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CAPÍTULO
III
Carlos,
que almoçára cedo, estava para sahir no coupé,
e já de chapéo - quando Baptista veio dizer que o
snr. Ega, desejando fallar-lhe n'uma coisa grave, lhe pedia para
esperar um instante. O snr. Ega ficára a fazer a barba.
Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que
ella chegára a Lisboa, Ega ainda a não vira, e fallava
d'ella raramente. Mas Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas
as manhãs o pobre Ega mostrava um desapontamento ao receber
o correio, que só lhe trazia algum jornal cintado, ou cartas
de Celorico. Á noite percorria dois, tres theatros, já
quasi vazios n'aquelle começo de verão; e ao recolher
era outra desconsolação, quando os criados lhe affirmavam,
com certeza, que não viera carta alguma para s. exc.ª
Decerto Ega não se resignava a perder Rachel, anciava por
a encontrar; e roía-o o despeito de que ella, de qualquer
modo, lhe não tivesse mostrado que no seu coração
permanecia ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente
na vespera Ega apparecera á hora do jantar, transtornado:
cruzára-se com o Cohen na rua do Ouro, e parecera-lhe que
«esse canalha» lhe atirára de lado um olhar atrevido,
sacudindo a bengala; o Ega jurava que se «esse canalha»
ousasse outra vez fital-o, espedaçava-o, sem piedade, publicamente,
a uma esquina da Baixa.
Na ante-camara o relogio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a
subir ao quarto do Ega. Mas n'esse instante o correio chegava, com
a Revista dos Dois Mundos, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho.
Carlos acabava de a lêr - quando o Ega appareceu, de jaquetão,
e em chinelas.
- Tenho a fallar-te n'uma coisa grave, menino.
- Lê isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da
Gouvarinho.
A Gouvarinho, n'um tom amargo, queixava-se que, já por duas
vezes, Carlos faltára ao rendez-vous em casa da titi, sem
lhe ter sequer escripto uma palavra; ella vira n'isto uma offensa,
uma brutalidade; e vinha agora intimal-o, «em nome de todos
os sacrificios que por elle fizera», a que apparecesse na
rua de S. Marçal, domingo ao meio dia, para terem uma explicação
definitiva antes d'ella partir para Cintra.
- Excellente occasião d'acabar! exclamou Ega, entregando
a carta a Carlos, depois de respirar o perfume do papel. Não
vás, nem respondas... Ella parte para Cintra, tu para Santa
Olavia, não vos vêdes mais, e assim finda o romance.
Finda como todas as coisas grandes, como o Imperio Romano, e como
o Rheno, por dispersão, insensivelmente...
- É o que eu vou fazer, disse Carlos, começando a
calçar as luvas. Jesus! Que mulher massadora!
- E que desavergonhada! Chamar a essas coisas «sacrificios!...»
Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se lá
de extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao setimo
céo, delira, e depois põe dolorosamente os olhos no
chão, e chama a isso «sacrificios...» Só
com um chicote!...
Carlos encolheu os hombros, com resignação, como se
nas condessas de Gouvarinho, e no mundo, só houvesse incoherencia
e dólo.
- E que é isso que tu me tinhas a dizer?
Ega então tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa
uma cigarrette, abotoou devagar o jaquetão.
- Tu não tens visto o Damaso?
- Nunca mais me appareceu, disse Carlos. Creio que está amuado...
Eu sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois
dedos...
- Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda ahi, por toda a parte,
fallando de ti e d'essa senhora, tua amiga... A ti chama-te pulha,
a ella peor ainda. É a velha historia; diz que te apresentou,
que te metteste de dentro, e como para essa senhora é uma
questão de dinheiro, e tu és o mais rico, ella lhe
passou o pé.. Vês d'ahi a infamiasinha. E isto tagarellado
pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes, envolvendo
sempre a questão de dinheiro. Tudo isto é atroz. Trata
de lhe pôr cobro.
Carlos, muito pallido, disse simplesmente:
- Ha de se fazer justiça.
Desceu, indignado. Aquella torpe insinuação sobre
«dinheiro» parecia-lhe poder ser castigada só
com a morte. E um instante mesmo, com a mão no fecho da portinhola
do coupé, pensou em correr a casa do Datoaso, tomar um desforço
brutal.
Mas eram quasi onze horas, e elle tinha d'ir aos OIivaes. No dia
seguinte, sabbado, dia bello entre todos e solemne para o seu coração,
Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e ficára
combinado, na vespera, que passariam lá as horas do calor,
até tarde, sós, n'aquella casa solitaria e sem criados,
escondida entre as arvores. Elle pedira-lh'o assim, hesitante e
a tremer: ella consentira logo, sorrindo e naturalmente. N'essa
manhã elle mandára aos Olivaes dois criados para arejar
as salas, espanejar, encher tudo de flôres. Agora ia lá,
como um devoto, vêr se estava bem enfeitado o sacrario da
sua deusa... E era através d'estes deliciosos cuidados, em
plena ventura, que lhe apparecia outra vez, suja e empanando o brilho
do seu amor, a tagarellice do Damaso!
Até aos Olivaes, não cessou de ruminar coisas vagas
e violentas que faria para aniquilar o Damaso. No seu amor não
haveria paz, emquanto aquelle villão o andasse commentando
sordidamente pelas esquinas das ruas. Era necessario enxovalhal-o
de tal modo, com tal publicidade, que elle não ousasse mais
mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... Quando o coupé
parou á porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas no
Damaso, uma tarde, no Chiado, com apparato...
Mas depois, ao regressar da quinta, vinha já mais calmo.
