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MINHA FORMAÇÃO
Joaquim Nabuco



Capítulo XVII
Influência dos Estados Unidos


Eu não podia, entretanto, ter vivido quase dois anos nos Estados Unidos sem em algum ponto ser modificado pela influência norte-americana. Uma coisa é a Europa, outra a América do Norte. Entre os americanos, o metal do caráter, o fundo de experiência humana, o tato da vida é, falando do país como uma só pessoa moral, anglo-saxônia. Os Estados Unidos, como a Austrália e o Canadá, não podem esconder a sua procedência. O fundo anglo-saxônio revela-se, aumentando ou diminuído, na coragem e tenacidade, na dureza e impenetrabilidade, no espírito de empresa e de independência da raça, também na brutalidade e crueldade do instinto popular, nas rixas de sangue, na bebida, nos linchamentos, na sede insaciável de dinheiro, e também, outras traços, na necessidade de limpeza física e moral, no espírito de conservação, na emulação e amor-próprio nacionais, na religião, no respeito à mulher, na capacidade para o governo livre.
Que homem diferente, porém, é o americano do inglês! Os moldes são tão diversos que, para explicar a diferença, é preciso admitir uma influência modificadora mais forte do que a de instituições sociais, uma influência de região, - cada grande região do globo produzindo como o tempo uma raça sua, diferente das outras. As instituições modificam o caráter de um povo, mas não se provou ainda que lhe modificassem o tipo e o temperamento físico. Qual seria a diferença entre o grego do tempo de Milcíades e do tempo de Alexandre ou de Trajano? Qual a diferença do napolitano do tempo de Afonso o Grande para o rei Umberto, ou do português manuelino para o de hoje?
A comparação do maquinismo político-social entre a América do Norte e a Inglaterra é, em quase tudo, favorável a esta. As instituições inglesas, tanto as políticas quanto as judiciárias, tanto as públicas quanto as privadas, têm mais dignidade, mais seriedade, mais respeitabilidade. Na Câmara dos Comuns não se imagina o processo do lobbying, não há na administração inglesa o spoils system, ninguém pensaria em squaring um tribunal inglês, não há na Inglaterra um trecho de território em que os cidadãos só tenham confiança na justiça que fazem por suas mãos, como nos lynchings americanos. A todos os que têm que tratar com a administração, que estão na dependência da justiça, a organização americana oferece muito menos garantias de eqüidade e menor proteção do que a inglesa.
Isto, por um lado; por outro, quem entra na vida pública tem que procurar nos Estados Unidos as boas graças de indivíduos muito diferentes dos que na Inglaterra abrem aos principiantes as portas da política; além disso, tem que aprender por um catecismo muito mais relaxado. A intervenção do grande pensador, do grande escritor, do homem competente, faz-se sentir na Inglaterra mais do que nos Estados Unidos, onde as massas obedecem a influências que não têm nada de intelectual e não tem apreço por nenhuma espécie de elaboração mental. Tudo o que é superior tem, com efeito, o cunho da individualidade, envolve, portanto, desdém pela sabedoria das massas. O gênio político, qualquer que seja, está para elas eivado de rebeldia. Singularmente, o cidadão vale menos nos Estados Unidos do que na Inglaterra. Para ser uma unidade na política americana, é preciso que o indivíduo se matricule em um partido, e, desde esse dia, renuncie à sua personalidade. Na Inglaterra não há semelhante escravidão do partido. O país é governado, como os estados Unidos, por dois partidos que se alternam e se equilibram, mas os partidos ingleses são partidos de opinião, não são machines, como os americanos, das quais certo número de bosses governam e dirigem os movimentos.
Tomando-se, porém, o indivíduo sem relação ao maquinismo político, o homem que não tem dependências da administração nem da justiça e que denuncia o direito de desgovernar ele também os seus concidadãos, os Estados Unidos são o país livre por excelência. Os americanos são uma nação que quisera viver sem governo e agradece aos seus governantes suspeitarem-lhe a intenção. Daí a popularidade de seus presidentes: eles não fazem sombra ao país, não pesam sobre a nação. A pressão de cima para baixo, do governo sobre a sociedade, a que a humanidade se habituou de tempos imemoriais, de forma a não poder viver sem ela, faz-se sentir nos Estados Unidos menos do que em outra qualquer parte, menos do que na Inglaterra, onde a proteção governamental está sempre presente. A coluna da autoridade é menor sobre os ombros do americano do que sobre os de qualquer outro povo; a sua respiração é a mais franca, a mais larga, a mais profunda de todas. O governo pode ser melhor, mais perfeito na Inglaterra: que lhe importa isso, se o que ele quer é mesmo que a ação do governo se vá cada dia restringindo e ele a sinta menos e tenha menos que ver com ela? A questão é saber se a coluna de autoridade, que é hoje tão leve nos Estados Unidos, não virá um dia a ser a mais pesada de todas. O sistema americano pode bem corresponder, dada a diferença de época e adiantamento, à liberdade pessoal de que gozaram sempre mais ou menos as raças que tinham espaço ilimitado para se estenderem a escassa vizinhança em país novo. No fundo, essa extrema liberdade é uma forma de individualismo, de isolamento, de vida à parte, de responsabilidade ainda não formada, do homem na sociedade. Isoladamente, o americano será, como eu disse, o mais livre de todos os homens; como cidadão, porém, não se pode dizer que o seu contrato de sociedade esteja revestido das mesmas garantias que o do inglês, por exemplo. A autoridade é menor sobre os seus ombros, mas a solidariedade humana é também mais frouxa em sua consciência.
