A MORENINHA
Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo
XVII
Foram Buscar Lã
e Saíram
Tosquiadas
Se houve alguém
que quisesse servir a D. Quinquina ou se foi ela mesma quem pôs
a carta anônima no bolso da jaqueta de Augusto, é coisa que
pouco interesse dá; o certo é que o estudante, indo tirar
o lenço para assoar-se, achou o interessante escritinho; então
correu logo para um lugar solitário, e só depois de devorar
o convite sem assinatura foi que lembrou-se que ainda não se havia
assoado e que o pingo estava cai não cai na ponta do nariz; enfim,
ainda com o lenço acudiu a tempo, e depois entendeu que, para melhor
decidir o que lhe cumpria fazer naquela conjuntura, deveria avivar o cérebro,
sorvendo uma boa pitada de rapé. Portanto, lançou a mão
ao segundo bolso de sua jaqueta, e eis que lhe sai com a caixa do bom
Princesa um outro escritinho como o primeiro.
- Bravo! exclamou o nosso estudante; temíveis mãozinhas
seriam estas, se se dessem ao exercício não de encher, mas
de vazar as algibeiras da gente.
E sem mais dizer, abriu e leu o escrito.
"Senhor: - Uma moça, que nem é bonita nem namorada,
mas que quer interessar-se por vós, entende dever prevenir-vos
que no banco de relva da gruta não achareis ao amanhecer uma incógnita,
porém sim conhecidas, que pretendem zombar de vós, porque
esta mesma noite jurastes amar a cada uma delas em particular. Não
procureis adivinhar quem vos escreve, porque, apesar de ser vossa amiga,
serei por agora - Uma incógnita"
- Muito bonito! muito bonito!... disse Augusto beijando o bilhete; estou
exatamente representando um papel de romance! mas quem sabe se ainda acharei
mais cartas?...
E nisto pensando, foi correndo um por um todos os bolsos dos seus vestidos,
sem esquecer o do relógio, e até passou os dedos por sua
basta cabeleira, presumindo que talvez introduzissem algum no enorme canudo
de cabelo que lhe escondia as orelhas.
Porém, nada mais havia; também duas cartas tão curiosas
já eram de sobra em uma só noite.
O estudante pensou no conteúdo de ambas e ainda reflexionava se
lhe cumpria fugir ou aceitar um certame com quatro moças, que ele
adivinha quais eram, quando a primeira rosa da aurora se desabriu no horizonte.
Augusto correu para a gruta encantada.
Chegando ao pé, foi de mansinho se aproximando, sentiu o rumor
e ouviu que alguém dizia em tom baixo:
- Oh! se ele vier!
- Ei-lo aqui, minhas belas senhoras, exclamou o estudante, que entendeu
não lhes dever nunca dar tempo a tomar a ofensiva; eis-me aqui!...
As moças, que estavam todas sentadinhas no banco de relva, como
quatro pombas-rolas enfiladas no mesmo galho, ergueram-se sobressaltadas
ao ver entrar inopinadamente o estudante; era isso mesmo o que ele queria,
pois continuou:
- As senhoras vêem que acudi de pronto ao honroso convite e que
me entusiasmo vendo quatro auroras, em lugar de uma só! Belo amanhecer
é este, sem dúvida... mas, exposto ao fogo abrasador de
oito olhos brilhantes... eu me sinto arder... juro que tenho sede... Eis
ali uma fonte... Mas, meu Deus, é a fonte encantada que descobre
os segredos de quem está conosco!... Bem! bem! melhor... uma gota
desta linfa de fadas!...
- O que é que ele está dizendo, mana? exclamou D. Quinquina,
apontando para Augusto, que tinha entre os lábios o copo de prata.
- É preciso decidir-nos a começar, disse D. Gabriela.
- Principie você, disse D. Joaninha.
- Eu não, comece você...
- Eu não, que sou a mais moça...
Então o estudante, que tinha acabado de esgotar o seu copo d'água,
voltou-se para elas, e dando a seu rosto uma expressão animada
e às suas palavras estudado acento:
- Começo eu, minhas senhoras, disse, e começo por dizer-vos
que aquela fonte é realmente encantada; sim, eu tenho, à
mercê de sua água, adivinhado belos segredos: escutai vós...
