MINHA FORMAÇÃO
Joaquim Nabuco
Capítulo XXV
O barão de Tautphoeus
Nenhuma influência singular atuou sobre mim mais do que a
de meu mestre, o velho barão de Tautphoeus. Com sua imaginação
toda tomada pela história, ele costumava nos anos de meu
ardente liberalismo chamar-me Alcibíades. Certamente ele
realizava para mim o tipo de Sócrates. Se não trazia
a máscara de Sileno emprestada ao grande ateniense, mesmo
fisicamente, sobretudo para a velhice, ele tinha muitos dos traços
socráticos: a coragem fria, a calma imperturbável,
a resistência à fadiga, o gosto da palestra, da conversação
intelectual, da companhia dos moços, a completa abstração
de si, a modéstia, a alegria de viver como espectador do
universo, cedendo sempre todavia aos outros o melhor lugar, o forte
espiritualismo, a indiferença pelo ridículo, o respeito
da ordem social, quem quer que a encarnasse. Sua mocidade é
um tanto legendária ainda, e nada seria mais interessante
do que apurar os fatos a respeito dela. O que ouvi por vezes a meu
irmão Sizenando - esse tinha por Tautphoeus uma admiração
entusiástica e conviveu com ele muito mais intimamente do
que eu, a quem em compensação ele deu o melhor de
seus últimos dias, suas derradeiras tardes - foi que, jovem,
Tautphoeus, antes forçado a expatriar-se da Baviera por motivo
revolucionário, acompanhara o rei Othon à Grécia,
depois viera viver em Paris, nas vizinhanças do ano 30, e
freqüentava a plêiade liberal do Journal des Débats
até que emigrou para o Brasil.
Muito míope, usava de um vidro quadrado, que pelo hábito
contínuo da leitura como que se colocava automaticamente;
e ainda menos do que o monóculo, deixava ele o charuto...
Sempre com um grosso volume alemão debaixo do braço,
caminhava horas inteiras no mesmo andar, alheio ao mundo exterior...
Era um homem que sabia tudo. Sua conversação era inesgotável,
e raro ele mesmo a dirigia. O assunto lhe era indiferente, e até
o fim, anos seguidos, dia após dia, nunca ele se encontrou
senão com interlocutores curiosos de ouvi-lo sobre os pontos
que mais lhe interessavam. Era literalmente como um dicionário
que a cada instante alguém manuseasse, ou uma enciclopédia
que um abrisse no artigo Babilônia, logo outros nos artigos
Invasão dos Bárbaros, Adam Smith, Lutero, Hieróglifos,
Amazonas, Arquitetura Gótica, Liberdade de Testar, Raízes
Gregas, Papel Moeda, Culturas Tropicais, Alberto Dürer, Divina
Comédia, ao acaso. Era somente ferir a tecla, pôr a
pergunta no aparelho, e esperar o desenrolar da resposta, como a
que daria o Lexicon de Meyr, ou a História Universal de Cesar
Cantu. Ele falava de um modo uniforme, sem ênfase, sem colorido,
sem expressão mesmo, mas era um jorrar sem fim de ciência,
de erudição, como se naquele mesmo dia tivesse estado
a estudar o assunto. Nada mais diferente da ostentação
frívola de ciência com que tanta gente se apraz em
deslumbrar o ouvinte que lhe oferece inadvertidamente um assunto
ao seu alcance, do que essas dissertações científicas,
up to date, a que Tautphoeus se entregava perante os seus discípulos,
que todos o ficavam sendo, para sempre, jornalistas, professores,
ministros de Estado que fossem...
A abundância de idéias gerais, de ponto de vista sugestivos,
de matéria para reflexão em sua conversa, era notável.