Pisára a linda rua d'acacias que os pés d'ella pisariam
na manhã seguinte: dera um longo olhar ao leito que seria
o leito d'ella, rico, alçado sobre um estrado, envolto em
cortinados de brocatel côr d'ouro, com um esplendor sério
d'altar profano... D'ahi a poucas horas, encontrar-se-hiam sós
n'aquella casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o verão
os seus amores viveriam escondidos n'esse fresco retiro d'aldêa;
e d'ahi a tres mezes estariam longe, na Italia, á beira d'um
claro lago, entre as flôres d'Isola Bella... No meio d'estas
voluptuosidades magnificas, que lhe podia importar o Damaso, gorducho
e reles, palrando em calão nos bilhares do Gremio! Quando
chegou á rua de S. Francisco resolvera, se visse o Damaso,
continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.
Maria Eduarda fôra passear a Belem com Rosa deixando-lhe um
bilhete, em que lhe pedia para vir á noite faire un bout
de causerie. Carlos desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho
de papel na carteira como uma dôce reliquia; e sahia o portão,
no momento em que o Alencar desembocava defronte, da travessa da
Parreirinha, todo de preto, moroso e pensativo. Ao avistar Carlos,
parou de braços abertos; depois vivamente, como recordando-se,
ergueu os olhos para o primeiro andar.
Não se tinham visto desde as corridas, o poeta abraçou
com effusão o seu Carlos. E fallou logo de si, copiosamente.
Estivera outra vez em Cintra, em Collares com o seu velho Carvalhosa:
e o que se lembrára do rico dia passado com Carlos e com
o maestro em Sitiaes!... Cintra uma belleza. Elle, um pouco constipado.
E apesar da companhia do Carvalhosa, tão erudito e tão
profundo, apesar da excellente musica da mulher, da Julinha (que
para elle era como uma irmã), tinha-se aborrecido. Questão
de velhice...
- Com effeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te
o teu ar aureolado.
O poeta encolheu os hombros.
- O Evangelho lá o diz bem claro... Ou é a Biblia
que o diz...? Não; é S. Paulo... S. Paulo ou Santo
Agostinho?... Emfim a authoridade não faz ao caso. N'um d'esses
santos livros se affirma que este mundo é um valle de lagrimas...
- Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente.
O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que importava?...
Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera elle dissera isso
mesmo em casa dos Cohens...
E de repente, estacando no meio da rua, tocando no braço
de Carlos:
- E agora por fallar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza,
meu rapaz. Eu sei que tu és intimo do Ega, e, que diabo,
ninguem lhe admira mais o talento do que eu!... Mas, realmente,
tu approvas que elle, apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse
metter em Lisboa? Depois do que houve!...
Carlos afiançou ao poeta que o Ega só no dia mesmo
da chegada, horas depois, soubera pela Gazeta Illustrada a vinda
dos Cohens... E de resto se não podessem habitar, conjuntas
na mesma cidade, as pessoas entre as quaes tivesse havido attritos
desagradaveis, as sociedades humanas tinham de se desfazer...
Alencar não respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com
a cabeça baixa. Depois parou de novo, franzindo a testa:
- Outra coisa em que te quero fallar. Houve entre ti e o Damaso
alguma péga? Eu pergunto-te isto porque n'outro dia, lá
em casa dos Cohens, elle veio com uns ditos, umas insinuações...
Eu declarei-lhe logo: «Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro
da Maia, é como se fosse meu irmão.» E o Damaso
calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que eu n'estas coisas
de lealdade e de coração sou uma fera!
Carlos disse simplesmente:
- Não, não ha nada, não sei nada... Nem sequer
tenho visto o Damaso.
- Pois é verdade, continuou Alencar tomando o braço
de Carlos, lembrei-me muito de ti em Cintra. Até fiz lá
um coisita que me não sahiu má, e que te dediquei...
Um simples soneto, uma paizagem, um quadrosinho de Cintra ao pôr
do sol. Quiz provar ahi a esses da Idéa Nova, que, sendo
necessario, tambem por cá se sabe cinzelar o verso moderno
e dar o traço realista. Ora espera ahi, eu te digo, se me
lembrar. A coisa chama-se - Na estrada dos Capuchos...
Tinham parado á esquina do Seixas; e o poeta tossira já
de leve, antes de recitar, - quando justamente lhes appareceu o
Ega, vindo de baixo, vestido de campo, com uma bella rosa branca
no jaquetão de flanella azul.
Alencar e elle não se encontravam desde a fatal soirée
dos Cohens. E ao passo que o Ega conservava um resentimento feroz
contra o poeta vendo n'elle o inventor d'essa perfida lenda da «carta
obscena»- Alencar odiava-o pela certeza secreta de que elle
fôra o amante amado da sua divina Rachel. Ambos se fizeram
pallidos; o aperto de mão que deram foi incerto e regelado;
e ficaram calados, todos tres, emquanto Ega nervoso levava uma eternidade
a accender o charuto no lume de Carlos. Mas foi elle que fallou,
por entre uma fumaça, affectando uma superioridade amavel:
- Acho-te com boa côr, Alencar!
O poeta foi amavel tambem, um pouco d'alto, passando os dedos no
bigode:
- Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos dás essas Memorias
homem?
- Estou á espera que o paiz aprenda a lêr.
- Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso,
elle occupa-se da Instrucção publica... Olha, alli
o tens tu, grave e ôco como uma columna do Diario do Governo...
O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde
o Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao
lado d'elles, de chapéo branco, de collete branco, o Damaso
deitava olhares pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um
conquistador nos seus dominios. Já aquelle arzinho gordo
de tranquillo triumpho irritou Carlos. Mas quando o Damaso parou
defronte, no outro passeio, todo de costas para elle, ostentando
rir alto com o Gouvarinho, não se conteve, atravessou a rua.
Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mão do Gouvarinho, saudou
de leve o Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente:
- Ouve lá. Se continúas a fallar de mim e de pessoas
das minhas relações, do modo como tens fallado, e
que não me convém, arranco-te as orelhas.
O conde acudiu, mettendo-se entre elles:
- Maia, por quem é! Aqui no Chiado...
- Não é nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o,
muito sério e muito sereno. É apenas um aviso a este
imbecil.