Perdoai e consenti que vos trate assim, enquanto vos falar inspirado por
um poder sobrenatural. Vós viestes aqui para maltratar-me e zombar
de mim, por haver amado a todas vós numa só noite; que ingratidão!...
eu vos poderia perguntar como o poeta:
Assim se paga a um coração amante?!
- Mas, desgraçadamente, a fada que preside àquela fonte,
quer mais alguma coisa ainda e me dá uma cruel missão! ordena-me
que eu diga a cada uma de vós, em particular, algum segredo do
fundo de vossos corações, para melhor provar os seus encantamentos.
Pois bem, é preciso obedecer; qual de vós quer ser a primeira?...
Eu não ouso falar alto, porque pelo jardim talvez estejam passeando
alguns profanos. Qual de vós quer ser a primeira?...
Nenhuma se moveu.
- Será preciso que eu escolha? continuou o tagarela. Escolherei...
Iluminai-me, boa fada! Quem será?... Será... a... Sra. D.
Gabriela.
- Eu?! respondeu a menina, recuando.
- A senhora mesma, disse Augusto, trazendo-a pela mão para junto
da fonte; vinde, senhora, para bem perto do lugar encantado; agora silêncio...
ouvi.
- Ele está mangando conosco, murmurou D. Clementina.
Augusto já estava falando em voz baixa a D. Gabriela.
- Vós, senhora, ainda não amastes a pessoa alguma; para
vós amor não existe: é um sonho apenas; só
olhais como real a galanteria; vós quereis zombar de mim, porque
vos protestei os mesmos sentimentos que havia protestado a mais três
companheiras vossas e, todavia, estais incursa em igual delito, pois só
por cartas vos correspondeis com cinco mancebos.
- Senhor!...
- Oh! não vos impacienteis; quereis provas?... Há quatro
dias, uma vendedeira de empadas, que se encarrega de vossas cartas, enganou-se
na entrega de duas; trocou-as e deu, se bem me lembra a fada, a de lacre
azul ao Sr. Juca e a de lacre verde ao Sr. Joãozinho.
- Ora... ora, senhor! quem lhe contou essas invenções?
- A fada! e fez mais ainda. Vós não achareis em vosso álbum
o escrito desesperado do Sr. Joãozinho, que vos foi entregue no
momento de vossa partida para esta ilha; sou eu que o tenho, a fada mo
deu há pouco com sua mão invisível.
- Impossível! balbuciou D. Gabriela, recorrendo ao seu álbum.
Ela não podia encontrar o escrito.
- Sr. Augusto, disse então, toda vergonha e acanhamento; eu lho
rogo que me dê esse papel.
- Pois não quereis ouvir mais nada?...
- Basta o que tenho ouvido e que não posso bem compreender; mas
dê-me o que lhe pedi.
- Daqui a pouco, senhora, na hora de minha partida para a Corte, porém,
com uma condição.
- Pode dizê-la.
- Sois sobremaneira delicada, senhora; este excesso vos deve ser nocivo;
quereis fazer-me o obséquio de ir descansar e dar-me a honra de
aceitar a minha mão até à porta da gruta?...
- Com muito prazer.
Então os dois se dirigiram para fora; passando junto das três
companheiras, D. Gabriela pôde apenas dizer-lhes:
- Até logo.
Chegando à porta, Augusto falou já em outro tom:
- Minha senhora, espero que me faça a justiça de crer que
fico extremamente penalizado por não poder dilatar por mais tempo
a glória de acompanhá-la; mas sabe o que ainda tenho de
fazer.
- Obrigada, respondeu D. Gabriela, não poupe as outras.
Não é possível bem descrever a admiração
das três.
Augusto chegou-se a D. Quinquina, e tomando-lhe a mão, disse:
- Minha senhora, é chegada vossa vez.
D. Quinquina deixou-se levar para junto da fonte; as moças tinham
perdido toda a força; o que diante delas se passava pedia uma explicação
que não estava ao seu alcance dar. Augusto começou:
- Senhora, eu poderia dizer-vos, pelo que me conta a boa fada, que vós
sois como as outras de vossa idade, tão volúveis como eu;
mas para tal saber não precisava eu beber da água encantada;
podia também gastar meia hora em falar-vos do vosso galanteio com
um tenente da Guarda Nacional, por nome Gusmão...