Pode-se dizer que esse homem que não escreveu nunca, pelo
menos no Brasil, publicou maior número de ensaios, de teses
históricas e outras, do que todos os nossos escritores juntos:
unicamente suas contínuas edições tiradas a
pequeno número de exemplares dissipavam-se como a palavra,
quando não eram convertidas em trabalho alheio. Que lhe importava
isto? Ele era destituído de ambição. Esse respeitador
por sistema da ordem hierárquica e da pragmática social,
que nunca levou a mal que os poderes de um dia se considerassem
seus superiores, que os afidalgados da véspera olhassem com
desdém para o seu título hereditário, vendo-o
mestre de meninos, era um sábio da Grécia, praticando
com o espírito e a inteireza pagã a filosofia do Eclesiaste:
Vanitas vanitatum... Desde muito cedo ele adquiriu a esse respeito
a perfeita imunidade. Tendo que ganhar a vida em país estrangeiro
por meio de lições, enterrou tudo que pudesse restar-lhe
dos velhos preconceitos aristocráticos de seu país,
das aspirações à elegância, à
vida de prazer, ostentação, e sucessos mundanos da
sua mocidade em Paris, entrou no papel que lhe fora distribuído
com a mesma simplicidade como se o recebesse por herança...
em uma palavra, sem ressentimento, sem queixa, sem murmúrio.
Bebeu a água da carioca com o mesmo espírito de conformação
com que teria bebido a água de Lethes... Esqueceu-se de si
mesmo para entrar em seu novo destino... Mas também desde
logo como ele penetrou os mais íntimos refolhos e singularidades
do país que devia ser sua segunda pátria, e que ele
amou como tal! Sua posição era involuntariamente considerada
subalterna ainda pelos mais capazes de compreender - o que não
é o mesmo que sentir - a profissão do criador intelectual
como essencialmente nobre. Ele, porém, mostra-se indiferente
no meio da arlequinada social sabendo bem que no mundo, ninguém
o disse melhor do que Calderon, todos sonham o que são.
Mas que profundeza no sentir! Se todo o mundo estava fora do seu
lugar - ele não pretendia isso, pelo contrário, pensava
que a distribuição era justa, que as posições
e responsabilidades eram dadas aos melhores, somente estes não
faziam o melhor, não procuravam dar o mais que podiam - quando
todo o mundo estivesse, ele ao menos queria estar no seu... Conservador
e católico, conheci-o muito abalado como o Kulturkampf, por
sua idéia alemã de que o maior político do
mundo - para ele Bismarck certamente o era - não podia ser
atraiçoado naquela questão ao mesmo tempo pelo seu
faro nacional e pelo seu instinto conservador. O seu conservantismo
entranhado era também parte da sua filosofia, por isso ele
tinha pelas nossas instituições um sentimento de que
nós mesmos éramos incapazes: o de veneração
idealista. Desse simples funcionário do Estado, que não
tinha de seu senão seu modesto ordenado de cada dia, e além
disso, estrangeiro de origem, partiu talvez o único grito
de: Viva a Constituição do Império! que se
ouviu - tão fraca era já a voz - em 15 de novembro
ao desfilar das tropas do general Deodoro pela rua do Ouvidor. Talvez
alguém olhando para o velho que fazia sem medo tal protesto,
pensasse que era um protegido do imperador alucinado pela catástrofe
que o tragaria também. Não o era porém; favores,
ele o não devia, nem gratidão; tudo o que tivera fora
em concurso, do qual os competidores desistiam, louvando-se em sua
fama... Não era um despeitado, era um filósofo, era
o homem que melhor estudara a psicologia do nosso país e
que mais se conformara a ela até aquele ato, que lhe pareceu
nacionalmente fatídico, como para os judeus o partir-se ao
meio do véu do templo...