Uma coisa o governo americano não é: não é o governo do melhor homem, como pretendiam ser as democracias antigas. Governo pessoal, as presidências podem ser, pelo menos foram algumas acusadas de o ser; não se pode, porém, apontar neste século o homem de influência nos Estados Unidos, o Gladstone ou o Gambeta americano. A nação dispensa tutores, diretores, conselheiros, rejeita tudo o que pareça patronizing, ares de proteção e condescendência para com ela. Aos seus olhos, o que faz um estadista considerável é a soma de confiança que ele lhe merece, é o reflexo da satisfação que causa o Uncle Sam.
A idéia de que o seu governo é o mais forte do mundo e o que mais economiza e oculta a sua força, é o orgulho por excelência do americano. Entre o militarismo europeu e a democracia desarmada dos Estados Unidos pode um dia rebentar um conflito que hoje parece quase um paradoxo figurar, mas, até se experimentar em uma grande guerra estrangeira, como se provou em uma grande rebelião, a solidez e a elasticidade da americana, não se a pode considerar superior à velha textura européia.
O que se pode dizer é que os Estados Unidos não tiveram ainda os mesmos perigos de que se acautelar do que a Europa. Esse governo que muda todos os quatro anos, pode ser o mais forte do mundo, mas não foi experimentado nas mesmas condições que os outros, e que para estes, que são governos armados e em constante vigia pelo risco das coalizões estrangeiras, como os magníficos transatlânticos, de vastos salões iluminados, cobertas altas, camarotes espaçados e arejados, verdadeiras cidades flutuantes, estão como habitação para os navios de combate.
A União, comparada com a Inglaterra, é como a prairie americana comparada ao pátio interior de um castelo normando. Em uma, há de todos os lados o espaço descortinado, a planície sem fim; em outro, o espectador está fechado por altas paredes, que lhe contam sempre a história de outras épocas. O passado pesa sobre o presente na Inglaterra e o limita; na América, não há vista retrospectiva. De tudo isto resulta para o americano um sentimento de independência, que o faria, como fazia o grego, sentir-se metade escravo, se lhe dessem um rei, mesmo quando efeito da realeza fosse aumentar a sua parte efetiva de direitos e de influência na comunhão. É nisto que consiste a maior "liberdade" americana: no sentimento de igualdade hierárquica entre governantes e governados.
Não havia perigo de que eu adquirisse essa idiossincrasia americana: era evidente para mim que ela era o resultado das condições em que o país crescera e que, se a independência tivesse sido feita com um príncipe inglês, como a nossa foi feita com o herdeiro do trono, os Estados Unidos. em um século de progresso e de adiantamento, teriam desenvolvido para com a sua casa reinante o mesmo sentimento de loyalty dos ingleses. Se a realeza, na Inglaterra, passou, no nosso tempo, pela metamorfose que se observa do reinado de Jorge IV para o reinado de Vitória, teria passado na América do Norte por uma transformação ainda maior. Mr. King ou mrs. Queen seria uma pessoa muito mais popular do que mr. President, e diariamente receberia mais esmagadores shake-hands ou mais familiares cartões postais. No Brasil a Monarquia foi o que vimos, uma pura magistratura popular; como não seria nos Estados Unidos, onde o princípio ativo, a força corrosiva da democracia é ainda mais enérgica? A Monarquia na Nova Inglaterra, teria, provavelmente, exercido maior influência sobre as velhas Monarquias européias do que exerceu a grande República, e outra espécie de influência sobre o resto da América.
Depois da recepção e do acolhimento que d. Pedro II teve nos Estados Unidos em 1876, não era mais lícito duvidar de que para a inteligência culta do país a Monarquia constitucional, representada por uma dinastia como a brasileira, era um governo muito superior às chamadas repúblicas da América Latina. Perante multidões americanas nem sempre conviria, talvez, ao orador dizer isso; ele poderia às vezes declamar que a pior das repúblicas é um progresso sobre a melhor das monarquias, mas eu sentia que falar assim era o privilégio do demagogo irresponsável, e que esse não fora o sentimento dos Washingtons, dos Hamiltons, dos Jeffersons, nem é o dos que procuram seguir-lhes as tradições. O efeito do republicanismo norte-americano só podia ser para mim o de corrigir o que houve de supersticioso no meu monarquismo, tirar-lhe tudo o que parecesse direito divino, consagração super-humana. Entre os dois espíritos, o inglês e o norte-americano, eu não via oposição, como não há oposição entre as duas raças e as duas sociedades; não havia nada mais fácil de compreender e conciliar do que a admiração com que Gladstone fala dos Estados Unidos e a admiração dos escritores mais respeitáveis da América pela Constituição inglesa.