- Eu não quero questões, eu não quero questões!...
balbuciou o Damaso, livido, enfiando para dentro d'uma tabacaria.
E Carlos voltou, com socego, para junto dos seus amigos, depois
de ter saudado o Cohen e sacudir a mão ao Gouvarinho.
Vinha apenas um pouco pallido: mais perturbado estava o Ega, que
julgára vêr de novo, n'um olhar do Cohen, uma provocação
intoleravel. Só o Alencar não reparára em nada:
continuava a discursar sobre coisas litterarias, explicando ao Ega
as concessões que se podiam fazer ao naturalismo...
- Fiquei aqui a dizer ao Ega... É evidente que quando se
trata de paizagem é necessario copiar a realidade... Não
se póde descrever um castanheiro a priori, como se descreveria
uma alma... E lá isso faço eu... Ahi está esse
soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos. É realista,
está claro que é, realista... Pudéra, se é
paizagem! Ora eu vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu
appareceste, Ega... Mas vejam lá vocês se isto os massa...
Qual massava! E até, para o escutarem melhor, penetraram
na rua de S. Francisco, mais silenciosa. Ahi, dando um passo lento,
depois outro, o poeta murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pôr
do sol: uma ingleza, de cabellos soltos, toda de branco, desce n'um
burrinho por uma vereda que domina um vale; as aves cantam de leve,
ha borboletas em torno das madresilvas; então a ingleza pára,
deixa o burrinho, olha enlevada o céo, os arvoredos, a paz
das casas; - e ahi, no ultimo terceto, vinha «a nota realista»
de que se ufanava o Alencar:
Ella olha a
flôr dormente, a nuvem casta,
Emquanto
o fumo dos casae se eleva
E ao
lado o burro, pensativo, pasta.
- Ahi têm vocês o traço, a nota naturalista...
Ao lado o burro, pensativo, pasta... Eis ahi a realidade, está-se
a vêr o burro pensativo... Não ha nada mais pensativo
que um burro... E são estas pequeninas coisas da natureza
que é necessario observar... Já vêem votos que
se póde fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades...
Vocês que lhes parece o soneto?
Ambos o elogiaram profundamente - Carlos arrependido de não
ter completado a humilhação do Damaso, dando-lhe bengaladas;
Ega pensando que decerto, n'uma d'essas tardes, no Chiado, teria
de esbofetear o Cohen. Como elles recolhiam ao Ramalhete, Alencar,
já desanuviado, foi acompanhal-os pelo Aterro. E fallou sempre,
contando o plano de um romance historico, em que elle queria pintar
a grande figura d'Affonso d'Albuquerque, mas por um lado mais humano,
mais intimo: Affonso d'Albuquerque namorado: Affonso d'Albuquerque,
só, de noite, na pôpa do seu galeão, diante
d'Ormuz incendiada, beijando uma flôr secca, entre soluços.
Alencar achava isto sublime.
Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir á rua de S. Francisco
- quando o Baptista veio dizer que o snr. Telles da Gama lhe desejava
fallar com urgencia. Não o querendo receber, alli, em mangas
de camisa, mandou-o entrar para o gabinete escarlate e preto. E
veio d'ahi a um instante encontrar Telles da Gama admirando as bellas
faianças hollandezas.
- Você, Maia, tem isto lindissimo, exclamou elle logo. Eu
pello-me por porcelanas... Hei de voltar um dia d'estes, com mais
vagar, vêr tudo isto, de dia... Mas hoje venho com pressa,
venho com uma missão... Você não adivinha?
Carlos não adivinhava.
E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia
um sorriso:
- Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se você
hoje, n'aquillo que lhe disse, tinha tenção de o offender.
É, só isto... A minha missão é apenas
esta: perguntar-lhe se você tinha intenço de o offender.
Carlos olhou-o, muito sério:
- O quê!? Se tinha intenção de offender o Damaso
quando o ameacei de lhe arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha
só intenção de lhe arrancar as orelhas!
Telles da Gama saudou, rasgadamente:
- Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que você não
tinha senão essa intenção. Em todo o caso,
desde este momento, a minha missão está finda... Como
você tem isto bonito!... O que é aquelle prato grande,
majolica?
- Não, um velho Nevers. Veja você ao pé... É
Thetis conduzindo as armas d'Achilles... É esplendido; e
é muito raro... Veja você esse Deft, com as duas tulipas
amarellas... É um encanto!
Telles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades,
tomando o chapéo de sobre o sofá.
- Lindissimo tudo isto!... Então só intenção
de lhe arrancar as orelhas? nenhuma de o offender?...
- Nenhuma de o offender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume
você um charuto.
- Não, obrigado...
- Calice de cognac?
- Não! abstenção total de bebidas e aguas ardentes...
Pois adeus, meu bom Maia!
- Adeus, meu bom Telles...
Ao outro dia, por uma radiante manhã de julho, Carlos saltava
do coupé, com um mólho de chaves, diante do portão
da quinta do Craft. Maria Eduarda devia chegar ás dez horas,
só, na sua carruagem da Companhia. O hortelão, dispensado
por dois dias, fôra a Villa Franca; não havia ainda
criados na casa; as janellas estavam fechadas. E pesava alli, envolvendo
a estrada e a vivenda, um d'esses altos e graves silencios d'aldêa,
em que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos.
Logo depois do portão, penetrava-se n'uma fresca rua d'acacias,
onde cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, apparecia o kiosque,
com tecto de madeira, pintado de vermelho, que fôra o capricho
de Craft, e que elle mobilára á japoneza. E ao fundo
era a casa, caiada de novo, com janellas de peitoril, persianas
verdes, e a portinha ao centro sobre tres degraus, flanqueados por
vasos de louça azul cheios de cravos.
Só o metter a chave devagar e com uma inutil cautela na fechadura
d'aquella morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janellas:
e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doçura rara,
e uma alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente
pelo bom Deus para alumiar a festa do seu coração.
