- Incommodo nenhum! Estamos em caminho, é negocio que fica
feito!
Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acabára. Um
bater de carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto d'elles
passaram duas senhoras, com um rapaz que bracejava, fallando alto
do Alencar. O snr. Guimarães tirára lentamente do
bolso a charuteira: depois parando, para raspar um phosphoro:
- Então a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como
soube ella? Como foi isso?
Ega, que caminhava com a cabeça cahida, estremeceu como se
acordasse. E começou a tartamudear uma historia confusa,
de que elle mesmo córava na sombra. Sim, Maria Eduarda passava
por parenta. Fôra o procurador que descobrira. Ella rompera
com o Castro Gomes, com todo o passado. Os Maias davam-lhe uma mezada;
e vivia nos Olivaes, muito retirada, como filha d'um Maia que morrera
na Italia. Todos gostaram muito d'ella, Affonso da Maia tinha grande
ternura pela pequena...
E de repente indignou-se com estas invenções por onde
arrastava já o nome do nobre velho, exclamou como se abafasse:
- Emfim, nem eu sei, um horror!
- Um drama! resumiu gravemente o snr. Guimarães.
E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento
emquanto elle corria acima buscar os papeis da Monforte.
Só, no largo, Ega ergueu as mãos ao céo n'um
desabafo mudo d'aquella angustia em que caminhava, como um somnambulo,
desde o Loreto. E a sua unica sensação, bem clara
- era a indestructivel certeza da historia do Guimarães,
tão compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse
e se fizesse cahir aos pedaços. O homem conhecera Maria Monforte
em Lisboa, ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavallo
lazão; encontrára-a em Paris já fugida, depois
da morte do primeiro amante, vivendo com outros; andára então
ao collo com Maria Eduarda a quem se davam bonecas... E desde então
não deixára mais de vêr Maria Eduarda, de a
seguir: em Paris; no convento de Tours; em Fontainebleau com o irlandez;
nos braços de Castro Gomes; n'uma tipoia de praça
emfim com elle e com Carlos da Maia, havia dias, no caes do Sodré!
Tudo isto se encadeava, concordando com a historia contada por Maria
Eduarda. E de tudo resaltava esta certeza monstruosa: - Carlos amante
da irmã!
Guimarães não descia. No segundo andar surgira uma
luz viva, n'uma janella aberta. Ega recomeçou a passear lentamente
pelo meio do largo. E agora, pouco a pouco, subiu n'elle uma incredulidade
contra esta catastrophe de dramalhão. Era acaso verosimil
que tal se passasse, com um amigo seu, n'uma rua de Lisboa, n'uma
casa alugada á mãi Cruges?... Não podia ser!
Esses horrores só se produziam na confusão social,
no tumulto da Meia-Idade! Mas n'uma sociedade burgueza, bem policiada,
bem escripturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos
papeis, com tanto registro de baptismo, com tanta certidão
de casamento, não podia ser! Não! Não estava
no feitio da vida contemporanea que duas crianças separadas
por uma loucura da mãi, depois de dormirem um instante no
mesmo berço, cresçam em terras distantes, se eduquem,
descrevam as parabolas remotas dos seus destinos - para quê?
Para virem tornar a dormir juntas no mesmo ponto, n'um leito de
concubinagem! Não era possivel. Taes coisas pertencem só
aos livros, onde vêm, como invenções subtis
da arte, para dar, á alma humana um terror novo... Depois
levantava os olhos para a janella alumiada - onde o snr. Guimarães
decerto rebuscava os papeis na mala. Alli estava porém esse
homem com a sua historia em que não havia uma discordancia
por onde ella pudesse ser abalada!... E pouco a pouco aquella luz
viva, sahida do alto, parecia ao Ega penetrar n'essa intrincada
desgraça, aclaral-a toda, mostrar-lhe bem a lenta evolução.
