MINHA FORMAÇÃO
Joaquim Nabuco
Capítulo IX
Adido de legação
Durante os cinco anos que seguem (1873-78), a política é
para mim secundária, quase indiferente, mas esse mesmo estado
de espírito é, com relação à
monarquia, um processo de consolidação, porquanto,
graças a todas essas fascinações de artes e
de poesia, a minha estética política, segundo a expressão
de que me servi, encerrava-se, isolava-se, cristalizava-se na forma
monárquica. Quem me acompanha pode estar certo de que não
existe no que vou dizendo nenhuma sombra dessa admiração
pela própria imagem, a que Jules Lemaître deu o nome
de narcisismo moral. A verdade é que, entre as molas do meu
mecanismo, nenhuma teve a elasticidade e a força da que eu
chamaria a mola estética. O meu juízo estético
foi, em todas as épocas, ainda o é hoje, imperfeito,
instintivo, oscilante, como uma agulha que girasse por todo o mostrador:
para seguir algumas das suas indicações, faltou-me
a resolução, a força de caráter, a coragem
e o espírito de sacrifício precisos: mas, em compensação,
posso dizer que, através da vida, aspirei ao Absoluto, naufragando
sempre, porque na vida da inteligência, ao contrário
da vida espiritual, onde, no dizer de um de seus grandes guias,
não há nada que se pareça com ancoradouro,
há um ancoradouro, mas esse é a religião, e
a religião me pareceu, até bem pouco atrás,
o remanso das mulheres e das crianças. Durante toda a minha
carreira movi-me sempre por algum magnete moral; meus erros foram
desvios de idealização; eu nunca teria podido confessar
uma idéia, uma crença, um princípio, que não
fosse para mim um ímã estético. Sendo assim,
se a minha estética fosse republicana, isto é, ateniense,
romana, florentina, nunca a monarquia me teria feito despregar a
sua bandeira no campo da imaginação como um cavaleiro
andante. Para sentir, sempre que a hasteei, a minha dignidade, a
minha altivez, o meu espírito expandir-se, era preciso que
o signo monárquico atuasse em mim, como uma parceria da arte
que está misturada com a história e que de algum modo
a diviniza.
Esse processo de idealização, pelo qual a forma monárquica
se incorporou à minha consciência estética,
se associou a minha idéia de arte, é o principal trabalho
político que se opera em mim desde o ano de 1873 até
o ano de 1879, em que tomei assento na Câmara. Nesse intervalo,
eu tinha voltado à Europa e vivido um ano nos Estados Unidos.
Entram neste período as influências da Inglaterra e
da sociedade inglesa, da América do Norte e da carreira diplomática,
além do desenvolvimento da influência literária,
sob a qual voltei de Paris em 1874.
Esta última foi tão forte que, nos dois anos que passei
novamente no Rio de Janeiro, não me ocupei de política;
fiz, a pedido do imperador, algumas conferências na Escola
da Glória sobre o que tinha visto de Miguel Ângelo,
de Rafael e dos grandes pintores venezianos; fui colaborador literário
do Globo e travei com José de Alencar uma polêmica,
em que receio ter tratado com a presunção e a injustiça
da mocidade o grande escritor - (digo receio, porque não
tornei a ler aqueles folhetins e não me recordo até
onde foi a minha crítica, se ela ofendeu o que há
profundo, nacional, em Alencar: o seu brasileirismo); escrevi numa
revista que apareceu e logo morreu no gênero da Vie Parisienne,
a Epocha, e, desde os fins de 1875, entreguei-me à composição
de um drama, em verso francês cuja fatura me absorveu durante
mais de dois anos.
A idéia do meu drama era o problema da Alsácia-Lorena.
Isso revelava bem o fundo político da minha imaginação.
A política, felizmente para a inteligência que nasceu
com essa diátese, tem lados ainda indefinidos que confinam
com a arte, a religião e a filosofia, isto é, para
falar a linguagem hegeliana, com as três esferas em que se
manifesta o espírito do mundo. O meu drama com ser francês,
de precedência, de motivo sentimental, elevava-se, como composição
literária, acima do espírito de nacionalidade, visava
à unidade da justiça, do direito, do ideal entre as
nações, e baseava-se no seu entrecho sobre as afinidades
e simpatias que ligaram a França intelectual moderna à
Alemanha de Klopstock, Winckelmann, Jean Paul Richter, Johannes
Muller, de Novalis e dos Schlegel, de Kant, Fichte, Hegel, Schelling,
de Bach, Gluck, Haydn, Mozart, Schubert, Schumann e Beethoven, em
uma palavra, à alma parens do século 19.
