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MINHA FORMAÇÃO
Joaquim Nabuco



Capítulo XV
O meu diário de 1877


Parei ainda alguns trechos do meu diário dos Estados Unidos; não são tanto impressões americanas que pretendo reproduzir, já antes o disse, como o meu modo de sentir naquela época:
"20 de junho. Hoje foram enforcados 11 criminosos de uma associação da Pensilvânia, os Molly Naguires. Onze pessoas enforcadas em um dia no Brasil! Quantos discursos isso não daria na Câmara dos Deputados? Aqui só faz vender maior número de extras dos jornais".
"Junho, 8. Há duas espécies de movimento em política: um, de que fazemos parte supondo estar parados, como é movimento da terra que não sentimos; outro, o movimento que parte de nós mesmos. Na política são poucos os que tem consciência do primeiro, no entanto esse é, talvez, o único que não é uma pura agitação."
"Julho, 8. A temperatura moral do futuro, a julgar pela americana, deve ser muito baixa. O sentimentalismo resfria aqui diariamente. A Inglaterra é um forno em comparação."
"Junho, 26. A França parece-me a casa de Ulisses cheia de pretendentes a consumirem entre si a fortuna de Telêmaco, à espera que Penélope se decida por um deles. Cada um está certo de ser o preferido e, enquanto ela pede a Minerva que acabe com os seus insuportáveis perseguidores, eles continuam a devorar os bois e os carneiros, repetindo: 'Não há dúvida que ela se está preparando para o casamento'. Infelizmente não parece provável que Ulisses volte para exterminá-los e tomar conta da casa."
Essa nota é, quase, puramente literária. Ulisses aí era o conde de Chambord, e os pretendentes os partidos que arrastavam a França, depois da derrota nacional, talvez para a guerra civil. Eu pensava escrever um ato, intitulado Os Pretendentes, com a idéia do arco de Ulisses. Era, como o drama de que falei, um caso da falta de coincidência que se dava em mim, entre a imaginação literária e a simpática política.
Há outras notas, com relação aos Pretendentes. Em 16 de julho:
"O conde de Chambord representa a teoria de que a política é uma arte religiosa, e um reinado uma espécie de monumento das crenças de uma época. A concepção de que governar é um ato religioso, como o de confessar, e tem um fim religioso, destrói toda liberdade de pensamento. Um homem pode fazer da sua vida uma forma de arte, mas não da vida de todo mundo, que quer viver a seu modo. A política, se é uma arte, não é arte ascética, religiosa - nem mesmo no seu período hierático. A política, arte religiosa, converte em crime de sacrilégio o menor ato de liberdade individual."
Em 30 de julho: "Estive a pensar nos Pretendentes. O appel au peuple é feito pelo candidato respectivo às rãs, e a prova real é tirada por outro, que apela também para elas. A tudo elas respondem: couac".
"Julho, 5. A posição do presidente Hayes é a mais singular que já se viu neste país. Ele chegou ao poder por fraudes eleitorais sem exemplo, empurrado até a Casa Branca pelos carpet-baggers do Sul e wire-pullers do Senado, depois de uma campanha de que os empregados públicos fizeram os gastos: deve, assim, a sua eleição, ou, melhor, o seu posto, a um sem-número de politicians de todos os matizes, desde os fabricadores de atas falsas até os juízes da Corte Suprema, que as apuraram. Chegando ao poder, porém, tem vergonha de tudo isso e torna-se ele o representante da pureza administrativa e eleitoral. Os últimos carpet-baggers do Sul, com a amputação da membrana que os ligava ao presidente eleito com eles e por eles, desaparecem para sempre da cena política. Os politiquistas são enxotados, os senadores snubbed; os empregados públicos, senhores da máquina eleitoral e que se cotizavam para a eleição solidária, intimidados a mudar de vida e a não subscrever mais um cent. De tudo isso se conclui que Hayes, assim como não quer outra vez ser eleito, entende que ninguém mais deve ser eleito presidente como ele foi. Poucos homens teriam feito tão bom uso de um poder tão mal adquirido. Isto resgata quase a falta de coragem cívica que o levou a aceitá-lo."