Um traço dessa sua penetração já assinalei
uma vez, lembrando que foi ele quem me fez notar que o nosso interesse
pelas coisas públicas é tanto menor quanto o assunto
mais de perto nos concerne. É assim, dizia-me ele, que os
negócios do município nos interessarão sempre
a todos menos que os da Província, os da Província
menos que a política geral. Para mostrar quanto era precário
o nosso self-government, não bastava essa diferença
que cresce na razão direta do interesse que devíamos
sentir? Outra observação dele que revela a prontidão
do seu espírito, foi a nossa conversa sobre a impermeabilidade
inglesa a idéias e concepções alheias. Eu dava
a lentidão dos ingleses em apanhar e compreender o ponto
de vista, a novidade estrangeira, como um sinal talvez de menor
vivacidade intelectual do que a dos povos continentais: "Pelo
contrário, observou-me ele, as palavras serão minhas,
a idéia é dele, essa repugnância ao que vem
de fora do país, essa suspeita contra o que não é
conforme ao instinto da raça, prova antes a originalidade
dela, a força de sua própria produtividade, o orgulho
das suas criações nacionais... Essa resistência
foi que permitiu à Inglaterra dar ao mundo um Shakespeare".
Foi essa reflexão talvez que me levou a pensar que o cosmopolitismo,
na esfera da concepção intelectual, não é
um elemento criador, nem uma superioridade invejável: pelo
contrário, a dificuldade de assimilar, de sentir o que não
tem afinidades com a nossa própria produção,
é antes uma virtude do que um defeito; a permeabilidade prejudica
a solidez e conservação das qualidades próprias,
isto é, da própria natureza.
Se eu tivesse que precisar o que devo a Tautphoeus, assinalaria,
entre tantos outros trabalhos de lapidação que acredito
serem dele, duas aquisições, a que em certo sentido
se poderiam chamar transformações íntimas.
A primeira, sem que aliás a sugestão partisse dele,
nem mesmo que ele tivesse consciência deste ponto de vista
meu - quem sabe se ele o não combateria? - é que diante
dele, pensando nele, me habituei a considerar o juízo do
historiador como o juízo definitivo, o que importa, final,
e por isso aquele que se deve desde logo visar. Não pode
haver maior revolução para o espírito do que
essa, de colocar-nos espontaneamente em frente do solitário
juiz de biblioteca do futuro e não dos juízes sem
número de praça pública do momento atual. Perante
aquele juiz o nosso nome pode não ser citado, os testemunhos
incompletos podem ser-nos injustamente favoráveis ou desfavoráveis,
mas a sua opinião é a que conta, é a que vale..
O juízo da multidão que hoje nos eleva ou nos deprime,
esse representa apenas a poeira da estrada. Não é
preciso que sejamos atores, para que essa concepção
da verdadeira instância que decide das reputações
nos afete, por assim dizer, em cada um dos nossos móveis
de ação, estímulos e afinidades morais: o efeito
é o mesmo sobre o espectador, o curioso, o transeunte, o
indiferente. É, em menor escala, está visto - porque
esta é a maior de todas as possíveis diferenças
nos motivos de inspiração e de conduta - como a mudança
da concepção pagã, que o importante é
a vida, para a concepção cristã, que é
a eternidade. Feita a redução das aspirações
da própria alma para as da inteligência ou do espírito,
a metamorfose é também profunda entre viver, ou ver
viver, tendo-se em vista os contemporâneos e tendo-se em vista
a posteridade. Tratando-se da posteridade, está claro que
é sempre preciso imaginar o espaço de algumas gerações,
dar toda a margem ao esquecimento... No momento atual são
milhares, milhões que julgam; pouco a pouco o tribunal se
vai reduzindo, até que os grandes personagens vêm a
depender da sentença de um juiz singular, um Mommsen, um
Ranke, um Curtius, um Macaulay, encerrado em sua livraria, procurando
animar-se para com eles de uma paixão retrospectiva, toda
ela puro entusiasmo, ilusão de ator, na qual não figura
nenhum dos sentimentos, um único sequer, nem das paixões
verdadeiras que eles inspiram...
Outra transição que lhe devi... Como hei de explicá-lo
que se entenda somente a nuança, e não mais? Porque
quero crer que os germes se desenvolveriam por si mesmos, mas sinto
que o seu influxo benéfico penetrou até o terreno
onde eles se estavam talvez formando sem eu o sentir...
