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O NOVIÇO
MARTINS PENA


CENA VI

CARLOS - O que é lá isso? (Debatendo-se logo que o agarram.)
MESTRE - Levai-o.
FLORÊNCIA - Reverendíssimo, meu sobrinho...
MESTRE - Paciência, senhora. Levem-no.
CARLOS, debatendo-se - Larguem-me, com todos os diabos!
EMÍLIA - Primo!
MESTRE - Arrastem-no.
AMBRÓSIO - Mas, senhor...
MESTRE - Um instante... Para o convento, para o convento.
CARLOS - Minha tia, tio Ambrósio! (Sai arrastado. Emília cai sentada em uma cadeira; o Padre-Mestre fica em cena.)

CENA VII

Ambrósio, Mestre de Noviços, Florência e Emília.
FLORÊNCIA - Mas senhor, isto é uma violência!
MESTRE - Paciência...
FLORÊNCIA - Paciência, paciência? Creio que tenho tido bastante. Ver assim arrastar meu sobrinho, como se fosse um criminoso?
AMBRÓSIO- Espera, Florência, ouçamos o Reverendíssimo. Foi, sem dúvida, por ordem do Sr. D. Abade que Vossa Reverendíssima veio prender nosso sobrinho?
MESTRE - Não tomara sobre mim tal trabalho, se não fora por expressa ordem do D. Abade, a quem devemos todos obediência. Vá ouvindo como esse moço zombou de seu mestre. Disse-me a tal senhora, pois tal a supunha eu... Ora fácil foi enganar-me... Além de ter má vista, tenho muito pouca prática de senhoras...
AMBRÓSIO - Sabemos disso.
MESTRE - Disse-me a tal senhora que o noviço Carlos estava naquele quarto.
AMBRÓSIO -Naquele quarto?
MESTRE - Sim senhor, e ali mandou-nos esperar em silêncio. Chamou pelo noviço, e assim que ele saiu lançamo-nos sobre ele e à força o arrastamos para o convento.
AMBRÓSIO, assustado - Mas a quem, a quem?
MESTRE - A quem?
FLORÊNCIA - Que trapalhada é essa?
AMBRÓSIO - Depressa!
MESTRE - Cheguei ao convento, apresentei-me diante do D. Abade, com o noviço prisioneiro, e então... Ah!
AMBRÓSIO - Por Deus, mais depressa!
MESTRE - Ainda me coro de vergonha. Então conheci que tinha sido vilmente enganado.
AMBRÓSIO - Mas quem era o noviço preso?
MESTRE - Uma mulher vestida de frade.
FLORÊNCIA - Uma mulher?
AMBRÓSIO, à parte - É ela!
MESTRE - Que vergonha, que escândalo!
AMBRÓSIO - Mas onde está essa mulher? Para onde foi? O que disse? Onde está? Responda!
MESTRE - Tende paciência. Pintar-vos a confusão que por alguns instantes esteve o convento, é quase impossível. O D. Abade, ao conhecer que o noviço preso era uma mulher, pelos longos cabelos que ao tirar o chapéu lhe caíram sobre os ombros, deu um grito de horror. Toda a comunidade acorreu e grande foi então a confusão. Um gritava: Sacrilégio! Profanação! Outro ria-se; este interrogava; aquele respondia ao acaso... Em menos de dois segundos a notícia percorreu todo o convento, mas alterada e aumentada. No refeitório dizia-se que o diabo estava no coro, dentro dos canudos do órgão; na cozinha julgava-se que o fogo lavrava nos quatro ângulos do edifício; qual, pensava que D. Abade tinha caído da torre abaixo; qual, que fora arrebatado para o céu. Os sineiros, correndo para as torres, puxavam como energúmenos pelas cordas dos sinos; os porteiros fecharam as portas com horrível estrondo: os responsos soaram de todos os lados, e a algazarra dos noviços dominava esse ruído infernal, causado por uma única mulher. Oh, mulheres!
AMBRÓSIO - Vossa Reverendíssima faz o seu dever; estou disso bem certo.