Nenhuma das minhas idéias políticas se alterou nos Estados Unidos, mas ninguém aspira o ar americano sem achá-lo mais vivo, mais leve, mais elástico do que os outros saturados de tradição e autoridade, de convencionanismo e cerimonial. Essa impressão não se apaga na vida. Aquele ar, quem o aspirou uma vez, prolongadamente, não o confundirá com o de nenhuma outra parte; sua composição é diferente da de todos.
Quanto a mim, fui tratado com tanta benevolência, encontrei tão generoso acolhimento nos Estados Unidos, que ainda hoje me reconforto nessas doces recordações. A impressão geral que me deixou o que vi na América do Norte, é uma impressão de nitidez; tudo é nítido, de contorno perfeito e incisivo, como uma medalha antiga. O inglês fará tudo sólido; o francês elegante; o americano procura fazer nítido, clear cut. Isso reconhece-se logo em qualquer estampa americana. Há uma perfeição à parte, que é a perfeição americana, distinta do último toque que o inglês ou o francês dá as coisas, perfeição real, incontestável, como é a japonesa. Pode-se preferir o modo de ver, ou, antes, o modo de olhar - a arte não é no fundo senão um modo de olhar, uma questão de ângulo visual - ,do europeu ao do americano, é também isso em grande parte uma questão de raça, mas não há dúvida que o traço americano é um traço que alcançou, por sua vez, a perfeição. Tudo o que vi me pareceu feito, desenhado com esse traço, que eu não confundiria com outro. O que o distingue é que ele não exprime, como os outros, um estado de espírito ou aspiração de ordem puramente estética; que não exprime uma resolução, uma vontade, um caráter. Se não fosse a aspiração histórica, de que eu não poderia, nem quisera, desfazer-me, nenhuma residência, nenhuma vida, nenhum espetáculo me teria nunca parecido tão encantador como o de Nova York. Não sei se o céu de Nova York não me pareceu o mais belo do mundo; o que sei é que ele derrama em ondas de luz a alegria, a vida, a coragem, sobra a mais admirável procissão de mocidade e de beleza humana que jamais passou diante dos meus olhos, a que flui e reflui todas as tardes e manhãs da Quinta Avenida para o Central Park.
Ao americano, ao homem, não à mulher, e ao homem que não pertence à elite do país, faltará o que se tem convencionado chamar maneiras, os toques ou sinais, desconhecidos dos profanos, pelos quais os iniciados nos segredos mundanos se reconhecem entre si; isto quer dizer somente que a americana é uma raça que ainda está crescendo na mais perfeita igualdade e ganhando a vida em desenfreada competição( Não há, porém, no mundo uma escola igual a essa para se aprender o que, de hora em diante pelo menos, é o mais importante dos preparatórios da vida, - a arte de contar consigo só. O menino americano, e quando se diz o menino nos Estados Unidos entende-se a menina também, é metido desde quase a primeira infância em um banho químico que lhe dá a cada fibra da vontade e rijeza e a elasticidade do aço( Qualquer que seja o valor da cultura, nenhum pai preferirá deixar ao filho mais um sentido intelectual a deixar-lhe o poderoso pick-me-up americano, o cordial que impede a enervação nos grandes transes morais( E que o jogo da vida nos tempos modernos, - muito mais nos séculos que vão vir, em que a concorrência será ainda mais numerosa e implacável, - não se parece com figuras de minuete ou com divertimentos campestres do século passado, como os vemos em um Boucher ou em um Goya; parece-se com as chamadas montanhas russas: é um incessante despenhar a toda a velocidade, montanha abaixo, de trens que com o impulso da descida transpõem as escarpas fronteiras para se precipitarem de novo e de novo reaparecerem mais longe, e para essa contínua sensação de vertigem é principalmente o coração que precisa ser robustecido. Segundo toda probabilidade, os Estados Unidos hão de um dia parar, e então terão tempo para produzir a sua sociedade culta, como os velhos países da Europa. Já nos Estados Unidos porções da sociedade que param e querem permanecer em repouso; essas formam o primeiro indício de uma aristocracia, que um dia será um grande poder na União, uma grande influência ou conservadora ou artística.
Em uma entrevista que concedeu há anos a um repórter americano, Herbert Spencer concluiu com esta previsão sobre o futuro dos Estados Unidos: "De verdades biológicas deve-se inferir que a mistura eventual das variedades aliadas da raça Ariana que formam a população hão de produzir um mais poderoso tipo de homem do que tem existido até hoje, e um tipo de homem mais plástico, mais adaptável, mais capaz de suportar as modificações necessárias para a completa vida social. Por maiores que sejam as dificuldades que os americanos tenham que vencer e as tribulações por que tenham que passar, eles podem razoavelmente contar com uma época em que hão de produzir uma civilização mais grandiosa do que qualquer que o mundo tenha visto".
