Error processing SSI file
|
 |
|
|

Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
CAPÍTULO 38
A QUARTA EDIÇÃO
-- VENHA CÁ jantar amanhã, disse-me o Dutra uma noite.
Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege
me esperasse no Largo de S. Francisco de Paula, e fui
dar várias voltas. Lembra-vos ainda a minha teoria das
edições humanas? Pois sabei que, naquele tempo, estava
eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada
de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava
alguma compensação no tipo, que era elegante, e na encadernação,
que era luxuosa. Dadas as voltas, ao passar pela Rua
dos Ourives, consulto o relógio e cai-me o vidro na
calçada. Entro na primeira loja que tinha à mão; era
um cubículo, pouco mais,-- empoeirado e escuro. Ao fundo,
por trás do balcão, estava sentada uma mulher, cujo
rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo, à
primeira vista; mas logo que se destacava era um espetáculo
curioso. Não podia ter sido feia; ao contrário, via-se
que fora bonita, e não pouco bonita, mas a doença e
uma velhice precoce destruíam-lhe a flor das graças.
As bexigas tinham sido terríveis; os sinais, grandes
e muitos, faziam saliências e encarnas, declives e aclives,
e davam uma sensação de lisa grossa, enormemente grossa.
Eram os olhos a melhor parte do vulto, e aliás tinham
uma expressão singular e repugnante, que mudou, entretanto,
logo que eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava
ruço e quase tão poento como os portais da loja. Num
dos dedos da mão esquerda fulgia-lhe um diamante. Crê-lo-eis,
pósteros? essa mulher era Marcela. Não a conheci logo;
era difícil; ela porém conheceu-me apenas lhe dirigi
a palavra. Os olhos chisparam e trocaram a expressão
usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um
movimento coma para esconder-se ou fugir; era o instinto
da vaidade, que não durou mais de um instante. Marcela
acomodou-se e sorriu. --Quer comprar alguma cousa? disse
ela estendendo-me a mão. Não respondi nada. Marcela
compreendeu a causa do meu silencio (não era difícil),
e só hesitou, creio eu, em decidir o que dominava mais,
se o assombro do presente, se a memória do passado.
Deu-me uma cadeira, e, com o balcão permeio, falou-me
longamente de si, da vida que levara, das lágrimas que
eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, enfim
das bexigas, que lhe escalavraram o rosto, e do tempo,
que ajudou a moléstia, adiantando-lhe a decadência.
Verdade é que tinha a alma decrépita. Vendera tudo,
quase tudo; um homem, que a amara outrora, e lhe morreu
nos braços. Deixara-lhe aquela loja de ourivesaria,
mas para que a desgraça fosse completa, era agora pouco
buscada a loja-- talvez pela singularidade de a dirigir
uma mulher. Em seguida pediu-me que lho contasse a minha
vida. Gastei pouso tempo em dizer-lha; não era longa,
nem interessante. -- Casou? disse Marcela no fim de
minha narração. -- Ainda não, respondi secamente. Marcela
lançou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflete
ou relembra; eu deixei-me ir então ao passado, e, no
meio das recordações e saudades, perguntei a mim mesmo
por que motivo fizera tanto desatino. Não era esta certamente
a Marcela de 1822; mas a beleza de outro tempo valia
uma terça parte dos meus sacrifícios? Era o que eu buscava
saber, interrogando o rosto de Marcela. O rosto dizia-me
que não; ao mesmo tempo os olhos me contavam que, já
outrora, como hoje, ardia neles a flama da cobiça. Os
meus é que não souberam ver-lha; eram olhos da primeira
edição. -- Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? perguntou
ela, saindo daquela espécie de torpor. --Não, supunha
entrar numa casa de relojoeiro; queria comprar um vidro
para este relógio; vou a outra parte; desculpe-me; tenho
pressa. Marcela suspirou com tristeza. A verdade é que
eu me sentia pungido e aborrecido, ao mesmo tempo, e
ansiava por me ver fora daquela casa. Marcela, entretanto,
chamou um moleque, deu-lhe o relógio, e, apesar da minha
oposição, mandou-o, a uma loja na vizinhança, comprar
o vidro. Não havia remédio; sentei-me outra vez. Disse
ela então que desejava ter a proteção dos conhecidos
de outro tempo; ponderou que mais tarde ou mais cedo
era natural que me casasse, e afiançou que me daria
finas jóias por preços baratos. Não disse preços baratos,
mas usou uma metáfora delicada e transparente. Entrei
a desconfiar que não padecera nenhum desastre (salvo
a modéstia), que tinha o dinheiro a bom recado, e que
negociava com o único fim de acudir à paixão do lucro,
que era o verme roedor daquela existência; foi isso
mesmo que me disseram depois.