Sim, tudo isso era provavel no fundo! Essa criança, filha
d'uma senhora que a levára comsigo, cresce, é amante
d'um brazileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. N'um bairro visinho
vive outro filho d'essa mulher, por ella deixado, que cresceu, é
um homem. Pela sua figura, o seu luxo, elle destaca n'esta cidade
provinciana e pelintra. Ella por seu lado, loura, alta, esplendida,
vestida pela Laferrière, flôr d'uma civilisação
superior, faz relêvo n'esta multidão de mulheres miudinhas
e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde todos se acotovelavam,
os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho pessoal, muito
fatalmente se attrahem! Ha nada mais natural? Se ella fosse feia
e trouxesse aos hombros uma confecção barata da loja
da America, se elle fosse um mocinho encolhido de chapéo
côco, nunca se notariam e seguiriam diversamente nos seus
destinos diversos. Assim, o conhecerem-se era certo, o amarem-se
era provavel... E um dia o snr. Guimarães passa, a verdade
terrivel estala!
A porta do hotel rangeu no escuro, o snr. Guimarães adiantou-se,
de boné de sêda na cabeça, com o embrulho na
mão.
- Não podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.ª
É sempre assim quando ha pressa... E aqui temos o famoso
cofre!
- Perfeitamente, perfeitamente...
Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulhára
n'um velho numero do Rappel. Ega metteu-a no bolso largo do seu
paletot: e immediatamente, como se qualquer outra palavra entre
elles fosse vã, estendeu a mão ao snr. Guimarães.
Mas o outro insistiu em o acompanhar até á esquina
da rua do Arsenal, apesar de estar de boné. A noite, para
quem vinha de Paris, tinha uma doçura oriental - e elle,
com os seus habitos de jornalista, nunca se deitava senão
tarde, ás duas, tres horas da madrugada...
E então, caminhando devagar, com as mãos nos bolsos
e o charuto entre os dentes, o snr. Guimarães voltou á
politica e ao sarau. A poesia do Alencar (de que esperára
muito por causa do titulo, A Democracia) sahira-lhe consideravelmente
chôcha.
- Muita flôr, muita farofia, muita liberdade, mas não
havia alli um ataque em fórma, duas ou tres boas estocadas
n'esta choldra da monarchia e da côrte... Pois não
é verdade?
- Sim, com effeito... - murmurou Ega, olhando ao longe, na esperança
d'uma tipoia.
- É como os jornaes republicanos que por ahi ha... Tudo uma
palhada, senhores, tudo uma balofice!... É o que eu lhes
digo a elles: - «Ó almas do diabo, atacai as questões
sociaes!»
Felizmente um trem avançava, rolando devagar, do lado do
Terreiro do Paço. Ega, precipitadamente, deu um aperto de
mão ao democrata, desejou-lhe uma «boa viagem»,
atirou ao cocheiro a adresse do Ramalhete. Mas o snr. Guimarães
ainda se apoderou da portinhola para aconselhar ao Ega que fosse
a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o apresentar
a toda aquella gente... E o snr. Ega veria! Não era cá
a grande pose portugueza, d'estes imbecis, d'estes pelintras a darem-se
ares, torcendo os bigodes. Lá, na primeira nação
do mundo, tudo era alegria e fraternidade e espirito a rodos...
- E a minha adresse, na redacção do Rappel! Bem conhecida
no mundo! Emquanto ao embrulhosinho fico descançado...
- Póde v. exc.ª ficar descançado!
- Criado de v. exc.ª... Os meus comprimentos á snr.ª
D. Maria!
Na carruagem, através do Aterro, a anciosa interrogação
do Ega a si mesmo foi - que hei de fazer?» Que faria, santo
Deus, com aquelle segredo terrivel que possuia, de que só
elle era senhor, agora que o Guimarães partia, desapparecia
para sempre? E antevendo com terror todas as angustias em que essa
revelação ia lançar o homem que mais estimava
no mundo - a sua instinctiva idéa foi guardar para sempre
o segredo, deixal-o morrer dentro em si. Não diria nada;
o Guimarães sumia-se em Paris; e quem se amava continuava
a amar-se!... Não crearia assim uma crise atroz na vida de
Carlos - nem soffreria elle, como companheiro, a sua parte d'essas
afflicções. Que coisa mais impiedosa, de resto, que
estragar a vida de duas innocentes e adoraveis creaturas, atirando-lhes
á face uma prova de incesto!...