É possível que seja aquela a lei biológica da mistura ariana, mas até hoje ainda nenhum galho americano de tronco europeu mostrou poder dar a mesma flor de civilização que a da velha estirpe. É possível que a civilização americana venha um dia a ser mais grandiosa do que qualquer que o mundo conheceu, mas eu consideraria perigoso, por enquanto, renunciar a Europa nos Estados Unidos a tarefa de levar a cabo a obra da humanidade. Reduzida esta aos atuais elementos americanos, muita nobre inspiração talvez nunca mais se pudesse renovar e o gênio da raça humana não viesse nunca a reflorir. A educação americana parece a única que não é convencional, que não é uma pura galvanização de estados de espírito de outras épocas, de ideais clássicos e literários, que homens que vivem entre livros insinuam aos que não têm tempo para ler. A idéia tem na América do Norte muito menor papel na vida do que nos outros países, onde tudo está escrito e convertido em regra, e dos quais se pode dizer, invertendo a célebre frase, que nada lhes cai sob os sentidos que não tenha estado primeiro na inteligência. Os americanos, em grande escala, estão inventando a vida, como se nada existisse feito até hoje. Tudo isto sugere grandes inovações futuras, mas não existe ainda o menor sinal de que a elaboração do destino humano ou a revelação superior feita ao homem tenha um dia que passar para os Estados Unidos( A sua missão na história é ainda a mais absoluta incógnita. Se ele desaparecesse de repente, não se pode dizer o que é que a humanidade perderia de essencial, que raio se apagaria do espírito humano; não é ainda como se tivesse desaparecido a França, a Alemanha, a Inglaterra, a Itália, a Espanha.

Capítulo XVIII
Meu pai


Por onde quer, entretanto, que eu andasse quaisquer que fossem as influências de país, sociedade, arte, autores, exercidas sobre mim, eu fui sempre interiormente trabalhado por outra ação mais poderosa, que apesar, em certo sentido, de estranha, parecia operar sobre mim de dentro, do fundo hereditário, e por meio dos melhores impulsos do coração. Essa influência, sempre presente por mais longe que eu me achasse dela, domina e modifica todas as outras, que invariavelmente lhe ficam subordinadas. É aqui o momento de falar dela, porque não foi uma influência propriamente da infância nem do primeiro verdor da mocidade, mas do crescimento e amadurecimento do espírito, e destinada a aumentar cada vez mais com o tempo e a não atingir todo o seu desenvolvimento senão quando póstuma, essa influência foi a que exerceu meu pai...
Quando eu o vi pela primeira vez, em 1857, ele tinha 44 anos e acabava de deixar o Ministério da Justiça. O Gabinete Paraná-Caxias (1853-57) fora o mais longo que o Império até então tinha tido e ficou sendo a mais brilhante escola de estadistas do reinado. O grupo dos "moços" que o marquês de Paraná reuniu em torno de si, mostra de que maneira ele lia os homens e o futuro. Paranhos, Wanderley, Pedreira, Nabuco estavam todos destinados a representar primeiros papéis em política. Esse gabinete foi conhecido como o Ministério da Conciliação. Ele correspondia ao pensamento, aceito pelo imperador depois do choque da última guerra civil do Império, de abrir a política aos elementos liberais proscritos, sem tirar a direção dela ao espírito conservador. Antes de entrar para o Ministério, fora Nabuco quem melhor definira o alcance e os limites dessa nova política, da qual devia ficar depois da morte de Paraná, e por muito tempo, quase que o solitário continuador. Citarei em trecho desse seu discurso de 1853 como simples deputado, discurso-programa, pode-se dizer, pelo muito que será interpretado e invocado depois que por ele é feito ministro, porque basta esse trecho para dar idéia do seu modo de insinuar nos espíritos uma direção nova, um rumo diverso do que se ia levando.
É dos seus discursos o chamado a ponte de ouro. Os discursos de Nabuco tinham entre os contemporâneos cada um o seu nome, ou, como esse, tirado pelos adversários do alcance, da intenção que lhe atribuíram, ou dado pela imagem ou frase mais expressiva, ou compreensiva, de que ele se serviria para caracterizar a situação. "Eu entendo, dizia ele falando da idéia de conciliação, a qual estava no ar, que é preciso fazer alguma concessão no sentido que o progresso e a experiência reclamam, para que mesmo o orgulho e o amor-próprio não se embaracem ante a idéia da apostasia; para que a transformação seja explicada pelo novo princípio, pela modificação das idéias. A conciliação como coalizão e fusão dos partidos, para que se confundam os princípios, para que se confundam os princípios, para que se obliterem as tradições, é impraticável, e mesmo perigosa, e por todos os princípios inadmissível; porque, destruídas as barreiras do antagonismo político que as opiniões se opõem reciprocamente, postas em comum as idéias conservadoras e as exageradas, estas hão de absorver aquelas; as idéias exageradas hão de triunfar sobre as idéias conservadoras; as idéias exageradas têm por si o entusiasmo, as idéias conservadoras somente à reflexão; o entusiasmo é do maior número, a reflexão é de poucos; aquelas seduzem e coagem, estas somente convencem... A história nos diz que nestas coalizões a opinião exagerada ganha mais que a opinião conservadora..." E em seguimento: "Ouvi com repugnância uma idéia proferida nesta casa, que os partidos por si é que se deviam conciliar. Entendo ao contrário que a conciliação deve ser a obra do governo e não dos partidos, porque no estado atual, se os partidos por si mesmo se conciliarem, será em ódio e despeito ao governo, e a transação, versando sobre o princípio da autoridade, não pode deixar de ser funestíssima à ordem pública e ao futuro do país..."