CAPÍTULO 39
O VIZINHO
ENQUANTO EU fazia comigo mesmo aquela reflexão, entrou
na loja um sujeito baixo, sem chapéu, trazendo pela
mão uma menina de quatro anos. --Como passou de boje
de manhã? disse ele a Marcela. --Assim, assim. Vem cá,
Maricota. O sujeito levantou a criança pelos braços
e passou-a para dentro do balcão. --Anda, disse ele;
pergunta a D. Marcela como passou a noite. Estava ansiosa
por vir cá, mas a mãe não tinha podido vesti-la.., Então,
Maricota? Toma a bênção... Olha a vara de marmelo! Assim...
Não imagina o que ela é lá em casa; fala na senhora
a todos os instantes, e aqui parece a pamonha. Ainda
ontem... Digo, Maricota? --Não, diga, não, papai. --Então
foi alguma cousa feia? perguntou Marcela batendo na
cara da menina. --Eu lhe digo; a mãe ensina-lhe a rezar
todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria, oferecidos
a Nossa Senhora; mas a pequena ontem veio pedir-me com
voz muito humilde... imagine o quê?... que queria oferecê-los
a Santa Marcela. --Coitadinha! disse Marcela beijando-a.
-- É um namoro, uma paixão, como a senhora não imagina...
A mãe diz que é feitiço... Contou mais algumas cousas
o sujeito, todas mui agradáveis, até que saiu levando
a menina, não sem deitar-me um olhar interrogativo ou
suspeitoso. Perguntei a Marcela quem era ele. -- É um
relojoeiro da vizinhança, um bom homem; a mulher também;
e a filha é galante, não? Parecem gostar muito de mim...
é boa gente. Ao proferir estas palavras havia um tremor
de alegria na voz de Marcela; e no rosto como que se
lhe espraiou uma onda de ventura. . .
CAPÍTULO 40
NA SEGE
NISTO ENTROU o moleque trazendo o relógio com o vidro
novo. Era tempo; já me custava estar ali; dei uma moedinha
de prata ao moleque; disse a Marcela que voltaria noutra
ocasião, e saí a passo largo. Para dizer tudo, devo
confessar que o coração me batia um pouco; mas era uma
espécie de dobre de finados. O espírito ia travado de
impressões opostas. Notem que aquele dia amanhecera
alegre para mim. Meu pai, ao almoço, repetiu-me, por
antecipação, o primeiro discurso que eu tinha de proferir
na Câmara dos Deputados; rimo-nos muito, e o sol também,
que estava brilhante, como nos mais belos dias do mundo;
do mesmo modo que Virgília devia rir, quando eu lhe
contasse as nossas fantasias do almoço. Vai senão quando,
cai-me o vidro do relógio; entro na primeira loja que
me fica à mão; e eis me surge o passado, ei-lo que me
lacera e beija; ei-lo que me interroga, com um rosto
cortado de saudades e bexigas... Lá o deixei; meti-me
às pressas na sege, que me esperava no Largo de S. Francisco
de Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas
fora. O boleeiro atiçou as bestas, a sege entrou a sacolejar-me,
as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama
que deixara a chuva recente, e tudo isso me parecia
estar parado. Não há, às vezes, um certo vento morno,
não forte nem áspero, mas abafadiço, que nos não leva
o chapéu da cabeça, nem rodomoinha nas saias das mulheres,
e todavia é ou parece ser pior do que se fizesse uma
e outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve
os espíritos? Pois eu tinha esse vento comigo; e, certo
de que ele me soprava por achar-me naquela espécie de
garganta entre o passado e o presente, almejava por
sair à planície do futuro. O pior é que a sege não andava.
-- João, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou não
anda? --Uê! nhonhô! Já estamos parados na porta de sinhô
Conselheiro.
CAPÍTULO 41
A ALUCINAÇÃO
ERA VERDADE. Entrei apressado; achei Virgília ansiosa,
mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda, estava
na sala com ela. No fim dos cumprimentos disse-me a
moça com sequidão: -- Esperávamos que viesse mais cedo.
Defendi-me do melhor modo; falei do cavalo que empacara,
e de um amigo, que me detivera. De repente morre-me
a voz nos lábios, fico tolhido de assombro. Virgília...
seria Virgília aquela moça? Fitei-a muito, e a sensação
foi tão penosa, que recuei um passo e desviei a vista.
Tornei a olhá-la. As bexigas tinham-lhe comido o rosto;
a pele, ainda na véspera tão fina, rosada e pura, aparecia-me
agora amarela, estigmada pelo mesmo flagelo, que devastara
o rosto da espanhola. Os olhos, que eram travessos,
fizeram-se murchos; tinha o lábio triste e a atitude
cansada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e chamei-a
brandamente a mim. Não me enganava; eram as bexigas.