"Julho, 19 e agosto 9. Não se pode dizer deste país que tenha ideal. É o país prático por excelência, e que tem a admirável qualidade, se bem ou mal, governa-se a si mesmo. Não lhe falta manhood, mas tudo nele preenche um fim material. O americano é, acima de tudo, um homem positivo, em cuja vida a metafísica tem pequena parte, reconhece a cada instante que a vida é um business, que é preciso um lastro para não afundar nela; põe a arte, a ciência, a cultura, a polity, depois do que é essencial, isto é, do dollar, indo sempre ahead como a locomotiva, tratando a mulher com o maior respeito, mas na vida prática como uma obstruction, por isso entregando-a a ela mesma, ambicionando, acima de tudo, a riqueza de um grande operator de Wall Street, depois a influência de um boss, insensível à inveja, à má vontade, ao comentário, a tudo o que em outros países emaranha, complica e, às vezes, inutiliza grandes carreiras; nunca procurando o prazer para si, dando-os aos hóspedes em sua casa, como se dão brinquedos às crianças, superior às contrariedades, sóbrio de dor, calmo na morte dos seus, e tratando a própria apenas como uma questão de seguro... 'A vida privada' aqui é apenas uma expressão conservada do inglês. Todo o homem é um homem público, e ele todo."
São impressões de simples transeunte. Eu hoje não escreveria dos Estados Unidos que é uma nação sem ideal; diria que é uma nação cujo ideal se está formando. Assim como o inglês trata de adquirir fortuna e independência antes de entrar para a Câmara dos Comuns, dir-se-ia que a nação americana trata de crescer, de povoar o seu imenso território, de chegar ao seu completo desenvolvimento, her full size, para depois fazer falar de si e pensar no nome que deve deixar. Até hoje os Estados Unidos têm feito vida à parte e se tem ocupado de si só; mas um país que caminha para ser, se já não é, o mais rico, o mais forte, o mais bem aparelhado do mundo, tem, pela força das coisas, que ligar a sua história com a das outras nações, que se associar e lutar com elas."
"Agosto, 18. Gladstone, por ter atendido às reclamações da guerra civil, é ainda mais impopular no Sul do que na Inglaterra entre os governadores. O tempo em que se assinou o tratado de Washington, era entretanto para o estrangeiro, de perfeita unificação americana. Há entre o Norte e o Sul mais que uma desinteligência política, há reserva tácita de uma má vontade hereditária, um estado de guerra latente.
O que torna os dois grandes partidos nacionais coligações acidentais e impossibilita a unidade de vistas em cada um deles, é a divergência dos interesses dos Estados de Leste, dos pagamentos em ouro e do resgate do papel, com a política dos Estados do Oeste, dos green-backs; e o Partido Republicano tem que harmonizar a política de intervenção de Grant com a política de Hayes de completo self-government para os Estados do Sul."
"Julho, 25. As cenas destes últimos dias (a parede das estradas de ferro) dão muito que pensar... Victor Hugo diz que o culpado de terem os comunistas pegado fogo a Paris é quem não lhes ensinou a ler. Cada um dos incendiários, porém, era provavelmente assinante do Rappel. Que povo calmo, o americano! A grande excitação de que se fala, não passa de uma conversa particular do bar-room de um hotel. Nova York está, talvez, a ponto de se tornar o teatro de um riot amanhã, e as autoridades concedem um parque aos comunistas para o seu meeting. tudo fraterniza: a tropa com os strikers, grevistas, os citizens com a mob, e ninguém perde a calma. O pessimista francês não existe neste país de otimistas que dizem sempre: Não haverá nada, e se há: 'Isto passa logo', e se dura: 'Podia ser pior'. A barba do vizinho, de que fala o ditado, não se entende aqui de cidade a cidade, nem de bairro a bairro, mas quase de casa a casa. Os próprios que perdem tudo não acham meio de queixar-se senão de si mesmos."
"1º de setembro. Há poucos homens em política que prefiram cair por seus princípios a sofismá-los para ficar de pé. O ministro que sustenta a preeminência da Câmara dos Deputados, procurará, se a Câmara lhe for contrária, provar que ela não representa o país e apoiar-se na Câmara alta. Durante o Império, Gambetta não falaria do sufrágio universal com o entusiasmo de hoje, e nenhum bonapartista se submeteria agora, como sob os Napoleões, a um apelo ao povo. No fundo só há duas políticas: a política de governo e a política de oposição."