FLORÊNCIA - Mas julgamos necessário declarar a Vossa Reverendíssima que estamos resolvidos a tirar nosso sobrinho do convento.
MESTRE - Nada tenho eu com essa resolução. Vossa Senhoria entender-se-á a esse respeito com D. Abade.
FLORÊNCIA - O rapaz não tem inclinação nenhuma para frade.
AMBRÓSIO - E seria uma crueldade violentar-lhe o gênio .
MESTRE - O dia em que o Sr. Carlos sair do convento será para mim dia de descanso. Há doze anos que sou mestre de noviços e ainda não tive para doutrinar rapaz mais endiabrado. Não se passa um só dia em que se não tenha de lamentar alguma travessura desse moço. Os noviços, seus companheiros, os irmãos leigos e os domésticos do convento temem-no como se teme a um touro bravo. Com todos moteja e a todos espanca.
FLORÊNCIA - Foi sempre assim, desde pequeno.
MESTRE - E se o conheciam, senhores, para que o obrigaram a entrar no convento, a seguir uma vida em que se requer tranqüilidade de gênio?
FLORÊNCIA - Oh, não foi por meu gosto; meu marido é que persuadiu-me.
AMBRÓSIO, com hipocrisia - Julguei assim fazer um serviço agradável a Deus.
MESTRE - Deus, senhores, não se compraz com sacrifícios alheios. Sirva-o cada um com seu corpo e a alma, porque cada um responderá pelas suas obras.
AMBRÓSIO, com hipocrisia - Pequei, Reverendíssimo, pequei; humilde peço perdão.
MESTRE - Esse moço foi violentamente constrangido e o resultado é a confusão em que está a casa de Deus.
FLORÊNCIA - Mil perdões, Reverendíssimo, pelo incômodo que lhe temos dado.
MESTRE - Incômodos? Para ele nascemos nós... passam desapercebidos, e demais, ficam de muros para dentro. Mas hoje houve escândalo, e escândalo público.
AMBRÓSIO - Escândalo público?
FLORÊNCIA - Como assim?
MESTRE - O noviço Carlos, depois de uma contenda com o D. Abade, deu-lhe uma cabeçada e o lançou por terra.
FLORÊNCIA - Jesus, Maria José!
AMBRÓSIO - Que sacrilégio!
MESTRE - E fugiu ao seu merecido castigo. Fui mandado em seu alcance... Requisitei força pública, e aqui chegando, encontrei uma senhora .
FLORÊNCIA - Aqui, uma senhora?
MESTRE - E que se dizia sua tia.
FLORÊNCIA - Ai!
AMBRÓSIO - Era ele mesmo.
FLORÊNCIA - Que confusão, meu Deus!
AMBRÓSIO - Mas essa mulher, essa mulher? O que é feito dela?
MESTRE - Uma hora depois, que tanto foi preciso para acalmar a agitação, o D. Abade perguntou-lhe como ela ali se achava vestida com o hábito da Ordem.
AMBRÓSIO - E ela que disse?
MESTRE - Que tinha sido traída por um frade, que debaixo do pretexto de a salvar, trocara seu vestido pelo hábito que trazia.
AMBRÓSIO - E nada mais?
MESTRE - Nada mais, e fui encarregado de prender a todo o custo o noviço Carlos. E tenho cumprido a minha missão. O que ordenam a este servo de Deus?
AMBRÓSIO - Espere, Reverendíssimo, essa mulher já saiu do convento?
MESTRE - No convento não se demoram as mulheres.
AMBRÓSIO - Que caminho tomou? Para onde foi? O que disse ao sair?
MESTRE - Nada sei.
AMBRÓSIO, à parte - O que me espera?
FLORÊNCIA, à parte - Aqui há segredo...
MESTRE - Às vossas determinações...
FLORÊNCIA - Uma serva de Vossa Reverendíssima.
MESTRE, para Florência - Quanto à saída de seu sobrinho do convento, com D. Abade se entenderá.
FLORÊNCIA - Nós o procuraremos. (Mestre sai e Florência acompanha-o até a porta; Ambrósio está como abismado)

