A Nova Califórnia
Lima Barreto
COMO O "HOMEM" CHEGOU
Deus está
morto; a sua piedade pelos homens matou-o.
Nietzsche
A polícia
da república, como toda a gente sabe, é paternal e
compassiva no tratamento das pessoas humildes que dela necessitam;
e sempre, quer se trate de humildes, quer de poderosos, a velha
instituição cumpre religiosamente a lei. Vem-lhe daí
o respeito que aos políticos os seus empregados tributam
e a procura que ela merece desses homens, quase sempre interessados
no cumprimento das leis que discutem e votam.
O caso que vamos
narrar não chegou ao conhecimento do público, certamente
devido à pouca atenção que lhe deram os repórteres;
e é pena, pois, se assim não fosse, teriam nele encontrado
pretexto para clichés bem macabramente mortuários
que alegrassem as páginas de suas folhas volantes.
O delegado que
funcionou na questão talvez não tivesse notado o grande
alcance de sua obra; e tanto isso é de admirar quanto as
consequências do fato concordam com luxuriantes sorites de
um filósofo sempre capaz de sugerir, do pé para a
mão, novíssimas estéticas aos necessitados
de apresentá-las ao público bem informado.
Sabedores de
acontecimento de tal monta, não nos era possível deixar
de narrá-lo com algum minudência, para edificação
dos delegados passados, presentes e futuros.
Naquela manhã,
tinha a delegacia um movimento desusado. Passavam-se semanas sem
que houvesse uma simples prisão, uma pequena admoestação.
A circunscrição era pacata e ordeira. Pobre, não
havia furtos; sem comércio, não havia gatunos; sem
indústria, não havia vagabundos, graças à
sua extensão e aos capoeirões que lá havia;
os que não tinham domicílio arranjavam-no facilmente
em chocas ligeiras sobre chãos de outros donos mal conhecidos.
Os regulamentos
policiais não encontravam emprego; os funcionários
do distrito viviam descansados e, sem desconfiança, olhavam
a população do lugarejo. Compunha-se o destacamento
de um cabo e três soldados; todos os quatro, gente simples,
esquecida de sua condição de sustentáculos
do Estado.
O comandante,
um cabo gordo que falava arrastando a voz, com a cantante preguiça
de um carro de bois a chiar, habitava com a família um rancho
próximo e plantava ao redor melancias, colhendo-as de polpa
bem rosada e doce, pelo verão inflexível da nossa
terra. Um dos soldados tecia redes de pescaria, chumbava-as com
cuidado para dar cerco às tainhas; e era de vê-las
saltar por cima do fruto de sua indústria com a agilidade
de acrobatas, agilidade surpreendente naqueles entes sem mãos
e pernas diferenciadas. Um outro camarada matava o ócio pescando
de caniço e quase nunca pescava crocorocas, pois diante do
mar, da sua infinita grandeza, distraía-se, lembrando-se
das quadrinhas que vinha compondo em louvor de uma beleza local.
Tinham também
os inspetores de polícia essa concepção idílica,
e não se aborreciam no morno vilarejo. Conceição,
um deles, fabricava carvão e os plantões os fazia
junto às caieiras, bem protegidas por cruzes toscas para
que o tinhoso não entrasse nelas e fabricasse cinza em vez
do combustível das engomadeiras. Um seu colega, de nome Nunes,
aborrecido com o ar elísico daquela delegacia, imaginou quebrá-lo
e lançou o jogo do bicho. Era uma cousa inocente: o mínimo
da pule, um vintém; o máximo, duzentos réis,
mas, ao chegar a riqueza do lugar, aí pelo tempo do caju,
quando o sol saudoso da tarde dourava as areias e os frutos amarelos
e vermelhos mais se intumesciam nos cajueiros frágeis, jogavam-se
pules de dez tostões.
Vivia tudo em
paz; o delegado não aparecia. Se o fazia de mês em
mês, de semestre em semestre, de ano em ano, logo perguntava:
houve alguma prisão? Respondiam alvissareiros: não,
doutor; e a fronte do doutor se anuviava, como se sentisse naquele
desuso do xadrez a morte próxima do Estado, da Civilização
e do Progresso.
De onde em onde,
porém, havia um caso de defloramento e este era o delito,
o crime, a infração do lugarejo- um crime, uma infração,
um delito muito próprio do Paraíso, que o tempo, porém,
levou a ser julgado pelos policiais, quando, nas primeiras eras
das nossas origens bíblicas, o fora pelo próprio Deus.
Em geral, os
inspetores por eles mesmos resolviam o caso; davam paternos conselhos
suasórios e a lei sagrava o que já havia sido abençoado
pelas prateadas folhas das imbaúbas, nos capoeirões
cerrados.