Creio que fiz um gesto de repulsa. Virgília afastou-se,
e foi sentar-se no sofá. Eu fiquei algum tempo a olhar
para os meus próprios pés. Devia sair ou ficar? Rejeitei
o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo, e
encaminhei-me para Virgília, que lá estava sentada e
calada. Céus! Era outra vez a fresca, a juvenil, a florida
Virgília. Em vão procurei no rosto dela algum vestígio
da doença; nenhum havia; era a pele fina e branca do
costume. --Nunca me viu? perguntou Virgília, vendo que
a encarava com insistência. -- Tão bonita, nunca. Sentei-me,
enquanto Virgília, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se
alguns segundos de pausa. Falei-lhe de cousas estranhas
ao incidente; ela porém não me respondia nada, nem olhava
para mim. Menos o estalido, era a estátua do Silêncio.
Uma só vez me deitou os olhos, mas muito de cima, soerguendo
a pontinha esquerda do lábio, contraindo as sobrancelhas,
ao ponto de as unir; todo esse conjunto de cousas dava-lhe
ao rosto uma expressão média, entre cômica e trágica.
Havia alguma afetação naquele desdém; era um arrebique
do gesto. Lá dentro, ela padecia, e não pouco, ou fosse
mágoa pura, ou só despeito; e porque a dor que se dissimula
dói mais, é mui provável que Virgília padecesse em dobro
do que realmente descia padecer. Creio que isto é metafísica.
CAPÍTULO 42
QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES
OUTRA COUSA que também me parece metafísica é isto:
Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta,
encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis
a segunda boa a rolar como a primeira rolou. Suponhamos
que a primeira bola se chama... Marcela, -- é uma simples
suposição; a segunda, Brás Cubas; a terceira, Virgília.
Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado
rolou até tocar em Brás Cubas, o qual, cedendo à força
impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília,
que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como,
pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos
sociais, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar
solidariedade do aborrecimento humano. Co mo é que este
capítulo escapou a Aristóteles?
CAPÍTULO 43
MARQUESA, PORQUE EU SEREI MARQUÊS
POSITIVAMENTE, era um diabrete Virgília, um diabrete
angélico, se querem, mas era-o, e então... Então apareceu
o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que
eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático,
e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura,
dentro de poucas semanas, com um ímpeto verdadeiramente
cesariano. Não precedeu nenhum despeito; não houve a
menor violência de família. Dutra veio dizer-me, um
dia. que esperasse outra aragem, porque a candidatura
de Lobo Neves era apoiada por grandes influencias. Cedi;
tal foi o começo da minha derrota. Uma semana depois,
Virgília perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria
ele ministro. -- Pela minha vontade, já; pelas dos outros,
daqui a um ano. Virgília replicou: Promete que algum
dia me fará baronesa? Marquesa, porque eu serei marquês.
Desde então fiquei perdido. Virgília comparou a águia
e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o
seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos
que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem
não queria dizer cousa nenhuma. O lábio do homem não
é como a pata do cavalo de Atila, que esterilizava o
solo em que batia; é justamente o contrário.
CAPÍTULO 44
UM CUBAS!
MEU PAI ficou atônito com o desenlace, e quer-me parecer
que não morreu de outra cousa. Eram tantos os castelos
que engenhara, tantos e tantíssimos os sonhos, que não
podia vê-los assim esboroados, sem padecer um forte
abalo no organismo. A princípio não quis crê-lo. Um
Cubas! um galho da árvore ilustre dos Cubas! E dizia
isto com tal convicção, que eu, já então informado da
nossa tanoaria, esqueci um instante a volúvel dama,
para só contemplar aquele fenômeno, não raro, mas curioso:
uma imaginação graduada em consciência. --Um Cubas!
repetia-me ele na seguinte manhã, ao almoço. Não foi
alegre o almoço; eu próprio estava a cair de sono. Tinha
velado uma parte da noite. De amor? Era impossível não
se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de
amar aquela, tempos depois, não lhe estava agora preso
por nenhum outro vínculo, além de uma fantasia passageira,
alguma obediência e muita fatuidade. E isto basta a
explicar a vigília; era despeito, um despeitozinho agudo
como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos,
murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais
tranqüila das auroras. Mas eu era moço, tinha o remédio
em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar facilmente
a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente
do desastre; mas que o desastre lhe complicou as últimas
dores, é positivo. Morreu daí a quatro meses, acabrunhado,
triste, com uma preocupação intensa e contínua, à semelhança
de remorso, um desencanto mortal, que lhe substituiu
os reumatismos e tosses. Teve ainda meia hora de alegria;
foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe, -- lembra-me
bem, vi-lhe o grato sorriso de outro tempo, e nos olhos
uma concentração de 1uz, que era, por assim dizer, o
último lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou
logo, a tristeza de morrer sem me ver posto em algum
lugar alto, como aliás me cabia. --Um Cubas! Morreu
alguns dias depois da visita do ministro, uma manhã
de maio, entre os dois filhos, Sabina e eu, e mais o
tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer
a ciência dos médicos, nem o nosso amor, nem os cuidados,
que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha de morrer,
morreu. -- Um Cubas! |
|
 |
 |
|
|
|