Error processing SSI file
 

 

O NOVIÇO
MARTINS PENA


CENA XII

Entram pelo fundo quatro homens armados, Jorge trazendo uma vela acesa. Claro.

JORGE, entrando - Vizinha, vizinha, o que é? O que foi? Não vejo ninguém... (Dá com Florência no canto.) Quem está aqui?

FLORÊNCIA - Ai, ai!

JORGE - Vizinha, somos nós...

EMÍLIA, dentro - Minha mãe, minha mãe! (Entra.)

FLORÊNCIA - Ah, é o vizinho Jorge! E estes senhores? (Levantando-se ajudada por Jorge.)

EMÍLIA - Minha mãe, o que foi?

FLORÊNCIA - Filha!

JORGE - Estava na porta de minha loja, quando ouvi gritar: Socorro, socorro! Conheci a voz da vizinha e acudi com estes quatro amigos.

FLORÊNCIA - Muito obrigado, vizinho, ele já se foi.

JORGE - Ele quem?

FLORÊNCIA - O ladrão.

TODOS - O ladrão!

FLORÊNCIA - Sim, um ladrão vestido de frade, que me queria roubar e assassinar.

EMÍLIA, para Florência - Minha mãe!

JORGE - Mas ele não teve tempo de sair. Procuremos.

FLORÊNCIA - Espere, vizinho, deixe-me sair primeiro. Se o encontrarem, dêem-lhe uma boa arrochada e levem-no preso. (À parte:) Há-de me pagar! Vamos menina.
EMÍLIA, para Florência - É Carlos, minha mãe, é o primo!

FLORÊNCIA, para Emília - Qual primo! É ele, teu padrasto.

EMÍLIA - É o primo!

FLORÊNCIA - É ele, é ele. Vem. procurem-no bem, vizinhos, e pau nele. Anda, anda. (Sai com Emília.)

CENA XIII

JORGE - Amigos, cuidado! Procuremos tudo; o ladrão ainda não saiu daqui. Venham atrás de mim. Assim que ele aparecer, uma boa massada de pau, e depois os pés e mãos amarradas, e guarda do Tesouro com ele... Sigam-me. Aqui não está; vejamos atrás do armário. (Vê.) Nada. Onde se esconderia? Talvez debaixo da cama. (Levantando o rodapé:) Oh, cá está ele! (Dão bordoadas.)

CARLOS, gritando - Ai, ai, não sou eu. não sou ladrão, ai, ai!

JORGE, dando - Salta para fora, ladrão, salta! (Carlos sai para fora, gritando:) Não sou ladrão, sou de casa!

JORGE - A ele amigos! (Perseguem Carlos de bordoadas por toda a cena. Por fim, mete-se atrás do armário e atira com ele no chão. Gritos: Ladrão!)

CENA XIV

Jorge só, depois Florência e Emília.

JORGE - Eles que o sigam; eu já não posso. O diabo esfolou-me a canela com o armário. (Batendo na porta.) Ó Vizinha, vizinha?

FLORÊNCIA, entrando - Então, vizinho?

JORGE - Estava escondido debaixo da cama.

EMÍLIA - Não te disse?

JORGE - Demos-lhe uma boa massada de pau e fugiu por aquela porta, mas os amigos foram-lhe no alcance.

FLORÊNCIA - Muito obrigada, vizinho. Deus lhe pague.

JORGE - Estimo que a vizinha não tivesse maior incômodo.

FLORÊNCIA - Obrigada. Deus lhe pague.

JORGE - Boa noite, vizinha; mande levantar o armário que caiu.

FLORÊNCIA - Sim senhor. Boa noite. (Sai Jorge.)

CENA XV

Florência e Emília

FLORÊNCIA - Pagou-me!

EMÍLIA, chorando - Então minha mãe, não lhe disse que era o primo Carlos?

FLORÊNCIA - E continua a teimar?

EMÍLIA - Se o vi atrás da cama!

FLORÊNCIA - Ai, peior, era teu padrasto.

EMÍLIA - Se eu o vi!

FLORÊNCIA - Se eu lhe falei!... É boa teima!