Por uma aparente anomalia, ao passo que eu era politicamente, como
disse, thierista ou republicano em França, o meu drama saía
todo legitimista e católico; os personagens eram tirados
para mim, não por mim (a produção intelectual
é involuntária), da velha rocha em que se estratificaram
as grandes tradições francesas. Isso quer dizer que
o inconsciente, que é em qualquer de nós o nosso único
talento, o nosso único poder criador, era em mim, qualquer
que fosse a causa, fosse ela o instinto, fosse a cultura, distintamente
monárquico.
Uma composição literária assim caracterizada
não podia deixar de ser para o meu espírito uma forte
modelação política. Para não voltar
a falar desse drama, cuja única qualidade é, talvez,
ser inédito, contarei desde já que, depois de o fazer
e refazer, copiá-lo e tornar a copiá-lo, acabei-o
em 1877, em Nova York. Tenho no meu Diário desse ano a data
em que, depois de uma jantar, com egoísmo inflexível
de autor, infligi a leitura desses cinco atos a um pequeno comité
de amigos de que fazia parte o barão Blanc, então
ministro da Itália em Washington, ultimamente ministro de
Estrangeiros. Ele me terá perdoado esse sacrifício,
ao qual ele mesmo se ofereceu. O enigma europeu da Alsácia-Lorena,
que é o fundo da tríplice aliança, lhe terá
imposto na Consulta serões mais penosos e fatigantes do que
aquela assentada do Buckingham Hotel.
A indiferença política em que me achava, a predisposição
literária que acabo de descrever, fez-me entrar para a diplomacia
em 1876. Eu tinha perdido 5 anos desde a formatura, mas nesses 5
anos não me teria ocorrido aceitar qualquer posto das mão
de um ministro conservador, eu liberal. O preconceito, o extremo
partidário, impediam essa apostasia. Nesse intervalo, porém,
a intransigência se tinha gastado toda e agora me parecia
plausível a idéia, que nunca antes me viera, de que
os cargos públicos não são monopólio
do partido que está no poder e devem ser confiados a quem
melhor os pode desempenhar. Nem era pretensão da minha parte
pensar que um lugar de adido de legação estava ao
nível da minha capacidade e situação social.
Era, pelo contrário, uma sensível redução
de pretensões anteriores, porque, ao sair da Academia, creio
que só o lugar de ministro me teria contentado. A ambição
em mim foi-se progressivamente restringindo à medida que
fui vivendo. Não quero dizer que se tenha deslocado do pessoal
para o real, do efêmero para o duradouro, isto é, que
se tenha gradualmente elevado; graças a Deus, porém,
na esfera das competições que formam a luta pela vida
ela nunca deu combate a ninguém.
Talvez eu tenha sentido um pouco a desdenhosa voluptuosidade do
provérbio: "as glórias que vêm tarde já
vêm frias". Como a ambição foi em mim toda
de imaginação e despontou pelos meus dezoito ou vinte
anos, nada podia ter vindo para mim que não chegasse tarde.
Do ponto de vista em que me coloco hoje, sinto bem que o pouco que
me tocou, veio a tempo, no momento em que eu estava apto para o
receber, e que o que não veio, deixou de vir porque não
me convinha ainda, e eu teria naufragado. A impaciência da
mocidade, porém, não me deixava apreciar então
a generosidade do veto da Fortuna, que me excluía do que
eu não estava interiormente preparado para aproveitar. Nesse
tempo, eu não tinha a menor idéia de que uma grande
vida pública precisa ser alumiada, como a arquitetura de
Ruskin, entre outras pelas lâmpadas do sacrifício,
da verdade, da imaginação, da beleza e da obediência.
O talento, a forma, a eloqüência, o que tinha brilho
exterior, tinha para mim maior valor do que o espírito interior
de fé, continuidade e submissão, que, único,
inspira e forma os verdadeiros padrões humanos.
Como quer que seja, tenho daquele cargo de adido de legação,
único que exerci, a mais reconhecida e afetuosa lembrança.