- Senhor!...
- Por nome Gusmão, que leva o seu despotismo amoroso ao ponto de
exigir que não valseis, que não tomeis sorvetes, que não
deis dominus tecum quando ao pé de vós espirrar algum moço
e que não vos riais quando ele estiver sério.
- Quem lhe disse isso, senhor?...
- A fada, senhora; e ainda me disse mais: por exemplo, contou-me que no
baile desta noite, passeando com um velho militar, vós recebestes
da mão dele um lindo cravo e a seus olhos o escondestes, com gesto
apaixonado, no palpitante seio; mas daí a um quarto de hora essa
mesma flor, tão ternamente aceita, deveria ir parar no bolso de
um belo jovem, chamado Lúcio, se acaso não fosse roubada
pela fada que preside esta fonte.
- Eu não entendo nada do que o senhor está dizendo... isso
não é comigo.
- Eu me explico: o Sr. Lúcio viu ser dado e recebido o presente
e, fingindo-se zeloso, vos pediu esse cravo, muito notável, porque,
além da flor aberta, havia sete flores em botão. Ora, dizei,
não é verdade? Pois o Sr. Lúcio queria esse cravo,
mas vós lho não podíeis dar, porque o velho militar
não tirava os olhos de vós; ora, conversando com o Sr. Lúcio,
acordastes ambos que ele iria esperar um instante no jardim e que um pequeno
escravo, por nome Tobias, lhe levaria a flor; e como o tal Tobias ainda
não conhecia o Sr. Lúcio, este lhe daria por senha as seguintes
palavras: sete botões; não foi assim?
D. Quinquina guardou silêncio; tudo era verdade; ela estava cor
de nácar. Augusto prosseguiu:
- Isto se passou estando vós na grande varanda, sentados em um
banco e com as costas voltadas para uma janela da sala do jogo; ora, a
fada esteve recostada a essa janela, ouviu quanto dissestes e, como lhe
é dado tomar todas as figuras, tomou a de moço, foi ao jardim,
e quando viu o Tobias, disse sete botões; e o cravo foi logo da
fada e é agora meu, ei-lo aqui!...
- Isto é uma invenção; eu não conheço
essa flor.
- Bem! então consentireis que eu a traga esta manhã no meu
peito?... Se não confessais, eu a mostrarei... O senhor coronel
ainda se não retirou e...
- Perdoe-me, balbuciou, enfim, D. Quinquina, deixando cair uma lágrima
na mão de Augusto. Dê-me esse maldito cravo.
- Eu vo-lo darei na hora de minha partida, senhora, porém, ouvi
mais.
- Basta.
- Pois bem, basta; mas eu vejo que vossa face está umedecida; seria
uma lágrima se o relento da noite não molhasse também
a rosa. Quereis descansar, sem dúvida; poderei gozar o prazer de
conduzir-vos até à porta da gruta?...
- Sim, senhor.
Duas guerreiras tinham sido batidas; só a curiosidade retinha as
outras: Augusto se chegou para elas e falou a D. Clementina:
- Agora nós, senhora.
Ela deixou-se levar pela mão até junto da fonte, e o estudante
começou:
- Quereis fatos de anteontem ou da noite passada, senhora?
- Eu não entendo o que o senhor quer dizer.
- Pergunto, senhora, se vos dá gosto que eu vos repita o que convosco
se passou, quando tomáveis um sorvete ao lado de um jovem de cabelos
negros... o que convosco conversou o meu colega Filipe, quando tomáveis
chá?
- Eu não preciso saber nada disso.
- Então dir-vos-ei o que mais vos interessa, sossegarei mesmo os
vossos cuidados e os do Sr. Filipe, a respeito da perda de certo objeto...
- Sr. Augusto!...
- Senhora, foi a fada desta misteriosa fonte quem vos roubou um precioso
embrulho que continha uma trança de vossos cabelos e que deveria
ser achado embaixo da quarta roseira da rua que vai ter ao caramanchão,
e essa trança pára, hoje, em minhas mãos, ei-la aqui...