Nós tínhamos nos últimos tempos da vida de
Tautphoeus uma pequena solidão em Paquetá, para as
vizinhanças do chamado Castelo, em um remanso daquelas encantadoras
paragens. Era uma antiga casa térrea a que um dos proprietários,
um inglês, juntara uma varanda em roda e a meio um pequeno
sobrado com venezianas verdes e balcão por onde subia uma
trepadeira, dando-lhe um aspecto ao mesmo tempo singelo e pitoresco
de residência estrangeira. A frente deitava para o mar, e
a parte baixa da costa do outro lado formava um suave fundo de quadro.
A casa estava sobre uma pequena elevação, e o declive
para a praia era tomado por um grande tabuleiro de grama, cuidadosamente
tratado, como em um parque. A ilha de Paquetá é uma
jóia tropical, sem valor para os naturais do país,
mas de uma variedade quase infinita para o pintor, o fotógrafo,
o naturalista estrangeiro. Para mim ela tinha a sedução
especial de ser uma paisagem do Norte do Brasil desenhada na baía
do Rio. Enquanto por toda parte à entrada do Rio de Janeiro
o que se vê são granitos escuros cobertos de flores
contínuas guardando a costa, em Paquetá o quadro é
outro: são praias de coqueiros, campos de cajueiros, e à
beira-mar as hastes flexíveis das canas selvagens alternando
com as velhas mangueiras e os tamarindos solitários. Ao lado,
entretanto, dessas miniaturas do Norte encontram-se na ilha a cada
canto do mar rochas revestidas com a mesma característica
vegetação fluminense.
Tautphoeus fora sempre um apaixonado da nossa natureza. Desde que
chegara ao Brasil tinha sido um explorador de suas belezas. A madrugada,
a alta noite, a distância não eram impedimento para
ele, tratando-se de um nascer do sol, um efeito de luar, um fio
de água descendo pela pedra, um jequitibá escondido
na mata virgem. Toda a vida ele vivera nesse colóquio íntimo
de namorado com a luz e a terra do Brasil; um raio de sol iluminando
o Corcovado ou o Pão de Açúcar era uma saudação
misteriosa do poder criador a que ele sempre respondia... Ao vê-lo
sentado, a escutar os pássaros na mata ao lado, eu associava
insensivelmente o mestre com as minhas primeiras lições
de inglês e lembrava-me do vizir do sultão Mahmud.
Os arredores do Rio de Janeiro especialmente o seduziam. Ele era
de todos os passeios a que o convidassem para qualquer dos pontos
pitorescos, que aí são sem número. Passar a
tarde sob o arvoredo secular que se encontra em tantas das ilhas,
observando o glorioso colorido das montanhas ao pôr do sol,
era uma verdadeira volúpia para ele. A nossa vivenda de Paquetá
agradava-lhe por lhe dar, com o silêncio e isolamento que
cercava a biblioteca, a escolha, à vontade, do mar, do campo
e da montanha: as praias extensas, a floresta acessível,
a planície atapetada, se lhe agradava passear; a água
serena, o mar fechado à vista, como um lago suíço,
se queria tomar o nosso barco e mandar o Mudo, o nosso saudoso remador,
abrir a vala para os pequenos ilhotes de onde se avistam de um extremo
os Órgãos de Teresópolis, e no outro a serrania
da cidade...Ele vinha sempre aos sábados e ficava o domingo,
e às vezes, nas curtas férias que tinha, dias seguidos...
Era visivelmente a despedida. Suas faculdades estavam intatas, ele
era desses em que se sente que o espírito não sofrerá
deperecimento, que se apagará de repente no meio de uma contemplação
ou meditação mais intensa e prolongada; mas as forças
físicas estavam em declínio, via-se o cansaço
de ter pensado tanto e o involuntário tributo à dúvida:
se teria bem aproveitado o tempo, ou se teria vivido em vão.
