A Nova Califórnia
Lima Barreto
POR QUE NÃO SE MATAVA
Esse meu amigo
era o homem mais enigmático que conheci. Era a um tempo taciturno
e expansivo, egoísta e generoso, bravo e covarde, trabalhador
e vadio. Havia no seu temperamento uma desesperadora mistura de
qualidades opostas e, na sua inteligência, um encontro curioso
de lucidez e confusão, de agudeza e embotamento.
Nós nos
dávamos desde muito tempo. Aí pelos doze anos, quando
comecei a estudar os preparatórios, encontrei-o no colégio
e fizemos relações. Gostei da sua fisionomia, da estranheza
do seu caráter e mesmo ao descansarmos no recreio, após
as aulas, a minha meninice contemplava maravilhada aquele seu longo
olhar cismático, que se ia tão demoradamente pelas
coisas e pelas pessoas.
Continuamos
sempre juntos até à escola superior, onde andei conversando;
e, aos poucos, fui verificando que as suas qualidades se acentuavam
e os seus defeitos também.
Ele entendia
maravilhosamente a mecânica, mas não havia jeito de
estudar essas coisas de câmbio, de jogo de bolsa. Era assim:
para umas coisas, muita penetração; para outras, incompreensão.
Formou-se, mas
nunca fez uso da carta. Tinha um pequeno rendimento e sempre viveu
dele, afastado dessa humilhante coisa que é a caça
ao emprego.
Era sentimental,
era emotivo; mas nunca lhe conheci amor. Isto eu consegui decifrar,
e era fácil. A sua delicadeza e a sua timidez faziam a compartilha
com outro, as coisas secretas de sua pessoa, dos seus sonhos, tudo
o que havia de secreto e profundo na sua alma.
Há dias
encontrei-o no chope, diante de uma alta pilha de rodelas de papelão,
marcando com solenidade o número de copos bebidos.
Foi ali, no
Adolfo, à Rua da Assembléia, onde aos poucos temos
conseguido reunir uma roda de poetas, literatos, jornalistas, médicos,
advogados, a viver na máxima harmonia, trocando idéias,
conversando e bebendo sempre.
E uma casa por
demais simpática, talvez a mais antiga no gênero, e
que já conheceu duas gerações de poetas. Por
ela, passaram o Gonzaga Duque, o saudoso Gonzaga Duque, o B. Lopes,
o Mário Pederneiras, o Lima Campos, o Malagutti e outros
pintores que completavam essa brilhante sociedade de homens inteligentes.
Escura e oculta
à vista da rua, é um ninho e também uma academia.
Mais do que uma academia. São duas ou três. Somos tantos
e de feições mentais tão diferentes, que bem
formamos uma modesta miniatura do Silogeu.
Não se
fazem discursos à entrada: bebe-se e joga-se bagatela, lá
ao fundo, cercado de uma platéia ansiosa por ver o Amorim
Júnior fazer sucessivos dezoitos.
Fui encontrá-lo
lá, mas o meu amigo se havia afastado do ruidoso cenáculo
do fundo; e ficara só a uma mesa isolada.
Pareceu-me triste
e a nossa conversa não foi logo abundantemente sustentada.
Estivemos alguns minutos calados, sorvendo aos goles a cerveja consoladora.
O gasto de copos
aumentou e ele então falou com mais abundância e calor.
Em princípio, tratamos de coisas gerais de arte e letras.
Ele não é literato, mas gosta das letras, e as acompanha
com carinho e atenção. Ao fim de digressões
a tal respeito, ele me disse de repente:
- Sabes por
que não me mato?
Não me
espantei, porque tenho por hábito não me espantar
com as coisas que se passam no chope. Disse-lhe muito naturalmente:
-Não.
- Es contra
o suicídio?
- Nem contra,
nem a favor; aceito-o.
- Bem. Compreendes
perfeitamente que não tenho mais motivo para viver. Estou
sem destino, a minha vida não tem fim determinado. Não
quero ser senador, não quero ser deputado, não quero
ser nada. Não tenho ambições de riqueza, não
tenho paixões nem desejos. A minha vida me aparece de uma
inutilidade de trapo. Já descri de tudo, da arte, da religião
e da ciência.
O Manuel serviu-nos
mais dois chopes, com aquela delicadeza tão dele, e o meu
amigo continuou:
- Tudo o que
há na vida, o que lhe dá encanto, já não
me atrai, e expulsei do meu coração. Não quero
amantes, é coisa que sai sempre uma caceteação;
não quero mulher, esposa, porque não quero ter filhos,
continuar assim a longa cadeia de desgraças que herdei e
está em mim em estado virtual para passar aos outros. Não
quero viajar; enfada. Que hei de fazer?
