A MORENINHA
Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo I
Aposta Imprudente
Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em
um cabide velho. Bravo!... interessante cena! mas certo que desonrosa
fora para casa de um estudante de Medicina e já no sexto ano, a
não valer-lhe o adágio antigo: - o hábito não
faz o monge.
- Temos discurso!... atenção!... ordem!... gritaram a um
tempo três vozes.
- Coisa célebre! acrescentou Leopoldo. Filipe sempre se torna orador
depois do jantar...
- E dá-lhe para fazer epigramas, disse Fabrício.
- Naturalmente, acudiu Leopoldo, que, por dono da casa, maior quinhão
houvera no cumprimento do recém-chegado; naturalmente. Bocage,
quando tomava carraspana, descompunha os médicos.
- C'est trop fort! bocejou Augusto, espreguiçando-se no canapé
em que se achava deitado.
- Como quiserem, continuou Filipe, pondo-se em hábitos menores;
mas, por minha vida, que a carraspana de hoje ainda me concede apreciar
devidamente aqui o meu amigo Fabrício, que talvez acaba de chegar
de alguma visita diplomática, vestido com esmero e alinho, porém,
tendo a cabeça encapuzada com a vermelha e velha carapuça
do Leopoldo; este, ali escondido dentro do seu robe-de-chambre cor de
burro quando foge, e sentado em uma cadeira tão desconjuntada que,
para não cair com ela, põe em ação todas as
leis de equilíbrio, que estudou em Pouillet; acolá, enfim,
o meu romântico Augusto, em ceroulas, com as fraldas à mostra,
estirado em um canapé em tão bom uso, que ainda agora mesmo
fez com que Leopoldo se lembrasse de Bocage. Oh! VV. SS. tomam café!...
Ali o senhor descansa a xícara azul em um pires de porcelana...
aquele tem uma chávena com belos lavores dourados, mas o pires
é cor-de-rosa... aquele outro nem porcelana, nem lavores, nem cor
azul ou de rosa, nem xícara... nem pires... aquilo é uma
tigela num prato...
- Carraspana!... carraspana!...
- O' moleque! prosseguiu Filipe, voltando-se para o corredor, traze-me
café, ainda que seja no púcaro em que o coas; pois creio
que a não ser a falta de louças, já teu senhor mo
teria oferecido.
- Carraspana!... carraspana!...
- Sim, continuou ele, eu vejo que vocês...
- Carraspana!... carraspana!...
- Não sei de nós quem mostra...
- Carraspana!... carraspana!...
Seguiram-se alguns momentos de silêncio; ficaram os quatro estudantes
assim a modo de moças quando jogam o siso. Filipe não falava,
por conhecer o propósito em que estavam os três de lhe não
deixar concluir uma só proposição, e estes, porque
esperavam vê-lo abrir a boca para gritar-lhe: carraspana!...
Enfim, foi ainda Filipe o primeiro que falou, exclamando de repente:
- Paz! paz!...
- Ah! já?... disse Leopoldo, que era o mais influído.
- Filipe é como o galego, disse um outro; perderia tudo para não
guardar silêncio uma hora.
- Está bem, o passado, o passado; protesto não falar mais
nunca na carapuça, nem nas cadeiras, nem no canapé, nem
na louça do Leopoldo... Estão no caso... sim...
- Hein?... olha a carraspana.
- Basta! vamos a negócio mais sério. Onde vão vocês
passar o dia de Sant'Ana?
- Por quê?... temos patuscada?... acudiu Leopoldo.
- Minha avó chama-se Ana.
- Ergo!...
- Estou habilitado para convidá-los a vir passar a véspera
e dia de Sant'Ana conosco na ilha de...
- Eu vou, disse prontamente Leopoldo.
- E dois, acudiu Fabrício.
Augusto só guardou silêncio.
- E tu, Augusto?... perguntou Filipe.
- Eu?... eu não conheço tua avó.
- Ora, sou seu criado; também eu não a conheço, disse
Fabrício.
- Nem eu, acrescentou Leopoldo.
- Não conhecem a avó; mas conhecem o neto, disse Filipe.
- E demais, tornou Fabrício, palavra de honra que nenhum de nós
tomará o trabalho de lá ir por causa da velha.
- Augusto, minha avó é a velha mais patusca do Rio de Janeiro.
- Sim?... que idade tem?