Ele tomara muito a sério o gosto da obscuridade, a modéstia,
o retraimento; cortejara demais o esquecimento, e via talvez que
este estava a ponto de envolvê-lo, exceto em alguns raros
espíritos, onde sua lembrança duraria mais algum tempo,
até eles mesmos serem por sua vez envolvidos...
Como foram suaves esses dias finais que ele nos deu, tão
penetrantes, tão profundamente melancólicos, da melancolia,
porém, dos momentos que quiséramos tornar eternos,
ou que outros viessem gozar deles ao nosso lado para não
se esvaecerem de todo, como um meteoro deslumbrante!... O seu prazer,
muitas vezes, era sentar-se em um banco à beira do mar, do
lago, eu devia dizer pela impressão que dava, e dali assistir
à tarde, cujas cambiantes no ar, no céu, na água,
nas cores do horizonte, no murmúrio e no silêncio da
solidão, eram uma gama de que ele não perdia a mais
insignificante transição... Quantas outras vezes,
de dia, ao passarmos na mata ao lado da casa, quando se ia abrindo
caminho para passarmos, não me pedia ele que não tocasse
na natureza, que respeitasse o intricado, o selvático, o
inesperado de tudo aquilo, porque aquela desordem era infinitamente
superior ao que a arte pudesse tentar... Ele achava a mais pobre
e árida natureza mais bela do que os jardins de Salústio
ou de Luiz XIV. Ah! Se tem sido ele o descobridor e possuidor da
América, o machado nunca teria entrado nela... E o tição?
Uma queimada era para ele igual a um auto de fé. O incêndio
ao lamber essas resinas preciosas, essa seiva, esses sucos de vida,
esse sem-número de desenhos caprichosos de artistas inexcedíveis
cada um no seu gênero, modelos de cor e de sensibilidade todos
eles únicos, parecia consumir com uma dor cruel, vibrante,
todas as suas ligações sensíveis com a natureza
e a vida universal, os nervos todos de sua periferia intelectual.
O seu amor pela nossa natureza foi muito grande. Quantas vezes introduzi
em nossas conversas a idéia de uma viagem à Europa
para ver se despertava nele afinidades esquecidas, recordações
latentes. Toda essa parte européia, porém, estava
morta, atrofiada; em vez dela o que havia, esta, vivaz e peregrina,
era uma sensibilidade nova, americana, a brasileira... Era um eterno
encantado da nossa terra. Ela lhe dizia o que a nós não
diz, e que talvez seja preciso ter tido e renunciado por ela uma
primeira encarnação, um outro mundo, para se poder
sentir. Se nós brasileiros pudéssemos ter aquele amor!
Esse perene envelhecimento de Tautphoeus foi uma das influências
que desenvolveram em mimo gosto, o encanto, ainda que de minha parte
puramente sentimental e ingênuo, que o contato de nosso país
tem hoje para mim... Em Tautphoeus aquele amor era diferente: era
fino, espiritual, intelectual, estético... em mim será
uma simples afinidade do coração, uma ternura, uma
saudade da vida, mas esta afinidade deverá muito ao espetáculo
do carinhoso devaneio daquele sábio, daquele grego antigo,
daquele filósofo nascido e formado em outros climas, perante
a amenidade, a doçura dos trópicos, o pitoresco da
nossa moldura agreste, os toques de mutação de nossa
cenografia natural, a modulação, o colorido, a solidão
íntima de nossa paisagem.
No tempo da minha vanglória literária duas coisas
me feriam nele: que com toda sua ciência ele não escrevesse
nada e que pudesse ser tão submissamente católico.
Agora em nossos passeios pela floresta, em nossas soirées
à beira da minha pequena enseada, dourada pelo luar, era
sobre a religião que versavam nossas conversas... Oh! que
admiráveis monólogos os dele! A última vez
que atravessou o nosso mare clausum voltou para casa para morrer.