Eu quis dar-lhe
um conselho final, mas abstive-me, e respondi, em contestação:
- Matar-te.
- E isso que
eu penso; mas...
A luz elétrica
enfraqueceu um pouco e cri que uma nuvem lhe passava no olhar doce
e tranqüilo.
- Não
tens coragem?-perguntei eu.
- Um pouco;
mas não é isso o que me afasta do fim natural da minha
vida.
- Que é,
então?
- E a falta
de dinheiro!
-Como? Um revólver
é barato.
- Eu me explico.
Admito a piedade em mim, para os outros; mas não admito a
piedade dos outros para mim. Compreendes bem que não vivo
bem; o dinheiro que tenho é curto, mas dá para as
minhas despesas, de forma que estou sempre com cobres curtos. Se
eu ingerir aí qualquer droga, as autoridades vão dar
com o meu cadáver miseravelmente privado de notas do Tesouro.
Que comentários farão? Como vão explicar o
meu suicídio? Por falta de dinheiro. Ora, o único
ato lógico e alto da minha vida, ato de suprema justiça
e profunda sinceridade, vai ser interpretado, através da
piedade profissional dos jornais, como reles questão de dinheiro.
Eu não quero isso...
Do fundo da
sala, vinha a alegria dos jogadores de bagatela; mas aquele casquinar
não diminuía em nada a exposição das
palavras sinistras do meu amigo.
- Eu não
quero isso-continuou ele. Quero que se de ao ato o seu justo valor
e que nenhuma consideração subalterna lhe diminua
a elevação.
- Mas escreve.
- Não
sei escrever. A aversão que há na minha alma excede
às forças do meu estilo. Eu não saberei dizer
tudo o que de desespero vai nela; e, se tentar expor, ficarei na
banalidade e as nuanças fugidias dos meus sentimentos não
serão registradas. Eu queria mostrar a todos que fui traído;
que me prometeram muito e nada me deram; que tudo isso é
vão e sem sentido, estando no fundo dessas coisas pomposas,
arte, ciência, religião, a impotência de todos
nós diante de augusto mistério do mundo. Nada disso
nos dá o sentido do nosso destino; nada disto nos dá
uma regra exata de conduta, não nos leva à felicidade,
nem tira as coisas hediondas da sociedade. Era isso...
- Mas vem cá:
se tu morresses com dinheiro na algibeira, nem por tal...
- Há
nisso uma causa: a causa da miséria ficaria arredada.
- Mas podia
ser atribuído ao amor.
- Qual. Não
recebo cartas de mulher, não namoro, não requesto
mulher alguma; e não podiam, portanto, atribuir ao amor o
meu desespero.
- Entretanto,
a causa não viria à tona e o teu ato não seria
aquilatado devidamente.
- De fato, é
verdade; mas a causa-miséria não seria evidente. Queres
saber de uma coisa? Uma vez, eu me dispus. Fiz uma transação,
arranjei uns quinhentos mil-réis. Queria morrer em beleza;
mandei fazer uma casaca; comprei camisas, etc. Quando contei o dinheiro,
já era pouco. De outra, fiz o mesmo. Meti-me em uma grandeza
e, ao amanhecer em casa, estava a níqueis.
- De forma que
é ter dinheiro para matar-te, zás, tens vontade de
divertir-te.
- Tem me acontecido
isso; mas não julgues que estou prosando. Falo sério
e franco.
Nós nos
calamos um pouco, bebemos um pouco de cerveja, e depois eu observei:
- O teu modo
de matar-te não é violento, é suave. Estás
a afogar-te em cerveja e é pena que não tenhas quinhentos
contos, porque nunca te matarias.
- Não.
Quando o dinheiro acabasse, era fatal.
- Zás,
para o necrotério na miséria; e então?
- E verdade...
Continuava a viver.
Rimo-nos um
pouco do encaminhamento que a nossa palestra tomava.
Pagamos a despesa,
apertamos a mão ao Adolfo, dissemos duas pilhérias
ao Quincas e saímos.
Na rua, os bondes
passavam com estrépido; homens e mulheres se agitavam nas
calçadas; carros e automóveis iam e vinham...
A vida continuava
sem esmorecimentos, indiferente que houvesse tristes e alegres,
felizes e desgraçados, aproveitando a todos eles para o seu
drama e a sua complexidade.
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