- Sessenta anos.
- Está fresquinha ainda... Ora... se um de nós a enfeitiça
e se faz avô de Filipe!...
- E ela, que possui talvez seus duzentos mil cruzados, não é
assim, Filipe? Olha, se é assim, e tua avó se lembrasse
de querer casar comigo, disse Fabrício, juro que mais depressa
daria o meu "recebo a vós" aos cobres da velha, do que
a qualquer das nossas "toma-larguras" da moda.
- Por quem são!... deixem minha avó e tratemos da patuscada.
Então tu vais, Augusto?
- Não.
- É uma bonita ilha.
- Não duvido.
- Reuniremos uma sociedade pouco numerosa, mas bem escolhida.
- Melhor para vocês.
- No domingo, à noite, teremos um baile.
- Estimo que se divirtam.
- Minhas primas vão.
- Não as conheço.
- São bonitas.
- Que me importa?... Deixe-me. Vocês sabem o meu fraco e caem-me
logo com ele: moças!... moças!... Confesso que dou o cavaco
por elas, mas as moças me têm posto velho.
- É porque ele não conhece tuas primas, disse Fabrício.
- Ora... o que poderão ser senão demoninhas, como são
todas as outras moças bonitas?
- Então tuas primas são gentis?... perguntou Leopoldo a
Filipe.
- A mais velha, respondeu este, tem dezessete anos, chama-se Joana, tem
cabelos negros, belos olhos da mesma cor, e é pálida.
- Hein?... exclamou Augusto, pondo-se de um pulo duas braças longe
do canapé onde estava deitado, então ela é pálida?...
- A mais moça tem um ano de menos: loura, de olhos azuis, faces
cor-de-rosa... seio de alabastro... dentes...
- Como se chama?
- Joaquina.
- Ai, meus pecados!... disse Augusto.
- Vejam como Augusto já está enternecido...
- Mas, Filipe, tu já me disseste que tinhas uma irmã.
- Sim, é uma moreninha de quatorze anos.
- Moreninha? diabo!... exclamou outra vez Augusto, dando novo pulo.
- Está sabido... Augusto não relaxa a patuscada.
- É que este ano já tenho pagodeado meu quantum satis, e,
assim como vocês, também eu quero andar em dia com alguns
senhores com quem nos é muito preciso estar de contas justas no
mês de novembro.
- Mas a pálida?... a loura?... a moreninha?...
- Que interessante terceto! exclamou com tom teatral Augusto; que coleção
de belos tipos!... uma jovem de dezessete anos, pálida... romântica
e, portanto, sublime; uma outra, loura... de olhos azuis... faces cor-de-rosa...
e... não sei que mais: enfim, clássica e por isso bela.
Por último uma terceira de quatorze anos... moreninha, que, ou
seja, romântica ou clássica, prosaica ou poética,
ingênua ou misteriosa, há de, por força, ser interessante,
travessa e engraçada; e por conseqüência qualquer das
três, ou todas ao mesmo tempo, muito capazes de fazer de minha alma
peteca, de meu coração pitorra!... Está tratado...
não há remédio... Filipe, vou visitar tua avó.
Sim, é melhor passar os dois dias estudando alegremente nesses
três interessantes volumes da grande obra da natureza do que gastar
as horas, por exemplo, sobre um célebre Velpeau, que só
ele faz por sua conta e risco mais citações em cada página
do que todos os meirinhos reunidos fizeram, fazem e hão de fazer
pelo mundo.
- Bela conseqüência! É raciocínio o teu que faria
inveja a um caloiro, disse Fabrício.
- Bem raciocinado... não tem dúvida, acudiu Filipe; então,
conto contigo, Augusto?
- Dou-te palavra... e mesmo porque eu devo visitar tua avó.
- Sim... já sei... isso dirás tu a ela.
- Mas vocês não têm reparado que Fabrício tornou-se
amuado e pensativo, desde que se falou nas primas de Filipe?...
- Disseram-me que ele anda enrabichado com minha prima Joaninha.
- A pálida?... pois eu já me vou dispondo a fazer meu pé-de-alferes
com a loura.
- E tu, Augusto, quererás porventura reqüestar minha irmã?...
- É possível.
- E de que gostarás mais, da pálida, da loura ou da moreninha?...
- Creio que gostarei, principalmente, de todas.
