A MORENINHA
Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XIX
Entremos nos Corações
O que é bom
dura pouco. As festas estão acabadas; nossas belas conhecidas bordam;
nossos alegres estudantes estão de livro na mão. Mas, pelo
que toca a estes, qual é, digam-me, qual é o estudante que,
depois de uma patuscada de tom, não fica por oito dias incapaz
de compreender a mais insignificante lição? Isto sucede
assim; essa pobre gente vê, por toda a parte, e misturando-se com
todos os pensamentos, no livro em que estuda, nas estampas que observa,
na dissertação que escreve, o baile, as moças e os
prazeres que apreciou.
O nosso Augusto, por exemplo, está agora bronco para as lições
e impertinente com tudo. Rafael é quem paga o pato; se o inocente
moleque lhe apronta o chá muito cedo, apanha meia dúzia
de bolos, porque quer ir vadiar pelas ruas; se no dia seguinte se demora
só dez minutos, leva dois pescoções, para andar mais
ligeiro. Não há, enfim, cousa alguma que possa contentar
o Sr. Augusto; está aborrecido da Medicina, tem feito duas gazetas
na aula; de ministerial que era, passou-se para a oposição;
não quer mais ser assinante de periódicos, não há
para seus olhos lugar nenhum bonito no mundo; aborrece a Corte, detesta
a roça e só gosta das ilhas.
Deveremos fazer-lhe uma visita; ele está em seu gabinete e um pouco
menos carrancudo, porque Leopoldo, o seu amigo do coração,
o acompanha e tem a paciência de lhe estar ouvindo, pela duodécima
vez, a narração do que com ele se passou na ilha de...
Segundo parece, Augusto acaba de relatar o que ocorreu na gruta, entre
ele e a bela Moreninha, porque Leopoldo lhe perguntou:
- E por onde fugiria ela?...
- Por uma difícil saída que eu não havia observado,
respondeu Augusto, e que exatamente se praticava no fundo da gruta.
- Que diabinho de menina!
- Quanto mais se tu notasses a graça e malícia com que ela,
quando eu entrei na sala, me perguntou sossegadamente: "Esteve dormindo
na gruta, Sr. Augusto?..."
- Então ela gostou da tua semideclaração?!...
- Não... não... se ela tivesse gostado, não me fugiria.
- Ora, é boa! não devia fazer outra coisa.
- Se ela gostasse de mim!... mas, por que me não deu um só
sinal de ternura?... Também eu, às vezes, tão adiantado,
fui desta um tolo, um basbaque! tremi diante de uma criança que
não tem quinze anos e não soube dizer duas palavras.
- Estás doido, Augusto, e doido varrido; acredita que D. Carolina
foi mais sensível aos teus cumprimentos que aos de nenhum outro,
e se não, dize por que se não deixou ela dormir, como as
outras senhoras, e foi à hora de tua partida passear pela praia
e ver-te embarcar?... Por que ficou ali passeando até desaparecer
o teu batelão?...
- Isto não significa nada.
- Ora, ature-se um namorado!... mas venha cá, Sr. Augusto, então
como é isso?... estamos realmente apaixonados?!
- Quem te disse semelhante asneira?...
- Há três dias que não falas senão na irmã
de Filipe e...
- Ora, viva! quero divertir-me... digo-te que a acho feia, não
é lá essas coisas; parece ter mau gênio. Realmente
notei-lhe muitos defeitos... sim... mas, às vezes... Olha, Leopoldo,
quando ela fala ou mesmo quando está calada, ainda melhor; quando
ela dança ou mesmo quando está sentada... ah! ela rindo-se...
e até mesmo séria... quando ela canta ou toca ou brinca
ou corre, com os cabelos à négligé, ou divididos
em belas tranças; quando... Para que dizer mais? Sempre, Leopoldo,
sempre ela é bela, formosa, encantadora, angélica!
- Então, que história é essa? Acabas divinizando
a mesma pessoa que, principiando, chamaste feia?...
- Pois eu disse que ela era feia? É verdade que eu... no princípio...
Mas depois... Ora! estou com dores de cabeça, este maldito Velpeau!...
Que lição temos amanhã?
- Tratar-se-á das apresentações de...