Correu logo á sala de jantar, a verificar se, na mesa posta
para o lunch, se conservavam ainda viçosas as flôres
que lá deixára na vespera. Depois voltou ao coupé
a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em
flanella, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia só
passando uma saloia montada na sua egua.
Mas apenas accommodára o gelo - sentiu fóra o ruido
lento da carruagem. Veio para o gabinete forrado de cretones, que
abria sobre o corredor; e ficou alli, espreitando da porta, mas
escondido, por causa do cocheiro da Conpanhia. D'ahi a um instante
viu-a emfim chegar, pela rua de acacias, alta e bella, vestida de
preto, e com um meio-véo espesso como uma mascara. Os seus
pésinhos subiram os tres degraus de pedra. Elle sentiu a
sua voz inquieta perguntar de leve:
- Êtes-vous là?
Appareceu - e ficaram um instante, á porta do gabinete, apertando
sofregamente as mãos, sem fallar, commovidos, deslumbrados.
- Que linda manhã! disse ella por fim, rindo e toda vermelha.
- Linda manhã, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado.
Maria Eduarda resvalára sobre uma cadeira, junto da porta,
n'um cansaço delicioso, deixando calmar o alvoroço
do seu coração.
- É muito confortavel, é encantador tudo isto, dizia
ella olhando lentamente em redor os cretones do gabinete, o divan
turco coberto com um tapete de Brousse, a estante envidraçada
cheia de livros. Vou ficar aqui adoravelmente...
- Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido
a olhar para ella. Ainda nem lhe beijei a mão...
Maria Eduarda começou atirar o véo, depois as luvas,
fallando da estrada. Achara-a longa, fatigante. Mas que lhe importava?
Apenas se accommodasse n'aquelle fresco ninho nunca mais voltava
a Lisboa!
Atirou o chapéo para cima do divan - ergueu-se, toda alegre
e luminosa.
- Vamos vêr a casa, estou morta por vêr essas maravilhas
do seu amigo Craft!... É Craft que se chama? Craft quer dizer
industria!
- Mas ainda nem sequer lhe beijei a mão! tornou Carlos, sorrindo
e supplicante.
Ella estendeu-lhe os labios, e ficou presa nos seus braços.
E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabello, dizia-lhe quanto
era feliz e quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros
de quinta que a separavam do resto do mundo...
Ella deixava-se beijar, séria e grave:
- E é verdade isso? É realmente verdade?...
Se era verdade! Carlos teve um suspiro quasi triste:
- Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga
que já Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol,
mas que não duvide de mim...
Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada.
- Vamos vêr a casa, disse ella.
Começaram pelo segundo andar. A escada era escura e feia:
mas os quartos em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de
papeis claros, abriam sobre o rio e sobre os campos.
- Os seus aposentos, disse Carlos, hão de ser em baixo, está
visto, entre as coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui
esplendidamente. Não lhe parece?
E ella percorria os quartos, devagar, examinando a accommodação
dos armarios, palpando a elasticidade dos colxões, attenta,
cuidadosa, toda no desvelo de alojar bem a sua gente. Por vezes
mesmo exigia uma alteração. E era realmente como se
aquelle homem que a seguia, enternecido e radiante, fosse apenas
um velho senhorio.
- O quarto com as duas janellas, ao fundo do corredor, seria o melhor
para Rosa. Mas a pequena não póde dormir n'aquelle
enorme leito de pau preto...
- Muda-se!
- Sim, póde mudar-se... E falta uma sala larga para ella
brincar, ás horas do calor... Se não houvesse o tabique
entre os dois quartos pequenos...
- Deita-se abaixo
Elle esfregava as mãos, encantado, prompto a refundir toda
a casa; e ella não recusava nada, para conforto mais perfeito
dos seus.
Desceram á sala de jantar. E ahi, diante da famosa chaminé
de carvalho lavrado, flanqueada á maneira de cariatides pelas
duas negras figuras de Nubios, com olhos rutilantes de crystal,
Maria Eduarda começou a achar o gosto do Craft excentrico,
quasi exotico... Tambem Carlos não lhe dizia que Craft tivesse
o gosto correcto d'um atheniense. Era um saxonio batido d'um raio
de sol meridional: mas havia muito talento na sua excentricidade...
- Oh, a vista é que é deliciosa! exclamou ella chegando-se
á janella.
Junto do peitoril crescia um pé de margaridas, e ao lado
outro de baunilha que perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete
de relva, mal aparada, um pouco amarellada já pelo calor
de julho; e entre duas grandes arvores que lhe faziam sombra, havia
alli, para os vagares da sésta, um largo banco de cortiça.
Um renque de arbustos cerrados parecia fechar a quinta d'aquelle
lado como uma sebe. Depois a collina descia, com outras quintarolas,
casas que se não viam, e uma chaminé de fabrica; e
lá no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e cheio
de sol, até ás montanhas d'além-Tejo, azuladas
tambem na faiscação clara do céo de verão.
- Isto é encantador! repetia ella.
- É um paraiso! Pois não lhe dizia eu? É necessario
pôr um nome a esta casa... Como se ha de chamar? Villa-Marie?
Não. Château-Rose... Tambem não, crédo!
Parece o nome d'um vinho. O melhor é baptisal-a definitivamente
com o nome que nós lhe davamos. Nós chamavamos-lhe
a Tóca.
Maria Eduarda achou originalissimo o nome de Tóca. Devia-se
até pintar em letras vermelhas sobre o portão.
- Justamente, e com uma divisa de bicho, disse Carlos rindo. Uma
divisa de bicho egoista na sua felicidade e no seu buraco: Não
me mexam!
Mas ella parára, com um lindo riso de surpreza, diante da
mesa posta, cheia de fruta, com as duas cadeiras já chegadas,
e os crystaes brilhando entre as flôres.
- São as bodas de Canná!