O vestígio do seu pensamento ficou por muito tempo comigo,
e ainda por vezes lhe sinto a ondulação fugidia. Foi
por minhas palestras com ele que compreendi por fim que um grande
espírito podia ficar à vontade, livre, em uma religião
revelada, do mesmo modo que foi graças a ele que compreendi
que os escritores não formam por si sós a elite dos
pensadores, que há ao lado deles, talvez acima, uma espécie
de Trapa intelectual votada ao silêncio, e onde se refugiam
os que experimentam o desdém da publicidade, de sua ostentação
vulgar, de seu mercenarismo mal disfarçado, de seu modo frívolo,
de sua apropriação do bem alheio, de sua falta de
sinceridade interior. O horror da cena, hoje do mercado, não
pode ser um sinal de inferioridade intelectual.
O resumo da impressão que eu guardo dele está feito
por Goethe conversando com Eckermann sobre Alexandre de Humboldt:
"Que homem ele é! Há tanto tempo, tanto, que
o conheço, e ele é sempre novo para mim. Pode-se dizer
que não tem igual, nem em ciência, nem em experiência.
Além disso, há uma variedade de aspectos nele como
não encontrei em ninguém. Qualquer que seja o assunto
de conversa que se procure, está sempre no seu próprio
terreno e despeja sobre nós tesouros de informações.
É como uma fonte de várias bicas, sob as quais basta
colocar um cântaro para logo o encher, e donde estão
sempre a correr jorros de água fresca inesgotável.
Ele passará aqui alguns dias, e já me parece que há
de ser para mim como se tivesse vivido muitos anos". Ouvi-lo,
vê-lo, viver com ele, era literalmente esquecer o presente
e reunir-se à comitiva de Sócrates... Ele era uma
dessas cópias, que nem por serem cópias, nem por se
reproduzirem seguidamente de época em época entre
diferentes nações, deixam de conservar a superioridade,
a primazia do original, o mais nobre dos modelos humanos.
Capítulo
XXVI
Os últimos dez anos (1889-1899)
A queda do Império pusera fim à minha carreira...
A causa monárquica devia ser o meu último contato
com a política... De 1889 a 1890 estou todo sob a impressão
do 15 de novembro, seguindo-se ao 13 de maio; escrevo então
os meus solilóquios em uma Tebaida onde podia andar centenas
de milhas sem deparar com o refúgio de outro praticante...
Em 1891 minha maior impressão é a morte do imperador.
De 1892 a 1893 há um intervalo: a religião afasta
tudo mais, é o período da volta misteriosa, indefinível
da fé, para mim verdadeira pomba do dilúvio universal,
trazendo o ramo da vida renascente... De 1893 a 1895 sofro o abalo
da Revolta, da morte de Saldanha, de que saem meus dois livros Balmaceda
e a Intervenção... Desde 1893, porém, o assunto
que devia ser a grande devoção literária da
minha vida, a Vida de meu pai, tinha-se já apossado de mim
e devia seguidamente durante seis anos ocupar-me até absorver-me...
Como escrevia algumas páginas atrás, o meu espírito
adquirira em tudo a aspiração da forma e do repouso
definitivo. A nossa dinastia tivera em 15 de novembro o que chamei
uma assunção: vivera e acabara como uma encarnação
nacional. O condão deixado pela fada no berço da nossa
nacionalidade foi quebrado e lançado fora; quem nos diz que
o desfecho não estava previsto por ela? A Independência,
a unidade nacional, a Abolição: nenhuma dinastia jamais
insculpiu na sua pirâmide um tão perfeito cartouche...
Quando eu pensava no papel representado pela casa reinante brasileira,
d. Pedro I, Pedro II, d. Isabel, e nas condições de
unanimidade, espontaneidade, e finalidade nacional necessárias
para ela o poder de novo desempenhar de acordo com a sua lenda,
o problema excedia a minha imaginação, e parecia-me
um atentado contra a História querer-se acrescentar, a não
ser por mão de mestre, de uma segurança, de uma delicadeza,
de uma felicidade a toda prova, um novo painel àquele tríptico...