- Temos maçada! Quem te perguntou por isso agora? Falemos de D.
Carolina, do baile, do...
- Eis aí outra! Não acabaste de perguntar-me qual era a
lição de amanhã?
- Eu? Pode ser... Esta minha cabeça!...
- Não é a tua cabeça, Augusto, é o teu coração.
Houve um momento de silêncio. Augusto abriu um livro e fechou-o
logo; depois tomou rapé, passeou pelo quarto duas ou três
vezes e, finalmente, veio de novo sentar-se junto de Leopoldo.
- É verdade, disse; não é a minha cabeça:
a causa está no coração. Leopoldo, tenho tido pejo
de te confessar, porém não posso mais esconder estes sentimentos
que eu penso que são segredos e que todo o mundo mos lê nos
olhos! Leopoldo, aquela menina que aborreci no primeiro instante, que
julguei insuportável e logo depois espirituosa, que daí
a algumas horas comecei a achar bonita, no curto trato de um dia, ou melhor
ainda, em alguns minutos de uma cena de amor e piedade, em que a vi de
joelhos banhando os pés de sua ama, plantou no meu coração
um domínio forte, um sentimento filho da admiração,
talvez, mas sentimento que é novo para mim, que não sei
como o chame, porque o amor é um nome muito frio para que o pudesse
exprimir!... Eu a mim não conheço... não sei onde
irá isto parar... Eu amo! ardo! morro!
- Modera-te, Augusto, acalma-te, não é graça; olha
que estás vermelho como um pimentão.
- Oh! tudo naquela ilha fatal se assanhou para enfeitiçar-me, tudo,
até a própria mentira.
- E tu acreditaste muito nessa senhora?...
- Escuta, Leopoldo: uma vez que com a avó de Filipe conversava
na gruta, eu fatigado e sequioso, bebi um copo d'água da fonte
do rochedo; então, a nossa boa hóspeda contou-me uma fabulosa
e singular tradição daquela fonte. A água dizia-se
milagrosa e quem bebesse dela não sairia da ilha sem amar algum
de seus habitantes. Eis aqui, pois, uma mentira, mas uma mentira que excitou
a minha imaginação; uma mentira que me perseguiu lá
dois dias e que me persegue ainda hoje; uma mentira, enfim, que se transformou
em verdade, porque eu bebi daquela água e não pude deixar
a ilha sem amar, e muito, um de seus habitantes...
- Deveras que isso não deixa de ser interessante. Mas que efeito
esperas tu que provenha de toda essa moxinifada?
- Que efeito?... O... amor...
- Amor?... Amor não é efeito, nem causa, nem princípio,
nem fim, e é tudo, tudo isso ao mesmo tempo; é uma coisa
que... sim... finalmente, para encurtar razões, amor é o
diabo... Dize-me, pois, sinceramente falando, qual o resultado que pensas
tirar de tudo isso que me contaste.
- Que resultado?... O... amor...
- E ele a dar-me com o maldito amor! Augusto, falemos sério; essa
tua exaltação estava muito em ordem num moço que
quisesse desposar D. Carolina; porém tu nem cuidas em casamento
nem, se tal pensasses, te lembrarias, roceiro como és, de escolher
para mulher uma menina que foi criada, educada e pode-se dizer que mora
na Corte.
- Esta agora não é má!... Deveras que ainda não
me passou pela mente a idéia do casamento, nem chegará a
tal ponto minha loucura; mas suponhamos o contrário disto: que
mal tu achas em que um roceiro se case com uma moça da cidade?...
- Que mal?... Ora, escuta: devendo ir morar na roça, a moça
tem, necessariamente, de mudar de costumes e de vida; compreende, pois,
quanto atormentará o coração do pobre marido à
vista dos dissabores e contrariedades que sofrerá na solidão
e monotonia campestre a senhora amamentada no seio dos prazeres e festins
da Corte!... quanto devem entristecer os suspiros e saudades de que serás
testemunha, quando a amada companheira recordar-se de sua família,
de suas amigas, do teatro, do passeio, dessa cadeia de delícias,
enfim, que, a pesar dela a ligará ainda a seu passado!...
- Oh! não, não, Leopoldo, se o marido for amado por ela!...