Esses quatro anos de Ministério foram para ele extremamente trabalhosos, mas por igual fecundos. Meu pai vinha da magistratura e da Câmara com uma reputação feita de jurisconsulto. No Ministério da Justiça ele a consolidou. Não tento agora um resumo de sua obra, que extensamente recompuz em Um Estadista do Império. Escolho alguns traços somente para definir a sua individualidade e a sua influência. Coube-lhe em primeiro lugar acabar inteiramente com o tráfico de africanos que Eusébio de Queiroz, seu antecessor, ferira de morte, mas que não queria desaparecer senão mui lentamente; a menor fraqueza da parte de uma futura administração fá-lo-ia renascer com dobrada ânsia de aproveitar a monção, porque seus quadros e material conservavam-se intatos no Brasil e em África. Nabuco propõe como recurso extremo tirar-se o julgamento do crime aos jurados. Esse golpe na "instituição popular" parecia uma enormidade aos idólatras do preconceito liberal: ele, porém, sustentou-o com razões de uma coerção moral e social absoluta. "Em 1850, vós o sabeis, disse ele à Câmara, o grande mercado dos escravos era nas costas; é aí que havia grandes armazéns de depósito onde todos iam comprar; mediante essa lei de 5 de setembro de 1850", - a lei de Eusébio de Queiroz, - "essas circunstâncias se tornaram outras, os traficantes mudaram de plano. Apenas desembarcados os africanos são para logo, por caminhos impérvios e por atalhos desconhecidos, levados ao interior do país. A face destas novas circunstâncias que pode o governo fazer com a lei de 4 de setembro de 1850, cuja ação é somente restrita ao litoral? Se desejamos sinceramente a repressão, se não queremos sofismá-la, devemos seguir os africanistas em seus novos planos... Não é para abusar que o governo quer estas disposições, porque para abusar eram bastantes e poderosos os meios que estão hoje à sua disposição... Um governo, a menos que desconheça a sua missão, não pode por amor de um interesse comprometer os outros interesses da sociedade: é na combinação de todos eles que consiste o grande problema da administração pública... Eu vos disse que o governo tinha o desejo sincero de reprimir o tráfico e não queria sofismar a repressão: não será sofismar a repressão o encarregar ao júri o julgamento deste crime?... Os africanistas não hão de deixar de procurar para o desembarque aqueles sítios em que a opinião for favorável ao tráfico; não hão de internar os africanos senão para os lugares em que acham proteção, e o júri desses lugares, os cúmplices, os interessados, os coniventes no crime, podem julgá-lo?..." O governo triunfou, a lei proposta foi votada pelas Câmaras... Ter ousado propor a derrogação da competência do júri quando o tráfico estava expirante, era a coragem do verdadeiro homem de Estado, cuja divisa deve ser o nil actum reputans de César. A glória não seria mais de repressão depois do golpe de Eusébio; este a tinha tirado toda a antecessores e sucessores igualmente; o que restasse a quem viesse depois dele era somente o dever. Mais de uma vez meu pai teve que fazer frente aos defensores teóricos da intangibilidade do júri para fazer triunfar o princípio superior da defesa social. Assustava-o a estatística da impunidade, e entre as causas desse estado de coisas ele contava o poderio das influências do interior que dominavam o júri e por esse meio aumentavam e mantinham em obediência a sua vassalagem. Como remédio propunha a concentração do júri nos lugares povoados bastante para terem uma opinião independente.
Essa era a sua qualidade principal de político: adaptar os meios aos fins e não deixar periclitar o interesse social maior por causa de uma doutrina ou de uma aspiração. Como se mostrou com o júri, mostrou-se, ele, magistrado, com a magistratura. A distribuição da justiça foi um de seus maiores empenhos na ordem administrativa, uma boa magistratura, eficiente, instruída, prestigiada, era para ele a solução de metade dos nossos problemas; levantar a vocação de juiz por todos os meios ao alcance do Estado seria o complemento do seu outro desideratum: levantar a vocação religiosa, formar um clero a cujas mãos se pudesse entregar a guarda dos dez mandamentos, o depósito da moral e dos costumes. No entanto será ele o principal sustentador das aposentadorias forçadas de magistrados vitalícios; ele quem transformará em máxima do governo, em aspiração para os homens de Estado, as palavras de um antigo chanceler francês, quando disse: "Prefiro mil vezes ser julgado por um magistrado venal, porém, capaz, a sê-lo por um magistrado honesto, porém, ignorante, porque o magistrado venal não faltará à justiça senão nas causas em que tiver interesse em fazê-lo, enquanto que o magistrado ignorante só por um mero acaso pronunciará uma boa sentença".