"Setembro, 8. Bradley, o juiz da Corte Suprema, que de fato fez a Hayes presidente, tendo sido atacado pelos jornais democratas e acusado de ter mudado de opinião depois de ouvir os diretores do caminho de ferro do Pacífico, entendeu dever justificar-se pela imprensa. Nessa justificação, admitindo a possibilidade de ter expressado a seus colegas durante o processo uma opinião diversa da que deu, ele conta que escrevia razões ora em um sentido, ora em outro, sobre o voto da Flórida, tendo chegado ao voto que deu, depois de muita dúvida. Esta carta a um jornal de Nova York é curiosa em muitos pontos de vista. Um juiz que vacila, que chega a conclusões diferentes durante muitos dias, deveria considerar definitiva a opinião que ocasionalmente predomina em seu espírito no momento de ser tomado o voto? Não será provável, pelo menos possível, que ele mude ainda de juízo, depois de emitido o seu voto, isto é, de irreparável? Por outro lado, essas dúvidas não provarão a sinceridade do processo lógico de investigação, e poder-se-á exigir do juiz que tenha, desde o começo de uma causa, opinião formada: A vacilação quadra menos com a distribuição da justiça, a qual deve sempre proceder de uma convicção inabalável e inabalada, do que a obstinação, que muitas vezes é falta de percepção e exclusivismo de juízo. Quanto à força que a reflexão posterior tem dado em seu espírito ao voto que emitiu, é esse um fenômeno de assentimento de consciência, muito comum na magistratura. Cometido o erro, a inteligência o toma como verdade, porque é o interesse do bom nome do juiz."
"Setembro, 4. Thiers morreu ontem. Por toda a parte a notícia vai produzindo a mesma impressão. Pobre França! é o que se exclama. A perda é irreparável. O leme fica sem homem. A confiança que a Europa toda tinha no velho conselheiro da França não acha a quem se entregar... O último em França dos grandes homens do passado não nomeou sucessor..."
"Setembro, 11. Muito se tem dito sobre as mudanças de Thiers. Quando se procura saber por que esse pequeno marselhês, nascido pobre, sem família, exposto ao ridículo e ao desdém dos seus competidores aristocratas, atravessou tantos governos diversos, sem nunca perder a sua importância política, até vir a ser, na extrema velhice, o Libertador do Território, encontra-se a explicação dessas mudanças. Quando tantos homens de talento, caráter, fortuna e prestígio social representavam o seu papel em um regime e desapareceriam, Thiers era sempre contado como um poder político. Foi seu destino fundar e destruir governos, mas não se pode acusá-lo de se ter divorciado da França em nenhum desses momentos. Mudou sempre com o país. A sua grande mudança final de monarquista para republicano coincidiu com o seu interesse pessoal como primeiro presidente da República, mas coincidiu também com a conversão das classes médias, não ao princípio republicano, mas à idéia de que só a República era possível. Sempre a França, nos seus movimentos liberais, o encontrou ao seu lado. Durante o Império, ele fez uma oposição patriótica, que teria, talvez, evitado Sedan e conservado a dinastia, se o não considerassem orleanista. Quando concorreu para colocar Luís Filipe no trono, o pensamento era que uma Monarquia republicana dispensava a República. A fraqueza da Monarquia de 1830 foi que o princípio da hereditariedade a minou desde o começo. Luís Filipe destruiu o direito divino para subir, e depois, quis servir-se dele para durar, transformando-o em bom senso, princípio de autoridade etc. O que faz a unidade da carreira de Thiers, é que ele foi sempre pelo governo parlamentar, pelo direito popular representado nas assembléias legislativas. Por esse princípio renunciou à presidência da República em mão suspeitas. O segredo da sua fortuna política consistiu em guardar fidelidade à França.
Muitas vezes um país percorre um longo caminho para voltar, cansado e ferido, ao ponto donde partiu. É possível que a França volte ainda à Monarquia legítima, e se Thiers tivesse vivido mais tempo e a República trouxesse novas desgraças para a França, como a Comuna, talvez fosse o mesmo Thiers quem entregasse a França ao herdeiro dos seus reis. Mesmo assim, quando a França comparar os dois tipos de estadistas; Berryer, que não mudou nunca, fosse por uma convicção monárquica sempre renovada, fosse por um cavalheirismo digno do seu caráter, e ficou sempre no mesmo lugar à espera de que a França voltasse aí, e Thiers, que a acompanhou nas suas vicissitudes, eu acredito que ela se reconhecerá a si mesma no homem que encontrou sempre como seu conselheiro, que por vezes mudou para ficar ao lado dela e poder valer-lhe com a sua consumada experiência nos dias em que viesse a precisar de uma palavra amiga."