Quando se ama deveras e se está com o objeto do amor, não
se recorda, não se deseja, não se quer mais nada!...
- Tu falas em amor, Augusto?... Ainda bem que somos ambos estudantes da
roça e posso dizer-te agora o que entendo, sem medo de ofender
a susceptibilidade de cortesão algum. Pois ainda não observaste
que o verdadeiro amor não se dá muito com os ares da cidade?...
que por natureza e hábito, as nossas roceiras são mais constantes
que as cidadoas?... Olha, aqui encontramos nas moças mais espírito,
mais jovialidade, graça e prendas, porém, nelas não
acharemos nem mais beleza, nem tanta constância. Estudemos as duas
vidas. A moça da Corte cresce e vive comovida sempre por sensações
novas e brilhantes, por objetos que se multiplicam e se renovam a todo
o momento, por prazeres e distrações que se precipitam;
ainda contra a vontade, tudo a obriga a ser volúvel: se chega à
janela um instante só, que variedade de sensações!
seus olhos têm de saltar da carruagem para o cavaleiro, da senhora
que passa para o menino que brinca, do séquito do casamento para
o acompanhamento do enterro! Sua alma tem de sentir ao mesmo tempo o grito
de dor e a risada de prazer, os lamentos, os brados de alegria e o ruído
do povo; depois, tem o baile com sua atmosfera de lisonjas e mentiras,
onde ela se acostuma a fingir o que não sente, a ouvir frases de
amor a todas as horas, a mudar de galanteador em cada contradança.
Depois, tem o teatro, onde cem óculos fitos em seu rosto parecem
estar dizendo - és bela! e assim enchendo-a de orgulho e muitas
vezes de vaidade; finalmente, ela se faz por força e por costume
tão inconstante como a sociedade em que vive, tão mudável
como a moda dos vestidos. Queres agora ver o que se passa com a moça
da roça?...
Ali ela está na solidão de seus campos, talvez menos alegre,
porém, certamente, mais livre; sua alma é todos os dias
tocada dos mesmos objetos; ao romper d'alva, é sempre e só
aurora que bruxuleia no horizonte; durante o dia, são sempre os
mesmos prados, os mesmos bosques e árvores; de tarde, sempre o
mesmo gado que se vem recolhendo ao curral; à noite, sempre a mesma
lua que prateia seus raios na lisa superfície do lago. Assim, ela
se acostuma a ver e amar um único objeto; seu espírito,
quando concebe uma idéia, não a deixa mais, abraça-a,
anima-a, vive eterno com ela; sua alma, quando chega a amar, é
para nunca mais esquecer, é para viver e morrer por aquele que
ama. Isto é assim, Augusto; considera que é lá em
nosso campos que mais brilham esses sentimentos, que são a mesma
vida e que não podem acabar senão com ela!...
- Como estás exagerado, Leopoldo! juraria que desejas casar com
alguma moça da roça!
- Oh!... se esse desejo me dominar, certamente que o satisfarei com uma
das muitas cachopinhas de minha terra.
- Eu logo vi que nos teus raciocínios e observações
andava o gênio da prevenção; escuso-me, porém,
de responder-te, pois que falaste em geral e desse modo concedes...
- Que há muitas exceções, sem dúvida?
- Bom! quando não, tu me forçarias a tomar a palavra para
defender a linda Moreninha, que tanto me cativa?
- Então, Augusto, teremos, porventura, um romance?
- Que romance?
- Perderás a aposta e ao completar-se o mês...
- Daqui até lá... se eu pudesse esquecê-la!... mas
aquela menina não é como as outras: é uma tentação...
um diabinho...
- Quando, pois, começas a escrever?
- Estás tolo... respondeu Augusto, tomando por um momento seu antigo
bom humor; eu ainda pretendo nestes quinze dias mudar de amor três
vezes.