- Oh! dê-ma.
- Não preferis antes que eu a entregue ao feliz para quem a destináveis?
- Não, eu lhe peço que ma dê.
- Eu estou pronto a obedecer-vos, senhora, mas só na hora de minha
partida. Vós quatro queríeis zombar de mim; não concebo
até onde iria a vossa vingança; preciso de reféns
que assegurem a paz entre nós; estes são meus; quereis saber
mais alguma coisa?
- Eu já sei que o senhor sabe demais!
- Então...
- Quer, como as duas primeiras, oferecer-me a mão e obrigar-me
a desamparar o campo?
- Venceu, senhor, e sou eu que lhe peço que me acompanhe até
à porta da gruta.
- Eu estou pronto, senhoras, para servir-vo em tudo.
Só restava D. Joaninha, era a vez dela.
- Eu vos deixei para o fim, disse Augusto, porque a vós é
que eu mais admiro, porque vós sois exatamente a única dentre
elas que tem amado melhor e que mais infeliz tem sido, eu vos explicarei
isto. Sois, todavia, um pouco excessiva em exigências...
- Que quer dizer, Sr. Augusto?
- Que quereis muito, quando ordenais a um estudante que vos escreva quatro
vezes por semana, pelo menos; que passe por defronte de vossa casa quatro
vezes por dia; que vá a miúdo ao teatro e aos bailes que
freqüentais, e até que não fume charutos de Havana
nem de Manilha, por ser falta de patriotismo.
- Quem lhe disse isso, senhor!?
- A fada, senhora, que sabe que amais a um moço, a quem dais a
honra de chamar querido primo.
- É uma vil traição!
- Exatamente diz o mesmo a nossa boa fada, e ainda mais, senhora: quer
que eu vos aconselhe a que desprezeis esse jovem infiel, que não
sabe pagar o vosso amor: eu poderia dar-vos provas...
- Não as tenho eu bastante, exclamou D. Joaninha com sentimento,
quando lhe ouço repetir o que deveria ser sabido dele e de mim
somente?
Augusto ia falar; ela o interrompeu.
- Senhor, eu agradeço o benefício que recebi; o senhor quis
zombar de mim, como das outras, mas não o fez; ao contrário,
atalhou em princípio uma grande enfermidade, que, talvez, fosse
daqui a pouco tempo incurável! Eu galanteio também às
vezes, porém, sei amar até o extremo. Adeus, senhor! eu
posso apenas agradecer-lhe, dizendo que tenho tanta confiança na
sua discrição e no seu caráter, que nem mesmo lhe
recomendo o cuidado do meu segredo.
D. Joaninha ia deixar a gruta; Augusto lhe ofereceu o braço.
- Agradecida, disse ela; permita que eu entre só em casa.
Augusto ficou só. Esteve alguns momentos lembrando-se da cena que
acabava de ter lugar; finalmente disse, soltando uma risada:
- Vieram buscar lã e saíram tosquiadas!
E já estava para pôr o pé fora da gruta, quando uma
voz branda e sonora o suspendeu, dizendo:
- Agora, Sr. Augusto, é chegada a sua vez...
Capítulo XVIII
Achou Quem o Tosquiasse
Escutando aquelas
inesperadas palavras que o chamavam para a mesma posição
em que ele tinha colocado as quatro moças, Augusto voltou-se de
repente e viu no fundo da gruta a interessante Moreninha, que enchia o
copo de prata.
- Minha senhora!... balbuciou o estudante, confuso.
D. Carolina respondeu-lhe primeiro com o seu costumado sorriso, e depois
assim:
- Não se dirá que um homem zombou impunemente de quatro
senhoras; uma outra toma o cuidado de vingá-las. Sr. estudante,
eu também sou adepta ao culto desta fada e vou invocá-la
em meu auxílio.
A menina travessa bebeu em seguida a estas palavras o seu copo d'água
e depois, imitando o estilo de Augusto, que se achava junto dela, disse:
- Quereis que vos fale do passado, do presente ou do futuro?