Da mesma forma com o clero. Como ministro da Justiça, ele dá um forte impulso à educação do clero, propõe a criação de faculdades teológicas; é dele o decreto que confere aos bispos o poder ex-informata conscientia sobre os seus sacerdotes, sem o qual não seria praticável a arregimentação passiva da milícia eclesiástica; e no entanto é ele quem interrompe no Brasil o noviciado monástico. Seu pensamento, longe de se suprimir as ordens religiosas, era regenerá-las, restituí-las à desejada pureza, ou, como ele disse em uma frase que se gravou na memória de Pio IX, "levantar um muro de bronze entre o novo e o velho clero". Assim também serviu a Monarquia com lealdade e desinteresse; jovem ainda, acadêmico de Olinda, partiu dele o primeiro grito ouvido e repercutido no Norte contra as tendências republicanas de 7 de abril, mas a prerrogativa monárquica não encontrou entre nós mais forte barreira do que fosse o seu espírito liberal fortemente imbuído do preconceito constitucional. É característico do seu modo de compreender a posição de conselheiro de Estado a franqueza com que perante o próprio imperador ele sustenta máxima, - o rei reina e não governa.
De 1868 a 1871, em que a idéia foi abraçada pelo visconde do Rio Branco que a converteu em lei, meu pai foi o principal agitador da libertação das gerações futuras. Em 1866 ele votara por essa reforma em despacho de ministros e em 1867 fora o seu mais extremo defensor no Conselho de Estado, como relator do projeto que depois se converteu na lei de 28 de setembro. Distribuindo no dia da vitória os louros do triunfo. Francisco Octaviano render-lhe-á este tributo: "Ao seu nobre colega o sr. Nabuco de Araújo também é indisputável a glória pelo zelo com que no Conselho de Estado, na correspondência com os fazendeiros e na tribuna por meio de eloqüentes discursos, fez amadurecer a idéia e tomar proporções de vontade nacional".
Essa foi a reforma a que ele se dedicou com maior interesse e amor... Também desde 1866 o meu sonho, minha ambição para ele era que o seu nome ficasse associado ao primeiro ato de emancipação do reinado... Quantas cartas minhas escritas da academia, e conservadas, como ele fazia com todos os papéis que recebia, encontrei depois exprimindo aquela esperança íntima de que ele viesse a ser o Lincoln brasileiro! E de certo de sua carreira nenhum traço me é mais precioso do que esse que reconstruí com fidelidade em sua Vida e que faz dele, assim como Rio Branco foi o Robert Peel, o Cobden daquele primeiro movimento abolicionista. Assim, se ao entrar eu para a Câmara em 1879 ele vivesse ainda, ao passo que sua presença no Senado, modificaria em muita coisa a minha "liberdade de ação, em um ponto, tenho a mais completa certeza, o meu papel teria sido o mesmo, ainda mais acentuado: na questão dos escravos. Nessa ele não me corrigiria nem me conteria. A sua atitude seria, como havia de ser a de Rio Branco se assistisse a mais uma sessão legislativa, francamente favorável à abolição. Se um e outro vivessem, o caráter revolucionário do movimento teria talvez sido evitado, porque em ambos os partidos haveria no momento decisivo - depois foi tarde -, quem se identificasse com a propaganda, impedindo assim no futuro a aspiração liberal humana de tornar-se em fermento político... Eu não tenho, graças a Deus, dúvida que esta seria a sua atitude, e posso assim dizer que em 1879 não fiz como deputado senão continuar do ponto em que ele ficara, substituir-me a ele, com a diferença natural entre minha mocidade e sua velhice, desenvolvendo em favor dos escravos existentes o pensamento que ele assinalara como um dever nacional, tanto no preparo como na discussão da lei que libertou as gerações futuras.
Para o fim da vida seu liberalismo tinha tomado um tom muito acentuado, mas era sempre sob formas concretas que ele encarava a liberdade. Assim ocupava-se sobretudo das garantias judiciais da liberdade individual. Ele tinha um certo número de fórmulas constitucionais, de máximas políticas, que faziam parte de sua lealdade tanto à causa monárquica como à causa liberal. Conservador na mocidade e em toda a parte da carreira em que a vida se expandia e a emulação o inspirava, foi na idade do retraimento que ele rompeu com o partido da tradição, que a seu ver se tornara uma oligarquia, tomando a forma de um triunvirato; chefe liberal, porém, mostrou sempre preferir a maneira, o compasso, a compostura da velha escola à lufa-lufa, promiscuidade e indisciplina do seu novo campo.