- Ei-lo aí com a sua mania.
- Augusto é incorrigível.
- Não, é romântico.
- Nem uma coisa nem outra... é um grandíssimo velhaco.
- Não diz o que sente.
- Não sente o que diz.
- Faz mais do que isso, pois diz o que não sente.
- O que quiserem... Serei incorrigível, romântico ou velhaco,
não digo o que sinto não sinto o que digo, ou mesmo digo
o que não sinto; sou, enfim, mau e perigoso e vocês inocentes
e anjinhos. Todavia, eu a ninguém escondo os sentimentos que ainda
há pouco mostrei, e em toda a parte confesso que sou volúvel,
inconstante e incapaz de amar três dias um mesmo objeto; verdade
seja que nada há mais fácil do que me ouvirem um "eu
vos amo", mas também a nenhuma pedi ainda que me desse fé;
pelo contrário, digo a todas o como sou e, se, apesar de tal, sua
vaidade é tanta que se suponham inesquecíveis, a culpa,
certo, que não é minha. Eis o que faço. E vós,
meus caros amigos, que blasonais de firmeza de rochedo, vós jurais
amor eterno cem vezes por ano a cem diversas belezas... vós sois
tanto ou ainda mais inconstantes que eu!... mas entre nós há
sempre uma grande diferença: - vós enganais e eu desengano;
eu digo a verdade e vós, meus senhores, mentis...
- Está romântico!... está romântico!... exclamaram
os três, rindo às gargalhadas.
- A alma que Deus me deu, continuou Augusto, é sensível
demais para reter por muito tempo uma mesma impressão. Sou inconstante,
mas sou feliz na minha inconstância, porque apaixonando-me tantas
vezes não chego nunca a amar uma vez.
- Oh!... oh!... que horror!... que horror!...
- Sim! esse sentimento que voto às vezes a dez jovens num só
dia, às vezes, numa mesma hora, não é amor, certamente.
Por minha vida, interessantes senhores, meus pensamentos nunca têm
dama, porque sempre têm damas; eu nunca amei... eu não amo
ainda... eu não amarei jamais...
- Ah!... ah!... ah!... e como ele diz aquilo!
- Ou, se querem, precisarei melhor o meu programa sentimental; lá
vai: afirmo, meus senhores, que meu pensamento nunca se ocupou, não
se ocupa, nem se há de ocupar de uma mesma moça quinze dias.
- E eu afirmo que segunda-feira voltarás da ilha de... loucamente
apaixonado de alguma de minhas primas.
- Pode bem suceder que de ambas.
- E que todo o resto do ano letivo passarás pela rua de... duas
e três vezes por dia, somente com o fim de vê-la.
- Assevero que não.
- Assevero que sim.
- Quem?... eu?... eu mesmo passar duas e três vezes por dia por
uma só rua, por causa de uma moça?... e para quê?...
para vê-la lançar-me olhos de ternura, ou sorrir-se brandamente
quando eu para ela olhar, e depois fazer-me caretas ao lhe dar as costas?...
para que ela chame as vizinhas que lhe devem ajudar a chamar-me tolo,
pateta, basbaque e namorador?... Não, minhas belas senhoras da
moda! eu vos conheço... amante apaixonado quando vos vejo, esqueço-me
de vós duas horas depois de deixar-vos. Fora disto só queimarei
o incenso da ironia no altar de vossa vaidade; fingirei obedecer a vossos
caprichos e somente zombarei deles. Ah!... muitas vezes, alguma de vós,
quando me ouve dizer: "sois encantadora", está dizendo
consigo: "ele me adora", enquanto eu digo também comigo:
"que vaidosa!"
- Que vaidoso!... te digo eu, exclamou Filipe.
- Ora, esta não é má!... Então vocês
querem governar o meu coração?...
- Não; porém, eu torno a afirmar que tu amarás uma
de minhas primas todo o tempo que for da vontade dela.
- Que mimos de amor que são as primas deste senhor!...
- Eu te mostrarei.
- Juro que não.
- Aposto que sim.
- Aposto que não.
- Papel e tinta, escreva-se a aposta.
- Mas tu me dás muita vantagem e eu rejeitaria a menor. Tens apenas
duas primas; é um número de feiticeiras muito limitado.
