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O Primo da Califórnia
Joaquim Manuel de Macedo

 


Ópera em dois atos

Foi à cena na abertura do Ginásio Dramático, em 12 de abril de 1855.
Imitação do francês


PERSONAGENS

ADRIANO GENIPAPO, jovem professor de música
PANTALEÃO, amigo taberneiro
FELISBERTO, alfaiate
ERNESTO, amigo de Adriano
CELESTINA
BEATRIZ, criada de Adriano
Dois amigos de Adriano

A cena passa-se no Rio de Janeiro


ATO I

O teatro representa uma sala modestamente ornada; uma mesa com gavetas; um piano, um violão, papéis de música, etc.; uma porta ao fundo abrindo para a rua.

__________

CENA I

BEATRIZ (Em pé, engraxando um botim) - eis-me aqui pagando os meus pecados!... eu sou uma espécie de verbi-gratia das mudanças desta vida. No tempo do vice-rei chamavam-me a nenê da rua das Flores; quando o rei chegou, já eu era conhecida pela formosa Beatriz: depois que me apareceu o primeiro cabelinho branco, tiveram o desaforo de tratar-me por tia Beatriz; felizmente ainda a sorte me deparou um soldado inválido que quis casar comigo; mas veio a febre amarela, que deu baixa eterna ao meu querido Pancrácio, e eu fiquei viúva, e viúva sem filha, e sem vintém! Não tive remédio senão recorrer aos Diários, e anunciar uma criada para homem solteiro ou viúvo: tive a esperança de me tornar meia-dona de casa; mas por fim de contas fiquei simples criada, e criada muito ordinária: isto é, criada de um músico!... Eis aqui portanto a bota de um músico engraxada pelas mãos da formosa Beatriz!... Oh! Eu só conheço três coisas tão desprezíveis como as botas de um músico: uma barretina de soldado, um capote de estudante, e uma casaca de meirinho! E eu sempre a engraxar estas botas, botas de um músico, de um músico que tem a pouca vergonha de me estar a dever cinco patacas de despesas miúdas!... (Canta)

No tempo da ventura
Chamavam-me formosa;
E agora nem airosa
Alguém, que eu sou, me diz!...

Engraxa, engraxa as botas,
Engraxa, Beatriz!

Meus olhos, minhas faces
Cobriam de louvores;
E agora... adeus amores,
Já torcem-me o nariz!

Engraxa, engraxa as botas,
Engraxa, Beatriz!


CENA II

BEATRIZ E CELESTINA

CELESTINA - Bom dia, senhor Beatriz; o senhor Adriano não está em casa?...
BEATRIZ - sumiu-se logo depois do almoço: também é provável que não esperasse pela sua visita, porque a senhora tem passado dois dias sem aparecer.
CELESTINA - não me tem sido possível.
BEATRIZ - Sim... sim... entendo isto às mil maravilhas! E, quanto a mim, minha menina, julgo que faz muito bem em ir pondo o anzol a outro peixinho.
CELESTINA - O que quer dizer com isso, senhora Beatriz?...
BEATRIZ - Eu nem de leve pretendo ofendê-la; minhas intenções são muito boas; e olhe, menina, tal como aqui me vê, já tive meus trinta e seis anos de idade, e então cometi a fraqueza de deixar o meu coração prender0me na patrona de um cabo-de-esquadra; oh! Quanta sedução que tinha!...
CELESTINA - O que, senhora Beatriz?... a patrona?...
BEATRIZ - Não, menina; o cabo-de-esquadra.
CELESTINA - E deixou-se enganar por ele?...
BEATRIZ - Também não, e a prova é que ele me desposou; mas passei uma vida de trabalho e pobreza, porque o triste Pancrácio apenas tinha de mais que os outros cabos-de-esquadra uma pequena pensão; mas também tinha de menos que os outros uma perna... era a direita; logo a direita!... a mais bonita de suas duas pernas!...
CELESTINA - mas eu não compreendo que relação...
BEATRIZ - Não compreende?... mas, minha menina, a moral da história está mesmo saindo pela ponta dos dedos! Em uma palavra, moça e bela, como a senhora é, não deve votar-se sem mais reflexão ao amor de um mancebo, que não tem aquilo com que se compram os melões; olhe, o senhor Adriano padece a moléstia mais feia e mais terrível deste mundo.. tem a tísica das algibeiras.
CELESTINA - Ah! Era isso?... pois é precisamente porque Adriano é pobre, que eu gosto, quero e hei de amá-lo sempre e cada vez mais. (Canta)

Minh'alma foi sempre rude,
Nunca aprendeu a contar;
Não serve pra guarda-livros;
O que sabe é só amar!

O meu Adriano é pobre,
Mas não indigno de mim;
Eu amo a sua pobreza;
"Gosto bem de ser assim!"