Estes traços bastariam para desenhar o homem de Estado: era uma natureza liberal, com um impulso imaginativo muito pronunciado, vendo distintamente o ideal político, mas querendo realidades e não fantasmas, preferindo um pouco de liberdade que se pudesse deixar como a herança aos filhos, um bem-estar relativo, a grandes direitos ilusórios, em cuja posse não se pudesse entrar; ou a grandes reformas do mecanismo político que em nada melhorassem a condição do país. Tinha um fundo de idealismo, formado de princípios inflexíveis, mas corrigido sempre pela intuição nítida dos efeitos práticos da lei. Era um chefe de partido alheio à pequena política, o que quer dizer que exercia uma espécie de autoridade moral que os amigos e adversários compararam por vezes ao poder espiritual dos antigos mikados.
Vivendo no meio de uma elite verdadeiramente notável de homens de Estado, oradores, legisladores, a mais rica dos dois reinados em talento parlamentar, tradições políticas e conhecimentos administrativos, ele teve longo tempo entre eles por admissão geral o papel de oráculo. Para o fim falava raramente e uma tristeza invencível misturava-se às suas adivinhações patrióticas. Hoje dir-se-ia, lendo-o, que a uma distância de doze ou quinze anos o fim das instituições liberai projetava na frente a sua sombra e que ele a via avançar sobre a tribuna do Senado.
Foi muitos anos depois e sua morte, estudando-lhe a vida, meditando sobre o que ele deixou do seu pensamento, compulsando o vasto arquivo por ele acumulado, a sua correspondência política, os testemunhos, as controvérsias, suscitadas pela sua ação individual e as conseqüências a ela atribuídas por amigos e adversários, que abrangi a personalidade política de meu pai. Na mocidade ser-me-ia impossível ter dele a compreensão que depois formei; eu não teria as faculdades para isso, a calma necessária para admirar o que só fala à razão, o espírito de sistema, o gênio construtor. Mas se o estadista só podia ser medido e avaliado por mim em outra fase do meu desenvolvimento, não sofri, toda a vida, influência direta e positiva como a admiração que tive pelo homem. Sua grande ciência eu sabia bem, eu via, estar nele e não nos livros, que literalmente não eram senão autoridades de que ele se servia para o público, juízes, colegas... Mais, porém, do que sua ciência, o que me dominava nele era a harmonia visível da sua estrutura mental e moral, manifestada por uma serenidade e uma doçura sem igual.
Em 1860 meu pai mudou-se do Catete para a praia do Flamengo, onde residiu até a morte. A casa era uma dessas construções maciças ainda do bom tempo da edificação portuguesa do Rio de Janeiro, com proporções no interior de um trecho de palácio ou de convento. Ali, naqueles salões, e quartos que eram salas, ele estava à vontade, tinha o espaço e, com o mar em frente de suas janelas, a variedade e o movimento exterior, precisos a um recluso dos livros. A sociedade do Rio de Janeiro vinha às suas partidas e recepções; vizinhos, nos domingos, à missa rezada em seu oratório; durante a sessão das Câmaras, deputados pernambucanos, e sempre os íntimos, como o marquês de Abrantes, Quarahim, os antigos colegas. Isto, além das vezes que ia de carruagem ao Senado ou ao escritório, constituía toda a distração que ele tinha fora do seu gabinete. Sua vida, pode-se dizer, era exclusivamente cerebral, e nunca teve tempo, (nem um dia, talvez, em toda ela), de interromper, de suspender, essa labor contínuo, que era todo ele um serviço forçado, nenhuma parte, nem a mais insignificante sequer, sendo de sua própria escolha ou inclinação...Desse modo de viver, encerrado entre altas muralhas de livros, saindo da sua cela somente para se encontrar em presença da família com os que a simpatia ou a fidelidade reunia em torno dele, resultou aquela bondade cativante, que foi o seu principal traço.
É para mim hoje uma causa de arrependimento e compunção o não ter tido como principal aspiração saciar-me, saturar-me dele, fazer do meu espírito uma cópia, um borrão mesmo, do que havia impresso e gravado no dele, quando mais não fosse, das notações que um instante retive, mas deixei apagar... Há lacunas que não me seria possível reparar...Estou-me lembrando agora dos grandes volumes encadernados que faziam companhia no degredo do escritório à duplicata dos velhos praxistas...Era a coleção dos periódicos em que colaborara ou que redigira no Recife... Estavam ali vinte anos de sua vida...Toda essa série dispersou-se, desapareceu... Porque não coincidiu o interesse profundo, incomparável, que tudo isso depois me inspirou com o tempo em que vivi ao lado dele? Este desejo de recolher os menores vestígios do seu pensamento, os traços mais fugitivos da sua reflexão, eu sempre era, na esfera em que ele produzia, pessoal, criadora, transformadora do assunto que tratava, só me veio quando já não podia recorrer a ele, pedir-lhe esclarecimentos, fazê-lo animar para mim aquela poeira com a vida que estava só nele, dar-me a chave, o espírito da época, o caráter, o alcance, a verdade real do que ali se representava, e de que só ele possuía as limitações, a escala, o padrão definitivo em que tudo devia ser tomado...E em relação aos personagens que conhecera, com quem vivera! Porque não fiz passar diante dele, sem cansá-lo nem forçá-lo, a galeria dos seus contemporâneos para apanhar o vestígio que lhe ficara de cada um?... No entanto, quanto não conversei com ele! Anos inteiros meu maior prazer eram as horas que ele nos dava cada dia em que me embebia em ouvi-lo e, ainda mais, em vê-lo... Hoje sinto não ter tido a ambição de não ser senão o aparelho que recebesse para conservar o mais que fosse possível dele, e cuja presença continua ao seu lado lhe fosse recolhendo as reminiscências, os pontos de vista, as imagens representativas, em cinqüenta anos de atividade cerebral traçaram em seu pensamento.