Não sejam só elas as únicas magas que em teu favor
invoques para me encantar. Meus sentimentos ofendem, talvez, a vaidade
de todas as belas; todas as belas, pois, tenham o direito de te fazer
ganhar a aposta, meu valente campeão do amor constante!
- Como quiseres, mas escreve.
- E quem perder?...
- Pagará a todos nós um almoço no Pharoux, disse
Fabrício.
- Qual almoço! acudiu Leopoldo. Pagará um camarote no primeiro
drama novo que representar o nosso João Caetano.
- Nem almoço, nem camarote, concluiu Filipe; se perderes, escreverás
a história da tua derrota, e se ganhares, escreverei o triunfo
da tua inconstância.
- Bem, escrever-se-á um romance, e um de nós dois, o infeliz,
será o autor.
Augusto escreveu primeira, segunda e terceira vez o termo da aposta, mas
depois de longa e vigorosa discussão, em que qualquer dos quatro
falou duas vezes sobre a matéria, uma para responder e dez ou doze
pela ordem; depois de se oferecerem quinze emendas e vinte artigos aditivos,
caiu tudo por grande maioria, e entre bravos, apoiados e aplausos, foi
aprovado, salva a redação, o seguinte termo:
"No dia 20 de julho de 18... na sala parlamentar da casa n... da
"rua de... sendo testemunhas os estudantes Fabrício e Leopoldo,
acordaram Filipe e Augusto, também estudantes, que, se até
o dia "20 de agosto do corrente ano o segundo acordante tiver amado
a uma "só mulher durante quinze dias ou mais, será
obrigado a escrever um "romance em que tal acontecimento confesse;
e, no caso contrário, igual "pena sofrerá o primeiro
acordante. Sala parlamentar, 20 de julho de "18... Salva a redação."
Como testemunhas:
Fabrício e Leopoldo.
Acordantes: Filipe e Augusto.
E eram oito horas da noite quando se levantou a sessão.
Capítulo II
Fabrício em
Apuros
A cena que se passou teve lugar numa segunda-feira. Já lá
se foram quatro dias, hoje é sexta-feira, amanhã será
sábado, não um sábado como outro qualquer, mas um
sábado véspera de Sant'Ana.
São dez horas da noite. Os sinos tocaram a recolher. Augusto está
só, sentado junto de sua mesa, tendo diante de seus olhos seis
ou sete livros e papéis, pena se toda essa série de coisas
que compõem a mobília do estudante.
É inútil descrever o quarto de um estudante. Aí nada
se encontra de novo. Ao muito acharão uma estante, onde ele guarda
os seus livros, um cabide, onde pendura a casaca, o moringue, o castiçal,
a cama, uma, até duas canastras de roupa, o chapéu, a bengala
e a bacia; a mesa onde escreve e que só apresenta de recomendável
a gaveta, cheia de papéis, de cartas de família, de flores
e fitinhas misteriosas, é pouco mais ou menos assim o quarto de
Augusto.
Agora ele está só. Às sete horas, desse quarto saíram
três amigos: Filipe, Leopoldo e Fabrício. Trataram da viagem
para a ilha de... no dia seguinte retiraram-se descontentes, porque Augusto
não se quis convencer de que deveria dar um ponto na Clínica
para ir com eles ao amanhecer. Augusto tinha respondido: Ora vivam! bem
basta que eu faça gazeta na aula de partos; não vou senão
às dez horas do dia.
E, pois, despediram-se amuados. Fabrício queria ainda demorar-se
e mesmo ficar com Augusto, mas Leopoldo e Filipe o levaram consigo, à
força. Fabrício fez-se acompanhar do moleque que servia
Augusto, porque, dizia ele, tinha um papel de importância a mandar.
Eram dez horas da noite, e nada do moleque. Augusto via-se atormentado
pela fome, e Rafael, o seu querido moleque, não aparecia... O bom
Rafael, que era ao mesmo tempo o seu cozinheiro, limpa-botas, cabeleireiro,
moço de recados e... e tudo mais que as urgências mandavam
que ele fosse.
Com justa razão, portanto, estava cuidadoso Augusto, que de momento
a momento exclamava:
- Vejam isto!... já tocou a recolher e Rafael está ainda
na rua!! Se cai nas unhas de algum beleguim, não é, decerto,
o Sr. Fabrício quem há de pagar as despesas da Casa de Correção...
Pobre do Rafael! que cavaco não dará quando lhe raparem
os cabelos!