Não quis,
porém, o delegado deixar que os seus subordinados liquidassem
aquele caso. A paciente era filha do Sambabaia, chefe político
do partido do Senador Melaço; e o agente era eleitor do partido
contrário a Melaço. O programa do partido de Melaço
era não fazer cousa alguma e o do contrário tinha
o mesmo ideal; ambos, porém, se diziam adversários
de morte e essa oposição, refletindo-se no caso, embaraçada
sobremodo o subdelegado.
Interrogado,
confessara-se o agente pronto a reparar o mal; e, desde há
muito, a paciente dera a tal respeito a sua indispensável
opinião.
A autoridade,
entretanto, hesitava, por causa da incompatibilidade política
do casal. As audiências se sucediam e aquela era já
a quarta. Estavam os soldados atônitos com tanta demora, provinda
de não saber bem o delegado se, unindo mais uma vez o par,
não iria o caso desgostar Melaço e mesmo o seu adversário
Jati-ambos senadores poderosos, aquele do governo e este da oposição;
e, desgostar qualquer dele punha em perigo o seu emprego porque,
quase sempre entre nós, a oposição passa a
ser governo e o governo oposição instantaneamente.
O consentimento dos rapazes não bastava ao caso; era preciso,
além, uma reconciliação ou uma simples adesão
política.
Naquela manhã,
o delegado tomava mais uma vez o depoimento do agente, inquirindo-o
desta forma:
-Já se
resolveu?
- Pois não,
doutor. Estou inteiramente a seu dispor...
- Não
é bem ao meu. Quero saber se o senhor tem tenção?
- De que, doutor?
De casar? Pois não, doutor.
- Não
é de casar... Isto já sei... E...
- Mas de que
deve ser então, doutor?
- De entrar
para o partido do doutor Melaço.
- Eu sempre,
doutor, fui pelo doutor Jati. Não posso...
- Que tem uma
cousa com a outra? O senhor divide o seu voto: a metade dá
para um e a outra metade para outro. Está aí!
- Mas como?
- Ora! O senhor
saberá arranjar as cousas da melhor forma; e, se o fizer
com habilidade, ficarei contente e o senhor será feliz, porquanto
pode arranjar tanto com um como com outro, conforme andar a política
no próximo quatriênio, um lugar de guarda dos mangues.
- Não
há vaga, doutor.
- Qual! Há
sempre vaga, meu caro. O Felizardo não se tem querido alistar,
não nasceu aqui, é de fora, é "estrangeiro";
e, dessa maneira, não pode continuar a fiscalizar os mangues.
E vaga certa. O senhor adere ou antes: divide a votação?
-Divido então...
Por aí,
um dos inspetores veio avisar de que o guarda civil de nome Hane
lhe queria falar. O doutor Cunsono estremeceu. Era cousa do chefe,
do geral lá de baixo; e, de relance, viu o seu hábil
trabalho de harmonizar Jati e Melaço perdido inteiramente,
talvez por causa de não ter, naquele ano, efetuado sequer
uma prisão. Estava na rua, suspendeu o interrogatório
e veio receber o visitador com muita angústia no coração.
Que seria?
- Doutor, foi
logo dizendo o guarda, temos um louco.
Diante daquele
caso novo, o delegado quis refletir, mas logo o guarda emendou:
- O doutor Sili...
Era assim o
nome do ajudante do geral inacessível; e dele, os delegados
têm mais medo do que do chefe supremo todo-poderoso.
Hane continuou:
- O doutor Sili
mandou dizer que o senhor o prendesse e o enviasse à Central.
Cunsono pensou
bem que esse negócio de reclusão de loucos é
por demais grave e delicado e não era propriamente da sua
competência fazê-lo, a menos que fossem sem eira nem
beira ou ameaçassem a segurança pública. Pediu
a Hane que o esperasse e foi consultar o escrivão. Este serventuário
vivia ali de mau humor. O sossego da delegacia o aborrecia, não
porque gostasse da agitação pela agitação,
mas pelo simples fato de não perceber emolumentos ou quer
que seja, tendo que viver de seus vencimentos. Aconselhou-se com
ele o delegado e ficou perfeitamente informado do que dispunham
a lei e a praxe. Mas Sili...
Voltando à
sala, o guarda reiterou as ordens do auxiliar, contando também
que o louco estava em Manaus. Se o próprio Sili não
o mandava buscar, elucidou o guarda, era porque competia a Cunsono
deter o "homem", porquanto a sua delegacia tinha costas
do oceano e de Manaus se vinha por mar.
- E muito longe,
objetou o delegado.
O guarda teve
o cuidado de explicar que Sili já vira a distancia no mapa
e era bem reduzida: obra de palmo e meio. Cunsono perguntou ainda:
- Qual a profissão
do "homem"?
- E empregado
da delegacia fiscal.