Feito este ato de contrição pelo que deixei de aproveitar dele para minha própria formação e pelo que deixei perder ao seu espólio intelectual, a verdade é que nenhuma sanção moral foi por muito tempo tão forte para mim como a consciência da relação que me prendia a ele e que em todo o tempo estive sempre pronto a renunciar a uma palavra dele - que a não disse -, a minha inspiração pela sua, o papel que eu ambicionasse pelo que ele me desse. Como eu disse, só muito mais tarde, vinte anos depois de o ter visto pela última vez, pude avaliar o que chamo hoje o seu gênio político e sentir por ele toda a admiração consciente, objetiva, de que sou capaz. Mas ainda assim o sentimento da sua superioridade no seu tempo foi para mim instintivo. Longe dele, na minha esfera intelectual independente, eu exprimiria muitas opiniões, diversas das suas, teria muito exagero da linha que ele levava; não haveria hipótese, porém, de não ceder eu à menor pressão que ele julgasse preciso exercer sobre mim, a uma persuasão que me quisesse incutir. A pretensão da mocidade, que se inspira em si mesma e decreta a sua infalibilidade, porque só vê o lado das coisas ao seu alcance, desapareceria sem hesitação a um apelo da sua ternura, a um toque da sua razão superior. Prouvera a Deus tivesse sido assim nos primeiros anos da curiosidade intelectual insaciável, quando primeiro travei conhecimento com a terra incógnita assinalada no mapa da fé como o limite da própria imaginação.
O espetáculo da sua devoção concorreu mais do que nenhuma outra influência para conservar durante anos intacta a minha crença; depois esta passou por grandes abalos, mas aquela impressão predominante fez-me sempre tratar o que me parecia essencial na religião como a esfera superior ou a fonte mais elevada da inspiração humana... Alguma vez, entretanto, pensando nele e na sua grande autoridade sobre mim, não deixei de sentir a vantagem que os espíritos emancipados se atribuem em relação aos que nunca saíram da fé. Era no tempo em que eu perguntava a mim mesmo se um homem, mesmo tendo o gênio de um Santo Tomás de Aquino, podia ser chamado superior, se não tinha, em nosso século, outro horizonte intelectual senão o da revelação... Talvez pensasse eu então como consolo que meu pai também tivera dúvidas que não deixava perceber, ou que tinha voltado à fé como uma síntese já pronta da vida humana em todas as suas relações depois de ter debalde procurado construir outra por si mesmo. Só mais tarde alcancei compreender que a inteligência pode trabalhar até ao fim inteiramente alheia aos graves problemas religiosos que confundem o pensador que os quer resolver segundo a razão, se nenhum choque exterior veio perturbar para ela a solução recebida na infância. A dúvida não é sinal de que o espírito adquiriu maior perspicuidade, é às vezes um simples mal-estar da vida. Uma existência ocupada por grandes trabalhos pode não ter um momento para dar à dúvida religiosa. Se não é exato dizer que a dúvida nunca ajudou nenhum dos grandes gênios da humanidade no traço ou no aperfeiçoamento de sua obra, o número dos que ela assistiu é seguramente pequeno comparado ao dos que não precisaram de um sopro de negação para os inspirar e souberam criar, crendo. Uma coisa pelo menos é certa, a saber, que as faculdades criadoras devem estar solidamente construídas para que a dúvida não as faça produzir uma obra menos considerável ou menos bela do que o faria a fé. A dúvida pode ser o indício de um novo destino humano, o esboço de uma inteligência ainda por vir, mas ela levará muito tempo para chegar a formar um sentido superior à religião. As minhas idéias sobre o que constitui a superioridade intelectual mudaram felizmente muito desde esse tempo em que eu procurava pretextos para atribuí-la a espíritos destituídos da faculdade da dúvida, mas que em tudo mais me impunham admiração, como meu pai. Eu tomaria por vezes então um literato, um escritor, como superior a um desses pensadores ásperos, cuja idéia só se pode colher depois de quebrar o invólucro resistente que a protege. É como se a flor que dura uma manhã devesse ser a última expressão do mundo vegetal da preferência ao cedro milenário, pai da floresta.

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