Ao reler hoje esta página do meu diário de 1871, vejo que a minha explicação da unidade da carreira política de Thiers se parece muito com a que, há alguns anos, foi publicada de Talleyrand, justificando-se em suas Memórias de só ter mudado com a França e por causa da França.
Esses trechos mostram que em Nova York eu não me achava sob influência americana, mas que continuava em mim a influência européia e eu era o espectador, que tinha sido em Londres, quase desinteressado da política, desinteressado pelo menos de toda a política que não pudesse converter em assunto literário, ou em nota crítica e observação. Agora direi a minha impressão geral dos Estados Unidos, o que é hoje a minha idéia da democracia na América.


Capítulo XVI
Traços americanos


Dos Estados Unidos não vi senão muito pouco, como da Inglaterra, por isso as impressões que reproduzo devem ser entendidas como impressões de Nova York e Washington, quase exclusivamente. Por uma circunstância fortuita pude ficar em Nova York quase todo o tempo que passei na legação do Brasil. O meu ministro, o barão de Carvalho Borges, de quem conservo a mais grata recordação, estava de luto, por isso ausentara-se de Washington e vivia em Nova York, incógnito, ao contrário de outros colegas seus, contra cujo realce aos bailes e recepções da Quinta Avenida os jornais de Washington em vão reclamavam. Além das duas grandes capitais da União, a política e a cosmopolita, conheci somente Filadélfia, durante o centenário, Saratoga, durante uma Convenção Nacional, e Niagara e Boston, que me fizeram perder Newport. A idéia, porém, que tenho é que fizeram quem viu Nova York e Washington viu tudo que há que ver nos Estados Unidos, excetuando somente as poucas cidades a que se podem chamar cidades históricas, que têm o cunho das suas tradições próprias. Quem viu Buffalo, St. Louis, S. Francisco, Chicago, não viu porém Nova York, como quem viu Saratoga não viu Newport, ao passo que Boston, Nova Orleans, não têm semelhantes.
Para o engenheiro, para o inventor, para o arquiteto, para todo economizador de tempo e trabalho, para quem admira acima de todos o gênio industrial deste século, os melhoramentos que ele tem introduzido na ferramenta humana, os Estados Unidos são de uma extremidade a outra um país para se visitar e conhecer. É ele, talvez, o país onde melhor se pode estudar a civilização material, onde o poder dinâmico ao serviço do homem parece maior e ao alcance de cada um. Em certo sentido, pode-se dizer dele que é uma torre de Babel bem sucedida. Na ordem intelectual e moral, porém, compreendo a arte, os Estados Unidos não têm o que mostrar, e certa ordem de cultura, toda cultura superior quase não precisa para ser perfeita e completa de adquirir nenhum contigente americano.
Da política, a impressão geral que tive e conservo é a de uma luta sem o desinteresse, a elevação de patriotismo, a delicadeza de maneiras e a honestidade de processos que tornam na Inglaterra, por exemplo, a carreira política aceitável e mesmo simpática aos espíritos mais distintos. O que caracteriza essa luta é a crueza da publicidade a que todos que entram nela estão expostos. Como antes eu disse, não há vida particular nos Estados Unidos. Para a reportagem não existe linha divisória entra a vida pública e a privada. O adversário está sujeito a uma investigação sem limites e sem escrúpulos, e não ele, somente - todos que lhe dizem respeito. Se um candidato à Presidência tiver tido na mocidade a menor aventura, terá o desgosto de vê-la fotografada, apregoada nas ruas, colorida em cartazes, cantada nos music-halls, por todos os modos e invenções que o ridículo sugerir e parecerem mais próprios para captar o eleitorado. A campanha contra Tilden foi feita com uma revelação de que ele tinha uma vez iludido o fisco, a respeito do seu rendimento profissional. O político é entregue sem piedade aos repórteres; a obrigação destes é rasgar-lhes, seja como for, a reputação, reduzi-la a um andrajo, rolar com ele na lama. Para isso não há artifício que não pareça legítimo à imprensa partidária; não há espionagem, corrupção, furto de documentos, intercepção de correspondência ou de confidência, que não fosse justificada pelo sucesso.