- Tem pai?
- Tem.
Pensou o delegado
que competia ao pai o pedido de internação, mas o
guarda adivinhou-lhe o pensamento e afirmou:
- Eu conheço
muito e meu primo é cunhado dele.
Estava já
Cunsono irritado com as objeções do escrivão
e desejava servir a Sili, tanto mais que o caso desafiava a sua
competência policial. A lei era ele; e mandou fazer o expediente.
Após
o que, tratou Cunsono de ultimar o enlace de Melaço e Jati,
por intermédio do casamento da filha do Sambabaia. Tudo ficou
assentado da melhor forma; e, em pequena hora, voltava o delegado
para as ruas onde não policiava, satisfeito consigo mesmo
e com a sua tríplice obra, pois não convém
esquecer a sua caridosa intervenção no caso do louco
de Manaus.
Tomava a condução
que devia trazer à cidade, quando a lembrança do meio
de transporte do dementado lhe foi presente. Ao guarda-civil, ao
representante de Sili na zona, perguntou por esse instante:
- Como há
de vir o "sujeito"?
O guarda, sem
atender diretamente à pergunta, disse:
- E... E, doutor;
ele está muito furioso.
Cunsono pensou
um instante, lembrou-se dos seus estudos e acudiu:
- Talvez um
couraçado... O "Minas Gerais" não serve?
Vou requisitá-lo.
Hane, que tinha
prática do serviço e conhecimento dos compassivos
processos policiais, refletiu:
- Doutor: não
é preciso tanto. O "carro-forte" basta para trazer
0 "homem".
Concordou Cunsono
e olhou as alturas um instante sem notar as nuvens que vagavam sem
rumo certo, entre o céu e a terra.
II
Sili, o doutor
Sili, bem como Cunsono, graças à prática que
tinham do oficio, dispunham da liberdade dos seus pares com a maior
facilidade. Tinham substituido os graves exames íntimos provocados
pelos deveres de seus cargos, as perigosas responsabilidades que
lhes são próprias, pelo automático ato de uma
assinatura rápida. Era um contínuo trazer um oficio,
logo, sem bem pensar no que faziam, sem lê-lo até,
assinavam e ia com essa assinatura um sujeito para a cadeia, onde
ficava aguardando que se lembrasse de retirá-lo de lá
a sua mão distraída e ligeira.
Assim era; e
foi sem dificuldade que atendeu ao pedido de Cunsono no que toca
ao carro-forte. Prontamente deu as ordens para que fosse fornecida
a seu colega a masmorra ambulante, pior do que masmorra, do que
solitária, pois nessas prisões sente-se ainda a algidez
da pedra, alguma cousa ainda de meiguice de sepultura, mas ainda
assim meiguice; mas, no tal carro feroz, é tudo ferro, há
inexorável antipatia do ferro na cabeça, ferro nos
pés, aos lados uma igaçaba de ferro em que se vem
sentado, imóvel, e para a qual se entra pelo próprio
pé. E blindada e quem vai nela, levado aos trancos e barrancos
de seu respeitável peso e do calçamento das vias públicas,
tem a impressão de que se lhe quer poupar a morte por um
bombardeio de grossa artilharia para ser empalato aos olhos de um
sultão. Um requinte de potentado asiático.
Essa prisão
de Calistenes, blindada, chapeada, couraçada, foi posta em
movimento; e saiu, abalando o calçamento, a chocalhar ferragens,
a trovejar pelas ruas afora em busca de um inofensivo.
O "homem",
como dizem eles, era um ente pacato, lá dos confins de Manaus,
que tinha a mania da Astronomia e abandonara, não de todo,
mas quase totalmente, a terra pelo céu inacessível.
Vivia com o pai velho nos arrabaldes da cidade e construíra
na chácara de sua residência um pequeno observatório,
onde montou lunetas que lhe davam pasto à inocente mania.
Julgando insuficientes o olhar e as lentes, para chegar ao perfeito
conhecimento da Aldebarã longínqua, atirou-se ao cálculo,
à inteligência pura, à Matemática e a
estudar com afinco e fúria de um doido ou de um gênio.
Em uma terra
inteiramente entregue à chatinagem e à veniaga, Fernando
foi tomando a fama de louco, e não era ela sem algum motivo.
Certos gestos, certas despreocupações e mesmo outras
manifestações mais palpáveis pareciam justificar
o julgamento comum; entretanto, ele vivia bem com o pai e cumpria
os seus deveres razoavelmente. Porém, parentes oficiosos
e outros longínquos aderentes entenderam curá-lo,
como se se curassem assomos de alma e anseios de pensamento.