Basta, porém, de estudantes. Já temos ouvido bastante o
nosso Augusto e demorar-nos mais tempo em seu gabinete fora querer escutar
ainda as mesmas coisas: porque o tal mocinho, que quer campar de beija-flor,
parece que caiu no visco dos olhos e graças da jovem beleza da
ilha de... e está sinceramente enamorado dela; ora, todos sabem
que os amantes têm um prazer indizível em matrequear os ouvidos
dos que os atendem com uma história muito comprida e mil vezes
repetida que, reduzindo-se à expressão mais simples, ficaria
em zero ou, quando muito, nos seguintes termos: "eu olhei e ela olhou;
eu lhe disse - pode ser, não pode ser". Deixemos, portanto,
o senhor Augusto entregue a seus cuidados de moço, e tanto mais
que já conhecemos o estado em que se acha. Vamos agora entrar no
coraçãozinho de um ente bem amável, que não
tem, como aquele, uma pessoa a quem confie suas penas, e por isso sofre
talvez mais. Faremos uma visita à nossa linda Moreninha.
Também suas modificações têm aparecido no caráter
de D. Carolina, depois dos festejos de Sant'Ana. Antes deles, era essa
interessante jovenzinha o prazer da ilha de... Irreconciliável
inimiga da tristeza, ela ignorava o que era estar melancólica dez
minutos e praticava o despotismo de não consentir que alguém
o estivesse; junto dela, por força ou vontade, tudo tinha que respirar
alegria; sabia tirar partido de todas as circunstâncias para fazer
rir, e, boa, afável e carinhosa para com todos, amoldava os corações
à sua vontade; o ídolo, o delírio de quantos a praticavam,
era ela a vida daquele lugar e empunhava com as suas graças o cetro
do prazer. Hoje suas maneiras são outras; e, enquanto suas músicas
se empoeiram, seu piano passa dias inteiros fechado, suas bonecas não
mudam de vestido, ela vaga solitária pela praia, perdendo seus
belos olhares na vastidão do mar, ou, sentada no banco de relva
da gruta, descansa a cabeça em sua mão e pensa... Em quê?...
quais serão os solitários pensamentos de uma menina de menos
de quinze anos?... E às vezes suspira... um suspiro?... Eis o que
é já um pouco explicativo.
Assim como o grito tem o eco, a flor o aroma e a dor o gemido, tem o amor
o suspiro; ah! o amor é demoninho que não pede para entrar
no coração da gente e, hóspede quase sempre importuno,
por pior trato que se lhe dê, não desconfia, não se
despede, vai-se colocando e deixando ficar, sem vergonha nenhuma, faz-se
dono da casa alheia, toma conta de todas as ações, leva
o seu domínio muito cedo aos olhos, e às vezes dá
tais saltos no coração, que chega a ir encarapitar-se no
juízo; e então, adeus minhas encomendas!...
Pois muito bem, parece que a tal tentação anda fazendo pelóticas
no peito da nossa cara menina; também não há moléstia
de mais fácil diagnóstico. Uma mocinha que não tem
cuidados, com quem a mamãe não é impertinente, que
não sabe dizer onde lhe dói, que não quer que se
chame médico, que suspira sem ter flatos, que não vê
o que olha, que acha todo o guisado mal temperado, é porque já
ama; portanto, D. Carolina ama, mas... a quem?!...
Ah! Sr. Augusto! Sr. Augusto! a culpa é toda sua, sem dúvida.
Esta bela menina, acostumada desde as faixas a exercer um poder absoluto
sobre todos os que a cercam, não pôde ouvir o estudante vangloriar-se
de não ter encontrado ainda uma mulher que o cativasse deveras,
sem sentir o mais vivo desejo de reduzi-lo a obediente escravo de seus
caprichos; ela pôs então em ação todo o poder
de suas graças, ideou mesmo um plano de ataque, estudou a natureza
e os fracos do inimigo; observou; bateu-se: o combate foi fatal a ambos,
talvez, e no fim dele a orgulhosa guerreira apalpou o seu coração
e sentiu que nele havia penetrado um dardo; consultou a sua consciência
e ouviu que ela respondia; se venceste também estás vencida!
Com efeito, D. Carolina ama o feliz estudante, e uma mistura de saudades
e de temor da inconstância do seu amado é provavelmente a
causa de sua tristeza; ajunte-se a isto a novidade e os cuidados de um
amor nascente e primeiro, o incômodo de um sentimento novo, inexplicável,
que lhe enchia o inocente coração e ver-se-á que
ela tem suas razões para andar melancólica.