O efeito de tal sistema pode ser moralizar a vida privada, pelo menos a dos que pretendem entrar para a política, se há moralidade no terror causado por um desses formidáveis exposures eleitorais, os franceses diriam chantage. A vida política, porém, ele não tem moralizado. A consciência pública americana é muito inferior à privada, a moral do Estado à moral de família.
De certo, nos Estados Unidos, os chamados rings, nós diríamos quadrilhas, roubos políticos, os sindicatos administrativos são denunciados e investigados como não o seriam talvez em nenhum país, o americano não tendo pena dos adversários, julgando-se obrigado para com o seu partido a reduzi-los à condição mais humilhante, a expeli-los um por um, sendo possível, da vida pública. Mas, desde que a corrupção reina nos dois partidos, que ambos têm as suas chagas conhecidos, as suas ligações comprometedoras, todas as campanhas a favor da pureza administrativa têm muito de insincero, de simulado, de convencional, o que não acontece com as investigações da vida privada. Estas, sim, encontram em toda a parte a unidade do sentimento e da educação religiosa do país para ecoá-las. A consciência em voga entre os politicians tem a sua casuística especial.
Isto não quer dizer que na política americana não haja um tipo muito diferente do do politician, ou, como os antigos lhe chamariam, do demagogo; que, ao lado da consciência elástica, insensibilizada para todas as espécies de fraude, de corrupção, de chicana, como males inevitáveis da democracia, não exista a honra, o decoro, a imaculabilidade. Há homens na política respeitados em todo o país, e que ambos os partidos reputam incapazes da menos indelicadeza no que toca à honestidade pessoal. Não há um só, na atividade e na luta partidária porém, a quem se atribua o caráter preciso para repudiar e condenar os seus correligionários ainda nos piores recursos que tiverem empregado. O homem da mais pura reputação no Senado americano votará solido, sempre que se tratar do interesse geral do partido.
Não havia nada que me desse na América do Norte idéia da superioridade de suas instituições sobre as inglesas. A atmosfera moral em roda da política era seguramente muito mais viciada: a classe de homens a quem a política atraía, inferior, isto é, não era a melhor classe da sociedade, como na Inglaterra; pelo contrário, o que a sociedade tem de mais escrupuloso afasta-se naturalmente da política. A luta não se trava no terreno das idéias, mas no das reputações pessoais; discutem-se os indivíduos; combate-se, pode-se dizer, com raios Roentgen; escancaram-se as portas dos candidatos; expõe-se-lhes a casa toda como em um dia de leilão. Com semelhante regime, sujeitos às execuções sumárias da calúnia e aos linchamentos no alto das colunas dos jornais, é natural que evitem a política todos os que se sentem impróprios para o pugilato na praça pública, ou para figurar em um big show.
A grandeza do espetáculo que dão os Estados Unidos é tanto maior, eu sei bem, quanto mais baixo o nível do político de profissão. A degradação dos costumes públicos do país, coincidindo com o seu desenvolvimento e cultura; com sua acumulação de riqueza e de energia, com os seus recursos ilimitados, não quer dizer outra coisa senão que a nação americana não se importa que administrem mal os seus negócios, porque não tem tempo para tomar contas. É como uma fazenda de imensa safra, em que o proprietário ausente fechasse os olhos às dilapidações do administrador, levando-as à conta de lucros e perdas, inevitável em todo gênero de negócios. Os americanos deixam-se tratar pelos seus politicians do mesmo modo que os reis de França pelos seus fermiers-géneraux. Sejam causados pela ignorância e incapacidade, ou pela corrupção e venalidade, prejuízos há de sempre haver em toda administração; para impedi-los seria preciso montar um sistema de fiscalização ruinoso para o país, não só pelo seu custo, como porque seria preciso distrair para ele dos negócios e de outras profissòes o que o país tivesse de melhor.
Que pode acontecer de pior entregando-se o país à direção de partidos organizados como associações de seguro mútuo e que para isso recolhem uma percentagem de rendimento nacional? Uma agravação de impostos? Que importa ao americano pagar mais alguns cents no dólar e não se incomodar com a política? Envolverem os politicians a nação em uma guerra estrangeira? O perigo é muito problemático e a varonilidade do país não teme que o envolvam em uma guerra sem ele a querer e a achar legítima ou vantajosa. O americano sabe que há no seu país uma opinião pública, desde que cada americano tem uma opinião sua. É uma força latente, esquecida, em repouso, que não se levanta sem causa suficiente, e esta raro se produz; mas é uma força de uma energia incalculável, que atiraria pelos ares tudo o que lhe resistisse, partidos, legislaturas, Congresso, presidente.