Não lhes
vinha tal propósito de perversidade inata, mas de estultice
congênita, juntamente com a comiseração explicável
em parentes. Julgavam que o ser descompassado envergonhava a família
e esse julgamento era reforçado pelos cochichos que ouviam
de alguns homens esforçados por parecerem inteligentes.
O mais célebre
deles era o doutor Barrado, um catita do lugar, cheiroso e apurado
no corte das calças. Possuia esse doutor a obsessão
das cousas extraordinárias, transcendentes, sem par, originais;
e, como sabia Fernando simples e desdenhoso pelos mandões,
supôs que ele, com esse procedimento, censurava Barrado por
demais mesureiro com os magnates. Começou, então,
Barrado a dizer que Fernando não sabia Astronomia; ora, este
último não afirmava semelhante cousa. Lia, estudava
e contava o que lia, mais ou menos o que aquele fazia nas salas,
com os ditos e opiniões dos outros.
Houve quem o
desmentisse; teimava, no entanto, Barrado no propósito. Entendeu
também de estudar uma Astronomia e bem oposta à de
Fernando: a Astronomia do centro da terra. O seu compêndio
favorito era A Morgadinha de Val-Flor e os livros auxiliares: A
Dama de Monsoreau e O Rei dos Grilhetas, numa biblioteca de Herschell.
Com isto, e
cantando, e espalhando que Fernando vivia nas tascas com vagabundos,
auxiliado pelo poeta Machino, o jornalista Cosmético e o
antropologista Tucolas, que fazia sábias mensurações
nos crânios das formigas, conseguiu emover os simplórios
parentes de Fernando, e foi bastante que, de parente para conhecido,
de conhecido para Hane, de Hane, para Sili e Cunsono, as coisas
se encadeassem e fosse obtida a ordem de partida daquela fortaleza
couraçada, roncando pelas ruas, chocalhando ferragens, abalando
calçadas, para ponto tão longínquo.
Quando, porém,
o carro chegou à praça mais próxima, foi que
o cocheiro lembrou-se de que não lhe tinham ensinado onde
ficava Manaus. Voltou e Sili, com a energia de sua origem britânica,
determinou que fretassem uma falua e fossem a reboque do primeiro
paquete.
Sabedor do caso
e como tivesse conhecimento de que Fernando era desafeto do poderoso
chefe político Sofonias, Barrado que, desde muito, lhe queria
ser agradável, calou o seu despeito, apresentou-se pronto
para auxiliar a diligência. Esse chefe político dispunha
de um prestigio imenso e nada entendia de Astronomia; mas, naquele
tempo, era a ciência da moda e tinham em grande consideração
os membros da Sociedade Astronômica, da qual Barrado queria
fazer parte.
Sofonias influía
nas eleições da Sociedade, como em todas as outras,
e podia determinar que Barrado fosse escolhido. Andava, portanto,
o doutor captando a boa vontade da potente influência eleitoral,
esperando obter, depois de eleito, o lugar de Diretor Geral das
Estrelas de Segunda Grandeza.
Não é
de estranhar, pois, que aceitasse tão árdua incumbência
e, com Hane e carrião, veio até à praia; mas
não havia canoa, caíque, bote, jangada, catraia, chalana,
falua, lancha, calunga, poveiro, peru, macacuano, pontão,
alvarenga, saveiro, que os quisesse levar a tais alturas.
Hane desesperava,
mas o companheiro, lembrando-se dos seus conhecimentos de Astronomia,
indicou um alvitre:
- O carro pode
ir boiando.
- Como, doutor?
E de ferro... muito pesado, doutor!
- Qual o quê!
O "Minas", o "Aragón", o "São
Paulo" não bóiam? Ele vai, sim!
- E os burros?
- Irão
a nadar, rebocando o carro.
Curvou-se o
guarda diante do saber do doutor e deixou-lhe a missão confiada,
conforme as ordens terminantes que recebera.
A calistênica
entrou pela água adentro, consoante as ordens promanadas
do saber de Barrado e, logo que achou água suficiente, foi
ao fundo com grande desprezo pela hidrostática do doutor.
Os burros, que tinham sempre protestado contra a física do
jovem sábio, partiram os arreios e salvaram-se; e graças
a uma poderosa cábrea, pôde a almanjarra ser salva
também.
Havia poucos
paquetes para Manaus e o tempo urgia. Barrado tinha ordem franca
de fazer o que quisesse. Não hesitou e, energicamente, fez
reparar as avarias e tratou de embarcar num paquete todo o trem,
fosse como fosse.
Ao embarcá-lo,
porém, surgiu uma dúvida entre ele e o pessoal de
bordo. Teimava Barrado que o carro merecia ir para um camarote de
primeira classe, teimavam os marítimos que isso não
era próprio, tanto mais que ele não indicava o lagar
dos burros.