BEATRIZ - Sim... sim... idéias romanescas, poesias, e pensamentos generosos; mas o diabo me leve se a senhora for capaz de fazer ferver uma panela no fogo com um soneto, ou com uma idéia generosa.
CELESTINA - Mas bem que o senhor Adriano não esteja em muito boa posição: o que prova que ele seja tão pobre, como a senhor o diz?...
BEATRIZ - Quando se está devendo cinco patacas a sua criada, minha menina...
CELESTINA (à parte) Pobre moço!... (A Beatriz) Eis aí como se faz uma acusação injusta!... ele me havia encarregado de lhe entregar essa quantia, e eu não tendo vindo aqui há dois dias, deixei de cumprir tal comissão. (Dá dinheiro)
BEATRIZ (recebendo) - É singular! Ainda ontem falei-lhe nesta continha, e ele nada me disse.
CELESTINA - Poder-se-ia ter esquecido, ou não quereria falar no meu nome.
BEATRIZ (À parte) - Aqui há coisa! Mas como já tenho nas unhas o meu dinheiro, fica o exame desta geringonça para depois.
CELESTINA - E Adriano sem voltar!...
BEATRIZ - Não pode tardar... foi dar lição de música à filha do senhor Pantaleão, o proprietário desta casa: isto basta para o fazer suar! A filha de um antigo taberneiro, ridículo, exigente, e vaidoso da sua fortuna! O ventas de mono não tem na boca senão - a sua fortuna!... - Porém... ouço os passos e a voz do senhor Adriano...


CENA III

BEATRIZ, CELESTINA E ADRIANO

ADRIANO (Que vem cantando)

Quem por não ter dinheiro
Não vive com prazer,
Não pode ter miolo,
Quer cedo envelhecer!

É tolo, é tolo, é tolo:
Eu não o quero ser.

Sou pobre como Job;
Mas faço o que convém:
Amar, e rir-me busco,
E passo muito bem:

Patusco, e bom
[Patusco,
Como eu não há
[Ninguém.

Bravo! Oh! Que boa companhia! Linda Celestina... é verdade, senhora Beatriz, queira fazer-me o favor de ir ver se eu estou escondido em algum canto do seu quarto..
BEATRIZ - E se não o encontrar lá?...
ADRIANO - Terá a bondade de esconder-se atrás da porta para agarrar0me de improviso, quando eu lá entrar.
BEATRIZ - Entendo... entendo... (À parte) Como é insuportável obedecer a um musicozinho de dó-ré-mi, quando já se foi mulher de um cabo-de-esquadra!
ADRIANO - Então?... não julga conveniente ir procurar-me?...
BEATRIZ (Indo-se) - Sim, senhor; pondo-me ao fresco. (à parte). É um músico desafinado!