Mas neste momento ouviu-se tropel na escada... Era Rafael, que trazia
uma carta de Fabrício, e que foi aprontar o chá, enquanto
Augusto lia a carta. Ei-la aqui:
"Augusto. Demorei o Rafael, porque era longo o que tenho de escrever-te.
Melhor seria que eu te falasse, porém, bem viste as impertinências
de Filipe e Leopoldo. Felizmente, acabam de deixar-me. Que macistas!...
Principio por dizer-te que te vou pedir um favor, do qual dependerá
o meu prazer e sossego na ilha de... Conto com a tua amizade, tanto mais
que foram os teus princípios que me levaram aos apuros em que ora
me vejo. Eis o caso.
"Tu sabes, Augusto, que, concordando com algumas de tuas opiniões
a respeito de amor, sempre entendi que uma namorada é traste tão
essencial ao estudante como o chapéu com que se cobre ou o livro
em que estuda. Concordei mesmo algumas vezes em dar batalha a dois e três
castelos a um tempo; porém tu não ignoras que a semelhante
respeito estamos discordes no mais: tu és ultra-romântico
e eu ultraclássico. O meu sistema era este:
"1º. Não namorar moça de sobrado. Daqui tirava
eu dois proveitos, a saber: não pagava o moleque para me levar
recados e dava sossegadamente, e à mercê das trevas, meus
beijos por entre os postigos das janelas.
"2º. Não reqüestar moça endinheirada. Assim
eu não ia ao teatro para vê-la, nem aos bailes para com ela
dançar, e poupava os meu cobres.
"3º. Fingir ciúmes e ficar mal com a namorada em tempo
de festas e barracas no Campo. E por tal modo livrava-me de pagar doces,
festas e outras impertinências.
"Estas eram as bases fundamentais do meu sistema.
"Ora, tu te lembrarás que bradavas contra o meu proceder,
como indigno da minha categoria de estudante; e, apesar de me ajudares
a comer saborosas empadas, quitutes apimentados e finos doces, com que
as belas pagavam por vezes minha assiduidade amantética, tu exclamavas:
- Fabrício! não convém tais amores ao jovem de letras
e de espírito. O estudante deve considerar o amor como um excitante
que desperte e ateie as faculdades de sua alma: pode mesmo amar uma moça
feia e estúpida, contanto que sua imaginação lha
represente bela e espirituosa. Em amor a imaginação é
tudo: é ardendo em chamas, é elevado nas asas de seus delírios
que o mancebo se faz poeta por amor.
"Eu então te respondia:
"- Mas quando as chamas se apagam, e as asas dos delírios
se desfazem, o poeta por amor não tem, como eu, nem quitutes nem
empadas.
"E tu me tornavas:
"- É porque ainda não experimentaste o que nos prepara
o que se chama amor platônico, paixão romântica! Ainda
não sentiste como é belo derramar-se a alma toda inteira
de um jovem na carta abrasadora que escreve à sua adorada e receber
em troca uma alma de moça, derramada toda inteira em suas letras,
que tantas mil vezes se beija.
"Ora, esses derramamentos de alma bastante me assustavam, porque
eu me lembro que em patologia se trata mui seriamente dos derramamentos.
"Mas tu prosseguias:
"- E depois, como é sublime deitar-se o estudante no solitário
leito e ver-se acompanhado pela imagem da bela que lhe vela no pensamento,
ou despertar ao momento de ver-se em sonhos sorvendo-lhe nos lábios
voluptuosos beijos!
"Ainda estes argumentos me não convenciam suficientemente,
porque eu pensava: 1º. que essa imagem que vela no pensamento não
será a melhor companhia possível para um estudante, principalmente
quando ela lhe velasse na véspera de alguma sabatina; 2º.
porque eu sempre acho muito mais apreciável sorver os beijos voluptuosos
por entre os postigos de uma janela, do que sorvê-los em sonhos
e acordar com água na boca. Beijos por beijos antes os reais que
os sonhados.
"Além disto no teu sistema nunca se fala em empadas, doces,
petiscos, etc.; no meu eles aparecem e tu, apesar de romântico,
nunca viraste as costas nem fizeste má cara a esses despojos de
minhas batalhas.