Era difícil
essa questão da colocação dos burros. Os homens
de bordo queriam que fossem para o interior do navio; mas, objetava
o doutor:
- Morrem asfixiados,
tanto mais que são burros e mesmo por isso.
De comum acordo,
resolveram telegrafar a Sili para resolver a curiosa contenda. Não
tardou viesse a resposta, que foi clara e precisa: "Burros
sempre em cima. Sili."
Opinião
como esta, tão sábia e tão verdadeira, tão
cheia de filosofia e sagacidade da vida, aliviou todos os corações
e abraços fraternais foram trocados entre conhecidos e inimigos,
entre amigos e desconhecidos.
A sentença
era de Salomão e houve mesmo quem quisesse aproveitar o apotegma
para construir uma nova ordem social.
Restava a pequena
dificuldade de fazer entrar o carro para o camarote do doutor Barrado.
O convés foi aberto convenientemente, teve a sala de jantar
mesas arrancadas e o bendegó ficou no centro dela, em exposição,
feio e brutal, estúpido e inútil, como um monstro
de museu.
O paquete moveu-se
lentamente em demanda da barra. Antes fez uma doce curva, longa,
muito suave, reverente à beleza da Guanabara. As gaivotas
voavam tranqüilas, cansavam-se, pousavam na água-não
precisavam de terra...
A cidade sumia-se
vagarosamente e o carro foi atraindo a atenção de
bordo.
- O que vem
a ser isto?
Diante da almanjarra,
muitos viajantes murmuravam protestos contra a presença daquele
estafermo ali; outras pessoas diziam que se destinava a encarcerar
um bandoleiro da Paraíba; outras que era um salva-vidas;
mas, quando alguém disse que aquilo ia acompanhando um recomendado
de Sofonias, a admiração foi geral e imprecisa.
Um oficial disse:
- Que construção
engenhosa!
Um médico
afirmou:
- Que linhas
elegantes!
Um advogado
refletiu:
- Que soberba
criação mental!
Um literato
sustentou:
- Parece um
mármore de Fídias!
Um sicofanta
berrou:
- E obra mesmo
de Sofonias! Que republicano!
Uma moça
adiantou:
- Deve ter sons
magníficos!
Houve mesmo
escala para dar ração aos burros, pois os mais graduados
se disputavam a honraria. Um criado, porém, por ter. passado
junto ao monstro e o olhado com desdém, quase foi duramente
castigado pelos passageiros. O ergástulo ambulante vingou-se
do serviçal; durante todo o trajeto perturbou-lhe o serviço.
Apesar de ir
correndo a viagem sem mais incidentes, quis ao meio dela Barrado
desembarcar e continuá-la por terra. Consultou, nestes termos,
Sili: "Melhor carro ir terra faltam três dedos mar alonga
caminho"; e a resposta veio depois de alguns dias: "Não
convém desembarque embora mais curto carro chega sujo. Siga."
Obedeceu e o
meteorito, durante duas semanas, foi objeto da adoração
do paquete. Nos últimos dias, quando um qualquer dos passageiros
dele se acercava, passava-lhe pelo dorso negro a mão espalmada
com a contrição religiosa de um maometano ao tocar
na pedra negra da Caaba.
Sofonias, que
nada tinha com o caso, não teve nunca noticia dessa tocante
adoração.
III
Muito rica é
Manaus, mas, como em todo o Amazonas, nela é vulgar a moeda
de cobre. E um singular traço de riqueza que muito impressiona
o viajante, tanto mais que não se quer outra e as rendas
do Estado são avultadas. O Eldorado não conhece o
ouro, nem o estima.
Outro traço
de sua riqueza é o jogo. Lá, não é divertimento
nem vicio: é para quase todos profissão. O valor dos
noivos, segundo dizem, é avaliado pela média das paradas
felizes que fazem, e o das noivas pelo mesmo processo no tocante
aos pais.
Chegou o navio
a tão curiosa cidade quinze dias após fazendo uma
plácida viagem, com o fetiche a bordo. Desembarcá-lo
foi motivo de absorvente cogitação para o doutor Barrado.
Temia que fosse de novo ao fundo, não porque o quisesse encaminhá-lo
por sobre as águas do Rio Negro; mas, pelo simples motivo
de que, sendo o cais flutuante, o peso do carrião talvez
trouxesse desastrosas consequências para ambos, cais e carro.
O capataz não
encontrava perigo algum, pois desembarcavam e embarcavam pelos flutuantes
volumes pesadissimos, toneladas até.
Barrado, porém,
que era observador, lembrava-se da aventura do rio, e objetou:
- Mas não
são de ferro.
- Que tem isso?
fez o capataz.
Barrado, que
era observador e inteligente, afinal compreendeu que um quilo de
ferro pesa tanto quanto um de algodão; e só se convenceu
inteiramente disso, como observador que era, quando viu o ergástulo
em salvamento, rolando pelas ruas da cidade.