É nesse sentido um grande espetáculo. O governo tem uma capacidade limitada de fazer mal; a parte de influência e de lucros que a nação abandona à classe política está circunscrita a uma escala móvel, isto é, proporcional ao rendimento público, o que permite à profissão vantagens crescentes e progressivas, mas, como quer que seja, está circunscrita; a nação deixa-se dividir em partidos, forma e manobra em campos eleitorais, e, apesar da massa das abstenções, acompanha os maus administradores dos seus interesses; mas todos sentem que de repente a opinião pode mudar, tornar-se unânime, adquirir a força de um impulso irresistível, destruir tudo. Nos Estados Unidos o governo não tem assim a importância que tem nos países onde ele governa; o governo na América é uma pura gestão de negócios, que se faz, mal ou bem, honesta ou desonestamente, com a tolerância e o conhecimento do grande capitalista que a delega. A corrupção política é, por isso, na América do Norte, já uma vez citei esta imagem a Boutmy, uma simples erupção na pele, enquanto em outros países ela é um mal profundo, visceral.
O fato é que nenhuma impressão guardei dos Estados Unidos de ordem equivalente à impressão inglesa, nem mesmo a de liberdade individual. É certo que o americano, comparado ao inglês, tem o sentimento da altivez individual mais forte, porque não há classe nem hierarquia a que ele se curve. O inglês tem reverência pela posição, pela classe, pelo nascimento; o americano não tem, e isto faz naturalmente que este se considere mais independente no seu modo de sentir do que o inglês. É incontestável que a democracia, introduzindo na educação a idéia da mais perfeita igualdade, levanta no homem o sentimento do orgulho próprio. A questão é saber, tomando o conjunto dos resultados, se as sociedades antigas onde as influências tradicionais não se apagaram de todo, como a inglesa, antes são por assim dizer artificialmente mantidas, não produzem com as limitações de classe uma dignidade pessoal moralmente superior a essa altivez da igualdade. É preciso não esquecer, tratando-se do norte-americano, que a igualdade humana para ele fica dentro dos limites da raça; já não falando do Chim ou do negro - que seria classificado, se vencesse o espírito americano, em uma ordem diferente da do homem - nunca ninguém convenceria o livre cidadão dos Estados Unidos, como ele se chama, de que o seu vizinho do México ou de Cuba, ou os emigrantes analfabetos e indigentes que ele repele dos seus portos são iguais. Para com estes o seu sentimento de altivez converte-se no mais fundo desdém que ente humano possa sentir por outro.
Não quisera eu negar a inspiração superior que há no sentimento de igualdade na América, como no antigo Israel e na antiga Grécia, onde ele foi um sopro de liberdade, de heroísmo, de independência, de que procederam os mais perfeitos tipos na arte e na religião. É evidente que nesse caminho é a Inglaterra que avança na direção dos Estados Unidos e não os Estados Unidos que retrocedem a encontrar a Inglaterra. Ninguém que conheça o tipo americano, desde o news-boy, que grita os jornais na rua, até o king, o rei, de algum monopólio ou especulação, estradas de ferro, minas de carvão ou de prata, mercado de algodão ou de farinha de trigo, desconhecerá que a característica, por excelência, do americano é a convicção de que melhor do que ele não existe ninguém no mundo. A matéria-prima dos discursos feitos às multidões, ou dos artigos de propaganda eleitoral, posso dizer que se contém toda nesta frase, que ouvi a um dos oradores de um monster-meeting: "Nos Estados Unidos (ele disse, como sempre, in America) cada homem é um rei, e cada mulher uma rainha". Talvez fosse paradoxo dizer eu que o efeito de tal sentimento não pode ser senão gerar um ilimitado orgulho, e que do orgulho renascerá senão a desigualdade, porquanto a igualdade pode ficar entranhada, no sangue da raça, o servilismo. Não foi assim sempre com as mais livres de todas as raças e as mais soberbas de todas as democracias? O sentimento, entretanto, da igualdade perante a lei e perante a justiça, qualquer que possa ser o sentimento da igualdade de condição, é maior, é mais seguro na Inglaterra do que nos Estados Unidos. É mais provável que o groom do marquês de Salisbury obtenha justiça contra seu amo do que o caixeiro de um grande estabelecimento de Nova York contra o patrão, se este tiver qualquer influência na City-Hall.