Nunca mais teria eu podido aceitar outro; com efeito, pouco depois
entrava para a Câmara, e dava-se a minha incompatibilidade
de abolicionista militante com o sistema político da escravidão,
e, acabada esta, logo em seguida, surgia para mim outra abstenção
forçada: a da defesa da monarquia contra os partidos. O signatário
daquele decreto foi o barão de Cotegipe. A nomeação
não era de certo escandalosa; em qualquer Ministério
de Estrangeiros onde não existisse patronato, eu tiraria
o meu lugar de adido em concurso: não tenho, porém,
em mim essa medida da gratidão com que outros apuram por
milímetros o favor ou o serviço que recebem; não
conheço a arte de analisar, de decompor, pelas intenções
secretas e circunstâncias fortuitas, o obséquio, a
distinção, o benefício que nos é feito,
de modo a ser o aceitante às vezes quem generosamente cativa
e obriga o doador. Se o barão de Cotegipe me tivesse nomeado
de vez ministro plenipotenciário, o seu crédito contra
mim não teria sido maior do que foi com essa designação
para o primeiro degrau da carreira diplomática.
Capítulo
X
Londres
Talvez eu pudesse resumir o processo da minha solidificação
política, dizendo somente que a monarquia faz parte da atmosfera
moral da Inglaterra e que a influência inglesa foi a mais
forte e mais duradoura que recebi.
Quando pela primeira vez desembarquei em Folkestone, entrando na
Inglaterra, eu tinha passado meses em Paris, tinha atravessado a
Itália, de Gênova a Nápoles, tinha parado longamente
à margem do lago de Genebra, e não me podia esquecer
da suave perspectiva, à beira do Tejo, de Oeiras a Belém,
cuja tonalidade doce e risonha nunca outro horizonte me repetiu.
Por toda a parte eu tinha passado como viajante, demorando-me às
vezes o tempo preciso para receber a impressão dos lugares
e dos monumentos, o molde íntimo da paisagem e das obras
de arte, mas desprendido de tudo, na inconstância contínua
da imaginação. Quando avistei, porém, da janela
do wagon, por uma tarde de verão, o tapete de relva que cobre
o chão limpo e as colinas macias de Kent, e no dia seguinte,
partindo do pequeno appartment que me tinham guardado perto de Grosvenor
Gardens, fui descortinando uma a uma as fileiras de palácios
do West End, atravessando os grandes parques, encontrando em St.
James' Street, Pall Mall, Piccadilly, a maré cheia da season,
essa multidão aristocrática que a pé, a cavalo,
em carruagem descoberta, se dirige duas vezes por dia para o rendez-vous
de Hyde Park, e, dias seguidos, penetrei em outras regiões
da cidade sem fim, conhecendo a população, a fisionomia
inglesa toda, raça, caráter, costumes, maneiras, -
posso dizer que senti minha imaginação excedida e
vencida. A curiosidade de peregrinar estava satisfeita, trocada
em desejo de parar ali para sempre.
Às vezes me distraio a pensar que povo eu salvaria, podendo,
se a humanidade se devesse reduzir a um só. Minha hesitação
seria entre a França e a Inglaterra, - aliás, sei
bem que no começo do século quem eliminasse a Alemanha
do movimento das idéias, da poesia, da arte, eliminaria o
que ele teve de melhor. Entre a França e a Inglaterra, porém,
fico sempre incerto. O meu dever seria, talvez, socorrer a França.
"Se madame Récamier e eu estivéssemos a nos afogar,
qual de nós duas o senhor salvaria?" - perguntou uma
vez madame de Staël ao seu amigo Talleyrand. "Oh! madame,vous
savez nager." A Inglaterra, também, sabe nadar.
O gênio francês tem todos os raios do espírito
humano, principalmente os raios estéticos; o gênio
inglês não os tem todos, tem até uma opacidade
singular nos focos do espírito, que merecem o nome de franceses,
em quase todos os que merecem o nome de atenienses. A Inglaterra
- a associação de idéias tem sido muitas vezes
feita, - é a China da Europa; isto é, tem uma individualidade
inamolgável, incapaz de tomar a fisionomia comum. Latinos,
alemães, eslavos formarão uma só família,
por muitíssimos traços comuns, antes que o inglês
deixe de ser um tipo sui generis, à parte do tipo coletivo
europeu. Por esse motivo, a França, só, representaria
melhor a humanidade do que a Inglaterra; há nela mais atributos
universais, maior número de faculdades criadoras, de qualidades
de tronco, maior soma de hereditariedade humana, de possibilidades
evolutivas portanto, do que no particularismo e no exclusivismo
inglês. Em compensação, a raça inglesa
parece ser mais sã, mais elástica; ter maior vigor
mesmo de gênio e de criação; maior provisão
de vida e de força, - ainda que a força sem a imaginação
e a cultura, (que na Inglaterra tem sido, em grande parte pelo menos,
estrangeira), possa degenerar em brutalidade e egoísmo. Estão
aí as razões da minha hesitação, quando
imagino um novo dilúvio universal e me pergunto que país,
nos mais altos interesses da inteligência humana, mereceria
o privilégio de construir a arca.