Continuou a
ser ídolo e o doutor agastou-se deveras porque o governador
visitou a caranguejola, antes que ele o fizesse.
Como não
tivesse completas as instruções para detenção
de Fernando, pediu-as a Sili. A resposta veio num longo telegrama,
minucioso e elucidativo. Devia requisitar força ao governador,
arregimentar capangas e não desprezar as balas de altéia.
Assim fez o comissário. Pediu uma companhia de soldados,
foi às allurjas da cidade catar bravos e adquirir uma confeitaria
de altéia. Partiu em demanda do "homem" com esse
trem de guerra; e, pondo-se cautelosamente em observação,
lobrigou os óculos do observatório, donde concluiu
que a sua força era insuficiente. Normas para o seu procedimento
requereu a Sili. Vieram secas e peremptórias: "Empregue
também artilharia."
De novo pôs-se
em marcha com um parque do Krupp. Desgraçadamente, não
encontrou o homem perigoso. Recolheu a expedição a
quartéis; e, certo dia, quando de passeio, por acaso, foi
parar a um café do centro comercial. Todas as mesas estavam
ocupadas; e só em uma delas havia um único consumidor.
A esta ele sentou-se. Travou por qualquer motivo conversa com o
mazombo; e, durante alguns minutos, aprendeu com o solitário
alguma cousa.
Ao despedirem-se,
foi que ligou o nome à pessoa, e ficou atarantado sem saber
como proceder no momento. A ação, porém, lhe
veio prontamente; e, sem dificuldade, falando em nome da lei e da
autoridade, deteve o pacifico ferrabrás em um dos bailéus
do cárcere ambulante.
Não havia
paquete naquele dia e Sili havia recomendado que o trouxessem imediatamente.
"Venha por terra," disse ele; e Barrado, lembrado do conselho,
tratou de segui-lo. Procurou quem o guiasse até ao Rio, embora
lhe parecesse curta e fácil a viagem. Examinou bem o mapa
e, vendo que a distancia era de palmo e meio, considerou que dentro
dela não lhe cabia o carro. Por este e aquele, soube que
os fabricantes de mapas não têm critério seguro:
era fazer uns muito grandes, ou muito pequenos, conforme são
para enfeitar livros ou adornar paredes. Sendo assim, a tal distancia
de doze polegadas bem podia esconder viagem de um dia e mais.
Aconselhado
pelo cocheiro, tomou um guia e encontrou-o no seu antigo conhecido
Tucolas, sabedor como ninguém do interior do Brasil, pois
o palmilhara à cata de formigas para bem firmar documentos
às suas investigações antropológicas.
Aceitou a incumbência
o curioso antropologista de himenópteros, aconselhando, entretanto,
a modificação do itinerário.
- Não
me parece, Senhor Barrado, que devamos atravessar o Amazonas. Melhor
seria, Senhor Barrado, irmos até a Venezuela, alcançar
as Guianas e descermos, Senhor Barrado.
- Não
teremos rios a atravessar, Tucolas?
- Homem! Meu
caro senhor, eu não sei bem; mas, Senhor Barrado me parece
que não, e sabe por quê?
- Por que?
- Por que? Porque
este Amazonas, Senhor Barrado, não pode ir até lá,
ao Norte, pois só corre de oeste para leste...
Discutiram assim
sabiamente o caminho; e, à proporção que manifestava
o seu profundo trato com a geografia da América do Sul, mais
Tucolas passava a mão pela cabeleira de inspirado.
Achou que os
conselhos do doutor eram justos, mas temia as surpresas do carrão.
Ora, ia ao fundo, por ser pesado; ora, sendo pesado, não
fazia ir ao fundo frágeis flutuantes. Não fosse ele
estranhar o chão estrangeiro e pregar-lhe alguma peça?
O cocheiro não queria também ir pela Venezuela, temia
pisar em terra de gringos e encarregou-se da travessia do Amazonas-o
que foi feito em paz e salvamento, com a máxima simplicidade.
Logo que foi
ultimada, Tucolas tratou de guiar a caravana. Prometeu que o faria
com muito acerto e contentamento geral, pois aproveitá-la-ia,
dilatando as suas pesquisas antropológicas aos moluscos dos
nossos rios. Era sábio naturalista, e antropologista, e etnografista
da novíssima escola do Conde de Gobineau, novidade de uns
sessenta anos atrás; e, desde muito, desejava fazer uma viagem
daquelas para completar os seus estudos antropológicos nas
formigas e nas ostras dos nossos rios.