"Mas enfim, maldita curiosidade de rapaz!... eu quis experimentar
o amor platônico, e dirigindo-me certa noite ao teatro S. Pedro
de Alcântara, disse entre mim: esta noite hei de entabular um namoro
romântico.
"Entabulei-o, Sr. Augusto de uma figa!... entabulei-o, e quer saber
como?... Saí fora do meu elemento e espichei-me completamente.
Estou em apuros.
"Eis o caso:
"Nessa noite fui para o superior; eu ia entabular um namoro romântico,
e não podia ser de outro modo. Para ser tudo à romântica,
consegui entrar antes de todos; fui o primeiro a sentar-me; ainda o lustre
monstro não estava aceso; vi-o descer e subir depois, brilhante
de luzes; vi se irem enchendo os camarotes; finalmente eu, que tinha estado
no vácuo, achei-me no mundo: o teatro estava cheio. Consultei com
meus botões como devia principiar e concluí que para portar-me
romanticamente deveria namorar alguma moça que estivesse na quarta
ordem. Levantei os olhos, vi uma que olhava para o meu lado, e então
pensei comigo mesmo: seja aquela!... Não sei se é bonita
ou feia, mas que importa? Um romântico não cura dessas futilidades.
Tirei, pois, da casaca o meu lenço branco, para fingir que enxugava
o suor, abanar-me e enfim fazer todas essas macaquices que eu ainda ignorava
que estavam condenadas pelo romantismo. Porém, ó infortúnio!...
quando de novo olhei para o camarote, a moça se tinha voltado completamente
para a tribuna; tossi, tomei tabaco, assoei-me, espirrei e a pequena...
nem caso; parecia que o negócio com ela não era. Começou
a ouverture... nada; levantou-se o pano, ela voltou os olhos para a cena,
sem olhar para o meu lado. Representou-se o primeiro ato... Tempo perdido.
Veio o pano finalmente abaixo.
"- Agora sim, começará o nosso telégrafo a trabalhar,
disse eu comigo mesmo, erguendo-me para tornar-me mais saliente.
"Porém, nova desgraça! Mal me tinha levantado, quando
a moça ergueu-se por sua vez e retirou-se para dentro do camarote,
sem dizer por quê, nem por que não .
"- Isto só pelo diabo!... exclamei eu involuntariamente, batendo
com o pé com toda a força.
"- O senhor está doido?! disse-me... gemendo e fazendo uma
careta horrível, o meu companheiro da esquerda.
"- Não tenho que lhe dar satisfações, respondi-lhe
amuado.
"- Tem, sim senhor, retorquiu-me o sujeito, empinando-se.
"- Pois que lhe fiz eu, então? acudi, alterando-me.
"- Acaba de pisar-me, com a maior força, no melhor calo do
meu pé direito.
"- Ó senhor... queira perdoar!...
" E dando mil desculpas ao homem, saí para fora do teatro,
pensando no meu amor.
"Confesso que deveria ter notado que a minha paixão começava
debaixo de maus auspícios, mas a minha má fortuna ou, melhor,
os teus maus conselhos me empurravam para diante com força de gigante.
"Sem pensar no que fazia, subi para os camarotes e fui dar comigo
no corredor da quarta ordem; passei junto do camarote de minhas atenções:
era o n.º 3 (número simbólico, cabalístico e
fatal! repara que em tudo segui o romantismo). A porta estava cerrada;
fui ao fim do corredor e voltei de novo: um pensamento esquisito e singular
acabava de me brilhar na mente, abracei-me com ele.
"Eu tinha visto junto à porta n.º 3 um moleque com todas
as aparências de ser belíssimo cravo-da-índia. Ora,
lembrava-me que nesse camarote a minha querida era a única que
se achava vestida de branco e, pois, eu podia muito bem mandar-lhe um
recado pelo qual me fizesse conhecido. E, pois, avancei para o moleque.
"Ah! maldito crioulo... estava-lhe o todo dizendo para o que servia!...
Pinta na tua imaginação, Augusto, um crioulinho de 16 anos,
todo vestido de branco, com uma cara mais negra e mais lustrosa do que
um botim envernizado, tendo dois olhos belos, grandes, vivíssimos
e cuja esclerótica era branca como o papel em que te escrevo, com
lábios grossos e de nácar, ocultando duas ordens de finos
e claros dentes, que fariam inveja a uma baiana; dá-lhe a ligeireza,
a inquietação e rapidez de movimento de um macaco e terás
feito idéia desse diabo de azeviche, que se chama Tobias.