Qualquer que seja a explicação, o fato é que
nunca experimentei esse prazer de viver em Paris, que foi e é
a paixão cosmopolita dominante em redor de nós. A
grande impressão que recebi não foi Paris, foi Londres.
Londres foi para mim o que teria sido Roma, se eu vivesse entre
o século 2 e o século 4, e um dia, transportado da
minha aldeia transalpina ou do fundo da África Romana para
o alto do palatino, visse desenrolar-se aos meus pés o mar
de ouro e bronze dos telhados das basílicas, circos, teatros,
termas e palácios; isto é, para mim, provinciano do
século 19, foi, como Roma para os provincianos do tempo de
Adriano ou de Severo: a Cidade. Essa impressão universal,
da cidade que campeia acima de todas, senhora do mundo pelo milliarium
aureum, o qual no século tinha que ser marítimo; essa
impressão soberana, tive-a tão distinta como se a
humanidade estivesse ainda toda centralizada. O efeito dessa impressão
de domínio foi uma sensação de finalidade,
que somente Londres me deu: - não de finalidade intelectual,
como dá a Atenas de Péricles, a Florença dos
Médicis, a Roma de Leão X, ao homem de arte. a Versalhes
do século 17 ao homem de corte, a Roma das Catacumbas ao
homem de fé, a Roma antiga ao homem do passado, Niebuhr,
Chateaubriand, Ampère, a pequena Weimar do fim do século
18 ao homem de letras, ou Paris, ainda neste século, até
Renan e Taine, ao homem de cultura; finalidade material, se me posso
expressar assim, de grandeza esmagadora e império ilimitado.
Donde procede essa impressão universal de Londres, seguida
dessa sensação de finalidade, que talvez seja toda
subjetiva? (Não me parece entretanto.)
O que dá à "Metrópole" esse ascendente
imperial, quero crer, é a sua massa gigantesca, as suas perspectivas
indefinidas, a solidez eterna, egipcíaca, das construções,
as imensas praças, e os parques que se abrem de repente na
embocadura das ruas, como planícies onde onde poderiam errar
grandes rebanhos, à sombra de velhas árvores, à
beira de lagos que merecem pertencer ao relevo natural da Terra.
Este último é, para mim, o traço dominante
de Londres: o estrangeiro suporia ter entrado no campo, nos subúrbios,
quando está no coração da cidade; é
a mesma impressão, porém, incalculavelmente mais vasta,
que dava a Casa de Ouro: "O ouro e as pedras preciosas não
causavam tanta maravilha, por serem já muito vulgares, e
uma ostentação ordinária do luxo, como os campos
e os lagos, e por uma parte as artificiais solidões e desertos,
formados por bosques espessos, e por outra, as largas planícies
e longas perspectivas, que dentro do seu imenso círculo se
viam."
Nem pára aí o assombro. E a larga faixa do Tâmisa,
com as pontes colossais que o atravessam e os monumentos assentados
à sua margem desde Chelsea até a Ponte de Londres,
principalmente o maciço dos edifícios de Westminster,
a extensa linha das casas do Parlamento, a mais grandiosa sombra
que construção civil projeta sobre a terra. É,
por outro lado, a City, em roda do Banco de Inglaterra, com o Royal
Exchange ao lado, e Lombard Street defronte, o mercado monetário,
o verdadeiro comptoir do mundo. Aqui, nas ruas calçadas a
madeira, para ainda mais amortecer o ruído, causa uma impressão
singular a multidão que não perde um minuto, indiferente
a si mesma, à qual nada distrairia o olhar nem arrancaria
uma sílaba, e que transporta debaixo do braço, em
suas carteiras, massas de capital que seriam precisos wagons para
carregar em dinheiro, os cheques que vão para a Clearing-House,
os bilhões esterlinos, que por ela passam, transferidos de
banco a banco, importados, reexportados , pelo telégrafo
para os confins do mundo donde vieram. O transeunte pára
no meio de todo esse luxo e refluxo do ouro, sentindo não
ouvir o tinido das libras; as oscilações contínuas,
subterrâneas, dessas correntes contrárias de metal
ele só conhecerá pelo seu efeito sensível:
a taxa do desconto.