A viagem correu
maravilhosamente durante as primeiras horas. Sob um sol de fogo,
o carro solavancava pelos maus caminhos; e o doente, à mingua
de não ter onde se agarrar, ia ao encontro de uma e outra
parede de sua prisão couraçada. Os burros, impelidos
pelas violentas oscilações dos varais, encontravam-se
e repeliam-se, ainda mais aumentando os ásperos solavancos
da traquitana; e o cocheiro, na boléia, oscilava de lá
para cá, de cá para lá, marcando o compasso
da música chocalhante daquela marcha vagarosa.
Na primeira
venda que passaram, uma dessas vendas perdidas, quase isoladas,
dos caminhos desertos, onde o viajante se abastece e os vagabundos
descansam de sua errância pelos descambados e montanhas, o
encarcerado foi saudado com uma vaia: ó maluco! ó
maluco!
Andava Tucolas
distraído a fossar e cavocar, catando formigas; e, mal encontrava
uma mais assim, logo examinava bem o crânio do inseto, procurava-lhe
os ossos componentes, enquanto não fazia uma mensuração
cuidadosa do ângulo de Camper ou mesmo de Cloquet. Barrado,
cuja preocupação era ser êmulo do Padre Vieira,
aproveitara o tempo para firmar bem as regras de colocação
de pronomes, sobretudo a que manda que o "que" atraia
o pronome complemento.
E assim andando
foi o carro, após dias de viagem, encontrar uma aldeia pobre,
à margem de um rio, onde chalanas e naviecos a vapor tocavam
de quando em quando.
Cuidaram imediatamente
de obter hospedagem e alimentação no lugarejo. O cocheiro
lembrou o "homem" que traziam. Barrado, a respeito, não
tinha com segurança uma norma de proceder. Não sabia
mesmo se essa espécie de doentes comia e consultou Sili,
por telegrama. Respondeu-lhe a autoridade, com a energia britânica
que tinha no sangue, que não era do regulamento retirar aquela
espécie de enfermos do carro, o "ar" sempre lhes
fazia mal. De resto, era curta a viagem e tão sábia
recomendação foi cegamente obedecida.
Em pequena hora,
Barrado e o guia sentavam-se à mesa do professor público,
que lhes oferecera do jantar. O ágape ia fraternal e alegre,
quando houve a visita da Discórdia, a visita da Gramática.
O ingênuo
professor não tinha conhecimento do pichoso saber gramatical
do doutor Barrado e expunha candidamente os usos e costumes do lugar
com a sua linguagem roceira:
- Há
aqui entre nós muito pouco caso pelo estudo, doutor. Meus
filhos mesmo e todos quase não querem saber de livros. Tirante
este defeito, doutor, a gente quer mesmo o progresso.
Barrado implicou
com o "tirante" e o "a gente", e tentou ironizar.
Sorriu e observou:
- Fala-se mal,
estou vendo.
O matuto percebeu
que o doutor se referia a ele. Indagou mansamente:
- Por que o
doutor diz isso?
- Por nada,
professor. Por nada!
- Creio, aduziu
o sertanejo, que, tirante eu, o doutor aqui não falou com
mais ninguém.
Barrado notou
ainda o "tirante" e olhou com inteligência para
Tucolas, que se distraía com um naco de tartaruga.
Observou o caipira,
momentaneamente, o afã de comer do antropologista e disse,
meigamente:
- Aqui, a gente
come muito isso. Tirante a caça e a pesca, nós raramente
temos carne fresca.
A insistência
do professor sertanejo irritava sobremaneira o doutor inigualável.
Sempre aquele "tirante", sempre o tal "a gente, a
gente, a gente"-um falar de preto mina! O professor, porém,
continuou a informar calmamente:
- A gente aqui
planta pouco, mesmo não vale a pena. Felizardo do Catolé
plantou uns leirões de horta, há anos, e quando veio
o calor e a enchente...
- E demais!
E demais! exclamou Barrado.
Docemente, o
pedagogo indagou:
- Por quê?
Por que, doutor?
Estava o doutor
sinistramente raivoso e explicou-se a custo:
- Então,
não sabe? Não sabe?
- Não,
doutor. Eu não sei, fez o professor, com segurança
e mansuetude.
Tucolas tinha
parado de saborear a tartaruga, a fim de atinar com a origem da
disputa.
- Não
sabe, então, rematou Barrado, não sabe que até
agora o senhor não tem feito outra coisa senão errar
em português?
- Como, doutor?
- E "tirante",
é "a gente, a gente, a gente"; e, por cima de tudo,
um solecismo!
- Onde, doutor?
- Veio o calor
e a chuva-é português?
- E, doutor,
é, doutor! Veja o doutor João Ribeiro! Tudo isso está
lá. Quer ver?
O professor
levantou-se, apanhou sobre a mesa próxima uma velha gramática
ensebada e mostrou a respeitável autoridade ao sábio
doutor Barrado. Sem saber desdéns simular, ordenou:
- Tucolas, vamo-nos
embora.