CENA VIII

Emília, Ambrósio e Florência
EMÍLIA, à parte - Carlos, Carlos, o que será de ti e de mim?
AMBRÓSIO, à parte - Se ela agora me aparece? Se Florência desconfia... Estou metido em boas! Como evitar, como? Oh, decididamente estou perdido. Se a pudesse encontrar... Talvez súplicas, ameaças, quem sabe? Já não tenho cabeça? Que farei? De uma hora para outra aparece-me ela...(Florência bate-lhe no ombro.) Ei-la! (Assustando-se.)
FLORÊNCIA - Agora nós. (Para Emília:) Menina, vai para dentro. (Vai-se Emília.)

CENA IX

Ambrósio e Florência.
AMBRÓSIO, à parte - Temos trovoada grossa...
FLORÊNCIA - Quem era a mulher que estava naquele quarto?
AMBRÓSIO - Não sei.
FLORÊNCIA - Sr. Ambrósio, quem era a mulher que estava naquele quarto?
AMBRÓSIO - Florência, já te disse, não sei. São cousas de Carlos.
FLORÊNCIA - Sr. Ambrósio, quem era a mulher que estava naquele quarto?
AMBRÓSIO - Como queres que eu to diga, Florencinha?
FLORÊNCIA - Ah, não sabe? Pois bem, então explique-me: por que razão mostrou-se tão espantado, quando Carlos o levou à porta daquele quarto e mostrou-lhe quem estava dentro?
AMBRÓSIO - Pois eu espantei-me?
FLORÊNCIA - A ponto de levar-me quase de rastos para a igreja, sem chapéu, lá deixar-me e voltar para casa apressado.
AMBRÓSIO - Qual! Foi por...
FLORÊNCIA - Não estude uma mentira, diga depressa.
AMBRÓSIO - Pois bem: direi. Eu conheço essa mulher.
FLORÊNCIA - Ah! E então quem é ela?
AMBRÓSIO - Queres saber quem é ela? É muito justo, mas aí que está o segredo.
FLORÊNCIA - Segredos comigo?
AMBRÓSIO - Oh, contigo não pode haver segredo, é a minha mulherzinha. (Quer abraça-la)
FLORÊNCIA - Tenha-se lá; quem era a mulher?
AMBRÓSIO, à parte - Não sei o que lhe diga...
FLORÊNCIA - Vamos!
AMBRÓSIO - Essa mulher... Sim, essa mulher que há pouco estava naquele quarto, foi amada por mim.
FLORÊNCIA - Por ti?
AMBRÓSIO - Mas nota que digo: foi amada, e o que foi, já não é.
FLORÊNCIA - Seu nome?
AMBRÓSIO - Seu nome? Que importa o nome? O nome é uma voz com que se dão a conhecer as cousas... Nada vale; o indivíduo é tudo... Tratemos do indivíduo. (À parte:) Não sei como continuar.
FLORÊNCIA - Então, e que mais?
AMBRÓSIO - Amei a essa mulher. Amei, sim, amei. Essa mulher foi por mim amada, mas então não te conhecia. Oh, e quem ousará criminar a um homem por embelezar-se de uma estrela antes de ver a lua, quem? Ela era a estrela, e tu és a lua. Sim, minha Florencinha, tu és a minha lua cheia e eu sou teu satélite.
FLORÊNCIA - Oh, não me convence assim..
AMBRÓSIO, à parte - O diabo convença a uma mulher! (Alto:) Florencinha, encanto da minha vida, estou diante de ti como diante do confessionário, com uma mão sobre o coração e com a outra... Onde queres que eu ponha a outra?
FLORÊNCIA - Ponha lá onde quiser...
AMBRÓSIO - Pois bem, com ambas sobre o coração, dir-te-ei: só tu és o meu único amor, minhas delícias, minha vida ... (À parte:) e minha burra!
FLORÊNCIA - Se eu pudesse acreditar!...
AMBRÓSIO - Não podes porque não queres. Basta um bocado de boa vontade. Se fiquei aterrorizado ao ver essa mulher, foi por prever os desgostos que terias, se aí a visses.
FLORÊNCIA - Se temes que eu a veja, é porque ainda a ama.
AMBRÓSIO - Amá-la eu? Ah, desejava que ela estivesse mais longe de mim do que o cometa que apareceu no ano passado.
FLORÊNCIA - Oh, meu Deus, se eu pudesse crer!
AMBRÓSIO, à parte - Está meia convencida...
FLORÊNCIA - Se eu o pudesse crer! (Rosa entra vestida de frade, pelo fundo, pára e observa.)
AMBRÓSIO, com animação - Estes raios brilhantes e aveludados de teus olhos ofuscam o seu olhar acanhado e esgateado. Esses negros e finos cabelos varrem da minha idéia as suas emaranhadas melenas cor de fogo. esta mãozinha torneada (pega-lhe na mão), este colo gentil, esta cintura flexível e delicada fazem-me esquecer os grosseiros encantos desta mulher que ...( Nesse momento dá com os olhos em Rosa; vai recuando pouco a pouco.)
FLORÊNCIA - O que tens? De que te espantas?
ROSA, adiantando-se - Senhora, este homem pertence-me.
FLORÊNCIA - E quem é vossa Reverendíssima?
ROSA, tirando o chapéu, que faz cair os cabelos - Sua primeira mulher.
FLORÊNCIA - Sua primeira mulher?
ROSA, dando-lhe a certidão - Leia (Para Ambrósio:) Conheceis-me, senhor? Há seis anos que nos não vemos, e quem diria que assim nos encontraríamos? Nobre foi o vosso proceder!... Oh, para que não enviaste um assassino para esgotar o sangue destas veias e arrancar a alma deste corpo? Assim devíeis ter feito, porque então eu não estaria aqui para vingar-me, traidor!
AMBRÓSIO, à parte - O melhor é deitar a fugir. (Corre para o fundo. Prevenção.)
ROSA - Não o deixem fugir! (Aparecem à porta meirinhos, os quais prendem Ambrósio)
MEIRINHO - Está preso!
AMBRÓSIO - Ai! (Corre por toda a casa, etc. Enquanto isto se passa, Florência tem lido a certidão.)
FLORÊNCIA - Desgraçada de mim, estou traída! Quem me socorre? (Vai para sair, encontra-se com Rosa.) Ah, para longe, para longe de mim! (Recuando.)
ROSA - Senhora, a quem pertencerá ele? (Execução.)

FIM DO SEGUNDO ATO


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Cena IX à Cena XVI


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