O que dá também a Londres o seu tom de majestade e
soberania é a dignidade, o silêncio que a envolve;
a calma, a tranqüilidade, o repouso, a confiança que
ela respira; é o ar concentrado, recolhido, severo por vezes
da sua fisionomia, e, ao mesmo tempo, a urbanidade das suas maneiras;
é o retiro em que se vive no seio dela, no centro das suas
ruas mais populosas; o isolamento em que se está nas suas
catedrais, como no British Museum, nos seus parques, como nos seus
teatros ou nos seus clubes. Esse traço de seriedade e de
reserva define, a meu ver, uma raça imperial, energética
e responsável, cônscia da sua força, viril e
magnânima. Além disso, há uma feição
notável, característica, expressão suprema
de força e de domínio; não é uma cidade
cosmopolita essa metrópole do mundo: é uma cidade
inglesa.
Paris ao lado de Londres é uma obra de arte, imortalmente
bela, ao lado de uma muralha pelásgica; é um Erechteion,
em frente ao Memmonium de Tebas. De certo não há no
mundo uma perspectiva arquitetural igual à que se estende
do Arco do Triunfo pelos Campos Elísios até o Louvre
pelo cais do Sena até apanhar Notre-Dame. Em Londres, não
se tem essa impressão de arte que corre por cima da velha
Paris toda como um friso grego. Para o artista que precisa inspirar-se
exteriormente nas formas da edificação, viver no meio
do belo realizado pelo gênio humano. Londres está para
Paris como Khorsabad para Atenas. O gênio francês alegre
e festivo é em tudo diferente da grande apatia inglesa, e
em Paris se está defronte da obra-prima da arte francesa.
Por aí não há que comparar. Para o intelectual
que precise diariamente de um passeio artístico para vitalizar-se,
assim como para o homem de espírito e de salão, Paris
é a primeira das residências, porque é a que
reúne à arte o prazer de viver em suas formas mais
delicadas e elegantes. Não há nada em Londres que
corresponda à aspiração francesa, hoje decadente
e muito esvaecida, de fazer da vida toda uma arte, aspiração
cuja obra-prima foi a polidez do século 17 e o espírito
do século 18. Deixando a grande arte que tem cometido infidelidades
ao gênio francês, como a de produzir fora de França
Goethe, Beethoven e Mozart, as pequenas artes, - e não chamo
pequena arte à obra dos grandes ebanistas, incrustadores,
cinzeladores do móvel, de Riesener, Boulle, Beneman, Gouthière,
- as pequenas artes são ainda exclusivamente francesas, como
na Roma de Cícero eram gregas. O que há em Londres
como prazer da vida, não é a arte, é o conforto;
não é a regra, as medidas, o tom das maneiras, é
a liberdade, a individualidade; não é a decoração,
é o espaço, a solidez. Paris é um teatro em
que todos, de todas as profissões, de todas as idades, de
todos os países, vivem representando para a multidão
de curiosos que o cercam; Londres é um convento, em forma
de clube, em que os que se encontram no silêncio da grande
biblioteca ou das salas de jantar não dão fé
uns nos outros, e cada um se sente indiferente a todos. Em Paris,
a vida é uma limitação; em Londres, uma expansão;
em Paris um cativeiro, cativeiro da arte, do espírito, da
etiqueta, da sociedade, cativeiro agradável como seja, mas
sempre um cativeiro, exigindo uma vigilância constante do
ator sobre si mesmo diante do público, que repara em tudo,
que nota tudo; em Londres é a independência, a naturalidade
, a despreocupação. Ceci tuera cela.
Foi, talvez este lado da vida inglesa o que me seduziu. A impressão
artística é, por sua natureza, fatigante, exclusiva,
e, além de certo diapasão, inconfortável, como
toda vibração demasiado forte. Eu não quisera
ser condenado a passar uma hora por dia diante da Jaconde, nem mesmo
diante da Vênus de Milo. Para renovar a minha curta faculdade
de admirar e de gozar da obra de arte, preciso de longos intervalos
de repouso, para dizer a verdade, de obtusão. Londres era
essa penumbra que quadra admiravelmente à minha fraca pupila
estética; ali tinha à minha disposição,
excusez du peu, os mármores de Fídias; não
havia época artística ou literária que, querendo
viver na meia hora, - de mais não me sentiria capaz, - eu
não achasse representada no British Museum, na National Galery,
em South Kensington, e nas outras grandes coleções
nacionais. Essa proximidade bastava-me; quanto a tudo mais que faz
o prazer da vida, eu preferia, como disse, a naturalidade, a calma,
o descanso, as grandes perspectivas, o isolamento, o esquecimento
de Londres à constante vibração de Paris, vibração
cosmopolita de espírito, de prazer, de arte, através
de uma atmosfera de luxo, de combate e de teatro.