"Não me foi preciso chamá-lo. Bastou um movimento de
olhos para que o Tobias viesse a mim, rindo-se desavergonhadamente. Levei-o
para um canto.
"- Tu pertences àquelas senhoras que estão no camarote,
a cuja porta te encostavas?... perguntei.
"- Sim, senhor, me respondeu ele, e elas moram na rua de... n.º...
ao lado esquerdo de quem vai para cima.
"- E quem são?...
"- São duas filhas de uma senhora viúva, que também
aí está, e que se chama a Ilma. Sra. D. Luísa. O
meu defunto senhor era negociante e o pai de minha senhora é padre.
"- Como se chama a senhora que está vestida de branco?
"- A Sra. D. Joana... tem 17 anos e morre por casar.
"- Quem te disse isso?...
"- Pelos olhos se conhece quem tem lombrigas, meu senhor!...
"- Como te chamas?
"- Tobias, escravo de meu senhor, crioulo de qualidades, fiel como
um cão e vivo como um gato.
"O maldito do crioulo era um clássico a falar português.
Eu continuei.
"- Hás de levar um recado à Sra. D. Joana.
"- Pronto, lesto e agudo, respondeu-me o moleque.
"- Pois toma sentido.
"- Não precisa dizer duas vezes.
"- Ouve. Das duas uma: ou poderás falar com ela hoje ou só
amanhã...
"- Hoje... agora mesmo. Nestas coisas Tobias não cochila:
com licença de meu senhor, eu cá sou doutor nisto; meus
parceiros me chamam orelha de cesto, pé de coelho e boca de taramela.
Vá dizendo o que quiser que em menos de dez minutos minha senhora
sabe tudo; o recado de meu senhor é uma carambola que, batendo
no meu ouvido, vai logo bater no da senhora D. Joaninha.
"- Pois dize-lhe que o moço que se sentar na última
cadeira da 4.ª coluna da superior, que assoar-se com um lenço
de seda verde, quando ela para ele olhar, se acha loucamente apaixonado
de sua beleza, etc.; etc.; etc.; etc.
"- Sim, senhor, eu já sei o que se diz nessas ocasiões:
o discurso fica por minha conta.
"- E amanhã, ao anoitecer, espera-me na porta de tua casa.
"- Pronto, lesto e agudo, repetiu de novo o crioulo.
"- Eu recompensar-te-ei, se fores fiel.
"- Mais pronto, mais lesto e mais agudo!
"- Por agora toma estes cobres.
"- Ó, meu senhor! prontíssimo, lestíssimo e
agudíssimo.
"Ignoro de que meios se serviu o Tobias para executar a sua comissão.
O que sei é que antes de começar o 2.º ato já
eu havia feito o sinal, e então comecei a pôr em ação
toda a mímica amantética que me lembrou: o namoro estava
entabulado; embora a moça não correspondesse aos sinais
do meu telégrafo, concedendo-me apenas amiudados e curiosos olhares,
isso era já muito para quem a via pela primeira vez.
"Finalmente, Sr. Augusto dos meus pecados, o negócio adiantou-se,
e hoje, tarde me arrependo e não sei como me livre de semelhante
entaladela, pois o Tobias não me sai da porta. Já não
tenho tempo de exercer o meu classismo; há três meses que
não como empadas e, apesar de minhas economias, ando sempre com
as algibeiras a tocar matinas. Para maior martírio a minha querida
é a Sra. D. Joana, prima de Filipe.
"Para compreenderes bem o quanto sofro, aqui te escrevo alguma das
principais exigências da minha amada romântica.
"1.º Devo passar por defronte de sua casa duas vezes de manhã
e duas de tarde. Aqui vês bem, principia a minha vergonha, pois
não há pela vizinhança gordurento caixeirinho que
se não ria nas minhas barbas quatro vezes por dia.
"2.º Devo escrever-lhe, pelo menos, quatro cartas por semana,
em papel bordado, de custo de 400rs. a folha. Ora, isto é detestável,
porque eu não sei onde vá buscar mais cruzados para comprar
papel, nem mais asneiras para lhe escrever.
"3.º Devo tratá-la por "minha linda prima"
e ela a mim por "querido primo". Daqui concluo que a Sra. D.