- E a tartaruga?
diz o outro.
O hóspede
ofereceu-a, o original antropologista embrulhou-a e saiu com o companheiro.
Cá fora, tudo era silêncio e o céu estava negro.
As estrelas pequeninas piscavam sem cessar o seu olhar eterno para
a terra muito grande. O doutor foi ao encontro da curiosidade recalcada
de Tucolas:
- Vê,
Tucolas, como anda o nosso ensino? Os professores não sabem
os elementos de gramática, e falam como negros de senzala.
- Senhor Barrado,
julgo que o senhor deve a esse respeito chamar a atenção
do ministro competente, pois me parece que o país, atualmente,
possui um dos mais autorizados na matéria.
- Vou tratar,
Tucolas, tanto mais que o Semica é amigo do Sofonias.
- Senhor Barrado,
uma coisa...
- Que é?
- Já
falou, Senhor Barrado, a meu respeito com o senhor Sofonias?
- Desde muito,
meu caro Tucolas. Está à espera da reforma do museu
e tu vais para lá direitinho. E o teu lugar.
- Obrigado,
Senhor Barrado. Obrigado.
A viagem continuou
monotonamente. Transmontaram serras, vadearam rios e, num deles,
houve um ataque de jacarés, dos quais se salvou Barrado graças
à sua pele muito dura. Entretanto, um dos animais de tiro
perdeu uma das patas dianteiras e mesmo assim conseguiu pôr-se
a salvo na margem oposta.
Sarou-lhe a
ferida não se sabe como e o animal não deixou de acompanhar
a caravana. Às vezes, distanciava-se; às vezes, aproximava-se;
e sempre a pobre alimária olhava longamente, demoradamente,
aquele forno ambulante, manquejando sempre, impotente para a carreira,
e como se se lastimasse de não poder auxiliar eficazmente
o lento reboque daquela almanjarra pesadona.
Em dado momento,
o cocheiro avisa Barrado de que o "homem" parecia estar
morto; havia até um mau cheiro indicador. O regulamento não
permitia a abertura da prisão e o doutor não quis
verificar o que havia de verdade no caso. Comia aqui, dormia ali,
Tucolas também e os burros também-que mais era preciso
para ser agradável a Sofonias? Nada, ou antes: trazer o "homem"
até ao Rio de Janeiro. As doze polegadas da sua cartografia
desdobravam-se em um infinito número de quilômetros.
Tucolas que conhecia o caminho, dizia sempre: estamos a chegar,
Senhor Barrado! Estamos a chegar! Assim levaram meses andando, com
o burro aleijado a manquejar atrás do ergástulo ambulante,
olhando-o docemente, cheio de piedade impotente.
Os urubus crocitavam
por sobre a caravana, estreitavam o vôo, desciam mais, mais,
mais, até quase debicar no carroforte. Barrado punha-se furioso
a enxotá-los a pedradas; Tucolas imaginava aparelhos para
examinar a caixa craniana das ostras de que andava à caça;
o cocheiro obedecia.
Mais ou menos
assim, levaram dois anos e foram chegar à aldeia dos Serradores,
margem do Tocantins.
Quando aportaram,
havia na praça principal uma grande disputa, tendo por motivo
o preenchimento de uma vaga na Academia dos Lambrequins.
Logo que Barrado
soube do que se tratava, meteu-se na disputa e foi gritando lá
a seu jeito e sacudindo as perninhas:
- Eu também
sou candidato! Eu também sou candidato!
Um dos circunstantes
perguntou-lhe a tempo, com toda a paciência:
- Moço:
o senhor sabe fazer lambrequins?
- Não
sei, não sei, mas aprendo na academia e é para isso
que quero entrar.
A eleição
teve lugar e a escolha recaiu sobre um outro mais hábil no
uso da serra que o doutor recém-chegado.
Precipitou-se
por isso a partida e o carro continuou a sua odisséia, com
o acompanhamento do burro, sempre a olhá-lo longamente, infinitamente,
demoradamente, cheio de piedade impotente. Aos poucos os urubus
se despediram; e, no fim de quatro anos, o carrião entrou
pelo Rio adentro, a roncar pelas calçadas, chocalhando duramente
as ferragens, com o seu manco e compassivo burro a manquejar-lhe
à sirga.
Logo que foi
chegado, um hábil serralheiro veio abri-lo, pois a fechadura
desarranjara-se devido aos trancos e às intempéries
da viagem, e desobedecia à chave competente. Sili determinou
que os médicos examinassem o doente, exame que, mergulhados
numa atmosfera de desinfetantes, foi feito no necrotério
público.
Foi este o destino
do enfermo pelo qual o delegado Cunsono se interessou com tanta
solicitude.
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