Os olhos de Carlos resplandeceram.
- São as nossas!
Maria Eduarda fez-se muito vermelha; e baixou o rosto a escolher
um morango, depois a escolher uma rosa.
- Quer uma gota de champagne? exclamou Carlos. Com um pouco de gelo?
Nós temos gelo, temos tudo! Não nos falta nada, nem
a benção de Deus... Uma gotinha de champagne, vá!
Ella aceitou: beberam pelo mesmo copo; outra vez os seus labios
se encontraram, apaixonadamente.
Carlos accendeu uma cigarrette, continuaram a percorrer a casa.
A cozinha agradou-lhe muito, arranjada á ingleza, toda em
azulejos. No corredor Maria Eduarda demorou-se diante de uma panoplia
de tourada, com uma cabeça negra de touro, espadas e garrochas,
mantos de sêda vermelha, conservando nas suas pregas uma graça
ligeira, e ao lado o cartaz amarello de la corrida, com o nome de
Lagartijo. Isto encantou-a como um quente lampejo de festa e de
sol peninsular...
Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lh'o foi
mostrar, desagradou-lhe com o seu luxo estridente e sensual. Era
uma alcova, recebendo a claridade d'uma sala forrada de tapeçarias,
onde desmaiavam na trama de lá os amores de Venus e Marte:
da porta de communicação, arredondada em arco de capella,
pendia uma pesada lampada da Renascença, de ferro forjado:
e, áquella hora, batida por uma larga facha de sol, a alcova
resplandecia como o interior de um tabernaculo profanado, convertido
em retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e tectos,
de um brocado amarello, côr de botão d'ouro; um tapete
de velludo do mesmo tom rico fazia um pavimento d'ouro vivo sobre
que poderiam correr nús os pés ardentes d'uma deusa
amorosa - e o leito de docel, alçado sobre um estrado, coberto
com uma colcha de setim amarello bordada a flôres d'ouro,
envolto em solemnes cortinas tambem amarellas de velho brocatel,
- enchia a alcova, esplendido e severo, e como erguido para as voluptuosidades
grandiosas de uma paixão tragica do tempo de Lucrecia ou
de Romeu. E era alli que o bom Craft, com um lenço de sêda
da India amarrado na cabeça, resonava as suas sete horas,
pacata e solitariamente.
Mas Maria Eduarda não gostou d'estes amarellos excessivos.
Depois impressionou-se, ao reparar n'um painel antigo, defumado,
resultando em negro do fundo de todo aquelle ouro - onde apenas
se distinguia uma cabeça degolada, livida, gelada no seu
sangue, dentro d'um prato de cobre. E para maior excentricidade,
a um canto, de cima de uma columna de carvalho, uma enorme coruja
empalhada fixava no leito d'amor, com um ar de meditação
sinistra, os seus dois olhos redondos e agourentos... Maria Eduarda
achava impossível ter alli sonhos suaves.
Carlos agarrou logo na columna e no mocho, atirou-os para um canto
do corredor; e propoz-lhe mudar aquelles brocados, forrar a alcova
de um setim côr de rosa e risonho.
- Não, venho-me a acostumar a todos esses duros... Sómente
aquelle quadro, com a cabeça, e com o sangue... Jesus, que
horror!
- Reparando bem, disse Carlos, creio que é o nosso velho
amigo S. João Baptista.
Para desfazer essa impressão desconsolada levou-a ao salão
nobre, onde Craft concentrára as suas preciosidades. Maria
Eduarda, porém, ainda descontente, achou-lhe um ar atulhado
e frio de museu.
- É para vêr de pé, e de passagem... Não
se póde ficar aqui sentado, a conversar.
- Mas esta é materia-prima! exclamou Carlos. Com isto depois
faz-se uma sala adoravel... Para que serve o nosso genio decorativo?...
Olhe o armario, veja que centro! Que belleza!
Enchendo quasi a parede do fundo, o famoso armario, o «movel
divino» do Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica,
luxuoso e sombrio, tinha uma magestade architectural: na base quatro
guerreiros, armados como Marte, flanqueavam as portas, mostrando
cada uma em baixo-relevo o assalto de uma cidade ou as tendas de
um acampamento; a peça superior era guardada aos quatro cantos
pelos quatro evangelistas, João, Marcos, Lucas e Matheus,
imagens rigidas, envolvidas n'essas roupagens violentas que um vento
de prophecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um trophéo
agricola com mólhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabiças
d'arados; e, á sombra d'estas coisas de labor e fartura,
dois Faunos, recostados em symetria, indifferentes aos heroes e
aos santos, tocavam n'um desafio bucolico a frauta de quatro tubos.
- Então, hein? dizia Carlos. Que movel! É todo um
poema da Renascença, Faunos e Apostolos, guerras e georgicas...
Que se póde metter dentro d'este armario? Eu se tivesse cartas
suas era aqui que as depositava, como n'um altar-mór.
Ella não respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas
coisas do passado, d'uma belleza fria, e exhalando a indefinida
tristeza de um luxo morto: finos moveis da Renascença italiana,
exilados dos seus palacios de marmore, com embutidos de Cornalina
e agatha que punham um brilho suave de joia sobre a negrura dos
ebanos ou setim das madeiras côr de rosa; cofres nupciaes,
longos como bahús, onde se guardavam os presentes dos Papas
e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com graças de
miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de ferro
brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em
fórma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga...
Aqui e além, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia
uma colcha de setim toda recamada de flôres e d'aves d'ouro;
ou sobre um bocado de tapete do Oriente de tons severos, com versículos
do Alcorão, desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete
em Cythera sobre a sêda de um leque aberto...
Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz
xv, ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta
de tapeçaria de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda
um vago aroma d'empoado.
Carlos triumphava, vendo a admiração de Maria. Então,
ainda considerava uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo
de enthusiasmo?
- Não, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei
a viver uma vida pacata de aldêa no meio de todas estas raridades...