Eu sei bem que há ali outra vida; que há indiferentes,
solitários, reclusos na grande capital, pequenos claustros
de silêncio e de meditação, onde não
chegam até ao pensador e ao artista os ruídos de fora.
Sem isso, Paris não produziria o grande pensamento; mas a
viver isolado do movimento de Paris, antes estar separado dele pela
Mancha do que pelo Sena, como o meu amigo Rio Branco, que se fechava
na margem esquerda, com a sua biblioteca brasileira, as suas provas
a corrigir, e os seus íntimos do Instituto.
O fato é que amei Londres acima de todas as outras cidades
e lugares que percorri. Tudo em Londres me feria uma nota íntima
de longa ressonância: as suas extensas campinas e os seus
bosques, como o tijolo enegrecido das suas construções;
o movimento atordoador de Regent Circus ou Ludgate Hill, como os
recessos de Kensington Park, à sombra do arvoredo secular;
os seus dias quentes de verão, quando o asfalto amolece debaixo
dos pés, a folhagem se cobre de poeira, e o ar tem o calor
seco das termas, como os seus deliciosos dias de maio e junho, quando
as mais altas janelas se transformam em jardins suspensos, e as
grandes cestas dos parques se enchem de tulipas e jacintos; as suas
noites de luar, que faziam Park Lane parecer-me às vezes
na névoa, com a sua rua de palácios, um trecho de
Veneza, e que de Piccadilly olhando por cima da bruma de Green-Park
para a iluminação em roda de Buckingham Palace, me
davam sempre a ilusão do outro lado da baía do Rio,
visto da esplanada da Glória, como os seus dias escuros e
tristes de nevoeiro, que eu não teria então trocado
pelo azul do Mediterrâneo nem pela pureza do céu da
Ática; os seus traços de maior cidade do mundo, a
esplêndida beleza da sua raça, e os menores detalhes
de sua fisionomia própria; os mostradores das lojas de luxo
de Piccadilly e New-Bond-Street, como os hansoms que paravam em
frente; o Times, a Pall Mall Gazette, o Spectator, como o papel
aveludado, o tipo, grande e claro, o couro liso, macio, dourado
dos livros; a tranqüilidade dos clubes, o recolhimento das
igrejas, o silêncio dos domingos, como a confusão,
o movimento, o atropelamento em Charig-Cross e Victoria Station,
da onda imensa de todas as classes e todas as cidades, que se espalha
de Londres, à tarde do sábados, para as praias de
mar, para as casas de campo, para as margens do Tâmisa.
Tudo isso, eu vejo bem, não era senão a minha própria
mocidade... com a diferença talvez de que os outros lugares,
era ela que os coloria, os animava, os assimilava a si, ao passo
que em Londres ela transbordava naturalmente pelo jorrar de todas
as suas fontes.
Esse sentimento paguei-o caro depois, porque foi em Londres que
senti definhar mortalmente a planta humana que há em cada
um de nós e sobre a qual o nosso espírito apenas pousa,
como o pássaro no mais alto da ramagem: as suas raízes
físicas e morais precisavam do solo em que ela se tinha formado;
as suas folhas, do nosso sol. Ainda assim, foi a Londres que vim
a dever, anos mais tarde, uma restituição que bem
compensou aquele deperecimento. Foi em Londres, graças a
uma concentração forçada, a qual não
teria sido possível para mim senão em sua bruma, que
a minha inteligência primeiro se fixou sobre o enigma do destino
humano e das soluções até hoje achadas para
ele, e, insensivelmente, na escondida igreja dos Jesuítas,
em Farm Street, onde os vibrantes açoites do padre Gallway
me fizeram sentir que a minha anestesia religiosa não era
completa , depois no Oratório de Brompton, respirando aquela
pura e diáfana atmosfera espiritual impregnada do hálito
de Faber e de Newman, pude reunir no meu coração os
fragmentos quebrados da cruz e com ela recompor os sentimentos esquecidos
da infância.
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