Nos Estados Unidos não seria necessário anunciar hoje: "Precisa-se de uma aristocracia". Essa aristocracia já existe, ou, pelo menos, se está formando rapidamente como tudo se forma ali: aristocracia de nascimento, aristocracia de fortuna, aristocracia de inteligência, aristocracia de beleza. O que distingue essa aristocracia sem títulos nem pergaminhos de nobreza, toda de convenção, mas, apesar disso, uma aristocracia, o que a distingue das outras aristocracias do mundo é não ser política, ser mesmo o resultado da abstenção política. Em segundo lugar; - e este é o ponto mais delicado da sociedade americana - a idéia que se insinuou entre as mulheres desse círculo estreitíssimo, de que o gentleman inglês é um tipo superior ao dos seus patrícios de maior cultura e distinção. É certo que as americanas que preferem casar com estrangeiro para pertencerem às rodas mais exclusivas da aristocracia européia são poucas em relação às que casam com compatriotas seus, mas a aristocracia é, em si mesma, uma minoria, e são as suas minorias que melhor lhes representam o espírito. Essa preferência pelo estrangeiro, por parte da mulher americana, quer me parecer um desastre sentível para o sentimento da igualdade dos americanos. Se o resultado desse sentimento, e é claro que o efeito não é de outra causa, é criar uma aristocracia em que o homem é considerado abaixo do nível da mulher, e menos próprio para inspirar-lhe amor e desposá-la do que o lorde ou o honorable inglês, pode-se dizer que, na mais alta esfera da sociedade, aquele sentimento faliu desastrosamente.
Nesse ponto, nenhuma alta sociedade sofre de um mal tão deprimente como é a consciência que o homem do mundo americano tem de que a sua jovem patrícia, bela e muitas vezes milionária, reputa o duque inglês ou o conde francês um ente superior a ele. Não é o título necessariamente o que constitui as vantagens do estrangeiro que telegrafa para Londres ou Paris o seu veni, vidi, vici, dias depois de Ter desembarcado; é em parte o prestígio, a sedução do mundo europeu e a idéia de que só excepcionalmente o americano chegaria a afinar-se com a sociedade inglesa, francesa ou romana, como ela, americana, se afina; mas é principalmente o tipo aristocrático de homem que exerce sobre ela essa fascinação desoladora para os seus compatriotas. Há famílias, e as haverá cada dia mais nos Estados Unidos, que são famílias patrícias, seja pela imensa riqueza, como os Astors e os Vanderbilts, pela magistratura consular que exerceram, como os Adams, os Hamiltons, os Jays, pelas gerações que representam de nomes conhecidos e de proeminência social, e é evidente que nessa aristocracia, que tende a ter o seu espírito de classe, a idéia de casamento com estrangeiro, ou de superioridade do estrangeiro, não pode ser senão a exceção. Mas em uma sociedade é preciso levar em conta o sentimento do grupo que atrai nela a maior soma de interesse público, não há dúvida que, no último degrau da sociedade americana, o prestígio do nobre inglês, dos bons títulos franceses, dos príncipes romanos, vence toda a competição nacional. Está aí uma terrível ocorrência, contra qual é impotente o gênio protecionista do país. Apenas, como compensação, poder-se-ia imaginar um drawback em favor dos americanos que casassem na alta sociedade ou finança européia. Uma aristocracia, onde as mulheres mais ambicionadas, as que têm a primazia da beleza, da fortuna, da sedução, julgam o estrangeiro, quando se trata de amor ou de união, mais ao seu nível do que o seu compatriota, sofre de um desequilíbrio de ideal entre os dois sexos. Não é senão justo apreciar as sociedades pela sua flor, pela sua élite, isto é, pelo que elas mais profundamente admiram em si mesmas e o mundo mais admira nelas.

Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo VI e Capítulo VI
Capítulo VII e Capítulo VIII
Capítulo IX e Capítulo X
Capítulo XI e Capítulo XII
Capítulo XIII e Capítulo XIV
Capítulo XV e Capítulo XVI
Capítulo XVII e Capítulo XVIII
Capítulo XIX e Capítulo XX
Capítulo XXI
Capítulo XXII e Capítulo XXIII
Capítulo XIV
Capítulo XXVI e Capítulo XXVI