E, portanto, toda a família está assaltada do mesmo mal;
há na ilha uma epidemia de mau humor que tem chegado a todos, desde
a Sra. D. Ana até à última escrava. Além de
quanto se acaba de expor, acresce que Filipe se deixou ficar na cidade
a semana inteira, sem querer dispensar uma só tarde para vir visitar
sua querida avó e a tão bonita maninha.
Eis, porém, o que se chama acusação injusta. Diz
o ditado que: - falai no mau, aprontai o pau! Filipe estava esperando
pelo dia de sábado para aproveitar o domingo todo no seio de sua
família; ei-lo aí que recebe a bênção
de sua avó e beija a fronte de sua irmã.
- Pensei, disse aquela, que não queria mais ver-nos!
- E quase que deixei a viagem para amanhã, minha boa avó.
- O ingrato ainda o diz... ouves, Carolina?... Então por quê?...
- Para vir na companhia de Augusto, que deve passar o dia conosco.
Estas palavras tiveram poder elétrico; D. Carolina, para ocultar
a perturbação que a agitava, correu a esconder-se em seu
quarto.
Lá, bem às escondidas, ela derramou uma lágrima:
doce lágrima... era de prazer.
Capítulo XX
Primeiro Domingo:
Ele Marca
Augusto madrugou,
e muito; quando a aurora começou a aparecer, já ele havia
vencido meia viagem e seu desejo era ir acordar na ilha de..., uma pessoa
que tinha o mau costume de dormir até alto dia; por isso instava
com os seus remeiros para que forcejassem; e, enquanto seu batelão
se deslizava pelas águas, rápido como uma flecha pelos ares,
ele o acusava de pesado, de vagoroso; tinha há muito descoberto
a ilha de... e; os objetos foram pouco a pouco se tornando mais e mais
distintos; viu a casa, viu o rochedo em que outrora a tamoia deveria ter
cantado seus amores e de sobre o qual cantara, há oito dias, D.
Carolina a sua balada; depois distinguiu sobre esse rochedo negro um ponto,
um objeto branco, que foi crescendo, sempre crescendo, que enfim lhe pareceu
uma figura de mulher, que ostentava a alvura de seus vestidos. Depois
ele tinha desviado um pouco os olhos; quando os voltou de novo para o
rochedo, a figura branca havia desaparecido como um sonho.
Enfim o batelão abordou a ilha de...; Augusto correu a casa de
que tantas saudades sofrera; todos já se tinham levantado; ninguém
dormia, D. Carolina estava vestida de branco.
- Eu lhe agradeço bem, Sr. Augusto, disse a Sra. D. Ana, depois
dos primeiros cumprimentos; eu lhe agradeço a sua boa visita; nós
temos passado oito dias de nojo, e foi preciso que Filipe nos trouxesse
a notícia de sua vinda, para reviver nossa antiga alegria; Carolina,
por exemplo, desde ontem à noite já tem estado sofrivelmente
travessa.
- Eu, minha avó, sempre tive fama de desinquieta e prazenteira;
e se ontem me adiantei, foi porque chegou-me um companheiro para traquinar
comigo.
- Não o negues, menina; tens estado melancólica e abatida
toda esta semana; eram saudades da agradável companhia que tivemos.
Que eram saudades conheci eu pelos suspiros que soltavas e também
não vai mal nenhum em confessá-lo.
D. Carolina voltou o rosto. Augusto arregalou os olhos e sentiu que a
ventura lhe inundava o coração.
- O mesmo por lá nos sucedeu, disse Filipe tomando a palavra; estivemos
todos carrancudos e, seja dito em amor da verdade, Augusto, mais do que
nenhum outro, gostou de nosso trato e nossa companhia; realmente foi ele
que o mostrou sofrer maiores saudades.
- É verdade, Sr. Augusto? perguntou a boa hóspeda.
- Minha senhora, a visita que vim ter o gosto de fazer é a melhor
resposta que lhe posso dar.
D. Carolina tinha os olhos em um livro de música, mas seus ouvidos
e sua atenção pendiam dos lábios de Augusto; ouvindo
as últimas palavras do estudante, ela sorriu brandamente.