- Não diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pégo
fogo a tudo!
Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianças, toda
uma arte immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas.
Uma sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taça persa, d'um
desenho raro, com um renque de negros cyprestes, cada um abrigando
uma flôr de côr viva: e aquillo fazia lembrar breves
sorrisos reapparecendo entre longas tristezas. Depois eram as apparatosas
majolicas, de tons estridentes e desencontrados, cheias de grandes
personagens, Carlos V passando o Elba, Alexandre coroando Roxane;
os lindos Nevers, ingenuos e sérios; os Marselhas, onde se
abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra, uma grossa rosa
vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o azul-ferrete
de céo tropical; os Wedgewood, côr de leite e côr
de rosa, com transparencias fugitivas de concha na agua...
- Só um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez
sentar-se, é necessario saudar o genio tutelar da casa!
Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze,
um deus bestial, nú, pellado, obeso, de papeira, faceto e
banhado de riso, com o ventre óvante, distendido na indigestão
de todo um universo - e as duas perninhas bambas, molles e flaccidas
como as pelles mortas d'um feto. E este monstro triumphava, encanchado
sobre um animal fabuloso, de pés humanos, que dobrava para
a terra o pescoço submisso, mostrando no focinho e no olho
obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhação...
- E pensarmos, dizia Carlos, que gerações inteiras
vieram ajoelhar-se diante d'este ratão, rezar-lhe, beijar-lhe
o embigo, offerecer-lhe riquezas, morrer por elle...
- O amor que se tem por um monstro, disse Maria, é mais meritorio,
não é verdade?
- Por isso não acha talvez meritorio o amor que se tem por
si...
Sentaram-se ao pé da janella, n'um divan baixo e largo, cheio
de almofadas, cercado por um biombo de sêda branca, que fazia
entre aquelle luxo do passado um fôfo recanto de conforto
moderno: e como ella se queixava um pouco de calor, Carlos abriu
a janella. Junto do peitotil crescia tambem um grande pé
de margaridas; adiante, n'um velho vaso de pedra, pousado sobre
a relva, vermelhejava a flôr d'um cacto; e dos ramos de uma
nogueira cahia uma fina frescura.
Maria Eduarda veio encostar-se á janella, Carlos seguiu-a;
e ficaram alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados
pela doçura d'aquella solidão. Um passaro cantou de
leve no ramo da arvore; depois calou-se. Ella quiz saber o nome
de uma povoação que branquejava ao longe ao sol na
collina azulada. Carlos não se lembrava. Depois brincando,
colheu uma margarida, para a interrogar: Elle m'aime, un peu, beaucoup...
Ella arrancou-lh'a das mãos.
- Para que precisa perguntar ás flôres?
- Porque ainda m'o não disse claramente, absolutamente, como
eu quero que m'o diga...
Abraçou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Então Carlos,
com os olhos mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixínho e
implorando:
- Ainda não vimos a saleta de banho...
Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaçada pelo salão,
depois através da sala de tapeçarias onde Marte e
Venus se amavam entre os bosques. Os banhos eram ao lado, com um
pavimento de azulejo, avivado por um velho tapete vermelho da Caramania.
Elle, tendo-a sempre abraçada, pousou-lhe no pescoço
um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos cerraram-se,
pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e côr d'ouro:
Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella, feitas
de uma sêda leve que coava para dentro uma claridade loura:
e um instante ficaram immoveis, sós emfim, desatado o abraço,
sem se tocarem, como suspensos e suffocados pela abundancia da sua
felicidade.
- Aquella horrivel cabeça! murmurou ella.
Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E
então todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida
entre as arvores, n'uma demorada sésta, sob a calma de julho...
Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo.
Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tomára-se
o café no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam
abertas. A noite estava tepida, estrellada e serenissima. Craft,
Sequeira e o Taveira passeavam fumando no terraço. Ao canto
d'um sofá Cruges escutava religiosamente Steinbroken que
lhe contava, com gravidade, os progressos da musica na Filandia.
E em redor de Affonso, estendido na sua velha poltrona, de cachimbo
na mão, fallava-se do campo.
Ao jantar Affonso annunciára a intenção de
ir visitar, para o meado do mez, as velhas arvores de Santa Olavia;
e combinára-se logo uma grande romaria de amizade ás
margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam Affonso. O marquez
promettera uma visita para agosto «na companhia melodiosa»,
dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com receio
da longa jornada, da humidade da aldêa. E agora tratava-se
de persuadir Ega a ir tambem, com Carlos - quando Carlos acabasse
emfim de reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa
«á banca do labor...» Mas o Ega resistiu. O campo,
dizia elle, era bom para os selvagens. O homem, á maneira
que se civilisa, afasta-se da natureza; e a realisação
do progresso, o paraíso na Terra, que presagiam os Idealistas,
concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o Globo,
toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e além
um bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes
para perfumar o altar da Justiça...
- E o milho? A bella fruta? A hortaliçasinha? perguntava
Villaça, rindo com malicia.
Imaginava então Villaça, replicava o outro, que d'aqui
a seculos ainda se comeriam hortaliças? O habito dos vegetaes
era um resto da rude animalidade do homem. Com os tempos o sêr
civilisado e completo vinha a alimentar-se unicamente de productos
artificiaes, em frasquinhos e em pilulas, feitos nos laboratorios
do Estado...
- O campo, disse então D. Diogo, passando gravemente os dedos
pelos bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer
um bonito pic-nic, para uma burficada, para uma partida de croquet...
Sem campo não ha sociedade.
- Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda
se admitte...
Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em
silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente
a tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassidão. E então
o marquez, que já duas vezes, dirigindo-se a elle, encontrára
a mesma abstracção radiosa, impacientou-se:
- Homem, falle, diga alguma coisa!... Você está hoje
com um ar extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de
papar o Santissimo!
Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: Villaça
achava-lhe agora melhor cara, côr d'alegria: D. Diogo, com
um ar entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe
o vigor. E Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido.
Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo áquelle exame affectuoso.
- Com effeito, disse elle, espreguiçando-se de leve, tenho
estado hoje languido e mono... É o começo do verão...
Mas é necessario sacudir-me... Quer você fazer uma
partida de bilhar, ó marquez?
- Vá lá, homem. Se isso o resuscita...
Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marquez parando, e
como recordando-se, perguntou sela rebuço ao Ega noticias
dos Cohens. Tinham-se encontrado? Estava tudo acabado? Para o marquez,
uma flôr de lealdade, não havia segredos: Ega contou-lhe
que o romance findára, e agora o Cohen, quando o cruzava,
baixava prudentemente os olhos...
- Eu perguntei isto, disse o marquez, porque já vi a Cohen
duas vezes...
- Onde? foi a exclamação sôfrega do Ega.
- No Price, e sempre com o Damaso. A ultima vez foi já esta
semana. E lá estava o Damaso, muito chegadinho, palrando
muito... Depois veio sentar-se um bocado ao pé de mim, e
sempre d'olho n'ella... E ella de lá, com aquelle ar de lambisgoia,
de luneta n'elle... Não havia que duvidar, era um namoro...
Aquelle Cohen é um predestinado.
Ega fez-se livido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer:
- O Damaso é muito intimo d'elles... Mas talvez se atire,
não duvido... São dignos um do outro.
No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiçosamente,
elle não cessou de passear, n'uma agitação,
trincando o charuto apagado. De repente estacou em frente do marquez,
com os olhos chammejantes:
- Quando é que você a viu ultimamente no Price, essa
torpe iliba d'Israel?
- Terça-feira, creio eu.
O Ega recomeçou a passear, sombrio.
N'esse instante Baptista, apparecendo á porta do bilhar,
chamau Carlos em silencio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido.
- É um cocheiro de praça, murmurou Baptista. Diz que
está alli uma senhora dentro d'uma carruagem que lhe quer
fallar.
- Que senhora?
Baptista encolheu os hombros. Carlos, de taco na mão, olhava
para elle, aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria
suceedido, santo Deus, para ella vir n'uma tipoia, ás nove
da noite, ao Ramalhete!
Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapéo baixo; e
assim mesmo, de casaca, sem paletot, desceu n'uma grande anciedade.
No peristyllo topou com Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente
com o lenço a poeira dos botins. Nem fallou ao Eusebiosinho.
Correu ao coupé, parado á porta particular dos seus
quartos, mudo, fechado, mysterioso, aterrador...
Abriu a pertinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro,
abafado n'uma mantilha de renda, debruçou-se, perturbado,
balbuciou:
- É só um instante! Quero-lhe fallar!
Que allivio! Era a Gouvarinho! Então, na sua indignação,
Carlos foi brutal.
- Que diabo de tolice é esta? Que quer?
Ia bater com a portinhola; ella empurrou-a para fóra, desesperada;
e não se conteve, desabafou logo alli, diante do cocheiro,
que mexia tranquillamente na fivela d'um tirante.
- De quem é a culpa? Para que me trata d'este modo?... É
só um instante, entre, tenho de lhe fallar!...
Carlos saltou para dentro, furioso:
- Dá uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar!
O velho calhambeque desceu a calçada; e durante um momento,
na escuridão, recuando um do outro no assento estreito, tiveram
as mesmas palavras, bruscas e colericas, através do barulho
das vidraças.
- Que imprudencia! que tolice!...
- E de quem é a culpa? De quem é a culpa?
Depois, na rampa de Santos, o coupé rolou mais silenciosamente
no macadam. Carlos então, arrependido da sua dureza, voltou-se
para ella, e com brandura, quasi no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a
por aquella imprudencia... Pois não era melhor ter-lhe escripto?
- Para quê? exclamou ella. Para não me responder? Para
não fazer caso das minhas cartas, como se fossem as de um
importuno a pedir-lhe uma esmola!...
Suffocava, arrancou a mantilha da cabeça. No vagaroso rolar
do coupé, sem ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respiração
d'ella, tumultuosa e cheia d'angustia. E não dizia nada,
immovel, n'um infinito mal-estar, entrevendo confusamente, através
do vidro embaciado, na sombra triste do rio adormecido, as mastreações
vagas de falúas. A parelha parecia ir adormecendo; e as queixas
d'ella desenrolavam-se, profundas, mordentes, repassadas d'amargura.
- Peço-lhe que venha a Santa Isabel, não vem... Escrevo-lhe,
não me responde... Quero ter uma explicação
franca comsigo, não apparece... Nada, nem um bilhete, nem
uma palavra, nem um aceno... Um desprezo brutal, um desprezo grosseiro...
Eu nem devia ter vindo... Mas não pude, não pude!...
Quiz saber o que lhe tinha feito. O que é isto? Que lhe fiz
eu?
Carlos percebia os olhos d'ella, faiscantes sob a nevoa de lagrimas
retidas, supplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer
de a fitar, murmurou, torturado:
- Realmente, minha amiga... As coisas fallam bem por si, não
são necessarias explicações.
- São! É necessario saber se isto é uma coisa
passageira, um amuo, ou se é uma coisa definitiva, um rompimento
Elle agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, affectuosa
ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo d'ella findára.
Terminou por afirmar que não era um amuo. Os seus sentimentos
tinham sido sempre elevados, não cahiria agora na pieguice
de ter um amuo...
- Então é um rompimento?...
- Não, tambem não... Um rompimento absoluto, para
sempre, não...
- Então é um amuo? Porquê?
Carlos não respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo braço.
- Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! Não seja cobarde,
tenha a coragem de dizer o que é!
Sim, ella tinha razão... Era uma cobardia, era uma indignidade,
continuar alli, gôchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar
coisas mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte.
- Pois bem, ahi está. Eu entendi que as nossas relações
deviam ser alteradas...