CENA XVI

JUCA, entrando - Mamãe, aquela mulher do papá quer lhe falar.

FLORÊNCIA - O que quer essa mulher comigo, o que quer? (Resoluta:) Diga que entre (Sai Juca.)

EMÍLIA - A mamãe vai afligir-se no estado em que está?

FLORÊNCIA - Bota aqui duas cadeiras. Ela não tem culpa. (Emília chega uma cadeira. Florência sentando-se;) Vejamos o que quer. Chega mais esta cadeira para aqui. Bem, vai para dentro.

EMÍLIA - Mas, se...

FLORÊNCIA - Anda; uma menina não deve ouvir a conversa que vamos ter. Farei tudo para perseguí-lo. (Emília sai.)

CENA XVII

Entra Rosa. Já vem de vestido.

ROSA - Dá licença?

FLORÊNCIA - Pode entrar. Queira ter a bondade de sentar-se. (Senta-se.)

ROSA - Minha senhora, a nossa posição é bem extraordinária...

FLORÊNCIA - E desagradável no ultimo ponto.

ROSA - Ambas casadas com o mesmo homem...

FLORÊNCIA - E ambas com igual direito.

ROSA - Perdoe-me, minha senhora, nossos direitos não são iguais, sendo eu a primeira mulher...

FLORÊNCIA - Oh, não falo desse direito, não o contesto. Direito de persegui-lo quero eu dizer.

ROSA - Nisso estou de acordo.

FLORÊNCIA - Fui vilmente atraiçoada...

ROSA - E eu indignamente insultada...

FLORÊNCIA - Atormentei meus filhos...

ROSA - Contribui para a morte de minha mãe...

FLORÊNCIA - Estragou grande parte da minha fortuna.

ROSA - Roubou-me todos os meus bens...

FLORÊNCIA - Oh, mas hei-de vingar-me!

ROSA, levantando-se - Havemos de vingarmo-nos, senhora, e para isso aqui me acho.

FLORÊNCIA, levantando-se - Explique-se.

ROSA - Ambas fomos traídas pelo mesmo homem, ambas servimos de degrau à sua ambição. E porventura somos disso culpadas?

FLORÊNCIA - Não.

ROSA - Quando lhe dei eu a minha mão, poderia prever que ele seria um traidor? E vós, senhora, quando lhe désteis a vossa, que vos uníeis a um infame?

FLORÊNCIA - Oh, não!

ROSA - E nós, suas desgraçadas vítimas, nos odiaremos mutuamente, em vez de ligarmo-nos, para de comum acordo perseguimos o traidor?

FLORÊNCIA - Senhora, nem eu, nem vós temos culpa do que se tem passado. Quisera viver longe de vós; vossa presença aviva meus desgostos, porém farei um esforço - aceito o vosso oferecimento - unamo-nos e mostraremos ao monstro o que podem duas fracas mulheres quando se querem vingar.

ROSA - Eu contava convosco.

FLORÊNCIA - Agradeço a vossa confiança.

ROSA - Sou provinciana, não possuo talvez a polidez da Corte, mas tenho paixões violentas e resoluções prontas. Aqui trago uma ordem de prisão contra o pérfido, mas ele se esconde. Os oficiais de justiça andam em sua procura.

FLORÊNCIA - Aqui esteve há pouco.

ROSA - Quem?

FLORÊNCIA - O traidor.

ROSA - Aqui? Em vossa casa? E não vos assegurásteis dele?

FLORÊNCIA - E como?

ROSA - Ah, se eu aqui estivesse...

FLORÊNCIA - Fugiu, mas levou uma maçada de pau.

ROSA - E onde estará ele agora, onde?

AMBRÓSIO, arrebenta uma tábua do armário, põe a cabeça para fora - Ai, que abafo.
FLORÊNCIA e ROSA, assustadas - É ele!

AMBRÓSIO, com a cabeça de fora - Oh, diabos, cá estão elas!

FLORÊNCIA - É ele! Como te achas aí?

ROSA - Estava espreitando-nos!

AMBRÓSIO - Qual espreitando! Tenham a bondade de levantar este armário.

FLORÊNCIA - Para quê?