- De todas essas épocas... ao menos para ouvir por mais tempo os
vaticínios e palavras de tão amável Sibila.
- Pois então principiemos pelo passado. Oh! que belas revelações
me fez a fada! Sim, eu estou lendo no livro da vossa vida, estou vendo
tudo, estou dentro do vosso espírito e de vosso coração!
- Oh! sim, eu juro que isso é verdade, atalhou o estudante.
A menina fingiu não entender a alusão e continuou:
- Senhor, vós amastes muito cedo... creio... sim, foi de idade
de treze anos.
Augusto recuou um passo; ela prosseguiu:
- Amastes, sim, a uma menina de sete anos, com quem brincastes à
borda do mar.
- E quem era ela? como se chamava? perguntou Augusto com fogo, talvez
pensando que D. Carolina estava, com efeito, adivinhando e podia dizer-lhe
o que ele mesmo ignorava.
- Posso eu sabê-lo? respondeu a Moreninha; a fada só me diz
o que se passou em vosso coração e vós, por certo,
que também não sabeis quem era essa menina e só a
conheceis pelo nome de minha mulher.
- Prossiga, minha senhora!
- Poderia eu contar-vos uma longa história de velho moribundo,
esmeralda, camafeu, mas basta de vossa mulher; permiti que vos diga que
mostrava ser uma criança doidinha, que cedo começava a fazer
loucuras.
- Que cruel juízo!
- Oh! não vos agasteis; eu a respeito também, em atenção
a vós, porém, vamos acabar com o vosso passado. Houve um
tempo em que quisestes figurar entre os amigos como galanteador de damas,
e por justo e bem merecido castigo fostes desgraçado: todas elas
zombaram de vós!
E a menina interrompeu-se, para rir-se da cara que fazia Augusto.
- Ora, por esta não esperava eu, disse o estudante.
- A primeira jovem que reqüestastes foi uma moreninha de dezesseis
anos, que jurou-vos gratidão e ternura, e casou-se oito dias depois
com um velho de sessenta anos! não foi assim?
E a menina, de novo, desatou a rir.
- Minha senhora, de que gosta tanto?
- Ora! é que a fada está-me dizendo que ainda em cima vossos
amigos, quando souberam de tal, deram-vos uma roda de cacholetas!
- Então a Sra. D. Ana lhe contou tudo isso?
- Juro-vos, senhor, que minha avó não me fala em semelhantes
objetos. Consenti que eu continue. A segunda foi uma jovem coradinha,
a quem em uma noite ouvistes dizer num baile que éreis um pobre
menino com quem ela se divertia nas horas vagas, não foi assim?
- Prossiga, minha senhora.
- A terceira foi uma moça pálida, que zombou solenemente,
tanto de um primo que tinha, como de vós. Eis alguns de vossos
principais galanteios. Exasperado com o infeliz resultado deles e vivamente
tocado das leras e da música de certo lundu que se vos cantou,
tomastes outro partido e desde então vós pretendeis fazer-vos
passar por borboleta de amor.
- Borboleta?!... Sim... sim... lembro-me agora que a senhora passeava
pelo jardim. Já sei de quem foram certas carreirinhas e, portanto,
compreendo que sabeis tudo à custa...
- À custa da fada, senhor, e escuso estender-me mais, porque vós
estais bem certo de que eu devo saber ainda muito.
- Sim, mas diga sempre.
- Não, antes quero falar-vos do vosso presente.
- Pelo amor de seus belos olhos, minha senhora, vamos antes ao que eu
não sei, vamos ao meu futuro.
- Sois sobejamente sôfrego! não vedes como isso vai contra
a boa ordem da narração?
- Mas a desordem é hoje a moda! o belo está no desconcerto;
o sublime no que se não entende; o feio é só o que
podemos compreender: isto é romântico; queira ser romântica,
vamos ao meu futuro.
- Pois bem, vamos ao vosso futuro. Principiarei, como pretendia fazer,
se falasse do presente de vossa vida, dizendo-vos que vós não
sois inconstante como afetais.
- Misericórdia!
- Mas que estais a ponto de o ser: digo-vos que perdereis uma certa aposta
que fizestes com três estudantes.