- De que estás rindo, Carolina? perguntou Filipe.
- De um engraçado pedacinho da cavatina do Fígaro, no Barbeiro
de Sevilla.
Então ele examinou o livro e viu que havia mentido, porque o que
tinha diante de seus olhos era uma coleção de modinhas do
Laforge.
Duas horas depois serviu-se o almoço. Mas, durante essas duas horas,
que se passaram muito depressa, Augusto teve de agradecer as obsequiosas
atenções da avó de Filipe, que dizia ter por ele
notável predileção, e também de reparar com
esmero e minuciosidade no objeto de seus recentes cultos. Em resultado
de suas observações concluiu que D. Carolina estava bonita
como dantes, porém, mais lânguida; que às vezes reparava
suas indiscrições e que outras, quando mais parecia ocupar-se
com seus alegres trabalhos, olhava-o furto, com uma certa expressão
de receio, pejo e ardor, que a embelecia ainda mais.
Durante o almoço a conversação divagou sobre inúmeros
objetos; finalmente teve de ir bulir com um pobre lencinho que estava
na mão de D. Carolina, e que, se aí não estivesse,
passaria desapercebido.
- Eu julgo que ele está trabalhoso e perfeitamente marcado, disse
Augusto.
- É ir muito longe, respondeu a menina; aí o tem, observe-o
de mais perto; repare que barafunda vai por aqui.
- Ora, eu acho tudo o melhor possível; ao muito, poder-se-ia dizer
que este X foi marcado por mão de moça travessa.
- Quer dizer que foi pela minha? Adivinhou.
- Tem uma bela prenda, minha senhora.
- Que é muito comum.
- E nem por isso merece menos.
- Eu não entendo assim; aprecio bem pouco o que todo o mundo pode
ter. Quem não sabe marcar?
- Eu, minha senhora.
- É porque não quer.
- É porque não posso; eu não me poderia haver com
uma agulha na mão.
- Um dia de paciência lhe seria suficiente.
- Querem ver, acudiu Filipe, que minha maninha reduz Augusto a aprender
a marcar!
- Então, seria isso alguma asneira?
- Não, por certo; maninha pode mesmo dar-te algumas lições.
- Nada, respondeu a menina; sou muito raivosa e à primeira linha
que ele rebentasse, eu o chamaria a bolos.
- Se é uma condição que oferece, eu a aceito, minha
senhora; ensine-me com palmatória.
- Veja o que diz!...
- Repito-o.
- Pois bem; palmatória não, porque, enfim, podia doer-lhe
muito; mas de cada vez que eu julgar necessário, dar-lhe-ei um
puxão de orelha.
- Menina! disse a Sra. D. Ana.
- Mas, minha avó, eu não estou pedindo a ele que venha aprender
comigo.
- Porém podes ensinar-lhe com bons modos.
- É o que pretendo fazer.
- Ele há de aproveitar muito.
- Terá os meus elogios.
- E se por acaso errar alguma vez?
- Levará um puxão de orelha.
- Se me é permitido, disse Augusto, aceito as condições.
- Pois bem, respondeu D. Carolina, está o senhor matriculado na
minha aula de marcar e daqui a uma hora principiaremos a nossa lição.
- E então ele não passeia comigo? perguntou Filipe.
- Depois da lição, respondeu a mestra, fazendo-se de grave;
antes, não lhe dou licença.
Levantaram-se da mesa; algum tempo foi destinado a descansar; Filipe desafiou
Augusto para uma partida de gamão e incontinenti foram travar combate
na varanda; Filipe derrotou seu competidor em três jogos consecutivos;
estavam no começo do quarto, quando tocou uma campainha; os dois
estudantes não deram atenção a isso e continuaram:
o jogo tornou-se duvidoso; qualquer dos dois podia dar ou levar gamão;
Augusto acabava de lançar uns dois e ás, que desconcertaram
seu antagonista, quando D. Carolina apareceu e, dirigindo-se ao seu discípulo,
disse com engraçada seriedade:
- O senhor não ouviu tocar a campainha?
- Então isso era comigo?
- Sim, senhor, são horas de lição, e espero que para
outra vez não me seja preciso chamá-lo.