AMBRÓSIO - Quero sair... Já não posso... Abafo, morro!

ROSA - Ah, não podes sair? Melhor.

AMBRÓSIO - Melhor?

ROSA - Sim, melhor, porque estás em nosso poder.

FLORÊNCIA - Sabes que estávamos ajustando o meio de nos vingarmos de ti, maroto?

ROSA - E tu mesmo te entregaste... Mas como?...

FLORÊNCIA - Agora já te adevinho. Bem dizia Emília; foi Carlos quem levou as bordoadas. Ah, patife. mais essa!.

ROSA - Pagará por tudo junto.

AMBRÓSIO - Mulheres, vejam lá o que fazem!

FLORÊNCIA - Não me metes medo, grandíssimo mariola!

ROSA - Sabes que papel é este? É uma ordem de prisão contra ti que vai ser executada. Foge agora!

AMBRÓSIO - Minha Rosinha, tira-me daqui!

FLORÊNCIA - O que é lá?

AMBRÓSIO - Florencinha, tem compaixão de mim!

ROSA - Ainda falas, patife?

AMBRÓSIO - Ai, que grito! Ai, ai!!

FLORÊNCIA - Podes gritar. Espera um bocado. (Sai.)

ROSA - A justiça de Deus te castiga.

AMBRÓSIO - Escuta-me, Rosinha, enquanto aquele diabo está lá dentro: tu és a minha cara mulher; tira-me daqui que eu te prometo...

ROSA - Promessas tuas? Queres que eu acredite nelas? (Entra Florência trazendo um pau de vassoura.)

AMBRÓSIO - Mas eu juro que desta vez...

ROSA - Juras? E tu tens fé em Deus para jurares?

AMBRÓSIO - Rosinha de minha vida, olha que...

FLORÊNCIA, levanta o pau e dá-lhe na cabeça - Toma maroto!

AMBRÓSIO, escondendo a cabeça - Ai!

ROSA, rindo-se - Ah, ah, ah!

FLORÊNCIA - Ah, pensavas que o caso havia de ficar assim? Anda, bota a cabeça de fora!

AMBRÓSIO, principia a gritar - Ai! (Etc.)

ROSA, procura pela casa um pau - Não acho também um pau...

FLORÊNCIA - Grita, grita, que eu já chorei muito. Mas agora hei-de arrebentar-te esta cabeça. Bota essa cara sem vergonha.

ROSA, tira o travesseiro da cama - Isto serve?

FLORÊNCIA - Patife! Homem desalmado!

ROSA - Zombaste, agora pagarás.

AMBRÓSIO, botando a cabeça de fora - Ai, que morro! (Dão-lhe.)

ROSA - Toma lá!

AMBRÓSIO, escondendo a cabeça - Diabos!

ROSA - Chegou a nossa vez.

FLORÊNCIA - Verás como se vingam duas mulheres...

ROSA - Traídas ...

FLORÊNCIA -Enganadas...

ROSA - Por um tratante...

FLORÊNCIA - Digno de forca.

ROSA - Anda, bota a cabeça de fora!

FLORÊNCIA - Pensavas que havíamos de chorar sempre?

AMBRÓSIO, bota a cabeça de fora - Já não posso (Dão-lhe.) Ai, que me matam! (Esconde-se.)

ROSA - É para teu ensino,

FLORÊNCIA, fazendo sinais para Rosa - Está bem, basta, deixá-lo. Vamos chamar os oficiais de justiça.

ROSA - Nada! Primeiro hei-de lhe arrebentar a cabeça. Bota a cabeça de fora. Não queres?

FLORÊNCIA, fazendo sinais - Não, minha amiga, por nossas mãos já nos vingamos. Agora, a justiça.

ROSA - Pois vamos. Um instantinho, meu olho, já voltamos.

FLORÊNCIA - Se quiser, pode sair e passear. Podemos sair, que ele não foge. (Colocam-se juntas do armário, silenciosas.)

AMBRÓSIO, botando a cabeça de fora - As fúrias já se foram. Escangalharam-me a cabeça! Se eu pudesse fugir... (Florência e Rosa dão-lhe.)