Por outro lado, durante os anos que trabalhei na Vida de meu pai
a minha atitude foi insensivelmente sendo afetada pelo espírito
das antigas gerações que criaram e fundaram o regime
liberal que a nossa deixou destruir... O que eu respirava naquela
vasta documentação não era um espírito
monárquico inconciliável, bastando como uma religião,
como uma bem-aventurança, aos que por ela se destacavam do
mundo... A monarquia para aquelas épocas de arquitetos, pedreiros
e escultores políticos incomparáveis era uma bela
e pura forma, mas que não podia existir por si só;
o interesse, o amor, o zelo, o fervor patriótico deles dirigia-se
à substância nacional, o país; sua vassalagem
ao princípio monárquico era apenas um preito rendido
à primeira das conveniências sociais... Para tais homens,
verdadeiramente fundadores, um terremoto poderia subverter as instituições,
mas o Brasil existiria sempre, e à sua voz seria forçoso
acudir, qualquer que fosse o vendaval em torno, e quanto mais ferido,
mais mutilado, mais exausto, maior o dever de o não abandonar...
Eles não estabeleceriam nunca o dilema entre a monarquia
e a pátria, porque a pátria não podia ter rival.
A impressão desses sentimentos varonis, dessa antiga lealdade,
foi grande em mim e à medida que eu a ia respirando, o desejo
aumentava de não deixar pelo menos o meu túmulo murado
do lado do futuro...Compreendo a carta de Berryer moribundo a Henrique
V, como compreendo a carta de Chambord sobre a bandeira branca;
a monarquia francesa gerara uma uma cavalaria, um ponto de honra
aristocrático, um espírito de classe à parte,
e mesmo assim era como o próprio Berryer, como Chateaubriand,
como o duque de Aumale - "La France était toujours là!"
- que os nossos antigos homens de Estado desde os tempos coloniais,
e o imperador lhes refletia o sentimento patriótico absoluto,
colocavam a pátria fora de competição com qualquer
outra idéia ou sentimento... Eu, porém, não
tinha uma parcela de legitimismo, de direito divino; minha caracterização,
o acento tônico, era outra: liberal, não no sentido
passageiro, político, da expressão, mas no seu sentido
humano, eterno, e como liberal a aspiração sintética
de minha vida tinha que ser a de não me dissociar, qualquer
que fosse sua forma de governo, nos destinos do meu país.
Assim, mesmo como monarquista, me fui pouco a pouco distanciando
da política. Meu espírito cristalizara sob faces que
o fariam sempre rejeitar como antipolítico... Que podia eu
mais tentar sozinho, por mim mesmo? Em 1879 eu me alistara para
uma campanha que supunha havia de durar além de minha vida;
fiz assim, posso dizer, voto perpétuo de servir uma grande
causa nacional: o que devia mais de trinta anos, durou somente nove,
mas nem por isso economizei forças, iniciativa, imaginação
para outros empreendimentos... A abolição, além
disso, pelo seu sopro universal, isolara-me dos partidos, afastara-me
da sua esfera contencisa; por hábito eu agora aspirava a
viver em regiões de ar mais dilatado, onde se respirasse
a unanimidade moral, a fé, o otimismo humano, o oxigênio
das grandes correntes de ideal...
Demais, eu me convenci de que os partidos, os homens, as instituições
rivais em uma mesma sociedade hão de ter o mesmo nível,
como líquidos em vasos que se comunicam; de que o pessoal
político é um só, os idealistas, os ultra,
de cada lado sendo imperceptíveis minorias; por último,
de minha inaptidão para lidar com o elemento pessoal, de
que dependem em política quase todos os resultados... Era-me
de todo impossível encontrar de novo em mim o impulso, o
movimento, o ímpeto das nossas antigas cargas da abolição...