Joana leu o Faublas. Boa recomendação!...
"4.º Devo ir ao teatro sempre que ela for, o que sucede quatro
vezes no mês, o mesmo a respeito de bailes. Esta despesa arrasa-me
a mesada terrivelmente.
"5.º Ao teatro e bailes devo levar no pescoço um lenço
ou manta da cor da fita que ela porá em seu vestido ou no cabelo,
o que, com antecedência, me é participado. Isto é
um despotismo detestável!...
"Finalmente, ela quer governar os meus cabelos, as minhas barbas,
e cor dos meus lenços, a minha casaca, a minha bengala, os botins
que calço, e, por último, ordenou-me que não fumasse
charutos de Havana nem de Manilha, porque era isto falta de patriotismo.
"Para bem rematar o quadro das desgraças que me sobrevieram
com a tal paixão romântica que me aconselhaste, D. Joana,
dir-te-ei, mostra amar-me com extremo, e no meio de seus caprichos de
menina dá-me provas do mais constante e desvelado amor; mas que
importa isso, se eu não posso pagar-lhe com gratidão?...
Vocês, com seu romantismo a que me não posso acomodar, a
chamariam "pálida". Eu, que sou clássico em corpo
e alma e que, portanto, dou às coisas o seu verdadeiro nome, a
chamarei sempre "amarela".
"Malditos românticos, que têm crismado tudo e trocado
em seu crismar os nomes que melhor exprimem as idéias"!...
O que outrora se chamava em bom português, moça feia, os
reformadores dizem: menina simpática!... O que numa moça
era, antigamente, desenxabimento, hoje é ao contrário: sublime
languidez!... Já não há mais meninas importunas e
vaidosas... As que o foram chamam-se agora espirituosas!... A escola dos
românticos reformou tudo isso, em consideração ao
belo sexo.
"E eu, apesar dos tratos que dou à minha imaginação,
não posso deixar de convencer-me que a minha "linda prima"
é, aqui para nós, amarela e feia como uma convalescente
de febres perniciosas.
"O que, porém, se torna sobretudo insofrível é
o despotismo que exerce sobre mim o brejeiro do Tobias...
"Entende que todos os dias lhe devo dar dinheiro e persegue-me de
maneira tal que, para ver-me livre dele, escorrego-lhe, cum quibus, a
despeito da minha má vontade.
"O Tobias está no caso de muitos que, grandes e excelentes
parladores, são péssimos financeiros na prática.
Como eles fazem ao país, faz Tobias comigo, que sempre depois de
longo discurso me apresenta um déficit e pede-me um crédito
suplementar.
"Eis aqui, meu Augusto, o lamentável estado em que me acho.
Lembra-te que foram os teus conselhos que me obrigaram a experimentar
uma paixão romântica; portanto, não só por
amizade, como por dever, conto que me ajudarás no que te vou propor.
"Eu preciso de um pretexto mais ou menos razoável para descartar-me
da tal "pálida".
"Ela vai passar conosco dois dias na ilha de... Aí podemos
levar a efeito, e com facilidade, o meu plano: ele é de simples
compreensão e de fácil execução.
"Tu deverás reqüestar, principalmente, à minha
vista, a tal minha querida. Ainda que ela não te corresponda, persegue-a.
Não te custará muito isso, pois que é o teu costume.
Nisto se limita o teu trabalho, e começará então
o meu, que é mais importante.
"Ver-me-ás enfadado, talvez que te trate com rispidez e que
te dirija alguma graça pesada, não farás caso e continuarás
com a reqüesta para diante.
"Eu então irei às nuvens... Desesperado, ciumento e
delirante, aproveitarei o primeiro instante em que estiver a sós
com D. Joaninha, farei um discurso forte e eloqüente contra a inconstância
e volubilidade das mulheres. E no meio de meus transportes dou-me por
despeitado de meus amores com ela e, pulando fora da tal paixão
romântica, correrei a apertar-te contra meu peito, como teu amigo
e colega de coração - Fabrício."
- E esta!... exclamou Augusto, depondo a carta sobre a mesa e sorvendo
uma boa pitada de rapé de Lisboa. E esta!...
Acabando de sorver a pitada, o nosso estudante desatou a rir como um doido.
Rir-se-ia a noite inteira, talvez, se não fosse interrompido pelo
Rafael, que o vinha chamar para tomar chá.
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