- Como é isso? Então a senhora sabe...
- A fada, que me revelou isso, leu a termo na carteira de quem o guardou.
- A fada? sim, a feiticeira o leu... Compreendo.
- Vós não sois inconstante, porque tendes até hoje
cultivado com religioso empenho o amor de vossa mulher; mas vós
ides ser, porque não longe está o dia em que a esquecereis
por outra.
- A culpa será dos olhos dessa outra; porém, quem sabe?...
- Desejo que não; contudo, eu já vos vejo em princípio
e temo que vades ao fim; sereis perjuro, tereis de escrever um romance
e perdoai-me se vos desejo este mal: eu quisera que ao pé de meu
irmão, que vos apresentará o termo da aposta, aparecesse
a vossos olhos a mulher traída. Do vosso futuro eis quanto me disse
a fada.
- E disse bastante para me confundir.
- Quereis que vos fale agora de vosso presente?
- Oh, se quero! No presente está a minha glória.
- Ontem, no baile, dissestes palavras de ternura pelo menos a seis senhoras.
- Esta agora é melhor! e quem o pôde notar?
- Provavelmente a fada vos observava.
- Então a fada, a feiticeira fazia isso?
- Depois do baile puseram-vos duas cartas no bolso.
- Que mãos delicadas...
- Não mo sabe dizer a fada; porém, vós viestes para
esta gruta acudindo a um convite e fingistes adivinhar segredos de corações.
Não era verdade: a fada nada vos revelou; o que dissestes sabíeis
antes e a fada me disse como.
- Explique-me, pois, minha senhora.
- Quando involuntariamente fui causa de vos entornarem café nas
calças, vós fostes mudar de roupa e entrastes para o gabinete
das senhoras; lá ouvistes tudo o que afetastes adivinhar há
pouco.
- E quem me viu entrar?
- A fada, sem dúvida. O cravo de D. Quinquina fostes vós
que recebestes no jardim; na noite dos jogos de prendas, fostes vós
ainda quem, com uma luz na mão, procurou e achou a trança
de cabelos de D. Clementina, embaixo da quarta roseira da rua que vai
para o caramanchão.
- Mas quem observou o que eu fiz às escondidas e com tanto cuidado?
- A fada, que, segundo penso, vos tem sempre seguido com os olhos.
- A fada?!... a feiticeira me segue sempre com os olhos?!... Oh! como
sou feliz!... a feiticeira é a senhora!
- Senhor! sois pouco modesto; que me importariam vossos passos e vossas
ações?...
- Perdão! perdão!... eu sou um tresloucado... um incivil...
um doido... não sei o que faço, nem o que digo; mas continue...
- Basta! vós duvidastes da fada e por isso eu termino aqui.
- Não! não, minha senhora! é preciso dizer-me mais
alguma cousa ainda!... por força a fada lhe deveria ter revelado!
ela, que adivinha tudo o que está dentro do meu coração,
digo o que ainda se passa nele.
- Nada mais de disse.
- Beba outro copo d'água...
- Não julgo necessário.
- Pois então...
- Cumpre retirar-me.
- Não, por certo! perdoe-me minha senhora, mas eu devo descobrir
todos os meus segredos a quem conhece tão boa parte deles.
- Eu me contento com o pouco que sei.
- Ouça uma só palavra...
- Não sou curiosa.
- Pois a senhora...
- Sei que sou senhora, mas sou exceção de regra; não
quero saber.
- Embora, eu lhe direi ainda contra a vontade...
- E para isso toma-me a saída?...
- É só para dizer que eu amo...
- Já sei, a sua mulher.
- Não é isso: a uma bela moça...
- Ela o deve ser agora.
- Muito espirituosa...
- Já ela o era em criança.
- E que se chama...
- Ah! espreitam-nos da entrada da gruta?
Augusto correu a examinar quem era a indiscreta testemunha; não
aparecia pessoa alguma; compreendeu então que fora ainda um meio
de que se lembrara D. Carolina para não deixá-lo concluir
sua declaração e, disposto a lançar-se aos pés
da menina, voltou-se já com o nome da bela nos lábios e...
D. Carolina tinha desaparecido da gruta.
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