CENA IV

CELESTINA E ADRIANO

ADRIANO - Bem; agora que a velha bruxa nos deixou em paz, permite que eu beije essa mãozinha de anjo. (Beija-a) Ah! Que louco que sou! Eu tinha assentado de pedra e cal que devia brigar contigo, e cometi a inconseqüência de te beijar a mão... veja só que tolo!
CELESTINA - Brigar comigo?... e por quê?...
ADRIANO - Porque de algum tempo a esta parte eu te vejo menos vezes.
CELESTINA - Adriano, é preciso que eu te dê tempo para trabalhar.
ADRIANO - Mas, amiga de minh'alma, eu só trabalho bem quando estás presente: teu olhar me inspira, o sorrir de teus lábios enche de fogo minha imaginação, teu falar meigo derrama doçura angélica em minhas melodias, teu coração me exala o suspiro, que quando estou só, procuro debalde... e se para completar um pensamento, ou pôr o remate em uma harmonia, uma nota me falta, acho-a sempre nas covinhas de tuas faces.
CELESTINA - Sim... sim... mas também tu me abraças muitas vezes e isso te faz perder o compasso.
ADRIANO - É possível. Conversemos, porém sobre outro assunto; por que motivo vejo eu em alta noite luz no teu quarto?...
CELESTINA - Luz?...
ADRIANO - Creio que não me enganei: dali descubro a tua janela: será, que me deixas de noite para ir celebrar um comércio clandestino com espíritos e duendes?... haverá feitiçarias em teu quarto?... hem, Celestina?... Celestina, fala; tira-me deste labirinto em que me vejo perdido.
CELESTINA - Ah!... sim... se tens visto luz no meu quarto... é porque... eu tenho medo de estar só de noite no escuro, e conservo acesa uma lamparina.
ADRIANO - Lamparina?... que má lembrança! Tens medo de ficar só de noite?... por que então me não chamas para te fazer companhia?...
CELESTINA - Que dizes, Adriano?... pois esqueces...
ADRIANO - é Verdade... é verdade... seria isso inconseqüente... inconveniente... prejudicial, e muito próprio para dar que fazer às más línguas: eu não sou assaz licencioso, Celestina, para brigar contigo por este motivo; e seu para ser teu inseparável companheiro não te ofereço já o meu nome, meus dois nomes até, Adriano Genipapo, é que não desejo que venhas partilhar comigo de pão mal amassado, o único que me concede este mundo patife!
CELESTINA - Mas quando se ajuntam dois, ajuda um ao outro a carregar a pobreza e reúne-se o pouco que cada uma ganha de sua parte.
ADRIANO - Sim... é isso... não há dúvida nenhuma; mas quando desses dois uma ganha somente - nada - e o outro de seu lado traz para o monte unicamente um - zero -, por mais que se somem as duas parcelas quinhentas vezes por dia, o resultado da operação dá sempre - coisa nenhuma - e isso é o diabo, Celestina!
CELESTINA (Suspirando) - Tens razão; é necessário esperar...
ADRIANO - Esperar... esperar... é exatamente o que eu recomendo aos meus credores; desconfio, porém, que tanto lhes recomendarei que esperam, que acabarei por não ter quem me fie um pão e uma gota d'água!...
CELESTINA - Coragem! Ninguém como eu tem mais direito a aconselhar a coragem: tu o sabes já; nasci no seio da riqueza; mas era filha natural, e quando meu bom pai morreu, os parentes dele e meus queimaram o testamento, e enxotaram-me para o meio da rua.
ADRIANO - E a vítima foi olhada como uma criatura desprezível! E os larápios, que queimaram o testamento, transformaram-se com a rica herança, que roubaram, em homens de bem e de gravata lavada!... É preciso confessar que o maior maluco deste mundo é o mesmo mundo!
CELESTINA - Fecharam-se-me todas as portas, e todos me repeliram; desanimava já, quando ouvi soar a meus ouvidos: "Eis uma mulher perdida!" Levantei a cabeça, e disse: "Não me perderei": corri a uma igreja, e rezei por meu pais, e por mim; quando saí da igreja, tinha já o coração cheio de esperança e de coragem; trabalhei... sabia bordar, bordei; sabia desenhar, desenhei; cosi, copiei manuscritos, e música, e finalmente vi que podia com o meu trabalho viver independente de todos, e pura aos olhos de Deus; hoje desprezo os meus verdugos, amo-te, Adriano; mas amo-te honesta, casta e virtuosa para ser digna de ti quando me deres a mão de esposo, se o nosso amor for abençoado por Deus. Assim pois, Adriano, coragem! Coragem, e trabalho!
ADRIANO - Oh! Tu me animas sempre! E animemo-nos ainda mais agora, Celestina, porque aproxima-se o momento, que deve realizar nossos sonhos de ventura.
CELESTINA - Como então?...
ADRIANO - Meu editor me espera daqui a pouco para ajustar comigo o preço de uma composição que ontem lhe enviei, e ao mesmo tempo espero vender uma ópera ao teatro Provisório, e conto com um lugar na orquestra do teatro de S. Pedro.
CELESTINA - Se tudo isso se puder realizar...
ADRIANO - Realizar-se-á, estou seguro; tenho todas as condições que se requerem. (canta)

A fortuna é Qual moça galante,
Que nos traz em constante lidar;
Já provoca, já foge, e já volta,
Té que sempre se deixa apanhar

E contando já com o meu próximo adiantamento, receberei aqui visitas esta noite.
CELESTINA - E que visitas?...
ADRIANO - Alguns amigos camaradas de colégio: o que havia de ser, Celestina?... na última corrida de cavalos interessei-me por um maldito mouro de crinas brancas e de cauda preta; tinha-me esquecido que de um mau mouro não se pode fazer bom cristão, e ainda mais era um diabo de cavalo que pertencia a todos ao mesmo tempo, porque tinha todas as cores: era um cabalo que fazia furor, um cavalo da moda! Apostei por ele e perdi! Perdi um bolo inglês e doze garrafas de champanhe! Nunca mais confiarei em animais, que pertençam a todas as cores.
CELESTINA - E portanto pagas hoje o bolo inglês e o champanhe?...
ADRIANO - É verdade! Faço esse obséquio aos meus amigos: também eles têm-me recebido tantas vezes em suas casas, que hoje por minha parte quero também recebê-los: o pior é que os meus amigos são ricos, e eu pobre; oh!... não é inveja, é orgulho: quando eu vejo que eles se deitam sobre bilhetes do banco, e eu não possuo coisa nenhuma, Celestina, daria sem hesitar tudo, absolutamente tudo quanto possuo, para ter uma renda de cem contos de réis.
CELESTINA - Vou deixar-te em sossego para que te ocupes dos preparativos do teu bolo inglês; mas olha, toma cuidado em ti, Adriano; tu tens a cabeça muito fraca... não te adiantes muito pelo champanhe...
FELISBERTO (Entrando) Ora graças, que uma vez o encontrei!...


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Cena V à Cena X
Cena XI à Cena XIV


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Cena VIII à Cena XI
Cena XII à Cena XVI