FLORÊNCIA - Por que não foges?

ROSA - Pode muito bem.

AMBRÓSIO - Demônios (Esconde-se.)

FLORÊNCIA - Só assim teria vontade de rir. Ah, ah!

ROSA - Há seis anos que não me rio de tão boa vontade!

FLORÊNCIA - Então, maridinho!

ROSA - Vidinha, não queres ver tua mulher?

AMBRÓSIO, dentro - Demônios, fúrias, centopéias! Diabos! Corujas! Ai, ai! (Gritando sempre.)

CENA XVIII

Os mesmos e Emília

EMÍLIA, entrando - O que é? Riem-se?

FLORÊNCIA - Vem cá, menina, vem ser como se devem ensinar aos homens.

CENA XIX

Entra Carlos preso por soldados, etc., seguido de Jorge.

JORGE, entrando adiante - Vizinha, o ladrão foi apanhado.

CARLOS, entre os soldados - Tia!

FLORÊNCIA - Carlos!

EMÍLIA - O primo! (Ambrósio bota a cabeça de fora e espia.)

JORGE - É o ladrão.

FLORÊNCIA - Vizinho, este é o meu sobrinho Carlos.

JORGE - Seu sobrinho? Pois foi quem levou a coça.

CARLOS - Ainda cá sinto...

FLORÊNCIA - Coitado! Foi um engano, vizinho.

JORGE, para os meirinhos - Podem largá-lo.

CARLOS - Obrigado. Priminha! (Indo para ela.)

EMÍLIA - Pobre primo.

FLORÊNCIA, para Jorge - Nós já sabemos como foi o engano, neste armário; depois lhe explicarei. (Ambrósio esconde-se.)

JORGE, para os soldados - Sinto o trabalho que tiveram... E como não é mais preciso, podem-se retirar.

ROSA - Queiram ter a bondade de esperar. Senhores oficiais de justiça, aqui lhes apresento este mandado de prisão, lavrado contra um homem que se oculta dentro daquele armário.

TODOS - Naquele armário!

MEIRINHO, que tem lido o mandado - O mandado está em forma.

ROSA - Tenham a bondade de levantar o armário. (Os oficiais de justiça e os quatro homens levantam o armário.)

FLORÊNCIA - Abram (Ambrósio sai muito pálido, depois de abrirem o armário.)

CARLOS - O senhor meu tio!

EMÍLIA - Meu padrasto!

JORGE - O Sr. Ambrósio.

MEIRINHO - Estais preso.

ROSA - Levai-o.

FLORÊNCIA - Para a cadeia.

AMBRÓSIO - Um momento. Estou preso, vou passar seis meses na cadeia... Exultai, senhoras. Eu me deveria lembrar antes de me casar com duas mulheres, que basta só uma para fazer o homem desgraçado. O que diremos de duas? Reduzem-no ao estado em que me vejo. Mas não sairei daqui sem ao menos vingar-me em alguém. (Para os meirinhos:) Senhores, aquele moço fugiu do convento depois de assassinar um frade.

CARLOS - O que é lá isso? (Mestre de Noviços entra pelo fundo.)
AMBRÓSIO - Senhores, denuncio-vos um criminoso.
MEIRINHO - É verdade que tenho aqui uma ordem contra um noviço...
MESTRE - ...Que já de nada vale. (Prevenção.)
TODOS - O Padre-Mestre!
MESTRE, para Carlos - Carlos, o D. Abade julgou mais prudente que lá não voltásseis. Aqui tens a permissão por ele assinada para saíres do convento.
CARLOS, abraçando-o - Meu bom Padre-Mestre, este ato reconcilia-me com os frades.
MESTRE - E vós, senhoras, esperai da justiça dos homens o castigo deste malvado. (Para Carlos e Emília:) E vós, meus filhos, sede felizes, que eu pedirei para todos (ao público:) indulgência!
AMBRÓSIO - Oh, mulheres, mulheres! (Execução.)

FIM


Cena I à Cena VIII
Cena IX à Cena XVI


Cena I à Cena V
Cena VI à Cena IX<


Cena I à Cena XI
Cena X à Cena XIX