Mas, a esta idéa de incesto, todas as consequencias d'esse
silencio lhe appareceram, como coisas vivas e pavorosas, flammejando
no escuro diante dos seus olhos. Poderia elle tranquillamente testemunhar
a vida dos dois - desde que a sabia incestuosa? Ir á rua
de S. Francisco, sentar-se-lhes alegremente á mesa, entrevêr
através do reposteiro a cama em que ambos dormiam - e saber
que esta sordidez de peccado era obra do seu silencio? Não
podia ser... Mas teria tambem coragem de entrar ao outro dia no
quarto de Carlos, e dizer-lhe em face - «Olha que tu és
amante de tua irmã?»
A carruagem parára no Ramalhete. Ega subiu, como costumava,
pela escada particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Accendeu
a sua palmatoria; entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos;
deu alguns passos timidos no tapete, que pareceram já soar
tristemente. Um reflexo d'espelho alvejou ao fundo na sombra da
alcova. E a luz cahiu sobre o leito intacto, com a sua longa colcha
lisa, entre os cortinados de sêda. Então a idéa
que Carlos estava áquella hora na rua de S. Francisco, dormindo
com uma mulher que era sua irmã, atravessou-o com uma cruel
nitidez, n'uma imagem material, tão viva e real, que elle
viu-os claramente, de braços enlaçados, e em camisa...
Toda a belleza de Maria, todo o requinte de Carlos desappareciam.
Ficavam só dois animaes, nascidos do mesmo ventre, juntando-se
a um canto como cães, sob o impulso bruto do cio!
Correu para o seu quarto, fugindo áquella visão a
que o escuro do corredor, mal dissipado pela luz tremula, accentuava
mais o relêvo. Aferrolhou a porta; accendeu á pressa
sobre o toucador, uma depois da outra, com a mão agitada,
as seis velas dos candelabros. E agora apparecia-lhe mais urgente,
inevitavel, a necessidade de contar tudo a Carlos. Mas ao mesmo
tempo sentia em si, a cada instante, menos animo para chegar, encarar
Carlos, e destruir-lhe a felicidade e a vida com uma revelação
d'incesto. Não podia! Outro que lh'o dissesse! Elle lá
estava depois para o consolar, tomar metade da sua dôr, carinhoso
e fiel. Mas o desgosto supremo da vida de Carlos não viria
de palavras cahidas da sua boca!... Outro que lh'o dissesse! Mas
quem? Mil idéas passavam na sua pobre cabeça, incoherentes
e tontas. Pedir a Maria que fugisse, desapparecesse... Escrever
uma carta anonyma a Carlos, com a detalhada historia do Guimarães...
E esta confusão, esta anciedade ia-se resolvendo lentamente
em odio ao snr. Guimarães. Para que fallára áquelle
imbecil? Para que insistira em lhe confiar papeis alheios? Para
que lh'o apresentára o Alencar? Ah! se não fosse a
carta do Damaso... Tudo provinha do maldito Damaso!
Agitando-se pelo quarto, ainda de chapéo, os seus olhos cahiram
n'um sobrescripto pousado sobre a mesa de cabeceira. Reconheceu
a letra do Villaça. E nem a abriu... Uma idéa sulcára-o
de repente. Contar tudo ao Villaça!... Porque não?
Era o procurador dos Maias. Nunca para elle houvera segredos n'aquella
casa. E esta complicação singular d'uma senhora da
familia, considerada morta e que surge inesperadamente - a quem
a pertencia aclarar senão ao fiel procurador, ao velho confidente,
ao homem que, por herança e por destino, recebera sempre
todos os segredos e partilhára todos os interesses domesticos?...
E sem pensar, sem aprofundar mais, fixou-se logo n'esta decisão
salvadora, - que ao menos o socegava, lhe tirava já do coração
um peso de ferro, suffocante e intoleravel...
Devia acordar cedo, procurar Villaça em casa. Escreveu n'uma
folha de papel - «Acorda-me ás sete». E desceu
abaixo, ao longo corredor de pedra onde dormiam os criados, dependurou
este recado na chave do quarto do escudeiro.
Quando subiu, mais calmo, - abriu então a carta do Villaça.
Era uma curta linha lembrando ao amigo Ega que a letrinha de duzentos
mil reis, no Banco Popular, se vencia d'ahi a dois dias...
- Sêbo, tudo se junta! exclamou Ega furioso, atirando a carta
amarrotada para o chão.
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