Lutas de partidos, meetings populares, sessões agitadas da
Câmara, tiradas de oratória, tudo isso me parecia pertencer
à idade da cavalaria... Agora o menor problema político
causava-me uma timidez invencível, tornava-se nacional, internacional,
e todos convertiam-se em casos de consciência. Uma série
de reflexões, que tomavam a forma de máximas políticas,
eram outros tantos avisos de perigo sobre qualquer superfície
desconhecida que eu quisesse pisar... Eu desistia assim de lidar
de ora em diante com partidos e com acontecimentos; minha esfera
tornara-se toda subjetiva... "Há épocas em que
o associar-se, ainda mesmo com outros melhores do que nós,
é trair o ideal próprio que cada um tem em si e que
lhe cumpre a seu modo lapidar e polir ao infinito." Esta minha
frase sobre o isolamento de André Rebouças, quando
não imaginava o fim melancólico que ele havia de ter,
exprime muito do meu próprio sentimento... É preciso
roubar ao mundo uma parte da vida, e é melhor que seja a
final, para dá-las aos pensamentos e às aspirações
que não queremos que morram conosco.
Os últimos dez anos são assim o período em
que o interesse político cederá gradualmente o lugar
ao interesse religioso e ao interesse literário até
ficar reduzido quase somente ao que tem de comum com eles... Quando
digo interesse político, quero dizer o espírito político,
porquanto a emoção, a parte que tomo na sorte do país
aumenta com as peripécias, as contingências, os vórtices
dos novos dramas. O autor e o ator desaparecem; o espectador, esse,
porém, sente a sua ansiedade crescer e tornar-se angustiosa...
Posso portanto terminar aqui a história de minha formação
política, e mesmo de toda a minha formação,
porque das novas influências que me vão dominar no
resto da vida, a religiosa já se a encontrou na infância
e a das letras na mocidade. As letras lutaram em mim anos seguidos,
como se viu, contra a política, sempre com superioridade,
até vir a abolição, que durante os dez anos
as relegou, como tudo mais, a imensa distância. Extinto este
grande foco de atração, nenhum outro teria o mesmo
poder contra elas... Ainda assim talvez tenha apenas havido entre
elas a política uma verdadeira fusão... A história
é com efeito o único campo em que me seria dado ainda
cultivar a política, porque nele não terei perigo
de faltar à indulgência, que é a caridade do
espírito, nem à tolerância, que é a forma
de justiça a que eu posso atingir... São essas duas
das faces, a que há pouco aludi, sob que meu espírito
cristalizou.
Dizendo as letras, quero apenas dizer o que elas podem ser para
mim: o lado belo, sensível, humano das coisas que está
ao meu alcance, a ressonância, a admiração,
o estado d'alma que elas me deixam... Foi a necessidade de cultivar
interiormente a benevolência o que, talvez, me dispôs
a trocar definitivamente a política pelas letras, a dar a
minha vida ativa por encerrada, reservando, como vocação
intelectual - a política não fora outra coisa para
mim - o saldo de dias que me restasse para polir imagens, sentimentos,
lembranças que eu quisera levar na alma... Olhei a vida nas
diversas épocas através de vidros diferentes: primeiro,
no ardor da mocidade, o prazer, a embriaguez de viver, a curiosidade
do mundo; depois, a ambição, a popularidade, a emoção
da cena, o esforço e a recompensa da luta para fazer homens
livres (todos esses eram vidros de aumento)...; mais tarde, como
contrastes, a nostalgia do nosso passado e a sedução
crescente de nossa natureza, o retraimento do mundo e a doçura
do lar, os túmulos dos amigos e os berços dos filhos
(todos esses são ainda prismas); mas em despedida ao Criador,
espero ainda olhá-la através dos vidros de Epípeto,
do puro cristal sem refração: a admiração
e o reconhecimento...
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
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