E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo
aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia.
- Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado,
que não podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre...
E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas,
através do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquella
ligação? Ao resultado costumado. A que a um dia se
descobrisse tudo, e o seu bello romance acabasse no escandalo e
na vergonha; ou a que, envolvendo-os por muito tempo o segredo,
elle viesse a descahir na banalidade d'uma união quasi conjugal,
sem interesse e sem requinte. De resto era certo que, continuando
a encontrarem-se, aqui, em Cintra, n'outros sitios, a sociedadesinha
curiosa e mexeriqueira viria a perceber a sua affeição.
E havia por acaso nada mais horroroso, para quem tem orgulho e delicadeza
d'alma, do que uns amores que todo o publico conhece, até
os cocheiros de praça? Não... O bom senso, o bom gosto
mesmo, tudo indicava a necessidade d'uma separação.
Ella mesmo mais tarde lhe seria grata... Decerto, esta primeira
interrupção d'um habito dôce era desagradavel,
e elle estava bem longe de se sentir feliz. Fôra por isso
que não tivera a coragem de lhe escrever... Emfim deviam
ser fortes, e não se vêrem pelo menos durante alguns
mezes... Depois, pouco a pouco, o que era capricho fragil, cheio
de inquietação, tornar-se-hia uma boa amizade, bem
segura e bem duradoura.
Calou-se; e então, no silencio, sentiu que ella, cahida para
o canto do coupé, como uma coisa miseravel e meio morta,
encolhida no seu véo, estara chorando baixo.
Foi um momento intoleravel. Ella chorava sem violencia, mansamente,
com um chôro lento, que parecia não dever findar. E
Carlos só achava esta palavra banal e desenxabida:
- Que tolice, que tolice!
Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz.
Um americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. N'aquella
noite de verão e d'estrellas, havia gente vagueando tranquillamente
entre as arvores. Ella continuava a chorar.
Aquelle pranto triste, lento, correndo a seu lado, começou
a commovel-o; e ao mesmo tempo quasi lhe queria mal por ella não
reter essas lagrimas infindaveis que laceravam o seu coração...
E elle que estava tão tranquillo, no Ramalhete, na sua poltrona,
sorrindo a tudo, n'uma deliciosa lassidão!
Tomou-lhe a mão, querendo calmal-a, apiedado, e já
impaciente.
- Realmente não tem razão. É absurdo... Tudo
isto é para seu bem...
Ella leve emfim um movimemto, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente
por entre longos soluços... E de repente, n'um arranque de
paixão, atirou-lhe os braços ao pescoço, prendendo-se
a elle com desespero, esmagando-o contra o seu seio.
- Oh meu amor, não me deixes, não me deixes! Se tu
soubesses! És a única felicidade que eu tenho na vida...
Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz eu? Ninguem sabe do nosso amor...
E que soubesse! Por ti sacrifico tudo, vida, honra,tudo! tudo!...
Molhava-lhe a face com o resto das suas lagrimas; e elle abandonava-se,
sentindo aquelle corpo sem collete, quente e como nú, subir-lhe
para os joelhos, collar-se ao seu, n'um furor de o repossuir, com
beijos sôfregos, furiosos, que o suffocavam... Subitamente
a tipoia parou. E um momento ficaram assim - Carlos immovel, ella
cahida sobre elle e arquejando.
Mas a tipoia não continuava. Então Carlos desprendeu
um braço, desceu o vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete.
O homem obedecendo á ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar,
subira a rampa, retrocedera á porta da casa. Durante um instante
Carlos teve a tentação de descer, acabar alli bruscamente
aquelle longo tormento. Mas pareceu-lhe uma brutalidade. E desesperado,
detestando-a, berrou ao cocheiro:
- Outra vez ao Aterro, anda sempre!...
A tipoia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar;
de novo as pedras da calçada fizeram tilintir os vidros;
de novo, mais suavemente, desceram a rampa de Santos.
Ella recomeçára os seus beijos. Mas tinham perdido
a chamma que um instante os fizera quasi irresistiveis. Agora Carlos
sentia só uma fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu
quarto, ao repouso de que ella o arrancára para o torturar
com estas recriminações, estes ardores entre lagrimas...
E de repente, emquanto a condessa balbuciava, como tonta, pendurada
do seu pescoço, - elle viu surgir n'alma, viva e resplandecente,
a imagem de Maria Eduarda, tranquilla áquella hora na sua
sala de reps vermelho, fazendo serão, confiando n'elle, pensando
n'elle, relembrando as felicidades da vespera, quando a Toca, cheia
de seus amores, dormia, branca entre as arvores... Teve então
horror á Gouvarinho; brutalmente, sem piedade, repelliu-a
para o canto do coupé.
- Basta! Tudo isto é absurdo... As nossas relações
estão acabadas, não temos mais nada que nos dizer!
Ella ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um
riso nervoso, reppelliu-o tambem, phreneticamente, pisando-lhe o
braço.
- Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brazileira!
Eu conheço-a, é uma aventureira que tem o marido arruinado,
e precisa quem lhe pague as modistas!...
Elle voltou-se, com os punhos fechados, como para a espancar; e
na tipoia escura, onde já havia um vago cheiro de verbena,
os olhos d'ambos, sem se vêrem, dardejavam o odio que os enchia...
Carlos bateu raivosamente no vidro. A tipoia não parou. E
a Gouvarinho, do outro lado, furiosa, magoando os dedos, procurava
descer a vidraça.
- É melhor que sáia! dizia ella suffocada. Tenho horror
de me achar aqui, ao seu lado! Tenho horror! Cocheiro! cocheiro!
O calhambeque parou. Carlos pulou para fóra, fechou d'estalo
a portinhola; e sem uma palavra, sem erguer o chapéo, virou
costas, abalou a grandes passadas para o Ramalhete, tremulo ainda,
cheio d'idéas de rancor, sob a paz da noite estrellada.
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