- Aceito a admoestação, minha bela mestra, mas rogo-lhe
o obséquio de consentir que termine esta partida.
- Não, senhor.
- É uma mão de honra!
- Pior está essa!
- Ora, é boa! acudiu Filipe; então quer você...
- Não tenho a dizer-lhes o que quero, nem o que não quero;
são horas de lição, vamos.
- E é preciso obedecer, concluiu Augusto, levantando-se.
Daí a pouco estava tudo em via de regra; Augusto, sentado em uma
banquinha aos pés de sua bela mestra, escutava, com os olhos fitos
no rosto dela, as explicações necessárias. Às
vezes D. Carolina não podia conservar imperturbável sua
afetada gravidade e então os sorrisos da bela mestra e do aprendiz
graciosamente se trocavam; ela se mostrava mais pacífica e ele
menos atento do que haviam prometido, porque era já pela quarta
vez que a bela mestra recomeçava suas explicações
e o aprendiz cada vez a entendia menos.
Filipe apareceu na sala, pronto para ir caçar, e convidou o seu
amigo para com ele partilhar do mesmo prazer. Todo o mundo adivinha que
Augusto disse que não; ele poderia responder que não queria
caçar, porque estava pescando, mas contentou-se com dizer:
- Minha bela mestra não dá licença.
- Tome cuidado no modo de pegar nessa agulha!... gritou ela com mau modo
e sem se importar com Filipe.
- Está bem, disse este, saindo; eu não os posso aturar.
E depois acrescentou, sorrindo-se:
- Fique-se aí, Sr. Hércules, aos pés da sua bela
Onfale!
- Ouviu o que ele disse? perguntou Augusto.
- Já lhe tenho repetido três vezes que não é
assim que se pega na agulha.
- Ora, minha senhora...
- Ora, minha senhora!... ora, minha senhora! eu não sou sua senhora,
sou sua mestra.
- Minha bela mestra!
- Digo-lhe que já me vai faltando a paciência. O senhor não
atenta no que faz!... já tem quatro vezes rebentado a linha e é
a décima segunda que lhe cai o dedal.
- Não se exaspere, minha bela mestra, eu o vou apanhar e não
cairá mais nunca.
Augusto curvou-se e ficou quase de joelhos diante de D. Carolina; ora,
o dedal estava bem junto dos pés dela e o aprendiz, ao apanhá-lo,
tocou, ninguém sabe se de propósito, com seus dedos em um
daqueles delicados pezinhos; esse contato fez mal; a menina estremeceu
toda. Augusto olhou-a admirado, os olhos de ambos se encontram e os olhos
de ambos tinham fogo. Um momento se passou; o sossego se restabeleceu.
- Já não posso mais! exclamou a bela mestra; rebentou o
senhor pela quinta vez a linha; não dá um ponto que preste;
não há outro remédio...
E, dizendo isto, lançou uma das mãos à orelha do
aprendiz, que de súbito deu um grito e acudiu com as suas. Ora,
essas mãos se encontraram, debateram-se, e nesse ensejo os dedos
da bela mestra foram docemente apertados pela mão do aprendiz.
Novo fogo de olhares! que aproveitável lição!...
- Menina, tenha modos!... o Sr. Augusto não é criança,
exclamou a Sra. D. Ana, que a dez passos cosia, e que só podia
ver a exterioridade do que se passava entre a bela mestra e o aprendiz.
A lição se prolongou até ao meio-dia e mais de mil
vezes se repetiu a mesma cena do encontro das mãos; D. Carolina
não conseguiu puxar uma só vez a orelha do estudante e o
aprendiz não perdeu uma só ocasião de apertar os
dedos da mestra. Augusto se comprometeu a apresentar na primeira lição
um nome marcado pela sua mão. Tudo foi às mil maravilhas.
O resto do dia se passou como se havia passado o seu princípio
para Augusto e D. Carolina.
Eles não se chamaram mais por seus nomes próprios; o amor
lhes tinha ensinado outros; eram: "meu aprendiz", e "minha
bela mestra".
A madrugada seguinte foi triste, porque presidiu às despedidas
do aprendiz e sua bela mestra, mas ainda foi bem doce, porque ambos meigamente
se disseram:
- Até domingo!
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